Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
6 Capítulo V: As Muralhas Desbaratadas de Jericó
Notas iniciais
Dead World Assembly
“— Nós sabemos de tudo o que precisamos saber — rebate Philip, olhando firme para o irmão. — Nós sabemos que todo dia aparecem mais dessas porras e tudo o que parece é que elas querem almoçar a gente. E é por isso que nós vamos passar um tempo aqui e ver como é que as coisas se desenvolvem”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 41).
Capítulo V:
As Muralhas Desbaratadas de Jericó
Parecia que aquela noite nubilosa jamais teria fim. Por trás dos riscos de nuvens no céu, a lua fina escondeu-se e o vento tornou a bramir. Dedos esquálidos de neblina avançavam lentamente pelo firmamento como mil espectros lamuriosos e rastejantes, mas ao fundo, o coro de gemidos que jamais cessava ainda era o fator mais amedrontador — e preocupante.
O dia escureceu rápido e a noite caiu quase opressora. Sasuke retirou uma única vela de uma gaveta alguns minutos antes e riscou o fósforo justo quando o apartamento se tornou um antro. Fagulhas iluminaram a escuridão e em seguida uma chama quase graciosa bruxuleou no centro da sala de estar.
Com os cabelos negros e revoltos ainda úmidos do banho frio, ele preparara o jantar imerso em um clima embatucado. Algumas latas de legumes em conserva logo se tornaram o acompanhamento para o que restara do macarrão harasame de mais cedo, agora frio e um pouco mais pegajoso, que ele tornou a servir em duas tigelas que um dia compuseram a louça mais fina de sua mãe.
Quando voltou à sala de estar seu olhar pousou sobre a silhueta fracamente iluminada pela lua de Sakura. Ela olhava compenetrada em uma das frestas das tábuas na janela para algum ponto na rua lá embaixo e não percebeu a sua aproximação.
Sasuke achou que seu olhar talvez tivesse se demorado mais do que necessário nas pernas nuas da garota, mas ele não conseguiu sentir culpa por isso. Há quanto tempo ele não topava com uma garota tão bonita e legal quanto ela? Além do mais ele era um garoto saudável e seu corpo respondia com naturalidade a estímulos do sexo feminino. Sakura ainda parecia ser aquele tipo de garota magrinha no quesito curvas, mas seu porte atlético compensava-o muito bem. Apesar da falsa aparência de fragilidade como os grandes olhos expressivos, a boca rosada e a pele branquinha como um copo de leite, ele vira faíscas de raiva e determinação transbordarem daquele rosto de traços finos.
Ela ainda olhava algo através daquelas lacunas nas tábuas quando ele aproximou-se o bastante para ser notado.
— Não é estranha a forma como eles se comportam?
Sasuke entregou a ela uma das tigelas, juntamente com um par de hashis, e esparramou-se sobre o sofá recostado à parede. O macarrão pegajoso estava horrível, mas não havia nada que pudesse ser feito para salvá-lo.
— Eles estão mortos — ele rebateu pouco propenso a iniciar uma discussão sobre os transeuntes lá fora. — Não há nenhum segredo nisso.
Sakura deslocou-se da janela até estar sentada ao lado dele com a tigela em mãos.
— Quando ainda estava em Tóquio, passei grande parte do tempo nos hospitais, ouvindo todo o tipo de discussão e absorvendo tudo o que eu pudesse sobre essa doença. Era assustador — ela admitiu com um suspiro. — Pessoas ardiam de febre sobre as macas, algumas até mesmo sobre o chão. Aquilo estava um caos. Por mais de uma vez, testemunhei as pessoas queimarem até a morte, e depois, elas voltavam... Só que não inteiramente.
“Entreouvi certa vez um neurocirurgião comentar com uma enfermeira que essa coisa, essa moléstia... Ela traz de volta apenas uma porção do cérebro. Que é como se apenas algumas funções do cérebro fossem religadas, como numa máquina que sofreu uma pane. Como se essa máquina fosse consertada, só que depois passasse a desempenhar apenas uma parte da função que ela desempenhava normalmente antes.
Sakura pausou por um tempo, mastigando cuidadosamente seu jantar e engolindo-o com dificuldade.
— Mas eles estão tecnicamente mortos, não estão? — indagou Sasuke, olhando-a de canto.
