Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
59 Capítulo LVIII: A Peregrinação dos Compungidos
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Toda a cacofonia de vozes, os fragmentos de imagens, tudo fica zumbindo na cabeça de Brian. O crepúsculo virou noite fechada, com a lâmpada de vapor mais próxima a centenas de metros de distância. Mas Brian vê o mundo ao redor como um negativo fluorescente, o medo mais afiado do que uma faca. Pois agora ele está sozinho... mais sozinho do que nunca... e isso o devora por dentro, mais que qualquer zumbi”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 274).
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Capítulo LVIII:
A Peregrinação dos Compungidos
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A viagem até o destino final do grupo ocorreu sem grandes incidentes. Viajaram em comboio, seguindo pela Via-expressa Meishin, mais tarde desembocando na Via-expressa Tomei, que atravessava toda a extensão da Prefeitura de Shizuoka depois de meio dia de viagem. Por se tratar de uma região costeira, no leste de Honshu, foi possível ver o oceano tão logo alcançaram a cidade de Hamamatsu.
Grandes edifícios foram avistados a uma boa distância, emoldurados pelo horizonte pálido do inverno. A neve havia sido uma companheira constante durante toda a viagem, atrasando seus avanços pela estrada mais do que as pequenas hordas que os interceptavam ou os veículos abandonados que precisavam mover para liberar a pista.
Porém, em Hamamatsu eles encontraram um limpa-neve abandonado na beira da estrada em bom estado. Depois que Naruto assumiu a direção do veículo, liderando o comboio através da autoestrada, a viagem seguiu-se um pouco mais tranquila, uma vez que a pá gigantesca removia o excesso de neve da pista, tornando-a relativamente mais segura para os automóveis que vinham atrás.
Atravessaram mais cidades ao longo da viagem, todas fantasmagóricas e mortas, povoadas por algumas centenas de mortos-vivos e por nada mais do que eles. Reabasteceram-se com combustível e com suprimentos, parando sempre por pouco tempo para que comessem e fizessem suas necessidades. Mas dormiam dentro dos veículos com estes ainda em movimento, forçando os motores até o limite para que alcançassem Shizuoka o mais depressa possível.
Os dias eram frios, mas as noites eram torturantes. Espremiam-se nos bancos traseiros, com cobertores esticados sobre os seus corpos, e ainda assim o frio do inverno os atormentava a cada segundo. Graças ao mau tempo, Itachi tinha contraído uma gripe, mas se recusou a interromper a viagem, alegando que eles só tinham uma chance para chegar ao destino final.
Itachi era, também, quem dirigia o jipe militar com Sasuke no assento do carona, e Sakura e Kabuto ocupando o assento traseiro. No veículo que vinha atrás, Kiba dirigia com Deidara ao seu lado, e as irmãs Hinata e Hanabi no banco de trás. Por último, vinha o veículo que Temari dirigia, com o irmão Gaara ao seu lado, e as crianças Konohamaru e Moegi seguras e aquecidas no banco de trás.
E estes eram todos os sobreviventes de uma carnificina que se iniciara quando o primeiro morto-vivo retornou de um sono do qual não deveria ter retornado. O mundo morrera a cada dia desde então, definhando lentamente, colapsando sobre os próprios alicerces que o sustentavam e que faziam dele tudo o que era.
Aquele se tornou um mundo onde apenas os mais fortes e inteligentes prevaleciam, os fracos não tinham vez. Também era um mundo violento, uma terra que bebia do sangue e comia da carne dos seus filhos, e os despertava do sono dos mortos apenas para transformá-los em deformações famintas que em nada lembravam as pessoas que foram um dia. Aquele mundo novo subjugara a humanidade, envaidecida e arrogante, que um dia acreditou com fervor encontrar-se no topo da cadeia alimentar, a mesma humanidade que acreditou poder dominar a mãe natureza e usá-la como bem entendesse.
A ironia de tudo aquilo era a humanidade quase ter sido exterminada por ela própria. Até ali, mães haviam matado seus filhos, filhos haviam matado seus pais. Irmãos haviam se voltado contra irmãos. Amigos haviam se virado contra amigos. Existia uma única lei a ser seguida e respeitada: a da sobrevivência. E para alcançá-la, quaisquer limites pré-existentes tinham sido esquecidos e ignorados.
Aquele novo mundo havia moldado cada uma daquelas pessoas que o desafiaram, esvaziando-as de tudo o que amaram uma vez, de tudo a que se agarravam, quebrando-as até o ponto em que não eram mais elas mesmas. Aquelas pessoas eram merecedoras de estarem ali pelo simples fato de haverem sobrevivido e superado tudo o que aquela terra corrompida atirara contra elas. Mereciam a salvação que conquistaram.
