Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
58 Capítulo LVII: A Dádiva dos Indulgentes
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Por alguns instantes, eles ficam no vestíbulo, recuperando o fôlego coletivamente, os olhos arregalados diante das espantosas ruínas diante deles. Ninguém se mexe por muito tempo. Tem alguma coisa naqueles destroços que os deixa embasbacados — e colados à entrada”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 191).
* * *
Capítulo LVII:
A Dádiva dos Indulgentes
* * *
A viagem até a cidade de Hirakata foi estranhamente silenciosa e inesperadamente tensa. Nos bancos de trás do jipe militar, Sasuke e Sakura se recuperavam de mais uma experiência traumatizante à qual sobreviveram e escaparam ilesos. A nevasca os havia apanhado uma hora depois que deixaram as sombras e os fantasmas de Settsu para trás, os flocos de neve se acumulando no para-brisa e a temperatura decaindo a cada minuto.
Sakura se aconchegou ao corpo de Sasuke em busca de calor. Itachi dirigia o jipe com segurança pela autoestrada, estavam agora cruzando a Via-expressa Meishin, seguindo em direção ao norte a uma velocidade constante. Chegariam ao anoitecer em Hirakata, a cidade que o grupo de Itachi estabeleceu como base, e depois que descansassem e se abastecessem com todas as provisões teriam uma longa viagem até Shizuoka, a destinação final de toda aquela jornada que continuava a lhes prometer uma passagem para a terra prometida: a ilha de Kunashir, ao norte de Hokkaido e atualmente sob o poder dos militares russos.
— Então, me fale mais sobre essa ilha, Sasuke. E como exatamente o cientista pretende convencer os militares russos a nos deixar ficar lá.
Itachi tinha começado uma tentativa de diálogo com o seu irmão mais novo, os olhos escuros observando a expressão dele pelo retrovisor central. Sasuke se remexeu no banco, mas sem se mover muito. A garota bonita de cabelos cor-de-rosa que o acompanhava tinha adormecido com a cabeça encostada ao ombro dele. Itachi também tinha reparado nos olhares aliviados que trocavam de tempos em tempos, o modo como seus corpos estavam próximos e o modo como Sasuke a observava de vez em quando, com uma ternura nos olhos que não escaparam sua à atenção como irmão mais velho.
— Kabuto garantiu que nos ajudaria caso o mantivéssemos vivo e o levássemos até Shizuoka. De acordo com o que nos disse, há uma unidade militar à espera dele com um helicóptero abastecido e pronto para decolar.
— Vamos torcer para que ainda estejam vivos, e para que tenham mantido a palavra de esperá-lo — Itachi comentou, pragmático.
— Kabuto está com a cura para toda essa merda — Sasuke retrucou. — Eles não seriam tão imbecis ao ponto de se esquecerem disso.
Itachi aquiesceu. Naruto, que esteve silencioso até li, virou-se para o amigo com um pequeno sorriso.
— Não tivemos tempo de conversar direito ainda, Sasuke, mas eu ‘tô doido para saber como você veio parar tão longe de casa. Parece que se passaram anos desde a última vez em que nos vimos, mas foi há menos de um ano que tudo aconteceu.
Naruto estava certo. Tinham se despedido há pouco mais de meio ano, mas, de alguma forma, as jornadas duras que percorreram para chegar até aquele ponto tinham transformado ambos em pessoas completamente diferentes. O perfume adocicado da morte pairava entre eles como um lembrete de que perderam pessoas amadas para aquele mundo enlouquecido. Pensar no segredo que escondia de Itachi amargou o humor de Sasuke; não conseguiria evitar as perguntas do irmão por muito tempo. Em algum momento ele quereria saber o que aconteceu ao seu pai e à sua mãe.
Um silêncio denso perdurou durante o restante da viagem até a cidade de Hirakata. E, ao anoitecer, eles chegaram à base de Itachi, o hotel que ele escolhera tanto devido à sua localização para o caso de uma fuga se fizer necessária quanto pela estrutura do edifício permitir que eles enxergassem qualquer ameaça a uma boa distância e, com isso, conseguissem responder à altura.
