Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
9 Capítulo VIII: Os Olhos Selados do Paraíso
Notas iniciais
Dead World Assembly
“O quarto dia começa frio e carregado de nuvens. O céu de chumbo parece achatar a grama molhada e as casas abandonadas. Apesar de ninguém tocar no assunto, o novo dia traz uma espécie de marco: é o início da segunda semana da praga”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 44).
Capítulo VIII:
Os Olhos Selados do Paraíso
Os dias passaram relativamente calmos desde então. Apesar da constante — e impossível de ser ignorada — presença dos mordedores, a aparente mansuetude teve um efeito progressivo sobre os ânimos de Sakura.
A cada manhã que despertava, segura e aquecida, no silêncio de seu quarto, ela se sentia menos ressabiada e mais propensa a pensar naquele apartamento de janelas vedadas no quinto andar como um lar — ainda que temporário.
A primeira semana desde que ela fora acolhida ali chegava ao seu fim e os últimos dois dias tinham sido chuvosos e tristonhos, embalados pelo chuvisco contínuo e ainda pelos gemidos que nunca cessavam— o término de um ciclo contínuo.
Odores rançosos ainda temperavam o ar, mas o perfume da chuva camuflava efetivamente o cheiro da morte e dos excrementos, muito embora reforçasse a sensação do abandono, porquanto o tamborilar lastimoso perdurasse lá fora.
Nuvens cinza-chumbo haviam encoberto o firmamento de ponta a ponta e, por dias, eles não obtiveram o menor vislumbre do sol. Lá fora, errantes transitavam a todo o momento, arrastando seus passos no concreto úmido, mas eram criaturas sem rumo e sem motivação; seus humores tornavam-se ranzinzas e aborrecidos por conta da chuvarada também.
Por vezes, na madrugada, Sakura podia jurar que ainda ouvia o ranger de correntes e os rosnados estrangulados, mas sabia que se relatasse isso a Sasuke, ele certamente atribuiria ao vento e aos encanamentos inutilizados dos andares superiores. Suas suspeitas, no entanto, não eram capazes de abalar seu bom humor e a cada dia ela se via menos inclinada a deixar o apartamento para cair na estrada outra vez.
A companhia de Sasuke também não era de toda ruim — embora ele ainda lhe desse calafrios de vez em quando.
Naquela manhã brumosa de terça-feira, ela sentou-se à mesa na cozinha, vestindo mais uma das camisetas de Sasuke, de uma banda norte-americana de rap-metal intitulada Rage Against the Machine, e shorts de algodão estilo samba-canção, insistentemente tentando sintonizar alguma estação no velho rádio a pilhas que havia furtado há alguns dias. Ela até tinha consertado a antena, partida ao meio, remendando-a com fita adesiva e rezando para que conseguisse captar alguma transmissão.
Infelizmente, o chiado da estática era o único som a saudá-la há mais ou menos uma hora e meia. Tentar não se deixar abalar por isso era parte da diversão, alegara para si própria, e não atirar aquele aparelho arcaico e irritante contra a parede era o seu grande desafio.
Mas, de qualquer forma, alguém parecia se divertir com as tentativas infrutíferas dela; Sasuke estava lá na cozinha também, casualmente recostado ao balcão de mármore e encarando com bom humor as vocalizações exacerbadas de que Sakura se valia para exprimir frustração.
Com o olhar entrecerrado, a boca comprimida e o rosto encrespado de concentração, ela honestamente ainda não entendia por que simplesmente não desistia daquela geringonça obsoleta e inútil. Portanto, suspirando — vencida tanto pelo cansaço quanto pelo sorriso provocativo de Sasuke — ela empurrou o aparelho para o lado e descansou os cotovelos sobre o tampão da mesa.
— Eu desisto! — exclamou no auge de sua irritação, encarando o rádio com uma raiva mortífera enquanto Sasuke apenas dava de ombros.
— Eu avisei que era inútil — lembrou-a com um agudo derrotismo, inclinando-se em direção ao objeto negligenciado. — Mesmo que essa porcaria não se recusasse a funcionar, aposto que não haveria muito a se ouvir nas transmissões de emergência.
Sakura bufou em desgosto enquanto os dedos dele inspecionavam o remendo na antena. O olhar dele distraidamente encontrou o dela.
— O que esperava ouvir? A esse ponto, nem as estações amadoras devem ter durado.
— Eu não sei o que esperava encontrar — ela admitiu com tácita mágoa. — Acho que só queria ouvir boas notícias pelo menos uma vez desde que tudo isso começou...
Ela esperou, em silêncio, enquanto ele parecia absorver suas palavras. Mas quando tudo o que recebeu de Sasuke foi um olhar cínico e um sorriso troçador, suas bochechas coraram.