— Bem, isso depende da sua definição de morto — ela respondeu visivelmente consternada. — Como, por exemplo, certa vez acertei um deles com uma chave de fenda — ela ignorou o sorriso torto na boca dele — e posso jurar que antes de desabar no asfalto, a coisa, sei lá... Ela me olhou com uma expressão, eu não sei... Mas me pareceu como se ela estivesse me reconhecendo como uma pessoa e não como o seu lanchinho da tarde. Soa como uma loucura, eu sei — Sakura fungou. — Mas há muito a ser discutido antes que conclusões precipitadas possam ser tiradas.
“Mortos supostamente não vagam por aí em grupos, não produzem sons guturais e, principalmente, não se alimentam. Em tese, pelo menos — concluiu categoricamente.
— Diga isso aos sacos de carniça lá fora — Sasuke desdenhou e ela franziu os lábios.
Ele deixou a sua tigela vazia de lado e cruzou os braços atrás da cabeça, refestelando-se completamente no sofá.
— Vou te dizer o que acho de tudo isso — ele murmurou à meia voz e era quase como um sussurro: — Essas coisas já estão mortas. Estão apodrecendo e se decompondo enquanto vagam por aí. Não importa se você os acerte trinta vezes com uma machadinha, não importa se você passe por cima deles com um limpa-neves. Você pode até crivá-los de tiros. Se não acertar as malditas cabeças dos filhos-da-puta eles não vão parar. Eles não param. Então, se estão mortos ou não, eu vou continuar fazendo o que geralmente faço, que é manter aqueles cabeças podres e suas mandíbulas fedorentas longe de mim. Foda-se o que dizem os cientistas ou o que dizem os médicos sobre isso.
— Sabe que eu não tive a intenção de te questionar, Sasuke — ela sussurrou em resposta ao seu discurso esbaforido e enérgico, mas ele se levantara e se dirigira até a única vela que iluminava uma parte do cômodo. — Eu também farei o que for preciso para continuar viva, mas o que quero dizer é que nós não sabemos muito sobre essa doença ainda.
Ele virou-se para ela, seu rosto perfilado pela luz âmbar da chama da vela. Os olhos eram da cor do alcatrão, ora pareciam-lhe tristemente vazios, ora lhe davam a impressão de que estavam saturados: de dor, de medo e de raiva do mundo.
Sakura mordeu o lábio, mas continuou ali, sentada sobre o sofá, à sombra distorcida do corpo longilíneo do garoto.
Eu também perdi as pessoas que amava para essa doença, ela quis dizer. Mas as palavras ficaram todas engasgadas em sua garganta. Então, suspirou demoradamente, levantou-se sem olhá-lo e encaminhou-se até a cozinha. Deixou a sua tigela vazia sobre a pia e passou por ele outra vez, a caminho do quarto que ele havia preparado para ela.
Sasuke ainda estava imóvel; mal respirava. Mas os olhos dele acompanhavam com uma devoção assustadora cada gesto seu.
— Boa noite — ela murmurou e quase correu até o quarto, fechando a porta suavemente e assegurando-se de trancá-la com um ruído mínimo.
Então olhou para o quarto escuro e meio frio no qual dormiria. Como ele dissera mais cedo, havia pertencido ao seu irmão mais velho e os traços masculinos estavam visíveis em cada recanto. Como a mobília preta e branca que era constituída por uma cama de solteiro, um roupeiro simples e uma cômoda. Alguns pôsteres de bandas de grunge ou death metal ou que tentavam trazer à tona um patriotismo visceral estavam espalhados pelas paredes estéreis, contrastando de forma gritante com alguns quadros que retratavam paisagens bucólicas, mas o cômodo estava impecavelmente organizado.
Sakura tentou remontar a personalidade de seu antigo dono, mas não teve sucesso. De qualquer forma, ela estava cansada demais para enigmas e quebra-cabeças àquela hora da noite, então caminhou até o único espelho, embutido no roupeiro de mogno, e contemplou seu reflexo pálido à luz embaciada da lua minguante lá fora e que era filtrada pelo vidro granulado da única janela, a leste.