Ainda nevava, e o entardecer pálido tornou-se um ocaso escuro em pouco tempo. Rajadas de vento congelantes agitavam as árvores nuas nos meios-fios, chacoalhando os galhos retorcidos e esquálidos como dedos envergados. A ausência do luar tornou aquela noite sombria num breu absoluto. Apenas os faróis do jipe militar clareavam as ruas desertas, projetando fachos de luz compridos ao longo do caminho que terminavam por alongavar ainda mais as sombras de tudo o que tocassem.
O jipe estacionou em frente à entrada do hotel Goen Lounge and Stay, seguido pelo Honda Fit vermelho que o seguira de perto o tempo inteiro. Sasuke acordou Sakura delicadamente para informá-la de que tinham chegado. Ela piscou os olhos, sonolenta, então olhou à sua volta com mais atenção, localizando-se num segundo.
— Chegamos em Hirakata?
— Sim. Sãos e salvos — Sasuke completou.
Ela suspirou em resposta. Em seguida, Naruto e Itachi saíam do jipe, e Sasuke e Sakura seguiram-nos, descendo do veículo. A noite invernal e insuportavelmente fria fez todos tremerem sob os seus casacos assim que se expuseram ao ar gélido e à neve que era soprada pelo vento cortante. Sem demora, correram para dentro do hotel, abrigando-se do vento e do frio.
Kabuto já estava lá dentro, acompanhado de dois rostos estranhos: um homem loiro de olhar maníaco, e outro moreno carrancudo. O homem loiro foi quem se manifestou:
— Missão concluída, chefe. Trouxemos todos conosco vivos e... — ele esticou o olhar de um azul muito claro para Sasuke, os lábios se curvando num meio sorriso: — inteirinhos. Então, você é o irmãozinho do Itachi, não é? Você é mais alto do que eu imaginava. Mas tem a mesma cara de cuzão do seu irmão. O meu nome é Deidara. Que é? Por que tá me olhando com essa cara azeda? Quer chupar o meu pau?
— Cai fora — Sasuke o rechaçou, irritado, as palavras ásperas soando como uma promessa de recorrer à violência caso o outro insistisse nas provocações.
Kabuto soprou as mãos geladas e olhou de soslaio para os dois homens prestes a entrar numa discussão.
— Podem medir os paus mais tarde, vocês dois. Temos assuntos importantes a resolver ainda. — Virou-se para Itachi em seguida, o rosto transformando-se numa máscara. — O grupo que você mandou atrás da minha cura em Kyoto...
— Descobriremos se tiveram sucesso em algumas horas — Itachi respondeu. — Eles devem estar de volta antes da alvorada. Vamos todos descansar e recuperar as forças enquanto isso — recomendou a todos.
Itachi foi o primeiro a deixar o vestíbulo do hotel, seguido por Deidara e por Kiba, e então por Kabuto. Naruto ofereceu a Sasuke um sorriso antes de se virar para seguir seu caminho também:
— O Itachi ‘tá certo. Vamos todos descansar e aproveitar essa calmaria. Mais tarde, vou querer conversar com você, Sasuke.
Naruto averteu os olhos claros para Sakura.
— E receio que não tenhamos sido apresentados ainda... Eu sou o Naruto, o melhor amigo desse grande babaca aí do seu lado — disse, oferecendo uma mão para que ela o cumprimentasse.
Sakura sorriu, aceitando a mão estendida e estendendo a sua de volta para apertá-la.
— Eu sou Sakura. Ouvi bastante a seu respeito, para falar a verdade. — Sentiu uma pontada de dor no peito quando se lembrou de Karin, do rosto dela ensanguentado enquanto a vida se esvaía do seu corpo.
Naruto não percebeu sua mudança abrupta de humor, pois se virou para Sasuke outra vez.
— Ah, fiquem à vontade para ocupar um dos quartos vagos do hotel — indicou para as escadas. — Os quartos no terceiro andar estão quase todos desocupados. Eu ‘tô indo nessa, vou deixar vocês dois mais à vontade.
Sasuke aquiesceu, e então ele se foi. Restaram ele e Sakura no vestíbulo do hotel. Sasuke se virou para ela, oferecendo-a uma expressão complacente.
— Vamos descansar. Estamos mesmo exaustos.
Ela abriu um pequeno sorriso e, juntos, eles rumaram em direção às escadarias, à procura de um quarto vago no qual pudessem dormir e relaxar por algumas horas. Sasuke decidiu que procuraria pela cozinha assim que estivessem devidamente instalados. Estava faminto, e apostava que Sakura se encontrasse numa situação similar.
