Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto

13 Capítulo XII: A Tirana Apatia da Mortandade


Notas iniciais
12° capítulo. Boa leitura!

Dead World Assembly

“A barulheira inclemente dos mortos-vivos diminui e depois volta com muito mais força”.

KIRMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 53).

Capítulo XII:

A Tirana Apatia da Mortandade

Aos poucos, o índigo do céu clareava para as suaves nuances da alvorada. Tons pastel imperavam, harmoniosamente entrelaçados, como nas pinceladas precisas e seguras de um pintor: lilás, pêssego e cerúleo, devotadamente amalgamados, como nos versos ritmados das canções dos menestréis.

A paisagem idílica, é claro, contrastava enormemente com o cenário abaixo da borda finita do horizonte.

As sombras dos arranha-céus projetavam-se sobre a cidade perpetuamente adormecida; os fachos do sol frio de meados de outono brilhavam sobre as suas superfícies espelhadas, mas ninguém estava lá para contemplar o espetáculo do alvorecer.

Ninguém a não ser Sasuke.

Nas últimas noites, seus sonhos inquietos o vinham enervando, privando-o das já escassas horas de sono. Muito embora tenham diminuído de intensidade e frequência desde que haviam se iniciado — no dia em que enterrou a mãe —, ele temia que apenas o reflexo de cerrar os olhos, as trouxesse (aquelas estranhas vozes) outra vez. Ele detestava ter de ouvi-las sussurrarem dentro da sua cabeça.

Então, ele passou a buscar refúgio ali em cima, no terraço do prédio, dez andares acima enquanto os mortos-vivos lá embaixo ainda zumbiam como vespas, arrastando seus pés mortos pelas calçadas. Tinha de admitir, no entanto, que nos últimos dias, mais da metade da horda havia se dispersado, seguido por direções opostas, certamente atraídas por algum ruído ou odor mais atrativo.

Sasuke ainda as achava criaturas estúpidas demais, desprovidas de qualquer faculdade que possam ter usufruído — ou não — em vida, mas até mesmo ele admitia que talvez Sakura tivesse razão em respeitá-las, de acordo com o padrão com que se comportavam. Na realidade não havia um padrão específico, mas vários coexistentes.

Tudo dependia, é claro, dos estímulos exteriores que aquelas coisas recebiam; se isoladas ou separadas em grupos menores ela não representavam uma ameaça significativa, unidas em grandes hordas aquelas criaturas pareciam ter o padrão de comportamento completamente alterado, como se passassem a incorporar abelhas em uma grande colmeia. Era quase como se soubessem trabalhar em conjunto, como se ainda conhecessem noções da conduta que se adotava em bandos — talvez resquícios da longínqua evolução do homem.

Sasuke já as vira, por exemplo, cercar um automóvel e tombá-lo em menos de dois minutos, amontoando-se em torno dele como formigas. Elas ainda não possuíam qualquer coordenação ou conhecimento do que faziam, mas agiam, independentemente de possuírem — ou não — qualquer consciência disto.

Outro exemplo bastante convincente é que dividiam suas presas. Fossem animais ou mesmo pessoas, aquelas coisas não se importavam em dividir o que quer que conseguissem, e também havia o fato de que nunca trombavam uns com os outros nas ruas. Podiam vagar sem rumo por dias, mas seus passos descoordenados jamais cruzavam com o de outro morto-vivo.

E o mais importante de tudo: dispare uma arma perto de uma dessas criaturas, e elas se tornam irritadiças, violentas, como se um instinto ainda mais brutal despertasse nas profundezas carcomidas dos seus cérebros meio mortos.

Sasuke não era nenhum especialista na área da neurociência, mas ele podia apostar que aquelas coisas, mesmo que de uma forma tosca e ridícula, ainda possuíam a cognição de saber o que estavam fazendo.

E pensar nisso só o deixava ainda mais irritado.

Distraidamente, seus dedos roçaram mais uma vez o último cigarro dentro da carteira. Nos últimos minutos, ele travara uma verdadeira batalha interna para decidir se o desperdiçaria agora ou não. Decidindo-se de uma vez, ele apanhou o isqueiro de prata no bolso da jaqueta e acendeu-o finalmente.

Uma porta de metal se abriu às costas dele, e logo a voz de Sakura, ainda rouca devido ao desuso, alcançou-o em seu inoportuno momento de nirvana:

— Não está um pouco cedo para isso? — disse ela, baixinho, parando logo atrás dele para também contemplar o amanhecer por sobre o seu ombro.

Sasuke ignorou sua pergunta enquanto expirava uma densa fumaça branca, gesticulando para baixo, para os errantes que ainda cambaleavam pelas ruas.

