Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
52 Capítulo LI: O Estirão dos Resgatados
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Enquanto desce, Philip sente que os olhos prateados dos mortos-vivos o observam, atraídos pelo ranger metálico das escadas, os sentidos primitivos o rastreando, sentindo o cheiro dele e as vibrações que emana, como aranhas sentem que um inseto caiu na teia. Silhuetas escuras, que Philip nota pela visão periférica, se arrastam lentamente na direção dele, se amontoando a partir da frente do prédio, para investigar”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 139).
Capítulo LI:
O Estirão dos Resgatados
* * *
Sakura dirigiu por cerca de quarenta minutos antes de perceber as colunas brancas de fumaça que subiam em direção ao céu cinza-gelo de inverno. Rezando para que não viessem da direção que pareciam vir, ela acelerou o Suzuki Swift, se permitindo o luxo de forçar o motor um pouco mais.
Consultando o mapa aberto sobre o volante, concluiu que estava se aproximando do primeiro hospital, a leste do agora lamacento rio Yodo: o Hospital de Daijukai. Uma intersecção da Rodovia 14 com a 19 a levou a cruzar o que restara do rio semicongelado pelas nevascas ferozes dos últimos dias.
De lá, seguiu para o norte, ciente dos flocos de neve que caíam sobre o para-brisa do Suzuki estarem crescendo em quantidade exponencialmente. Ela precisava se apressar antes que a nevada se tornasse outra nevasca e a impossibilitasse de chegar ao seu destino — ou de voltar dele, isso se voltasse.
Não, trincou os dentes e negou-se a assimilar o pensamento pessimista. Sasuke dependia dela, não podia fraquejar, não podia fracassar. Ela conseguiria entrar no hospital, pegaria os medicamentos dos quais ele precisava e partiria. Era simples. Simples até demais, refletiu com uma pontada de sarcasmo. E é óbvio que haveria obstáculos durante a trajetória, mas não se importava, faria o que tinha de ser feito, o restante não importava. A saúde de Sasuke era sua prioridade no momento.
Achou mais prudente ligar os limpadores enquanto os prédios cinzentos e abandonados passavam como borrões pela janela do motorista. Viu poucos errantes durante o trajeto, vagando a esmo pelas ruas congeladas com suas passadas desengonçadas e eles logo ficaram para trás, silhuetas encardidas nos espelhos sujos dos retrovisores.
No banco do carona, havia uma mochila abastecida com o pouco que ela havia encontrado para a jornada. A caixa pesada com os sinalizadores estava por baixo e Sakura sabia que faria bom uso deles, se não hoje em algum outro dia não muito distante, por isso resolveu mantê-los consigo, para o caso de precisar deles.
Outra intersecção a levou direto para a Rodovia 1, estava se aproximando agora do hospital e seu estômago se revirava com o que poderia encontrar. Seguiu pela margem esquerda do Rio Yodo e, por fim, chegou à sua última destinação. O prédio alto e inteiramente branco, e com grandes janelas destacava-se das demais construções, exceto por carregar os mesmos estigmas do apocalipse que os demais: a sujeira acumulada na sua fachada, fruto do abandono, algumas vidraças trincadas ou estilhaçadas e o imenso pátio frontal atulhado de ambulâncias tombadas, barricadas improvisadas com pedaços de ferro e madeira...
...E mortos-vivos.
Sakura freou o Suzuki Swift com brusquidão, pálida, com os olhos verdes esbugalhados em pânico e o coração acelerado pressionando suas costelas. Mortificada, tentou contar o número de mortos-vivos que se amontoava na fachada do hospital, mas percebeu cedo demais que era impossível.
A freada brusca e o guincho dos pneus no asfalto escorregadio imediatamente chamou a atenção das centenas de errantes que se aglomeravam na entrada do hospital, fazendo com que centenas de pares de olhos vazios e mucosos se voltassem para ela, olhos que adquiriram um brilho macabro ao encontrarem-na ali, indefesa e pálida no banco do motorista do Suzuki, apanhada como uma lebre numa armadilha. O coro de gemidos e rosnados roucos a despertou do transe estranho que a aprisionou tanto quanto aprisionou os mortos.