Instalaram-se num dos quartos no terceiro piso, desfrutando do conforto de uma cama e da segurança de quatro paredes à volta deles depois de terem passado o dia todo expostos ao ar livre e ao hálito dos mortos baforando nas suas nucas.
Sakura tirou a jaqueta pesada que usava e jogou-a sobre o encosto de uma poltrona encostada num canto. Lançou-se sobre a cama de casal em seguida, recostando-se aos travesseiros. Inclinou-se sobre o lado direito do corpo para vasculhar o conteúdo de duas pequenas gavetas de uma mesa de cabeceira. Assim que encontrou um livro qualquer, deslizou os dedos pela lombada amassada e voltou a se recostar nos travesseiros, abrindo-o para folheá-lo de forma aleatória.
Sasuke também tirou a sua jaqueta e a colocou na poltrona onde Sakura deixara a sua. Ele se sentou na mesma poltrona, inspirando e expirando devagar, embora sua postura rígida sugerisse que não conseguiria relaxar tão cedo. Tombou a cabeça no encosto da poltrona, fitando o teto do quarto de hotel. Os dedos tamborilavam nos braços do móvel, incapazes de permanecer quietos um momento que fosse.
Sakura abandonou o livro quando percebeu que não conseguiria se concentrar o bastante, e se deitou de lado para encarar Sasuke.
— Você está tenso. Por quê?
Sasuke franziu o cenho, desgostoso.
— Não estou tenso — apressou-se em negar.
— Não tente mentir para mim nem para si mesmo. Tem a ver com o seu irmão, não é? Está com... medo de encará-lo.
Sasuke se levantou num movimento abrupto, correu os dedos pelo cabelo preto desgrenhado e cerrou os dentes. Por um instante, a raiva o deixou cego: sentiu raiva de tudo e de todos. Sentiu raiva dos vivos e dos mortos. Sentiu raiva do mundo fodido que o obrigara a se tornar um sobrevivente, ou um monstro, aos seus olhos não havia diferença. E sentiu raiva de si mesmo, acima de tudo.
— Como vou contar a ele o que aconteceu com os nossos pais? Como vou olhar nos olhos dele e dizer a verdade horrenda, Sakura?
Sakura se colocou de pé num movimento fluído. Em três instantes, estava diante dele, as mãos macias ao redor das faces dele.
— Você vai encontrar coragem para fazer o que é certo. Você sempre encontra, Sasuke.
Ele se reclinou de encontro ao toque dela, procurando tirar forças da ternura que ela lhe transmitia. Fechou os olhos, apoiando-se em Sakura, e os braços dela estavam ao seu redor antes que os percebesse.
— Você vai conseguir — ela lhe disse. — Nada do que houve foi culpa sua, não se esqueça disso.
— Eu poderia ter detido o meu pai, antes que as coisas saíssem do controle — ele retrucou, a voz embargada.
— Você fez o que pôde, Sasuke. Nunca duvide disso.
Sakura acariciou suas costas uma última vez antes de soltá-lo. Quando se afastou para fitá-lo, estava sorrindo, apesar do semblante evidentemente exaurido e de haver sujeira na sua pele e cabelo. Ela nunca se cansava de surpreendê-lo, e ele sempre a achava linda, mesmo nos momentos mais inoportunos e especialmente quando sorria daquela forma com os olhos verde-claros aquecendo-se em resposta ao sorriso.
— Você deve estar com fome — ele observou, desfazendo o enlace porque percebeu, de repente, que o seu peito estava pesado demais devido a todos aqueles sentimentos; precisava se recompor, não estava habituado a parecer tão vulnerável diante de alguém, mesmo essa pessoa sendo Sakura.
— Sim, eu estou — Sakura concordou. — Vamos descer, procurar algo que possamos comer e, talvez, até possamos conhecer um pouco o grupo que o seu irmão reuniu.
* * *
Desceram até a cozinha do hotel, atraídos pelo cheiro de um caldo grosso que cozinhava sobre um fogão à lenha improvisado. Duas jovens irmãs cuidavam do preparo do jantar naquela noite. Sakura ficou impressionada com o quanto elas se pareciam uma com a outra, pois tinham os mesmos olhos leitosos, e ainda assim não poderiam divergir mais em personalidade.