— O que você acha? — Não esperando a resposta dela, ele continuou. — Andei contando o número deles e tem menos da metade do que tinha há dois dias. Acho que eles estão se dispersando; dentro de alguns dias, poderemos sair para buscar mais suprimentos.

— Acho que eles estão perdendo o interesse em nós — brincou ela. — O que é ótimo porque dei por falta de muitas coisas. Estamos com pouca comida e água potável, além de... — ela deteve-se e Sasuke virou o rosto para olhá-la.

O cabelo artificial cor-de-rosa, amarrado com um elástico, captava a luz matinal e projetava uma auréola invernal em torno da cabeça dela. Ao mesmo tempo em que os olhos esverdeados se acendiam com uma fagulha interior.

Soerguendo o canto da boca numa careta, ele a notou extremamente corada.

— O que foi? Não me diga que está naquele período do mês?

Sakura enrubesceu violentamente e abriu e fechou a boca várias vezes antes de conseguir balbuciar uma resposta adequada que não a fizesse parecer patética diante dele.

— Mas é claro que não! É só que... — ela mordeu o lábio e desviou o olhar encabulado. — Uh, eu preciso de... Algumas coisas. Sim. Co-como... Roupas! — Sasuke arqueou a sobrancelha e ela reafirmou, mais segura: — Sim, roupas! Estou farta de vestir as suas e quero algo que sirva em mim.

— Qual é o problema com as minhas roupas? — ele zombou e ela bufou pelo nariz. — Eu gosto de te ver dentro delas.

— Não brinque comigo, Sasuke, eu estou falando sério. Além do mais... — e lá estava ela corando novamente para o deleite dele. — Eu preciso desesperadamente de roupas íntimas novas.

— Ah, isso — Sakura detestou ter de ouvir o tom inacreditavelmente cínico na voz dele.

— Sim, roupas íntimas! E não venha me dizer para usar alguma coisa que encontramos nos outros apartamentos porque isso seria incrivelmente nojento! Todos os meus pertences ficaram no carro, e você não me deixa voltar lá para recuperá-los de forma alguma.

— Sejamos razoáveis — ele esfregou o queixo, o cigarro pecaminosamente pendurado no canto da boca —, voltar lá seria suicídio. O som dos tiros deve ter atraído dezenas de mordedores para lá.

— Sim — concordou ela com um aceno da cabeça. — Mas eles já podem ter se dispersado. Se não vai me deixar voltar, ao menos me proponha outra solução.

— Dentro de alguns dias — ele tornou a reafirmar, convicto —, poderemos sair para procurar por suprimentos, isso é claro se o número de errantes lá embaixo continuar a diminuir.

— Eu realmente preciso disso, Sasuke! ela enfatizou e estreitou o olhar.

— Nossa comida ainda deve durar uns cinco dias, se a racionarmos — deu de ombros. — Podemos tentar limpar os outros apartamentos do bloco B mais tarde, mas nada de armas de fogo — ele declarou categórico. — Não quero correr o risco de atrair aquelas coisas para cá novamente, não agora que parecem estar seguindo em outra direção. Vamos esperar mais dois dias para ver como estará a situação nas ruas, e, se tudo estiver bem, nos arriscamos em um supermercado a alguns quarteirões daqui.

— Certo — Sakura concordou, mas de má vontade.

Cruzou os braços diante do peito e suspirou quando seus pensamentos embotados desanuviaram para admirar a beleza do amanhecer. A expressão em seu rosto se tornou suave.

— Lindo, não acha? Dá até para quase esquecer que o mundo acabou...

— Eu não consigo me esquecer disso por um só fodido segundo. Eu me obrigo a não esquecer, na verdade.

— É, às vezes eu também me obrigo a lembrar de que as coisas já não mais como antes, sabe? É estranho acordar e não sentir o cheiro do café que a minha mãe fazia, não assistir os noticiários pela manhã, não ter que correr até o ponto de ônibus para chegar a tempo na faculdade... Agora eu me lembro desses pequenos detalhes, dessa rotina, quase como se fosse outra vida.

— E não é? — Sasuke inquiriu retórico, o canto da boca se curvando em um sorriso irônico.

Sakura devolveu seu sorriso e, inesperadamente, se inclinou em direção a ele. Estendeu a mão diante do rosto do rapaz e apanhou entre os dois dedos, indicador e polegar, o cigarro pendurado entre os lábios pálidos dele.

— Certamente — zombou, e levou o cigarro até os próprios lábios, expirando a mesma bruma branca um segundo mais tarde. Ante o olhar inquisitivo que Sasuke lhe lançou, ela recuou: — O que foi? Uma garota não pode se sentir deprimida com o fim do mundo também?

Ela devolveu o cigarro a ele então, sem desprender os olhos do luminoso horizonte.