Cerrando os dentes pelo pânico, apressou-se ao trocar a marcha e afundar os pés nos pedais, fazendo os pneus cantarem e derraparem no gelo fino do asfalto. Os primeiros errantes — os mais próximos — tocaram o capô do carro com suas mãos deformadas enquanto as bocas se abriam conjuntamente a fim de exprimirem mais gemidos famintos e ansiosos.
Sakura deu a ré a toda velocidade, sem olhar para trás, e como resultado bateu num dos cadáveres que se arrastava pela rua. Sentiu o tranco quando um dos pneus passou por cima da criatura, mas ignorou a ânsia e o medo crescente que a ameaçavam empurrar diretamente para o abismo do desespero.
Mesmo nervosa, manobrou o Suzuki, virando-o num ângulo de quarenta e cinco graus e trocou a marcha novamente antes de impelir o veículo pela rua, secando as lágrimas de raiva e de medo que molhavam seus cílios. Deixou a horda para trás em poucos minutos, voltando por onde viera. Teria de voltar até a intersecção da Rodovia 14 com a 19, cruzando o rio Yodo, para retornar à margem esquerda e seguir para o noroeste, para o outro hospital, o único que lhe restava.
Recusando-se a se deixar levar pelo medo de que o hospital de Shinsei se encontrasse na mesma situação, Sakura decidiu testar o rádio para se distrair. É claro que todas as transmissões já haviam sido encerradas há meses, mas mesmo o chiado da estática a tranquilizaria um pouco. Remexendo-se no banco, ela baixou os olhos para o mapa, voltando a estudá-lo, e seguiu para o norte, pela Rodovia 16; Shinsei não estava longe.
A porção racional do seu cérebro lhe dizia que se o hospital de Shinsei não fosse viável, ela não teria muita gasolina para se afastar ainda mais e procurar por outro hospital. Poderia até encontrá-lo, mas não haveria combustível suficiente para a viagem de volta. Suspirou. Então, era isso, era Shinsei ou... Nada.
Percorreu a rodovia 16 sem quaisquer incidentes e decidiu tomar isso como um bom presságio, precisava se agarrar a qualquer gota de otimismo que pudesse ou acabaria chorando e se rendendo ao desespero que até então mantivera sob controle, aqueles sussurros cruéis que espreitavam as bordas da sua mente tumultuada.
Em pouco tempo, localizou-se no mapa, num bairro de edifícios menores, repleto de colégios e escolas. Vasculhou as ruas enquanto os flocos de neve eram soprados por cima do para-brisa e empurrados para fora pelos limpadores ligados. Avistou um imenso prédio branco com grandes vidraças — como o anterior — com o coração aos saltos no peito, com a diferença perceptível de que não havia errantes dessa vez ocupando sua entrada.
Sua sorte enfim estava mudando.
* * *
Sasuke acordou de sobressalto em lençóis amarfanhados e ensopados pelo seu próprio suor. Ofegando, demorou a se situar, a se lembrar de tudo o que havia acontecido nos últimos dias.
Na realidade, o latejar no lado esquerdo do seu abdome foi o único motivo pelo qual não sucumbiu a mais um dos delírios febris que estivera tendo desde que seu estado de saúde se agravou. No último sonho, que ele jurou ser real, estava de volta a Komatsushima, de volta ao apartamento da família.
Com a diferença de que, no sonho, seus pais estavam vivos, seu irmão estava lá, e Naruto e até mesmo Karin. E, por fim, havia Sakura, com seu sorriso resplandecente e seus olhos vívidos, colorindo tudo. No sonho, o mundo ainda era o mundo, violento à sua própria maneira, mas não beirava o insano. No sonho, ele estava feliz e completo.
Apalpando o colchão, ainda com a respiração descompassada, ele em vão procurou pelo corpo de Sakura. Virou a cabeça no travesseiro e achou o espaço ao seu lado inconsolavelmente vazio. Ignorando a dor que se propagou por todo o seu corpo no momento em que se moveu, Sasuke se sentou apoiado à cabeceira da cama e os cobertores caíram sobre o seu colo.
— Sakura — chamou-a num fiapo de voz dolorido, suor escorria pela sua testa e porejava seu peito, grudando as roupas ao seu corpo; achou que um dos antitérmicos que ela lhe dera antes enfim havia começado a fazer efeito — não que fosse durar.