E a salvação elas encontrariam na cidade de Shizuoka, ou ao menos a promessa de que seriam absolvidos dos pecados que cometeram e recepcionados nos portões do paraíso. Uma terra que não fora manchada por toda aquela violência crua e exacerbada. Uma terra que lhes garantiria paz e descanso.
E eles finalmente estavam ali.
O grupo de Itachi entrou em Shizuoka ainda pela Via-expressa Tomei e deparou-se com uma cidade exatamente como as anteriores: vazia e fantasmagórica, soterrada pela neve e atulhada pelo lixo, e pelos muitos cadáveres que foram abatidos e que estavam estendidos pelas ruas congeladas. Houve um confronto entre vivos e mortos ali, um do tipo intenso.
Barricadas tinham sido erguidas para tentar conter o fluxo de mortos que avançaram pela cidade. Muitas delas tinham falhado nesse objetivo. Havia veículos militares abandonados e tanques de guerra vazios junto aos corpos dos soldados que os operaram durante aquela batalha.
— Onde você deveria se encontrar com os militares? — Itachi questionou Kabuto enquanto Sasuke e Sakura observavam o cenário desolador e caótico; cada canto daquela cidade contava uma história diferente, mas com um mesmo final amargo.
Kabuto engoliu em seco antes de respondê-lo. Os dedos dele apertaram a maleta prateada sobre o colo com um pouco mais força. Não se separara dela nem por um segundo, e mal pregava os olhos à noite com medo de que fosse tirada dele.
— No aeroporto de Shizuoka, nas imediações de Makinohara. Eles informaram os soldados que deveriam me proteger e me trazer até aqui que tinham conseguido isolar a área toda com cercas e que, por isso, era segura.
— Então é para lá que seguiremos — Itachi murmurou e apanhou o bocal do rádio para se comunicar com Naruto — que ainda dirigia o limpa-neve — e informá-lo das novas coordenadas.
Viajaram por mais cerca de trinta quilômetros antes de conseguirem o primeiro vislumbre do imponente Monte Fuji, no sudoeste da Prefeitura de Shizuoka. O aeroporto, de fato, fora isolado com muitas cercas. Naruto rompeu a primeira delas com o limpa-neve a cem metros do amplo edifício, escancarando os portões de fibras de aço.
O comboio vinha logo atrás, no encalço do limpa-neve. Então Itachi apanhou o bocal do rádio e se comunicou tanto com Naruto quanto com os outros veículos e passou a eles mais coordenadas. Simultaneamente, todos viraram para a esquerda, seguindo ao lado da cerca de arame, afastando-se do edifício central do aeroporto. Em determinado ponto, todos pararam, desligando os motores dos automóveis.
Naruto foi o primeiro a saltar do limpa-neve, a arma em punho, carregada e pronta para ser disparada. Itachi, Sasuke e Sakura desceram logo em seguida, também armados. Nos outros veículos, todos desceram com expressões cautelosas e gestos comedidos.
— Deidara, Naruto — Itachi indicou para ambos, a voz soando cansada, sinalizando que deveriam esgueirar-se por trás do edifício a fim de eliminar quaisquer ameaças; tinham discutido aquela estratégia ainda em Hirakata. — Esperem pelo meu comando — anunciou.
Os dois aquiesceram. Naruto lançou um olhar terno à Hinata, prometendo-a que voltaria são e salvo. Então eles giraram e correram, afastando-se do grupo. Flocos de neve eram soprados em direção ao grupo pela ventania constante. À distância, viam-se aviões parados nas pistas de pouso e decolagem, a maior parte deles boeings. Estavam cobertos de neve como todo o restante, descansando como imensas bestas de aço soturnas.
No centro do terreno, erguia-se o edifício central: um prédio branco comprido com grandes janelas de vidro com uma torre de controle elevando-se vários metros acima do resto. Na área atrás do prédio, usada no passado como estacionamento, o grupo liderado por Itachi começou a se deslocar, movendo-se feito fantasmas em meio à nevada que caía sobre a região.
Sasuke seguia o irmão mais velho de perto, seu indicador roçava o gatilho da pistola Ruger, os dedos estavam tão familiarizados às formas do metal que o abraçaram como um velho amigo há muito perdido. Tinha recuperado todas as suas armas graças à Temari, que confessou com uma expressão pretenciosa que as tinha furtado do acampamento no qual foram feitos prisioneiros.
Olhou por cima do ombro para Sakura e viu a Glock entre as mãos pequenas dela, segurando-a com firmeza e segurança. Ele não tinha sido o único a se reunir com um velho amigo no fim das contas.