— É, eu sei... Otimismo é uma droga.
— Só não mais do que o pessimismo — ele acrescentou, deixando o rádio inútil de lado.
De repente, algo atravessou seu olhar negro e Sasuke pareceu ter uma ideia. Ele afastou-se para vasculhar o armário e apanhou dois copos desiguais de vidro, pousando-os sobre a mesa diante de Sakura. Em seguida, abaixou-se para vasculhar um dos armários e retirou de lá a garrafa furtada de uísque Jack Daniels.
Foi a vez dela fazer troça.
— Quer beber logo pela manhã?
Sasuke a encarou com uma expressão dúbia, metade libertina, metade sóbria o bastante para convencê-la sem o uso de qualquer argumento — fosse este cabível ou não.
— Prefiro mais o termo descontrair, afrouxar os ânimos — disse ele enquanto destampava a garrafa e servia a bebida cor de âmbar no copo diante dela.
— Você cria desculpas para quase tudo — Sakura observou com um fascínio velado enquanto ele apenas limitava-se a dar de ombros.
— É um dom.
Sasuke fez o mesmo com o copo dele e em seguida rosqueou a garrafa outra vez. Sakura mordiscou o lábio, decidida, e envolveu o copo, trazendo-o para mais perto dela enquanto o líquido dentro dele faiscava como um grande cristal de topázio posto sob a luz do sol.
— Certo, você me convenceu. Eu bebo. Estou mesmo precisando de um pouco disso.
Sasuke estendeu seu copo, invitando-a a fazer o mesmo. Brindaram então:
— Ao fim do mundo — disse ele e ela assentiu.
— À involução da civilização e... — ela sorriu. — A todos os mordedores que já pegamos.
Sakura apreciou, por um momento, o gosto forte e causticante da bebida destilada; a sensação quente passou rasgando por sua garganta como dedos em brasa envolvendo-a de dentro para fora. Mas o gosto refinado permaneceu em sua língua por um bom tempo.
— Puxa, um Jack Daniels... Eu já tinha me esquecido — ela suspirou.
— Prerrogativas como essa — ele crispou a boca, desanimado — são raras no mundo de hoje.
— Sim — concordou com um sorriso. — Como bolinhos de Anmitsu e Mitsumame.
— E tomates — Sasuke fez questão de acrescentar e Sakura riu.
— É claro, e tomates.
Sakura deslizou o copo quase vazio agora pela mesa, crispando o olhar em concentração, perdendo-se na luz escassa que varava a cozinha, recaindo sobre o piso de ladrilhos.
— No que está pensando agora? — A voz dele a pegou de surpresa e ela levou mais tempo do que o habitual para respondê-lo. — Sabe, quando você está pensando em algo, de forma bem fixa, você fica com essa expressão engraçada... — cruzou os braços atrás da cabeça e reclinou o corpo numa postura relaxada. — Pelo menos foi o que observei nesses dias.
Sakura sorriu, aproveitando o calor agradável em seu estômago proporcionado pela bebida, que agora também dava sinais de estar começando a agir sobre os seus nervos esfrangalhados.
— Que bom que alguém ainda pode apreciar as minhas caretas engraçadas — ela comentou com certo sarcasmo e bebeu o resto do uísque. — Mas respondendo à sua pergunta... Eu estava pensando... Sabe, Sasuke, você me falou bastante sobre o seu pai, mas quase nada da sua mãe. E... Considerando que você passou os últimos dias dissecando cada detalhe da minha vida fastidiosamente chata antes do fim do mundo, creio que seja a minha vez.
— Pergunte o que quiser — instigou-a descruzando os braços e pousando-os sobre a mesa; o rosto era cuidadosamente neutro, mas ela pensou ter visto um leve tremor no lábio inferior dele.
— Você tinha planos para o futuro? — Sakura não desperdiçou a oportunidade, mas optou por começar com questões inocentes e que seriam facilmente respondidas.
— Eu nunca parei para pensar muito no futuro — admitiu. — Só tentava viver um dia de cada vez...
— E fugir da sombra do seu pai — ela acrescentou soturna, mas ele não teve problemas para concordar.
— Era esse o objetivo. Eu... Tentei sair de casa uma vez, sabe? Quando cansei de todas as merdas dele e criei coragem de peitá-lo... — O olhar negro tornou-se frio, distante. — Mas voltei, exatamente como ele previu. Não porque eu era fraco, mas pela minha mãe... Eu não podia deixá-la sozinha com ele. Itachi passava grande parte do tempo fora de casa, mais perturbado do que eu mesmo... E...
— Você era o único apto a cuidar dela? — Sakura concluiu e viu-o assentir.