A mais velha, chamada Hinata, era excepcionalmente tímida e retraída, enquanto a mais nova, que se chamava Hanabi, era extrovertida e espontânea. Elas se apresentaram para Sasuke e Sakura, e em seguida pediram para que eles se servissem. O que haviam preparado consistia numa sopa de feijão vermelho esmagado servida com bolinhos de arroz como acompanhamento.
— O meu nome é Sakura — ela se apresentou para a mais velha, intuindo se tratar de uma boa pessoa; Hinata tinha uma expressão gentil e olhos bondosos.
— Muito prazer em te conhecer — Hinata disse em resposta enquanto estendia uma tigela para Sakura. Ela então se virou para Sasuke: — E eu suponho que você seja o Sasuke. O Naruto me falou muito de você.
Sasuke se limitou a aquiescer, sempre reservado e resguardado, a expressão severa praticamente ilegível.
— O Naruto salvou a minha vida, e a vida da minha irmã — Hinata continuou, sem se deixar desanimar pelo silêncio taciturno de Sasuke. — Depois, tivemos a sorte de encontrar o Itachi e o seu grupo. Aposto que vocês dois passaram por muita coisa também.
— Sim — Sakura concordou com um meio sorriso. — Mas o importante é que estamos todos juntos agora, e provavelmente a caminho de sairmos de todo esse inferno.
— O cientista que veio com vocês...
— Kabuto — Sakura assentiu. — Ele detém a cura para tudo isso. E é a nossa passagem para uma ilha ao norte de Hokkaido que está sob o poder de militares russos. Há um helicóptero à espera dele em Shizuoka. — Suspirou. — Eu só quero que esse pesadelo termine o mais depressa possível.
Hinata apertou os dedos ao redor da outra tigela que segurava e comprimiu os lábios.
— É o que todos nós queremos — confessou, otimista, mostrando-lhe outro sorriso gentil.
Sasuke se serviu e, juntos, eles se dirigiram para o cômodo onde as refeições no hotel foram realizadas, um dia, por hóspedes despreocupados e ignorantes do apocalipse que espreitava. Algumas velas tinham sido acendidas e repousavam sobre as mesas compridas, aclarando o recinto. Cera derretida escorria sobre a madeira escura da mobília, mas estava tudo muito aconchegante. O mais importante era que estavam protegidos da nevasca que caía lá fora e que se aprofundava noite adentro.
Acomodaram-se numa das mesas, com Sasuke se sentando de frente para Naruto, e Sakura terminou ocupando o espaço ao seu lado. Ela soprou a sopa de feijão vermelho e virou a tigela para tomar um gole. Estava quente, cremosa e era a coisa mais deliciosa que ela já comera em semanas.
— Sasuke — Naruto atraiu a atenção do amigo: — Agora, me conte. Como veio parar tão longe no interior de Honshu? Na última vez em que nos vimos, você me disse que não podia vir comigo, que precisava ficar em Komatsushima para cuidar da sua mãe.
Ele soprou o vapor que subia de sua tigela e também tomou um longo gole da sopa. Sasuke abaixou a cabeça e se permitiu fechar os olhos por um momento, sua expressão tornou-se perturbada.
— Aconteceram... muitas coisas. Meus pais... morreram e eu acabei ficando sozinho. Não tinha planos de sair de Komatsushima para falar a verdade.
— A culpa foi minha — Sakura murmurou com um pequeno sorriso a fim de descontrair a aura pesada que pairava sobre a mesa. — O Sasuke salvou a minha vida lá em Komatsushima e me acolheu. Então, ouvimos sobre o centro de refugiados em Yokohama e tentamos alcançá-la, mas aconteceram tantos imprevistos no meio do caminho... Até que fomos parar em Settsu e conseguimos fazer contato com o Itachi.
Naruto parecia impressionado mesmo com o relato conciso que Sakura forneceu. Ela esperava que não fosse pressionada por detalhes. Contar a Naruto sobre todos os percalços que superaram não seria fácil; algumas feridas ainda estavam frescas, eles ainda estavam se recuperando de todo o horror que viveram nas últimas semanas e ela sentia que desmoronaria se tivesse de revivê-lo tão cedo.