Havia alguns automóveis completamente abandonados e esquecidos no estacionamento. Foi por trás deles que todos se locomoveram, avançando com cuidado em direção ao grande edifício. O coração de Sasuke tinha acelerado desde o momento em que colocou os pés ali. Estavam perto, tão perto de conquistarem a salvação. Nada podia dar errado agora. Nada seria capaz de detê-los.
Eles se esgueiraram até o prédio e então colaram às costas à estrutura de aço, concreto e vidro. Com calma, voltearam a construção, contornando-a para que irrompessem na parte de trás do terreno, onde auspiciavam encontrar o helicóptero que levaria todos até Kunashir. E foi um grande helicóptero militar que eles encontraram, um modelo CH-47 Chinook todo pintado de verde-escuro e intacto sob uma primeira inspeção superficial do grupo.
Mas o helicóptero não foi a única coisa com a qual se depararam: um homem jovem saiu de trás da fuselagem do helicóptero, contornando-a, e se colocou diante dele a fim de impedir a aproximação do grupo. Tinha pele negra e cabelos claros, e era alto e robusto. Usava farda militar e apontava um fuzil semiautomático 556 para todos eles. Todos estagnaram, ainda com Itachi ocupando a posição de líder, e não ousaram sequer respirar durante um único segundo. O militar sorriu friamente para eles, sem abaixar a sua arma:
— Onde é que vocês pensam que vão com essa pressa toda?
Kabuto, que havia se escondido atrás de Sasuke e Sakura inicialmente, ergueu as mãos e se colocou à frente do restante do grupo, ficando lado a lado com Itachi.
— O meu nome é Kabuto Yakushi. Sou o cientista que vocês devem escoltar até Kunashir. Estou com a cura — ele indicou para a bolsa de couro que trazia pendurada num ombro.
— E? — O homem inquiriu, passando os olhos pelo rosto de cada um deles. — Meu destacamento tinha ordens de escoltar um cientista até Kunashir, não um grupo inteiro. Não conheço e nem confio em nenhum de vocês. Que garantias podem me dar de que não vão estourar os meus miolos no momento em que der as costas?!
— Eles salvaram a minha vida, em Kyoto. E voltaram a salvá-la muitas mais vezes depois disso. E me trouxeram até aqui, algo que os seus semelhantes falharam em fazê-lo — respondeu. — Eles mereceram chegar até aqui. Também merecem ir conosco para Kunashir.
Kabuto olhou para o grande helicóptero militar atrás do homem.
— E, pelo que vejo, tem espaço de sobra lá dentro.
— Estou pouco me fodendo — o homem grunhiu, mirando mais alto com sua arma. — Não dou a mínima para nenhum de vocês. Tudo o que precisamos no fim das contas é da cura que o doutorzinho está carregando.
Kabuto suspirou no ar enregelante.
— Se me matar, o segredo da cura morre comigo. Eu e o meu superior a desenvolvemos. Fomos os únicos a obter sucesso com o resultado. Atire em mim e a única chance de salvarmos o que resta da humanidade será destruída.
Sakura olhou para o rosto plácido do biomédico, surpresa. Jamais o vira tão imponente antes, ou tão altruísta. As palavras de Kabuto deixaram o homem com dúvidas, por outro lado, e ele abaixou um pouco o fuzil semiautomático que segurava.
Itachi se aproveitou da deixa para também tentar uma abordagem mais diplomática e menos bruta. Tirou a alça da arma que trazia pendurada no ombro e, muito devagar, colocou-a no chão, erguendo as mãos como Kabuto. Os olhos do homem acompanhavam cada movimento dele com o máximo de atenção enquanto ainda cuidavam de se manter vigilantes sobre os demais.
— Ele está certo. Nós o salvamos e o trouxemos até aqui. Leve essas pessoas com vocês. Não apenas por que elas merecem, mas porque se não o fizer, se as deixar para morrer aqui, em algum momento terá de se preocupar em matá-las antes que elas arranquem um pedaço de você ou façam de você a refeição do dia. Se deixá-las para trás, vai condená-las.
Se Kabuto havia conseguido fazê-lo duvidar de suas palavras duras, Itachi havia definitivamente conseguido o feito de fazê-lo pender para o seu lado por um instante. E ele percebeu isso.
— O meu nome é Itachi. Como você se chama?
— Darui — ele respondeu.
Itachi curvou a boca num sorriso simpático.
— Darui, nós estamos do mesmo lado, eu garanto. Não deveríamos brigar uns contra os outros em tempos como este. Você pode confiar em mim, tem a minha palavra. E, para te mostrar como as minhas intenções são verdadeiras, contate os seus companheiros pelo rádio. Os dois homens que enviei para rendê-los já devem ter feito o trabalho.