— Eu era o único que enfrentava o velho, que aturava as merdas dele sem abaixar a cabeça e enfiar o rabo entre as pernas. Mas a minha mãe... Ela nunca o viu de verdade, não da forma como ele realmente era.
— Entendo.
— Ela era uma boa pessoa — Sasuke continuou, fitando o líquido brilhante no fundo do seu copo. — Era gentil, prestativa, paciente... O único erro que ela cometeu foi amar um pedaço de bosta que não valia nada.
— Sinto muito — Sakura sussurrou, e pensou em retirar o que havia dito quando notou o olhar ferido de Sasuke.
Inopinadamente, ele se levantou da mesa, carregando tanto o copo quanto a garrafa consigo. Ouviu a porta do quarto dele bater com força depois, e não viu Sasuke pelo resto do dia. Imaginou se deveria pedir desculpas a ele por ter suscitado aquelas lembranças, mas deixou que ele próprio lidasse com seus demônios.
Ela seguiu a rotina de tarefas normalmente; preparou o almoço, mas comeu sozinha. Lavou a louça suja e depois desceu até a lavanderia coletiva do condomínio a fim de lavar a roupa suja, usando bacias com água da chuva, sabão e escovas com cerdas de plástico. Sozinha, na parca iluminação, ela repensou em tudo o que sabia sobre Sasuke — e tudo o que ainda havia para saber.
As horas se arrastaram e a chuva não deu trégua. Quando retornou ao apartamento no bloco A, ela percebeu que Sasuke continuava trancado em seu quarto, na companhia da garrafa de uísque, e que ainda não havia tocado na comida que ela deixou para ele. Mesmo assim, ela seguiu para seu banho frio, horas depois; jantou sozinha na sala de estar, tentando não prestar atenção no coro de gemidos lá embaixo e, minutos mais tarde, ela apagou a única vela no cômodo e retirou-se para o seu quarto.
Na escuridão delineada pelo matiz azulado do luar que varava a janela, ela mais uma vez pegou-se se perguntando se podia confiar em Sasuke, se haveria riscos e consequências, e se ela os assumiria apenas para desfrutar das regalias de um teto sobre a cabeça e refeições regulares.
E naquela noite, ela sonhou com Ino, em como tinham estado sozinhas e assustadas desde que caíram na estrada, confiando apenas uma na outra e jurando que se uma delas fosse pega pela praga, a outra deveria conceder um ato de misericórdia e livrá-la da agonia. Haviam sido dias longos e noites inquietas e escuras, apertando-se dentro da caminhonete do pai de Ino, revirando-se a cada estalo e a cada ruído que provinha do lado de fora.
E então, elas se depararam com um grupo, perto de Kodaira, na província de Tóquio. Ambas estavam famintas e desesperadas àquela altura e o bando tinha sido amistoso e persuasivo o bastante para convencerem-nas a ficar. Mas que tolo erro, Sakura agora ponderava, revirando-se no colchão, lágrimas quentes ensopavam seu travesseiro.
Porque numa noite, um dos rapazes, alcoolizado o suficiente para ter dopado um cavalo, tentara violentar Ino, o que as levou a abandonar o acampamento no meio da noite. Vagaram pelos arredores de Kodaira e Sakura nunca se esqueceria daqueles dias em que correram em círculos, com homens armados até os dentes em seus rastros, perseguindo-as sem descanso.
Até que as encurralaram entre eles e os mordedores no banheiro sujo de um posto de gasolina na rodovia que cortava a cidade. E agora Ino estava morta. E Sakura havia prometido a Ino que sobreviveria, que não desistiria — não importava o que acontecesse.
Sakura despertou aos prantos, o travesseiro sob ela estava encharcado e os lençóis abaixo de seu corpo estavam amarfanhados e molhados de suor. Ela ordenou a si mesma que se acalmasse, ordenou a si mesma que cessasse o choro. Que sentido havia prantear a morte de Ino àquela altura quando nada mais poderia ser feito?
Mas os soluços deploráveis continuavam rasgando sua garganta arranhada um atrás do outro e os tremores não findavam.
O cheiro do medo de ambas ainda pairava naquele quarto, a essência do pânico. E Sakura ainda a via, Ino, recostada naquela cabine suja e malcheirosa com um pedaço do ombro faltando e sangue correndo para o piso encardido de linóleo.
Prometa-me, Ino havia exigido, os dedos ensanguentados (com sangue dela) enganchados na frente da blusa de Sakura, os olhos lacrimosos, a pele que já ardia febril. Prometa-me que sobreviverá a isso! Você tem que conseguir... E seus dedos se entrelaçaram. Sakura chorou. Você vai conseguir, eu sei que vai, Sakura... Prometa-me!