Nos minutos seguintes, ela dedicou-se a revirar o mais silenciosamente que pôde as gavetas da cômoda e do roupeiro, à procura de algum objeto afiado, qualquer um com uma extremidade afiada, para poder se proteger. Sakura ainda se sentia nua e exposta sem a sua Glock. Quanto topou com um canivete suíço negro no fundo de uma gaveta de meias, sentiu-se extremamente aliviada e podia até mesmo ter sorrido.
Cautelosamente, aninhou a arma no peito e postou-se ao lado da cama de solteiro, escondendo-a sob o travesseiro, assim podia dormir agarrada a ela por toda a noite. Com um suspiro despiu os shorts que estavam grandes demais em seu corpo e cambaleou até deixar-se cair de costas no colchão extremamente macio.
Recolheu as pernas nuas e arrepiadas debaixo do cobertor e enrolou-se em um novelo humano, enfiando a mão sob o travesseiro e sentindo a textura dos lençóis de percal até que seus dedos tivessem roçado e — no instante posterior — envolvido o canivete. Ignorou o cheiro de mofo e permitiu-se descansar um pouco, e, no entanto, seus sentidos estavam supersensíveis, alertas a qualquer ruído.
No quarto ao lado, Sasuke adentrara sob a luz difusa do luar, o torço nu, a pele pálida quase acesa pelos fachos que se derramavam da pequena janela, delineando as linhas sobressalentes de seus músculos e os nós de tensão entre as suas omoplatas e sob o seu pescoço.
Ele ainda ouvia o coro de gemidos lá fora — a sinfonia da Morte que nunca terminava. Mas seus pensamentos estavam distantes, presos ao passado. Sasuke jurou que ainda podia visualizar o rosto ensanguentado do pai, sob aquela mesma luz difusa do luar. Ainda sentia o cheiro da podridão, infectando seu quarto quase como uma doença.
Ele iria para o inferno, mas não podia se importar menos. O inferno era ali agora, de qualquer maneira, e os demônios haviam sido todos libertos de seus grilhões, postos para vagar por aquele mundo e para consumir almas tanto de santos quanto de pecadores. E Sasuke ainda não estava pronto para ter os seus pecados julgados. Não, ainda não.
Eu fiz o que tinha de ser feito, porra, ele logo tratou de se convencer. Mas o rosto do pai, ensanguentado e inclemente, ainda borbulhava a beira de seu consciente como uma vesícula de pus que subitamente estourava e vertia um fluído asqueroso e fétido.
Calmamente, Sasuke caminhou em direção à escuridão e deixou-se cair sobre o colchão de bruços.
As horas se arrastaram dentro do apartamento, mas Sakura teve a impressão de ter dormido apenas alguns minutos quando um ruído leve a despertou. Imóvel e sobressaltada, ela esperou quieta pelos próximos segundos, sufocando com os ofegos que rasgavam seus lábios e tremendo no escuro com um suor frio baforando em sua nuca arrepiada.
Escutou com atenção, desfocando-se do som que seu próprio coração fazia ao socar suas costelas com uma brusquidão esmagadora. Mas não houvera engano, lá estava o som que a despertara: passos arrastados, o tilintar do metal e um gemido estrangulado, oco.
Sakura ficou paralisada sobre a cama, como uma estátua de gelo, contando os segundos que separavam os intervalos entre cada ruído, cada arrastar de pés, cada tilintar de metal. O vento gemeu em sua janela e ela esperou para ver se sua mente cansada não estava lhe pregando peças.
O ruído metálico podia ser resultado de um encanamento velho e exposto e os gemidos se pareciam com o lamentar do vento que se chocava contra a sua janela. Mesmo assim Sakura preferiu não arriscar.
Mordeu o lábio e esperou que os sons se fizessem audíveis novamente até detectar a sua origem: vinham de cima, do andar superior. Um espasmo a imobilizou naquele colchão pelos próximos trinta segundos, mas ela sabia que não havia engano e sua audição aguçada pelo medo e pelo frenesi da adrenalina não estava mancomunada com a sua mente exausta e criativa.
Agarrou o canivete com seus dedos pegajosos de suor e o mais silenciosamente que pôde deslizou da cama para o chão. Comediu os passos, de forma a não criar qualquer alarde e aproximou-se da porta trancada do quarto.