— Filho da... — Darui recuou um passo, num salto, e voltou a erguer seu fuzil, mirando apenas em Itachi daquela vez.
— Faça o que eu disse — Itachi aconselhou e um lampejo de dúvida atravessou o rosto do outro.
Relutantemente, Darui aproximou a boca do rádio comunicador que trazia preso ao bolso do peito da farda. Não tirou os olhos dos estranhos nem se permitiu abaixar a guarda. Ainda não confiava em nenhum deles, muito embora estivesse tentado a tomar a palavra de Itachi como verdade.
— Shi? Omoi? Estão na escuta?
Apenas um suave chiado de estática respondeu-o do outro lado. Aflito, Darui tentou se comunicar com os parceiros de novo, com mais afinco, mas não obteve resposta da mesma forma. Com raiva, fitou Itachi, exigindo uma explicação:
— Que porra você fez com os meus parceiros?
A expressão serena de Itachi não se alterou nem por um momento.
— Não fiz nada, e nem pretendo fazer. Só espero que você confie em mim.
— Isso é a porra de uma piada para você?! — Darui cuspiu.
Itachi teve a desfaçatez de sorrir. Então olhou por cima do ombro a tempo de ver Naruto e Deidara aparecerem de trás do prédio do aeroporto. E eles não estavam sozinhos: traziam dois outros homens com eles, desarmados e imobilizados. Um era pálido e esguio, o outro negro e forte. Naruto e Deidara forçaram ambos a avançar até que se colocassem junto ao restante do grupo.
— Shi? Omoi? — Darui chamou-os e recebeu expressões carrancudas de ambos.
— Não os vimos chegando, Darui — disse o homem chamado Omoi, que tinha os mesmos cabelos louro-pálidos do outro. — Nos pegaram de surpresa, nos desarmaram e nos forçaram a vir até aqui.
— Mas não os machucamos — Itachi completou. — Como disse, estou tentando provar a você que pode confiar em mim. Em nós — deu ênfase, crispando o olhar ao fitar Darui como que para asseverá-lo de suas palavras.
Surpreendendo todos, Darui riu secamente, abaixando, por fim, o fuzil semiautomático que carregava.
— Merda. Você nos pegou. Isso eu tenho que admitir.
— Agora sim estamos conversando civilizadamente — Itachi aprovou e em seguida indicou para Naruto e Deidara.
Shi e Omoi tinham sido libertos logo depois disso. Correram para se colocar ao lado de Darui.
— Como sabe que avançamos para uma conversa civilizada? Não disse a você em nenhum momento em quantos estamos. Posso ter homens preparando uma emboscada para você e seu grupo agora mesmo.
— Não, você não tem — Itachi afirmou. — Se tivesse, Naruto e Deidara teriam os encontrado. Além disso, mais cedo, você estava angustiado para confirmar o paradeiro dos seus parceiros e tentou contatar apenas esses dois.
Um canto da boca de Darui se ergueu num meio sorriso mordaz.
— Você é mais espero do que eu pensei. — Suspirando, rendeu-se, e indicou para cada um dos seus parceiros: — Estes são Omoi e Shi, meus companheiros de pelotão. E, infelizmente, somos tudo o que sobrou da nossa unidade.
— Em quantos eram no começo?
— Trinta — Darui respondeu sem preâmbulos. — Tínhamos ordens de marcar um perímetro seguro aqui no aeroporto e então esperar pela chegada do cientista e da cura para levá-lo em segurança até a base militar em Kunashir. Nosso último contato com a unidade que deveria trazê-lo até nós aconteceu há muitas semanas. — Os olhos escuros dele escorregaram até Kabuto. — Perdemos todos os outros nesse meio tempo. Ainda assim, mantivemos a nossa missão. Mesmo com os nossos recursos escassos, o mau tempo e a porra dos mortos tentando forçar as nossas cercas. Tínhamos esperanças de que conseguiriam.
— Infelizmente, nenhum deles sobreviveu além de Kyoto — Kabuto comentou macambúzio.
Darui olhou para os rostos apreensivos de todos aqueles estranhos. A maior parte do grupo era de pessoas jovens, exceto pela menina de cabelos castanhos agarrada a uma mais velha que com certeza era menor de idade e as duas crianças. Suspirando, ele ergueu a arma pesada e a apoiou no ombro forte.
— Muito bem. Farei todos os preparativos e carregarei o helicóptero para que partamos em, no máximo, uma hora. Estejam preparados.