Ele pareceu compreendê-la perfeitamente, pois não pediu por mais detalhes e se limitou a anuir e a sorrir com gentileza para ela. Sakura ainda remoía o fato de que teria de contar a ele sobre o destino de Karin. Ela não ansiava para que aquele momento chegasse.
Hinata e Hanabi chegaram logo em seguida e se sentaram cada uma de um lado de Naruto. Foi fácil conversar com as irmãs sobre quaisquer outros assuntos que não envolvessem o fim do mundo ou a morte. Nas outras mesas, mais pessoas desfrutavam de uma refeição agradável, conversando entre os intervalos nos quais comiam.
Sakura acariciou o braço de Sasuke e perguntou como ele estava se sentindo e se precisava que ela desse uma olhada nos pontos do seu ferimento. Ele garantiu que estava bem em resposta, mas se retirou cedo, dizendo que estava cansado e que queria dormir um pouco.
Um tempo depois, ela também se levantou da mesa, pedindo desculpas à Hinata e Hanabi. Foi em direção a Naruto, que conversava com o rapaz moreno de cabelos espetados que viera com eles de Settsu e que ela descobriu mais tarde se chamar Kiba.
— Naruto, podemos conversar? — pediu a ele com uma expressão aflita que entregava seu nervosismo. — A sós — enfatizou, lançando um olhar de desculpas ao rapaz.
— Claro! — Naruto concordou sem pestanejar e Kiba se retirou com um aceno para ambos.
Sakura se apertou contra a parede, esperançando tornar aquela conversa difícil algo privado. Queria mais do que tudo respeitar os sentimentos de Naruto e assegurar-se de que ninguém mais a ouviria. Quando olhou para o semblante animado dele quase desistiu, porém se manteve firme. Ela devia a ele a verdade, era o mínimo que poderia fazer por Karin.
— Eu precisava conversar contigo. É sobre... a Karin — disse num tom baixo e embargado.
— A minha prima? Você a conhece? Não a vejo desde Komatsushima. Ela não quis ir para Yokohama conosco, embora os meus pais tenham insistido bastante para convencê-la. Honestamente, hoje em dia não sei se teria sido uma boa ideia trazê-la conosco. Depois da epidemia de gripe, o centro de refugiados se tornou um verdadeiro pandemônio. Muitas pessoas morreram.
Sakura assentiu, um nó se formando na garganta e tornando cada palavra mais difícil de ser pronunciada.
— Eu soube o que aconteceu. Encontrei outros sobreviventes que conseguiram escapar do centro de refugiados. Infelizmente, fomos atacados tanto por hordas quanto por outros grupos de sobreviventes e acabamos nos separando, mas...
Ela lambeu os lábios, estava desviando-se do assunto. Não podia fraquejar.
— Mas não é sobre isso que quero conversar com você. É sobre a Karin. Nós encontramos a sua prima em Komatsushima. Foi ela quem convenceu a mim e ao Sasuke de que deveríamos tentar chegar ao centro de refugiados, antes de sabermos que ele nem mesmo existia mais. Ela estava conosco, Naruto, mas então nós fomos atacados por um grupo que estava armado e que nos emboscou na ponte Akashi Kaikyo. Eu tentei protegê-la, eu juro — confessou, não conseguindo impedir as primeiras lágrimas de se derramarem pelo seu rosto. — Eu tentei, Naruto... Mas fomos alvejados e ela acabou baleada.
A voz de Sakura minguou ao término. O semblante de Naruto já não exibia o júbilo de outrora. Ela enxugou o rosto molhado na manga do suéter que usava, fungando.
— Eu tentei salvá-la, mas ela estava perdendo muito sangue. — Respirou fundo antes de concluir: — Ela morreu bem diante dos meus olhos.
Naruto abaixou a cabeça e suspirou.
— Eu sinto muito. Sinto muito mesmo por não ter conseguido salvá-la, Naruto.
De repente, Sakura sentiu um toque terno no alto de sua cabeça. Ergueu os olhos marejados e encontrou o rosto de Naruto. Ele tinha olhos tão azuis quanto o céu num dia limpo e ensolarado, mas eles tinham se tornado um pouco marejados.