Estremecendo devido ao ar frio, Sasuke apoiou a mão logo abaixo das costelas enquanto empurrava as pernas moles para fora da cama. Roçou as meias no tapete felpudo que revestia todo o assoalho do quarto e jogou os cobertores para longe. Estava farto de ficar naquela cama.
Calçou os coturnos e vestiu sua jaqueta, gemendo de dor quando precisou levantar demais o braço esquerdo para vesti-lo na manga, o movimento enviou uma onda devastadora de dor por todo o seu corpo.
— Sakura — chamou-a um pouco mais alto dessa vez, forçando a voz, mas não se levantou de imediato.
Buscou pela garrafa de água que ela deixou no criado-mudo para ele e a levou aos lábios secos. Bebeu um pouco mais do que deveria, mas não conseguiu se importar. Decidido a sair daquele quarto, manquejou até a porta, não conseguindo conter o impulso ridículo de apertar as ataduras que cobriam seu ferimento.
— Sakura, onde você está? — murmurou para as paredes frias e indiferentes, apoiando-se no corrimão assim que chegou à escada. — Sakura, porra, cadê você?!
Descendo cada degrau com extrema dificuldade enquanto a ferida no seu abdome queimava sobre a sua carne, Sasuke chegou à base da escada e desfranziu o rosto quando se deparou com um Kabuto encabulado sentado num dos sofás. Piscando, ele manquejou para perto do biomédico, que se recusava a olhá-lo diretamente.
— Cadê a Sakura? — perguntou num tom baixo mas ameaçador e notou o enrijecer dos ombros dele.
Arregalando os olhos e empalidecendo momentaneamente, ele voltou a se apoiar no corrimão da escada enquanto era apanhado por uma vertigem inesperada. Cerrou os dentes, recusando-se a digerir aquele silêncio denso que permeava o cômodo, a tensão que praticamente gotejava das paredes.
Uma raiva perigosa subiu pelo seu peito e travou sua garganta, levando-o a cerrar e descerrar os dentes apenas para exprimir outro palavrão em um rosnado quase bestial.
— CADÊ A SAKURA, PORRA, RESPONDE! — exigiu do biomédico, finalmente arrancando uma reação digna dele, que estremeceu e se levantou do sofá, olhando-o pela primeira vez.
— Você não deveria estar se esforçando — disse ao levantar as mãos diante do corpo num gesto cauteloso, defensivo demais. — Sakura não deve demorar. — E engoliu em seco.
Tomado pela fúria — e ainda se recusando a assimilar a verdade inescapável, a verdade que enxergou nos olhos dela no instante em que ela o olhou naquele quarto —, ele saiu da sala mancando e, decidido, vasculhou a cozinha e a despensa atrás dela emitindo grunhidos de dor e de raiva a cada vez que se frustrava por não encontrá-la. Então, se arrastou de volta à sala, de volta à figura pálida do biomédico, plantada no meio do cômodo com os olhos levemente arregalados.
— CADÊ ELA, CACETE?! —exigiu, apertando com mais força as ataduras contra a sua mão. — RESPONDE!
— E-ela saiu — balbuciou antes de engolir com dificuldade de novo. — Foi buscar remédios, antibióticos para ser mais preciso — ele ajeitou os óculos redondos na face, equilibrando-os sobre o nariz fino. — Para você — complementou e viu Sasuke desfranzir o cenho e descerrar os lábios, relaxando as feições tensas, mas não por alívio e sim para que um novo sentimento o dominasse por completo: o medo.
— Ela saiu sozinha? — sussurrou num tom tão contido, parecia temer a resposta que obteria.
— Ela precisou, a sua febre... — o biomédico se interrompeu quando notou o abismo nos olhos escuros de Sasuke, ao menos no olho bom, que não estava inchado. — Pediu que eu cuidasse de tudo até voltar — acrescentou numa tentativa de amenizar a tensão que tomava todo o cômodo e que emanava de Sasuke.
O vazio nos olhos dele, entretanto, desapareceu de repente e deu lugar a uma determinação férrea.
— Aonde ela foi?! — inquiriu e Kabuto suspirou, ao menos não estava praguejando e rosnando.
— Há dois hospitais na região que ela decidiu verificar.