Girou a tranca e franziu o rosto quando a maçaneta cedeu sob as suas mãos. Cruzou o corredor ainda em silêncio e tentou não tremer com os lamentos persistentes do vento nas grandes janelas vedadas da sala de estar; Sasuke apagara a vela horas atrás, de forma que a escuridão se infiltrava em diagonal como grandes poças negras no apartamento.
Sakura colocou ambas as mãos na maçaneta da porta da frente e encostou o ouvido à madeira para tentar ouvir melhor. Seus batimentos cardíacos diminuíram finalmente conforme seus sentidos supersensíveis tentavam situá-la em meio ao pânico crescente.
Ela podia jurar que ainda ouvia passos arrastados e um gemer abafado. Então, inclinou-se mais em direção à porta e esperou, cerrando os dentes — tanto pelo medo, quanto pela expectativa angustiante.
— O que está fazendo?
Sakura sufocou um grito e virou-se abruptamente para a silhueta que assomara sobre ela. Deu-se conta de que tinha um canivete nas mãos e tratou de escondê-lo imediatamente; primeiro, cruzou os braços às costas, depois, discretamente, infiltrou a mão que continha a arma por baixo da bainha da camiseta, enfiando-a no elástico da calcinha e torcendo para que permanecesse ali.
Sasuke ainda esperava por uma resposta dela, nu da cintura para cima, e mais intimidante do que ela jamais poderia haver sonhado. Sob a escuridão, a tatuagem dele parecia quase viva, o dragão quase parecia fitá-la de volta com um desdém opressor.
O olhar negro e sagaz não deixou o rosto lívido dela por nenhum instante e Sakura precisou se esforçar para conseguir agrupar as palavras trêmulas e confusas dentro dela em uma frase que fizesse sentido.
— E-eu... Eu ouvi ruídos, Sasuke. Passos arrastados, gemidos. No andar superior. P-posso jurar que os ouvi!
O rosto dele era impassível, inatingível. Mas os punhos dele haviam se cerrado às laterais de seu corpo viril.
— Era o vento, Sakura — ele murmurou à meia voz e o coração dela disparou loucamente; sua boca salivava, mas não pelos motivos certos.
— Eu tenho certeza de que não era o vento. Havia pessoas morando no andar superior? E se houver alguma coisa lá?! — A voz dela crescia e decrescia várias oitavas, ela sabia que estava à beira de um colapso nervoso. Passou por coisas demais em um só dia.
— Não há nada nos andares superiores, Sakura — ele tornou a dizer, calmamente, enfatizando cada sílaba com uma convicção deliberada. — Nada.
— Como você pode saber? — ela retorquiu, mortificada e ainda suando frio.
Uma expressão de arrogância — e algo mais — perpassou o rosto dele, uma que não a agradou.
— É simples: eu mesmo limpei os andares superiores semanas atrás. Eu mesmo dei cabo de todos os desgraçados que encontrei, arrastei seus corpos até lá embaixo, alguns eu cheguei a atirar pelas janelas, fiz uma grande pilha de merda e taquei fogo. Fiquei assistindo-os queimar por horas e o cheiro de bosta tostando era mais repugnante do que você poderia sequer imaginar.
Ela se retraiu pela expressão que havia visto no semblante dele, encolhendo-se como uma criança malcriada.
— Desculpa — sussurrou baixinho, baixando o olhar.
— Hn. Volte a dormir. — Foi tudo o que ele disse e ela decidiu não desacatar.
Correu para o quarto que ocupava, fechando a porta e trancando-a novamente, agradecendo o fato de que ainda tinha o canivete suíço, agora preso ao elástico de sua calcinha. Apanhou-o e apertou-o contra o peito, como uma proteção — a única que possuía.
Voltou a desabar de encontro ao colchão e adormeceu minutos depois. Não despertou mais naquela noite por conta de ruídos, mas também não conseguiu tirá-los da cabeça por um bom tempo e eles acabaram perseguindo-a nos sonhos. Não conseguiu nem mesmo se esquecer da expressão assustadora que ela vira — por alguns poucos mas decisivos segundos — no semblante de Sasuke.
Tinha algo podre ali, Sakura praticamente podia farejar o seu odor.
* * *
Nós bebemos do sangue da Terra
E nós nos apaixonamos pela Morte
Usando a vida como um pretexto.
Draconian — Trecho de The Last Hour of Ancient Sunlight.
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