O sentimento de alívio e de triunfo foi compartilhado por todos. De repente, podiam soltar o ar que estiveram prendendo e respirar sossegadamente. Antes que Darui e seus homens se retirassem, lançou um olhar cortante ao grupo enquanto os advertia:
— Não tentem nada. Estarão mortos antes que sequer cogitem trair a minha confiança.
— Tem a minha palavra de que não desafiaremos a sua autoridade nem tentaremos nenhuma loucura — Itachi prometeu solenemente.
Darui murmurou consigo mesmo então partiu com seus homens no encalço. Depois disso, os preparativos para a extensa viagem pelo ar até a ilha de Kunashir começaram: Shi e Omoi carregaram o helicóptero militar com caixotes de metal que continham desde suprimentos até roupas, equipamentos e armamentos. Itachi e seu grupo fizeram o mesmo, descarregando os porta-malas dos veículos nos quais chegaram até ali.
Sasuke e Itachi estavam descarregando o porta-malas do último deles quando o mais velho deles se curvou de repente, gemendo de dor. Sasuke se aproximou para acudir o irmão, encostando a mão sem querer na testa dele e afastando-a quase no mesmo instante. Perplexo, recuou um passo.
— Você está queimando de febre. É a gripe. Não deveria estar aqui fora, exposto a esse tempo. Deveria descansar. Nós cuidamos do restante dos preparativos — Sasuke aconselhou, o semblante aflito pela saúde de Itachi.
Ainda assim, seu irmão forçou um sorriso cansado.
— Eu vou ficar bem, Sasuke. Prometo. E terei tempo suficiente para descansar em Kunashir. Todos nós teremos.
As palavras dele não aquietaram o coração de Sasuke. Tinha alguma coisa errada ali. Algo que Itachi não estava lhe contando. Decidiu que ficaria de olho no comportamento do irmão, e que o forçaria a descansar se fosse preciso. Mais tarde, ajudou Naruto a carregar o helicóptero com mais caixas de suprimentos que Darui e seus companheiros transportariam para a base insular.
— O Itachi está agindo estranho — Sasuke murmurou para o melhor amigo, apreensivo.
Naruto ergueu os olhos azuis para o céu cinzento e divagou por um instante.
— É, também notei isso. Peguei-o tossindo bastante mais cedo.
— Ele está ardendo de febre — Sasuke completou. — Ele deveria descansar, não se esforçar. Ele já fez demais pelo grupo, trouxe todos nós até aqui e ainda assim continua se forçando...
Naruto atingiu-o com o ombro num gesto camarada.
— Você conhece o Itachi melhor do que ninguém, Sasuke. Ele sempre se sacrificou pelos outros. Mesmo agora, ele sente que é dever dele assumir a posição de líder e proteger todos nós.
Sasuke franziu o cenho, irritado tanto com o comentário de Naruto quanto com o desleixo do irmão com a própria saúde.
— Eu só queria que ele pegasse mais leve e se preocupasse mais consigo mesmo.
— Ah, ‘tá aí uma coisa que eu também gostaria de ver num futuro próximo: o Itachi cuidando de si mesmo.
Antes da partida, Sasuke ainda foi se encontrar com Sakura. Ela tinha ido com os demais procurar abrigo do mau tempo no prédio do aeroporto. Lá dentro, protegido do vento cortante e da nevada que não cessava, tudo estava surpreendentemente limpo e organizado.
Ficou óbvio para Sasuke que Darui e os outros usavam aquele edifício como base já havia algum tempo. Toda a mobília tinha sido arrastada até um canto. As grandes janelas de vidro do edifício estavam sujas, porém intactas, protegendo os residentes das intempéries.
Sakura estava junto às crianças e às irmãs. Conversava com elas e sorria com ternura, assegurando-as de que fariam uma viagem tranquila e de que, em breve, estariam em segurança. Admirou-a por um momento, observando-a em segredo. Não estava surpreso que ela se desse bem com crianças, soubera desde o instante em que se conheceram que ela tinha uma personalidade cativante e magnética. Era espontânea e empática, e inteligente e corajosa, e doce e ousada. E ele a amava.
Aproximou-se dela, fazendo-a notar a sua presença. Sakura prometeu às crianças, uma vez mais, que tudo daria certo durante a viagem e pediu às irmãs Hinata e Hanabi que ficassem com elas até a hora da partida. Bastou que o olhasse para que entendesse que Sasuke queria conversar a sós com ela.
Então, ela pegou-o pela mão e o levou até o andar superior do edifício, que estava vazio. Uma vez sozinhos, ela o abraçou forte, apertando o rosto contra o seu peito. Sasuke se permitiu ser embalado por aquela sensação calorosa.
— Você continua tenso — ela observou, a voz abafada contra o couro da sua jaqueta. — Tem algo te incomodando.