— Onde? — ele pressionou e Kabuto empalideceu.
— Não sei, não vi o mapa direito — desculpou-se com frustração evidente, mas Sasuke tinha franzido o rosto de novo para ele, insatisfeito com sua resposta vaga. — Ela achou um carro com gasolina e tudo mais! — disse na esperança de atenuar a raiva que voltara a tomar as feições do outro.
— Você vai procurar um carro com gasolina agora. — Foi o que ele disse e avançou para cima do biomédico, agarrando a gola do seu suéter com a mão livre e encarando-o olho no olho. — Entendeu, porra?!
— Por quê? — conseguiu articular, encarar Sasuke furioso de tão perto era bastante assustador.
— Porque vamos atrás dela ou eu acabo com você — ameaçou e o brilho frio no seu olhar não mentiu.
Ao notar que Kabuto ainda não havia se movido, entretanto, ele o empurrou com outro rosnado e outro praguejar impróprio, lançando o homem para trás com força, que se chocou contra o sofá, não se estatelando por cima do móvel por muito pouco:
— ANDA, PORRA! NÃO TEMOS O DIA TODO!
— Mas a Sakura... — ele tentou argumentar com bom-senso e Sasuke trincou os dentes.
— VAI! — berrou para o biomédico que se aprumou, com pressa, e saiu pela porta da frente.
Sasuke sabia que ele faria exatamente o que havia mandado. Não queria ficar sozinho, era covarde demais para isso. Estremecendo de dor pela primeira vez, ele buscou apoio no sofá e se sentou com a mão ainda pressionada contra o ferimento latejante.
Era difícil acreditar que Sakura havia saído sozinha e desarmada para encontrar remédios para ele. Sabia que aquele lapso da infecção não duraria muito, podia sentir a febre retornando vagarosamente para consumir sua carne de novo. Eu estou fodido, pensou com amargura, mas sua maior preocupação era mesmo Sakura.
Pensar nela sozinha e assustada nas ruas geladas daquela cidade o paralisava de medo.
Por que fez isso?, ele se perguntava. Por que se arriscaria tanto por ele? Para salvá-lo?
Arquejando de dor, Sasuke curvou o corpo, escondendo a cabeça entre os joelhos, e se permitiu afundar no sofá. Só um pouco, disse a mesmo com convicção. Descansaria ali só um pouco antes de ir atrás do biomédico.
Não tinha muito tempo de qualquer forma.
* * *
O hospital de Shinsei estava calmo, mais calmo na verdade do que ela havia imaginado — e era isso a assustá-la. Debatendo consigo mesma dentro do Suzuki, Sakura suspirou profundamente antes de desligar o motor do carro e remover as chaves da ignição.
Apanhou a mochila no banco do carona e abriu a porta, estremecendo quando uma rajada de ar gelado a atingiu. Flocos de neve ainda descolavam das nuvens cinzentas que cobriam todo o céu e acumulavam-se sobre as fachadas dos edifícios e sobre o meio-fio. Estava apreensiva com a possibilidade de outra nevasca como a de dias atrás.
Fechou a porta com um ruído mínimo e colocou a mochila nos ombros. Numa das mãos, tinha o pé-de-cabra, sua única chance de defesa contra qualquer um — morto ou vivo.
Sakura percebeu que havia encarado demais a fachada silente do hospital, então decidiu se mover. Caminhou na direção do prédio alto e estreito, tomando cuidado com o gelo fino que cobria o chão. Havia uma ambulância abandonada à sua esquerda, com as portas traseiras escancaradas e seu interior sujo de sangue. Ela a ignorou conforme seguia para o edifício num ritmo contínuo.
Segurou o pé-de-cabra entre as duas mãos diante do corpo, separando-as bem, assim que ouviu gemidos abafados à distância. Um único errante recuou do edifício, das portas de vidro escancaradas, manquejando até ela com passos desengonçados, os olhos mortos brilhando ao focarem nela.
Ela cerrou os dentes e apertou o passo, interceptando o errante. Levantou ambos os braços e golpeou o morto com o pé-de-cabra na cabeça podre, enfiando a extremidade reta no seu crânio molenga. A boca do morto se abriu uma última vez, mas seus olhos se apagaram instantaneamente. Puxando o pé-de-cabra, Sakura o libertou do zumbi, enquanto o cadáver desabava sobre o concreto congelado.