— Não se culpe. Eu sei que você fez o que pôde pela Karin e estou feliz porque ela não estava sozinha nos seus últimos minutos de vida. Você é uma garota especial. Entendo por que o Sasuke se apaixonou por você.
Sakura piscou, cética, então ele sorriu a fim de amainar um pouco da angústia que ela sentia.
— Eu vi o modo como ele estava abraçado a você, lá na floresta. Estou contente por ele ter encontrado alguém como você.
Sakura terminou de enxugar os olhos e, no fim, também conseguiu expressar um sorriso pequeno para Naruto. Ela decidiu que era hora de se retirar depois disso, subindo as escadas e encontrando o quarto que ocupava junto com Sasuke.
Abriu a porta e se moveu pelo quarto às escuras, procurando pela cama. Tirou os coturnos e desmanchou o rabo de cavalo. Sentou-se primeiro no colchão, testando-o. Olhou para o rosto de Sasuke e encontrou-o já adormecido. Acomodou-se sob os cobertores e descansou a cabeça no travesseiro.
A alvorada do dia seguinte traria bem mais do um novo dia, traria a promessa de salvação para todos eles. Se ao menos o grupo que partiu em busca da cura retornasse são e salvo.
* * *
Sasuke tinha ouvido os passos de Sakura quando ela entrou no quarto. E também sentiu o colchão afundar quando ela se juntou a ele na cama. Permaneceu imóvel, quase sem respirar, por mais um tempo indefinido. Então se levantou silenciosamente, sem despertá-la, calçou os coturnos e saiu do quarto.
Desceu os degraus da escada um de cada vez. Seus pontos incomodavam um pouco, nada intolerável, mas ele não tinha contado isso a ninguém. Estava cansado de depender dos outros, estava cansado de se sentir fraco. E, ainda assim, agora ia ao encontro do irmão com o único propósito de vomitar a verdade horrenda do que acontecera em Komatsushima tantos meses atrás.
Era muito tarde. Todos os outros já haviam se recolhido, e uma nevasca selvagem ainda caía lá fora. O vento uivava nas janelas como um lobo faminto e solitário. O frio da madrugada deixou Sasuke arrepiado, mas não seria um covarde. Não voltaria atrás.
Foi encontrar Itachi na recepção do hotel, muito desperto e muito insone, como sabia que o encontraria. O irmão sempre sofrera de insônia e tinha muita dificuldade para dormir. Talvez aquele novo mundo que não permitia que os sobreviventes dormissem com os dois olhos fechados tivesse agravado aquilo no fim das contas.
Ele estava sentado numa das poltronas de couro com o olhar perdido e as mãos descansando vazias sobre o colo. Velas bruxuleavam na semiescuridão, queimariam até que nada restasse delas. Diante de Itachi, na mesa de centro, havia um copo enchido até a metade com uma bebida dourada e faiscante. Uma garrafa de uísque aberta se encontrava ao lado. O irmão parecia mais pálido sob a luz das velas com olheiras fundas sob os olhos escuros. Sasuke se aproximou sem se fazer anunciar e ocupou a poltrona diante do irmão.
Sem pedir permissão, pegou o copo e bebeu um gole. A bebida desceu queimando pela sua garganta até se assentar no seu estômago, espalhando ondas de fogo pelas suas entranhas. O calor era bom, contudo, especialmente numa noite invernal como aquela.
Itachi o fitou com um meio sorriso.
— Ainda me lembro do dia em que te flagrei furtando o saquê do papai. Você tinha quatorze anos e me disse que só estava experimentando, que só estava querendo desafiar o velho um pouquinho.
Sasuke também sorriu, a memória evocada por Itachi era agridoce e lhe encheu o peito, deixando seu coração pesado no peito.
— Eu poderia ter me tornado um delinquente se você não tivesse me mantido na linha. Desafiar o velho era tudo o que eu mais queria nesse mundo. Mas aí você me convenceu a não fazer nenhuma merda porque isso magoaria a nossa mãe.
“Pensando bem, talvez eu devesse ter feito exatamente isso. Talvez eu devesse ter levado aquele maldito até o limite. Isso estraçalharia a fantasia de família perfeita que a nossa mãe alimentava, mas pelo menos me daria o prazer de olhar para a cara daquele desgraçado e de ver o quanto eu o afetava.