Sasuke suspirou. Não fazia sentido mentir para Sakura ou esconder a verdade, não quando ela era capaz de enxergar através dele.
— É o Itachi. Está agindo estranho. E queimando de febre.
Ela desfez o abraço devagar, afastando-se para olhá-lo nos olhos.
— Não queria te deixar preocupado, por isso não te contei nada. Pedi para examiná-lo no outro dia, mas ele recusou. Muito educadamente, mas ainda assim... — Sakura mordeu o lábio. — Eu o vi vomitando no outro dia. Ele me garantiu que é apenas uma gripe, mas talvez seja prudente fazê-lo descansar tão logo embarquemos no helicóptero.
— Eu farei isso, nem que seja preciso forçá-lo — Sasuke prometeu.
— Pode contar comigo para isso — ela sorriu para ele, auspiciando encorajá-lo e melhorar o seu humor.
Inclinou-se e roubou um beijo rápido dele, roçando os lábios.
— Vai dar tudo certo. Em alguns minutos, subiremos naquele helicóptero e, então, finalmente estaremos livres desse pesadelo — ela garantiu com um sorriso doce.
Sasuke se sentiu um pouco melhor depois de ter falado com Sakura. Ela estava certa, convenceu-se. Em pouco tempo, os rotores daquele helicóptero levariam todos eles para bem longe daquele inferno. Talvez ele estivesse se afligindo à toa. Além disso, contava com a ajuda de Naruto e Sakura para lidar com Itachi e fazê-lo ver que mesmo líderes precisavam de repouso e descanso quando ficavam doentes.
Assim, quando a hora chegou, e Darui ligou os motores do helicóptero para testá-los e aquecê-los, conferindo uma última vez se não havia nada de errado, Sasuke estava muito mais confiante de que tudo realmente ficaria bem.
O grupo tinha se reunido do lado de fora, próximo ao helicóptero, enquanto os enormes rotores duplos — um atrelado a cada torre nas extremidades da fuselagem — ganhavam velocidade, girando cada vez mais rápido e produzindo um ruído ensurdecedor. Neve ainda caía, e o vento ainda uivava. O frio continuava intolerável, mas a esperança os mantinha aquecidos, tornava seus corações leves, faziam-nos esquecer, por um átimo, de tudo o que passaram para chegar até ali. Tudo o que sofreram, tudo o que perderem e tudo o que sacrificaram. A salvação era deles.
Posicionados na traseira do helicóptero, com a porta-rampa de embarque abaixada, eles foram autorizados a embarcar, aos poucos, enquanto Omoi e Shi tratavam de acomodá-los. Antes, todas as caixas de suprimentos, armamentos e equipamentos já tinham sido levadas para dentro, bem como empilhadas.
Kabuto foi um dos primeiros a entrar, ainda agarrado à bolsa de couro na qual levava a última esperança para toda a humanidade. Temari e Gaara embarcaram junto com Konohamaru e Moegi, as crianças tinham se tornado surpreendentemente afeiçoadas a eles depois que estes lhes salvaram as vidas. Então vieram os outros.
Hinata e Hanabi embarcaram logo antes de Naruto, que parou na metade da rampa para esperar por Sasuke, Sakura e por Itachi. Sakura foi à frente, espiando por cima do ombro a fim de esperar por Sasuke. Este, por sua vez, olhou para o irmão, aguardando. Itachi sorriu para ele e aquiesceu, incentivando-o a dar o primeiro passo.
Mas, então, Itachi se deteve, estagnando sobre a pista coberta pela neve branca.
— Eu não posso ir com vocês.
Sasuke, só uns passos mais à frente, também se deteve, virando-se com um semblante assustado para o irmão mais velho. Sakura, ao perceber que os dois não a estavam seguindo, também se deteve, virando-se para fitá-los.
— O que você disse? — Sasuke indagou, lívido.
Itachi suspirou dificultosamente. O rosto estava corado tanto pelo frio intenso quanto pela febre. Quando ergueu os olhos escuros para fitar o irmão, sua expressão se contraiu como se sentisse dor.
— Disse que não posso ir com vocês. Eu sinto muito, Sasuke.
— Que porra você está falando, Itachi?! Enlouqueceu?! — ele gritou em resposta, atraindo a atenção de todos os outros, inclusive daqueles que já tinham embarcado no helicóptero.
— Não, Sasuke, eu realmente não posso ir com vocês.
Sakura se afastou do helicóptero para se colocar ao lado de Sasuke. Encontrava-se incrédula a respeito da atitude repentina de Itachi, como ele. Sasuke se aproximou do irmão e colocou as mãos sobre os ombros dele. Flocos de neve espiralavam ao redor deles, soprados pelo vento glacial.