Olhou-o com repugnância só uma vez antes de retomar o ritmo de suas passadas e invadir o que foi, um dia, a recepção do hospital. Havia cadeiras quebradas espalhadas pelo piso claro e muito lixo também. Manchas de sangue antigas — entre outros fluídos — decoravam as paredes. Mas não havia nenhum errante, e isso era bom.
Engolindo em seco, avançou pelo recinto, evitando alguns cacos de vidro e pedaços de mobília. Passou pelas portas duplas escancaradas e entrou em um corredor longo, mal iluminado, uma vez que a luz diurna permeava o interior do edifício com extrema dificuldade.
Havia várias salas adjacentes com macas ensanguentadas ou tombadas, ou ambos. Poltronas e cadeiras eram escondidos sob tanto lixo e escombros. Sakura sabia que precisava chegar ao almoxarifado do hospital, o local onde eram armazenados todos os medicamentos e instrumentos úteis. Havia uma placa na parede indicando um elevador e uma escada de emergência no fim do corredor, e foi para lá que ela seguiu, apreensiva.
Ia passando por uma das salas contíguas quando um errante se chocou contra o vidro da janela. Conteve um grito quando a mulher de cabelos de medusa arranhou o vidro com suas unhas podres e forçou o rosto medonho, abrindo a fechando a boca a fim de emitir uma série de gemidos famintos.
Por sorte, alguém havia tomado de fechar a porta daquele recinto, aprisionando a mulher lá dentro. Relaxando os ombros tensionados, Sakura olhou-a uma última vez antes de seguir em frente. Encontrou o elevador e a escada, como a placa havia indicado.
Ignorou as portas escancaradas do elevador e a ausência deste, enquanto um coro de gemidos fraco subia pelo poço, certamente vindo do subsolo. Puxou a maçaneta da porta de ferro e estremeceu quando suas dobradiças guincharam alto, preenchendo aquele silêncio sepulcral.
Sem perder tempo seguiu pelas escadas de metal, ciente de que teria de verificar piso por piso para encontrar o que tão desesperadamente precisava.
* * *
Sasuke olhou do biomédico, que carregava o carro com coisas que encontrou dentro da casa e em outras residências (sabia que não voltariam mais ali de todo modo), para o Nissan Leaf cromado estacionado no meio-fio. Achou que o homem não faria nada direito, mas ficou surpreso por seu desempenho e rapidez ao executar o que ele lhe pediu.
Kabuto mal o olhava, as mãos ainda tremiam levemente do errante que dizia ter matado, na residência a um quarteirão dali, onde encontrou tudo o que precisavam para a viagem.
Sem lhe dizer uma única palavra, mesmo um elogio pela performance, ele manquejou pela calçada até o automóvel e abriu a porta do carona, deslizando com dificuldade para o assento.
Kabuto fechou o porta-malas e contornou o veículo para se acomodar no banco do motorista. Sem se manifestar também, girou a chave na ignição e deu a partida no motor do carro. Sasuke se contentou em desdobrar o mapa que ele havia arrancado de uma lista telefônica que encontrou em outra casa, o mesmo que Sakura usara para traçar seu objetivo, Kabuto informou.
O homem de cabelos claros manobrou o veículo pela rua desabitada e olhou Sasuke de soslaio, prestando atenção no caminho.
— Para onde vamos primeiro?
Sasuke estudou o mapa com interesse e observou os dois pontos no mapa que indicavam os dois únicos hospitais da região. Daijukai estava do outro lado da margem do rio e implicava pegar muitas intersecções. E seu instinto lhe dizia para conferir o outro primeiro.
— Vamos ver o de Shinsei primeiro.
— Tem certeza? — Kabuto questionou e tombou o rosto para ele por um momento, soerguendo uma única sobrancelha cinzenta.
Sasuke se irritou e isso causou um espasmo tanto de dor quanto de frio em seu corpo castigado pela moléstia.
— Só cale a porra da boca e pegue a Rodovia 16. Você só precisa fazer isso.
— Tudo bem, entendi — ele aquiesceu e voltou a olhar para a rua.