Memento mori — disse ela e Sasuke a olhou, em dúvida. Sakura se empertigou, mas não o fitou de imediato.

— Memento mori? — As palavras lhe eram vagamente familiares.

— Lembre-se de que é mortal — esclareceu com um pequeno aceno. — Sabe, há muito tempo, dizem que um general romano comemorava sua vitória enquanto retornava de uma grande batalha. Então, seu servo, que vinha logo atrás lhe disse essas palavras: Memento mori, ou lembre-se de que é mortal. Foi uma advertência para que o general não se envaidecesse diante da conquista e não se deixasse dominar pela arrogância, e que embora ele tenha vencido uma difícil batalha, mais estavam a caminho. É como dizer que embora o dia tenha clareado, a noite está por vir.

— Hn, entendi — ele grunhiu e chutou um cascalho da borda do terraço vendo-o quicar até lá embaixo, repousando em meio ao gramado.

— Desde que isso tudo começou — Sakura continuou —, eu só penso nessa frase e no que ela significa nesse novo mundo. Por isso não me permiti descansar um só dia, por isso não relaxei desde que fugi de Tóquio. A verdade é que eu tenho medo... Não de morrer — ela balançou a cabeça, como se a simples ideia lhe soasse ridícula. — Mas, eu tenho medo de levar algum arrependimento comigo, de não fazer tudo o que eu poderia ter feito. É isso o que me assombra, essa possibilidade de perecer com algum tipo de ressentimento comigo mesma.

Sasuke pareceu levar mais do que habitual para absorver o real sentido das palavras dela. Então ele descartou a guimba do cigarro com um piparote, perdendo-o de vista mais cedo do que previra enquanto o sol ainda nascia na borda do firmamento, rareando os últimos vestígios da presença da noite.

— Posso te ajudar com a parte do não querer ter arrependimentos, sabe?

— Você é impossível, sabia? — sorriu, mas ele ficou surpreso por ela não ter descartado a proposta de significado dúbio assim que a fez.

— Pense, Sakura — ele continuou, virando-se completamente para ela —, somos provavelmente as únicas duas pessoas ainda vivas em um raio de cinco quilômetros ou mais.

— I-isso não... — ela perdeu a fala pelo que pareceu uma eternidade, balançando a cabeça e digladiando consigo mesma enquanto o sorriso presunçoso nos lábios dele apenas se fazia aumentar. — Isso não é o suficiente, Sasuke, s-sinto muito.

— Apenas pense nas possibilidades, não é como se tivéssemos muito a perder, não é mesmo? Além do mais, não sou eu quem está gaguejando e negando o que tão obviamente deseja.

Ante as sentenças tão persuasivas dele, ela recuou outra vez, e ficou na defensiva.

— E-eu não estou negando nada! E eu certamente nunca considerei a possibilidade de nós dois... Eu quero dizer... — ela mordeu a parte interna da bochecha e tornou a bufar pelo nariz. — Ah, esqueça! Eu já disse que esses seus argumentos não são suficientes. Vai ter que pensar em outra coisa para me convencer a...

— A o quê? Dormir comigo? — Sasuke escarneceu. — Por que tem tanta dificuldade em apenas dizer isso em voz alta se não fosse porque no fundo também quer?

Sakura corou violentamente.

— Eu disse que isso não basta! — chiou e se detestou por sua voz ter soado tão aguda.

— Memento mori — ele contra-atacou, valendo-se do próprio argumento dela, e teve o prazer de vê-la ficar em dúvida pela segunda vez. Sakura recuou mais um passo para longe dele.

— Vai ter que encontrar algo mais consistente se quiser mesmo me convencer — Sakura esfregou os braços nus para tentar esconder dele que estava arrepiada. — Quando quiser ter uma conversa mais produtiva, como os nossos suprimentos que estão acabando, sabe onde me encontrar, Sasuke.

Ela lhe deu as costas e seguiu em direção às escadas. Sasuke murmurou às costas dela ainda:

— E quem disse que não estávamos tendo uma conversa produtiva agora mesmo?

Sakura lhe mostrou o dedo do meio e desapareceu atrás da porta de metal. Sasuke lamentou profundamente o fato de que havia acabado com seu último cigarro. Amassou a carteira de papel e com um arremesso perfeito lançou o objeto a uns bons oito metros, vendo-o desenhar um arco no céu claro antes de desaparecer no asfalto lá embaixo, entre os mortos-vivos.

Lá dentro, Sakura se fechou no quarto e se recusou a até mesmo pensar no que Sasuke havia sugerido ainda pouco. Ela não dormiria com ele apenas porque estava se sentindo deprimida ou solitária. Ela na verdade se sentia ridícula por ter levado tanto tempo apenas para dizer não a ele. Sakura não estava tão desesperada para tentar encontrar conforto no primeiro par de braços com que cruzasse.