— Itachi, por que está dizendo isso?! Por que está agindo assim?!
— Porque eu fui mordido, Sasuke — respondeu-o, pegando todos de surpresa. — Eu fui mordido. Vou me tornar um deles. Eu não posso ir com você. Espero que me perdoe por isso.
— Não — Sasuke meneou a cabeça repetidas vezes, afastando-se, trêmulo, de Itachi, e deixando cair as mãos dos ombros dele. — Não, isso não é verdade. Isso não pode estar acontecendo! Não com você!
— É a verdade — declarou.
Devagar, Itachi levantou a barra do suéter de lã que usava para exibir um curativo na lateral do seu abdome, que ele também removeu a fim de expor o ferimento feito que havia por baixo. A ferida estava negra, a pele no local havia sido rompida violentamente; cerca de quatorze ou dezesseis lacerações profundas marcavam a tez pálida, que ainda secretavam sangue e pus. Veias negras circundavam-nas. Tinham o formato exato de uma mandíbula. Sakura cobriu os lábios e averteu o rosto assim que percebeu o que estava acontecendo.
Sasuke olhou para o ferimento do irmão com aturdimento. O choque da revelação de Itachi deixou-se desnorteado, praticamente sem chão. Foi como se o mundo inteiro desabasse de repente sobre a sua cabeça, soterrando-o. Havia um terror surdo tentando se libertar dentro dele, forçando o seu caminho através de todo o entorpecimento que nublava os seus sentidos.
Seu cérebro processou devagar todo aquele jorro de informações. Itachi tinha sido mordido. Quando? Por que ele não percebera nada de errado com irmão? O que havia de errado com ele para ter deixado passar os sintomas? Então, a verdade acertou-o em cheio como um trem descarrilhado. A febre, o cansaço, as náuseas, o comportamento retraído. Nunca foi uma gripe. Itachi tinha mentido.
Sasuke recuou mais passos, curvando-se e apoiando as mãos trementes nas coxas. Era um milagre que ainda conseguisse se manter em pé depois do baque que sofrera.
— Como isso aconteceu, Itachi? — ele ouviu a voz de Naruto e virou-se a tempo de se deparar com o melhor amigo, que o alcançou com uma expressão perturbada.
— Foi na floresta ao redor de Settsu — Itachi confirmou o óbvio. — Enquanto vocês fugiam, usei a mim mesmo como isca para desviá-los para uma rota diferente. Eles eram muitos, como você bem sabe. Um deles conseguiu levar a melhor sobre mim, só isso. — Ele curvou a boca num sorriso autodepreciativo.
— Por que não contou a ninguém? — Sakura o inquiriu, abalada.
— Porque não havia nada que pudessem fazer por mim. Eu decidi que manteria isso em segredo até onde conseguisse. Prometi a mim mesmo que traria todos vocês até aqui, para que pudessem embarcar naquele helicóptero. E eu fiz isso — admitiu num murmúrio condoído. — Eu cumpri a minha missão. Agora, acabou para mim.
Sasuke despertou como num estalo, todo o entorpecimento abandonou-o para dar lugar à raiva. Raiva de tudo e de todos. Raiva de Itachi por lhe esconder a verdade. Raiva de si mesmo por não ter percebido o óbvio. Raiva do mundo por ter lhe arrancado tanto e por continuar lhe arrancando. Agora, teriam o seu irmão mais velho. O irmão que ele amava.
— Não! — bradou e voltou a agarrar Itachi pelos ombros. — Esse não será o seu fim! Você não pode morrer assim, Itachi, não pode terminar desse jeito! Não você! Está me ouvindo?! NÃO VOCÊ!
— Estou condenado, Sasuke — respondeu-o, apático. — E já aceitei o meu infortúnio.
— Uma porra que você fez! — ele gritou de volta, lágrimas escorrendo pelo seu rosto transtornado; os dedos se apertavam como garras nos ombros de Itachi. — Nós temos uma cura, você se esqueceu?! Tem a porra de uma cura dentro daquele helicóptero!
— Não vai funcionar em mim — ele disse com tristeza, meneando a cabeça. — Acha que não conversei com Kabuto? Que não procurei entender como a cura funcionava a partir do momento em que fui mordido? Ele me garantiu que a cura não funcionaria em alguém que já tenha sido mordido. Ela só torna imunes aqueles que não foram expostos às secreções e fluídos deles. Já está na minha corrente sanguínea, entendeu? Já se espalhou pelo meu corpo inteiro e não havia a possibilidade de realizar uma amputação devido ao local onde fui mordido. Eu nunca tive a chance de ser salvo, e eu estou conformado com isso.