Sasuke afundou no assento e cerrou os dentes para não se deixar sucumbir à febre que já dava indícios de estar voltando. Estava com frio, tanto frio, e o ferimento sob as ataduras queimava ainda mais do que antes.
Quanto tempo ele tinha?, perguntava-se. Rezava para que fosse o bastante, o bastante para encontrar Sakura e se certificar de que ela ficaria bem e segura.
Mesmo que ele não resistisse ao final de tudo isso.
* * *
Temari e Gaara desceram da cabine do caminhão armados e prontos para enfrentarem os sujeitos se fosse necessário. Apesar de haverem piscado os faróis para eles num primeiro momento, ainda não tinham motivos para acreditar que aquelas pessoas só queriam dialogar.
Rajadas fortes de vento sopravam os flocos de neve ao redor deles e sobre a estrada; o céu era um breu absoluto, e suas únicas fontes de luz eram os imensos faróis do caminhão. Temari deixou as crianças na cabine e garantiu que voltaria em breve com um sorriso.
Coordenando os passos, os irmãos avançaram pela pista congelada da estrada de Daini-Kehan, enquanto dois homens vinham ao seu encontro, suas silhuetas esguias fortemente iluminadas pelos faróis do jipe do qual desceram, o veículo da ponta da frente do comboio. Temari julgou que um deles haveria de ser o líder.
Mesmo que eles viessem com passadas relaxadas e desarmados, ela não se permitiu abaixar a guarda e manteve o fuzil Abakan AN-94 diante do corpo, um olho na mira e um dedo pronto no gatilho. Gaara vinha com uma de suas Magnum .44 novinhas, a outra permanecia escondida sob a jaqueta.
Conforme a distância diminuía, ela reparou nos traços do primeiro homem, o mais alto e aparentemente mais velho: pele pálida e cabelos negros e lisos em contraste, compridos o bastante para ele amarrá-los num rabo de cavalo baixo. Vestia roupas escuras e um casaco grosso de lã. Suas feições lhe pareceram familiares, de uma forma estranha.
Já o outro, o mais baixo e jovem, tinha um tom de pele mais bronzeado e uma cabeleira curta e espetada, os fios louros brilhavam sob os faróis que iluminavam toda a noite como um halo sobre a sua cabeça. Apesar disso, havia uma ferocidade indiscutível nos seus olhos claros.
As duas duplas coligiram rápido e, não obstante, Temari e Gaara não abaixaram suas armas ao alcançarem os estranhos.
— Quem são vocês? — exigiu, mantendo o mais velho, o que parecia mais experiente e emanava a palavra “perigo” na mira do seu fuzil.
Entretanto, suas feições suaves não enrijeceram em momento algum quando ele estendeu uma mão para ela, levando Gaara a enrijecer por reflexo, ainda que seu aperto cordial tenha sido ignorado:
— Não se preocupe, não somos um perigo para vocês e, de verdade, posso entender seu comportamento cauteloso. Também faz semanas que não encontramos outro grupo.
Gaara fez uma careta para as palavras do estranho e se espantou quando a irmã abaixou a arma, deixando-a pendurada pela alça de couro num dos ombros. Apesar disso, a linguagem corporal de Temari ainda gritava cuidado.
— Meu nome é Temari e este é o meu irmão, Gaara — disse, apontando para ele, então franziu o cenho e baixou a voz para um tom ameaçador: — Mas você não me disse quem era.
O estranho abriu um sorriso suave para ambos, como se pedisse desculpas por sua falta de polidez.
— Meu nome é Itachi e este é o Naruto — apresentou-se, também indicando seu parceiro, que mudou o peso de uma perna para a outra, demonstrando impaciência. — Espero que não tenham a impressão errada a respeito de nós, só estamos de passagem.
Ela apertou os lábios e debateu consigo mesmo se deveria acreditar naquele homem. Ele parecia sincero, mas parecer não tinha o mesmo significado de ser. E a desconfiança ainda a regia.
— Para onde estão indo? — perguntou e sabia que a resposta seria decisiva para o desfecho daquele diálogo.
Itachi e Naruto se entreolharam por um momento breve antes que ele murmurasse:
— Estamos procurando por uma pessoa, um cientista na verdade. O pedido de socorro dele veio dessa região há alguns dias, é importante que o encontremos o mais depressa possível.