E em meio aos seus soluços esganados ela simplesmente sussurrara um prometo. Prometo, Ino... Prometo... Eu prometo. E Ino partiu, e Sakura aguardou até que ela voltasse, e Sakura disparou um único tiro. E ela partiu.
Sakura mal havia escapado de Kodaira. Entre ser pega pelos mordedores e pelos homens do acampamento, ela não sabia qual destino lhe traria mais infortúnio. Mas depois de roubar o Toyota prius no estacionamento de um Shopping Center destroçado, ela não havia parado para olhar para trás. Percorreu centenas de quilômetros até a província de Tokushima. Atravessou de balsa até a outra margem e aqui estava ela agora, sã e salva, mantida de pé pela promessa feita à Ino.
Nada mais havia importado desde então.
Aos poucos, ela conseguiu se acalmar. Procurou com mãos trêmulas pelo canivete suíço embaixo do travesseiro e apertou-o com força para manter no lugar os cacos colados de sua sanidade. Sua respiração e batimentos cardíacos logo assumiram o ritmo cadente e a tremedeira passou.
Mas ela ficou ali, deitada de barriga de cima, olhando para o teto branco de gesso tentando pôr os pensamentos em ordem e aprisionando com grilhões aqueles que apenas lhe fariam mal.
Até que o som de uma porta se abrindo com força a sobressaltou.
Sakura esperou em silêncio, tão imóvel quanto uma rocha; mal respirava. Ouviu passos em seguida, tão ruidosos quanto uma manada, mas não descoordenados ao ponto de ela considerar serem errantes. Ouvindo com atenção, ela percebeu que os passos vinham da sala de estar.
Agarrando seu canivete com força, ela praticamente saltou da cama e aproximou-se — a passos leves — da porta trancada de seu quarto. Girou a maçaneta lentamente e abriu apenas uma pequena fresta na porta, o bastante para espiar o corredor. Defronte para ela, a porta do quarto de Sasuke estava entreaberta, e o cômodo tão vazio e silencioso como uma tumba.
Sakura alargou a fresta na porta e espremeu-se pela abertura, pisando com cuidado nas tábuas do assoalho para que não rangessem. Irrompeu na sala de estar, com a escuridão velando-a tão fria quanto uma capa de veludo negro. A porta da frente estava escancarada e ela olhou por cima dos ombros e às suas costas para se certificar de que estava mesmo sozinha.
Respirando fundo, ela estacou a porta, ponderando. Viu seus sapatos, mas os preteriu, sabendo que descalça, teria mais chances de uma aproximação furtiva. Espiou o corredor, agarrando seu canivete com cada vez mais força, mas estava vazio.
— Sasuke...? — ciciou para a escuridão, mas não houve resposta.
Olhou para o lance de escadas, na outra extremidade do corredor, e não resistiu. Subiu cada degrau com cuidado; o metal estava frio e o carpete antiderrapante era áspero contra a sola de seus pés. Chegou ao sexto andar com um peso no peito, reconhecendo a mesma estrutura, os mesmos apartamentos dispostos ao longo do corredor com piso de mármore.
Um facho de luz âmbar provinha de um deles, da porta que fora apenas recostada. Cruzando o espaço em completo silêncio, sentiu os pelos finos dos seus braços se eriçarem, deixando-a como um animal arrepiado.
Quando enfim alcançou a porta, Sakura espremeu o olhar para poder situar-se. A luz da vela, sobre uma mesa de mogno, derramava-se sobre a pouca mobília no cômodo; cadeiras quebradas, um sofá virado na parede oposta, um carpete sujo de sangue sobre o assoalho empoeirado.
Sakura apoiou a mão na porta, abrindo-a vagarosamente para revelar o cômodo. Um gemido estrangulado fez o coração dela parar, seguido do repuxar insistente de correntes. Ela agora entendia a razão daqueles sons.
Seus olhos rapidamente se ajustaram à luz suave da vela e pousaram sobre a silhueta de Sasuke, sentado em uma cadeira, ainda em companhia da garrafa de uísque, bebendo-a convulsivamente com longos e ruidosos goles.
E diante dele, Sakura notou enquanto se aproximava silenciosamente, havia algo. Algo que se contorcia, algo que gemia e rosnava de forma abafada, contida. O odor de carne podre e excrementos atingiu-a como um soco no estômago enquanto todas as peças dentro da cabeça dela se encaixavam assustadoramente.
Era um errante.
* * *
Eu sou a sua fonte de autodestruição
Veias que pulsam com o seu medo
Sugando a sua mais negra luz
Liderando a edificação da sua morte.
Metallica — Trecho de Master of Puppets.
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