Sasuke parecia ser uma pessoa legal e havia sido muito gentil com ela, e apesar das insinuações nada inocentes que estavam sempre presentes em seus comentários petulantes, ou sempre mascaradas pelo seu sarcasmo irritante, ele nunca havia tentado forçá-la a nada, e apenas por isso já estava profundamente grata.

Além disso, aquela noite pavorosa em que despertou com os gritos de Ino na barraca ao lado da sua, no meio da floresta, ainda estava bastante fresca em sua memória. O que haviam tentado fazer com a sua amiga era monstruoso, repulsivo, atroz.

Sakura tinha certeza de que mataria qualquer um que tentasse submetê-la àquele tipo de agressão e humilhação. Ela não seria vítima de sua própria ingenuidade, não mais. Não depois que jurou à Ino que sobreviveria àquele novo mundo maligno.

Ainda, ela não estava procurando alguém para se envolver — fosse física ou emocionalmente. A dor de perder esta mesma pessoa, mais tarde, a devastaria. Por isso seria mais fácil se encerrar dentro daquela concha, daquela casca, e apenas assistir o desenrolar daquela peça com uma tirana apatia.

Por isso, ela própria sufocou toda e qualquer possibilidade que pudesse haver com Sasuke. Eles estavam juntos por conveniência, para poderem sobreviver e nada mais. E Sakura repetiria isso para si própria quantas vezes fossem necessárias, até que ela própria conseguisse acreditar que aquilo era o que ela realmente queria.

Mais tarde, ela se sentiu finalmente pronta para agir e falar normalmente perante Sasuke outra vez. Estava lendo um dos livros surrados que furtara, esparramada sobre a cama, quando o ouviu bater à sua porta.

Sabendo que não haveria como fugir, ela vestiu suas roupas, sem pressa, e o encontrou à porta, totalmente vestido também e com a machadinha escorada no ombro.

Enquanto calçava seus coturnos, sentiu o olhar dele sobre si por tanto tempo que ondas de um calor indesejável já subiam pelo seu pescoço. Ela não lhe disse nada, mesmo quando, acidentalmente, eles se entreolharam, ambos em profundo silêncio; ele, com seu ar tipicamente sarcástico, já ela ruborizada até o último fio de cabelo.

E por falar em cabelo, ele fitou o cabelo dela por longos e torturantes segundos, enquanto Sakura sentia uma premente necessidade de se esconder.

— Seu cabelo está desbotando? — Foi o que ele lhe perguntou enquanto franzia as sobrancelhas com um ar contemplativo, e, ao mesmo tempo, parecendo profundamente decepcionado.

Sakura apanhou uma mecha de cabelo entre os dedos e engoliu em seco.

— Talvez. Não é como se eu tivesse tido tempo para me preocupar com o meu cabelo nas últimas semanas... — Sua voz não havia falhado uma única oitava, e só por isso ela já podia soçobrar em alívio.

— Isso é uma pena — Sasuke murmurou e ela piscou, aturdida.

— Por quê? — ela não conseguiu se impedir de indagar enquanto ele lhe dava as costas, o cabo da machadinha ainda apoiado em um dos ombros.

— Eu gosto dele dessa cor — confessou com ar soturno. — Fica bem em você. — E saiu pela porta.

E se antes Sakura havia alimentado qualquer esperança de que as coisas entre eles pudessem voltar à normalidade, ao estável e seguro terreno que ela conhecia, depois da embaraçosa conversa que tiveram mais cedo, agora qualquer esperança se encontrava estraçalhada.

Sakura ainda não sabia como deveria se sentir com tudo isso, mas ela tinha certeza de que viria a descobrir, mais cedo ou mais tarde, e não de uma forma boa — ou mesmo saudável.

* * *

E estas ruas pelas quais nós viajamos

Resistirão ao nosso passado perdido.

Avenged Sevenfold — Trecho de Seize The Day.

Notas finais
Se preparem para EMOÇÕES MUITO FORTES nos próximos capítulos! AHAHAHAHAHAHAHA ... Gente, estou apreensiva! Apreensiva demais com um dos meus shipps queridos de TWD! É que o Robert Kirkman confirmou que eles com certeza vão levar o Negan (quem conhece um pouco da HQ sabe quem esse cara é) para a série. E se ele foi confirmado, podemos começar a dar adeus a um dos personagens mais antigos da série! E aí, meu shipp querido também acaba T.T Se isso acontecer, vou sofrer horrores... ... Enfim, obrigada pelos reviews lindos! Vou respondê-los ainda hoje, se puder. E se vocês forem bonzinhos, prometo tentar voltar no domingo. ;D Até.