Itachi suspirou e se reclinou na ponta da poltrona. Esticou o braço e pegou a garra de uísque. Serviu uma dose generosa no copo sobre a mesa e a bebeu num único gole sem nem ao menos pestanejar.
— Tem razão. Nós poderíamos ter nos imposto sobre ele. Nós poderíamos tê-lo mandado se foder e sair juntos daquele lugar. Era o que nós dois deveríamos ter feito. Ou pelo menos, era o que eu deveria ter feito por você. Me desculpe por não ter te protegido, Sasuke.
— Você não precisa pedir desculpas para mim — Sasuke se adiantou. — Você foi vítima das merdas dele tanto quanto eu. Ele nos controlou desde o momento em que nascemos. Ele nos moldou e ditou a forma como deveríamos viver as nossas vidas durante cada maldito segundo. E o que isso fez de nós, Itachi? Monstros ou sobreviventes?
— Ambos — Itachi admitiu com amargura.
O silêncio pairou sobre os irmãos por um longo momento. Não se ouvia nada mais que não fosse o uivo do vento lá fora. Era sufocante, Sasuke decidiu. De repente, Itachi se empertigou e fitou o rosto do irmão.
— Você teve que matá-lo, não teve?
Sasuke cerrou os dentes e abaixou a cabeça, enterrando os dedos nos cabelos.
— Ele era um monstro, Itachi. Era a porra de um monstro. Eu tentei detê-lo, tentei dizer a ele que não podia fazer aquilo com pessoas inocentes. Ou foi isso o que disse a mim mesmo para tentar me inibir da culpa que sinto. Porque a verdade é que eu podia tê-lo impedido muito antes. Eu podia ter salvado todas aquelas pessoas e evitar que ele as servisse como alimentos para a nossa mãe, mas eu não fiz, Itachi. Eu não fiz porque era fraco e porque senti medo.
“Até que, numa noite, eu cheguei ao meu limite. Eu não podia continuar a permitir que ele cometesse aquelas atrocidades. Então eu peguei uma das armas dele, eu o embebedei e eu atirei nele, Itachi. Eu puxei o gatilho. E foi tão fácil. Foi assustadoramente fácil puxar o gatilho. E, no fim, eu coloquei a arma contra a minha cabeça e pensei em seguir o maldito, mas não consegui. Eu desisti. Eu viveria. Viver foi a forma que encontrei de desafiá-lo mesmo depois que ele se foi.
Itachi se levantou da poltrona e se agachou diante do irmão mais novo. Envolveu-o num abraço apertado como há tempos desejava fazê-lo. Sasuke sempre seria o seu irmãozinho. Faria tudo o que podia e até o que não podia para protegê-lo, para mantê-lo vivo. Pouco importava o preço.
— Está tudo bem, Sasuke — murmurou contra o cabelo do irmão.
Então, ele deixou toda a dor e todo o arrependimento fluir. E chorou com os braços de Itachi à sua volta, apertando o rosto contra o seu ombro, negando as lágrimas mesmo depois de tudo o que confessara ao irmão.
Permaneceram ali durante toda a madrugada, embora não tenham trocado mais qualquer palavra. E, pela manhã, conforme um pálido alvorecer se consolidava no horizonte invernal de Hirakata, o grupo que Itachi enviou à Kyoto para recuperar a cura retornou.
Temari e Gaara não traziam consigo um único arranhão e carregavam com orgulho uma maleta prateada com tranca digital reforçada e um teclado pequeno para a digitação de senhas. Reunidos no saguão do hotel, todos olharam com expectativa para Kabuto, que se aproximou e tirou a maleta das mãos de Temari, inspecionando-a cuidadosamente e averiguando se a tranca estava intacta.
— Está aqui — declarou. — A cura está aqui. Ninguém mexeu na minha maleta.
— Então podemos partir. Ainda hoje. Em direção à Shizuoka — Itachi comentou.
— Sim, vamos dar o fora daqui — Kabuto ecoou. — Vamos todos dar o fora desse inferno.
* * *
Por toda a sua vida foi assim
Ele batalhou constantemente
Uma luta que ele não pode vencer
Um homem cansado, qualquer um vê que não se importa mais
O velho homem então se prepara
Para morrer cheio de arrependimentos
Aquele velho homem, aqui, sou eu.
Metallica – Trecho de The Unforgiven
Fale com o autor