— Não — Sasuke voltou a negar, dessa vez mais fracamente. — Eu não vou aceitar isso. Eu acabei de te reencontrar... Não é justo.
Itachi forçou um sorriso cansado.
— Não, não é. Mas esse mundo jamais foi justo, principalmente conosco. Mas está tudo bem, contanto que você viva e esteja seguro eu ficarei em paz. — Ele ergueu os olhos para olhar para Sakura e Naruto, que o olhavam com compaixão. — Você não estará sozinho também. Isso me conforta.
— Eu não vou aceitar isso! — Sasuke bradou, com raiva de novo.
Da porta-rampa do helicóptero, Omoi chamava-os para que embarcassem. Eles tinham de partir, e tinham de fazê-lo agora. Itachi, percebendo uma deixa, puxou Sasuke para um abraço apertado. Seu irmão chorava e tremia.
— Eu te amo — disse a ele. — Eu sempre vou te amar. Me perdoe por isso, Sasuke.
Sob os olhares incrédulos de Naruto e Sakura, Itachi recuou um cotovelo e desferiu um soco forte no estômago de Sasuke, que chegou a se curvar pela dor, cuspindo saliva enquanto todo o ar deixava os seus pulmões. Aproveitando a deixa, Itachi desceu o cotovelo contra a nuca do irmão com uma pancada. Sasuke estava inconsciente no instante posterior ao golpe, e amparado pelos braços do irmão.
Naruto e Sakura correram ao mesmo tempo até ele e Itachi entregou-o aos dois de bom grado, e com um semblante de gratidão. Pegando-o cada um por um braço, apoiaram o peso de Sasuke enquanto Itachi se afastava.
— Por favor, mantenham-no a salvo e longe de problemas.
Chorando, ambos assentiram ao mesmo tempo e deram meia-volta para carregar Sasuke até o helicóptero. Os rotores ainda giravam, mas o helicóptero ainda não havia decolado. Arrastaram Sasuke pela rampa de embarque e, uma vez que entraram, Omoi deu o comando para que Darui a erguesse e fechasse.
Sakura e Naruto ficaram olhando para Itachi, sozinho, em meio a toda aquela neve até que a porta se fechasse por completo, selando-os dentro do helicóptero. Havia uma pistola na mão direita dele, mas eles jamais ouviram o som do disparo. Naruto ajudou Sakura enquanto ela se sentava no chão e acomodava a cabeça de Sasuke no seu colo. Então, ele enterrou as mãos no rosto e se permitiu chorar.
Ela passou os dedos pelo rosto inconsciente de Sasuke, acariciando-o. Teria de confortá-lo assim que ele acordasse. Não seria fácil, sabia disso. Curvou-se e depositou um beijo terno na testa dele. Lágrimas ainda molhavam o seu rosto. Quando ergueu os olhos, todos os outros a fitavam, sentados em bancos estreitos e com cintos afivelados ao redor dos corpos. Alguns o faziam por curiosidade, já outros partilhavam da tristeza que sentia, por ele, por ela, não fazia diferença.
Os rotores giraram mais rápido, e mais rápido ainda, e o helicóptero, por fim, decolou. Sakura soube precisar o momento em que abandonaram o chão e se alçaram em direção ao céu. Seu estômago se contraiu devido à ansiedade. Procurou pela mão de Sasuke e a apertou na sua em busca de algum conforto.
De alguma forma, por mais que já estivessem a caminho de Kunashir, ela sentiu que o pesadelo ainda não havia terminado. Que a luz no fim do túnel pela qual tanto ansiara não passou de uma ilusão. E que ela tinha se deixado ludibriar por uma esperança que jamais existiu, de fato.
Estavam salvos, ela poderia ter dito a si mesma, mas não passariam de palavras vazias. Agarrou-se mais a Sasuke e rezou para qualquer deus que se dispusesse a ouvi-la enquanto o helicóptero chocalhava e sacolejava, levando todos eles em direção ao paraíso que lhes fora prometido.
Voaram num céu cinza-gelo com a enormidade do horizonte invernal sempre à frente e com nuvens densas encobrindo o sol. E a luz diurna que transpassava a grossa camada de nuvens era pálida, fria e mortiça.
Talvez, naquele mundo que jazia morto, aquele tipo de luz enfermiça e apática fosse a única a conseguir triunfar.
* * *
Esperando por ele...
Pelo dia que nunca chega
Quando eles se levantarão e sentirão o calor outra vez
Mas a luz do sol nunca chega
Não, a luz do sol nunca chega.
Metallica — Trecho de The Day That Never Comes
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