Ao ouvir isso, Temari empalideceu e arfou através dos lábios entreabertos.
— Também estão procurando pelo doutorzinho?! — indagou com um timbre agudo, fruto de sua surpresa genuína, e o homem mais velho notou.
— Vocês também ouviram a transmissão? — ele perguntou com cuidado e Temari aquiesceu.
— Mais do que isso, estivemos um tempo com ele, lá em Kyoto. O nome dele é Kabuto e o filho da puta escondeu a cura na cidade e se recusou a nos dizer onde estava até ter certeza de que o meu grupo era de confiança.
— E onde ele está agora? — Itachi inquiriu com mais urgência e os ombros da moça despencaram, ele notou — um mau presságio.
— Infelizmente, fomos atacados ainda em Kyoto por outro grupo e o doutorzinho foi capturado. Meu irmão e eu invadimos o acampamento deles, mas quando limpamos o lugar ele já havia desaparecido sem deixar rastros.
— Onde foi isso? — Itachi perguntou com visível interesse, piscando os olhos negros e profundos.
— Mais ou menos uns trinta quilômetros atrás. — Foi Gaara, o garoto ruivo, a respondê-lo com consternação.
— E não têm ideia de onde ele pode estar agora? — Naruto, o jovem loiro, se manifestou pela primeira vez.
Temari balançou a cabeça, incomodada com a frustração que sentia por isso. Ela, mais do que ninguém, tinha motivos para querer encontrar o biomédico com vida e, com isso, chegar à cura. O bebê que crescia no seu ventre dependia disso. Sua promessa para Shikamaru de construir um novo mundo para o filho de ambos dependia disso.
Itachi trocou outro olhar cheio de significados com Naruto e então ambos assentiram.
— Talvez valha a pena voltarmos até esse lugar e procurar por pistas, mas receio que no meio dessa nevasca seja impossível — concluiu.
Temari concordou e em seguida acrescentou:
— Não sei se vocês são de confiança, mas se vão procurar pelo doutorzinho, então não há dúvidas de que eu vou junto. Preciso encontrar essa cura e levá-la até Kunashir.
— Não precisa ter medo — ele a assegurou com um tom extremamente persuasivo. — Queremos tanto consertar esse mundo quanto vocês, acredite.
Apesar de não estar totalmente convencida, decidiu que daria ao tal Itachi o benefício da dúvida, por mais que não conseguisse apagar aquela sensação de que já havia visto o rosto dele em algum lugar. E aquele sentimento perseguia seus pensamentos com veemência.
Itachi abriu outro sorriso encorajador e simpático tanto para ela quanto para Gaara:
— Suponho então que queira nos indicar o ponto exato onde perderam o cientista de vista.
Estava prestes a assentir quando foi atingida por uma súbita sensação de reconhecimento, um lampejo distante de memória, de uma noite fria e escura em que sentara em torno da fogueira com Shikamaru e com Sasuke e Sakura enquanto ele estudava uma fotografia com atenção.
— Espera! — exigiu do tal Itachi, estendendo uma mão para ele, que a olhou com os olhos levemente esbugalhados.
Aqueles olhos pretos e profundos, aqueles mesmos traços finos e aristocráticos, embora entalhados no rosto daquele homem com mais delicadeza e sutileza.
— Você conhece alguém chamado Sasuke? — ela arriscou seu palpite, rezando para estar certa e foi a vez do homem empalidecer e arfar discretamente.
— Sasuke? — Surpreendentemente foi o loiro a ecoar o nome num tom agudo, tomado pela emoção. — Vocês acharam o Sasuke? — perguntou, mas não houve a resposta.
Então, o tal Itachi se recompôs devagar antes de olhá-los com mais atenção, com uma intensidade que não mentia, não negava o quanto ouvir aquele nome havia mexido com ele.
— O Sasuke... — pronunciou o nome baixo, com dificuldade. — Ele é o meu irmão.
* * *
Bom Senhor, ouça meus lamentos
Eu fiquei sem maneiras de Te dizer
Morto, apenas flutuo ao mar;
Porque eu tenho sangue ruim
Sangue ruim
E o Senhor não vai querer nada
Do que eu tenho.
Alisson Mosshart Feat. Eric Arjes — Trecho de Bad Blood.
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