Dead World Assembly - Assembleia do Mundo Morto
5 Capítulo IV: A Era dos Afogados
Notas iniciais
Dead World Assembly
“Brian ergue o taco. Fica no mais absoluto silêncio. Está voltando a aprender a dinâmica do medo: quando você está com muito, mas muito medo, você não fica tremendo, como mostram nos filmes. Você fica parado, como um animal arrepiado”.
KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 35).
Capítulo IV:
A Era dos Afogados
Sakura estudou a sala de estar em completo silêncio. Finos e compridos fachos de luz esgueiravam-se pelas fendas das tábuas de madeira e dos pedaços de pano usados para vedar as grandes janelas; o mormaço macambúzio ardia por trás delas com uma sutil intensidade.
Uma densa crosta empoeirada repousava sobre o assoalho e o cheiro de naftalina mesclava-se ao odor mofado desconfortavelmente familiar de ambientes que ficam fechados e sem ventilação por tempo demais. Havia poucos móveis dispostos ao longo do cômodo; uma solitária cadeira com estofado acolchoado, uma mesa de mogno, um sofá que foi arrastado para os fundos, sob a janela, e com uma manta xadrez estendida sobre ele. Os papeis de parede descascavam nas paredes, tão abandonados quanto o restante daquele cômodo parcamente escurecido parecia sugerir.
E agora o garoto que a salvara havia desaparecido dentro daquele apartamento. Ela não sabia o que fazer, não sabia se deveria entrar, mas se sentiria idiota se ficasse parada ali, diante da porta escancarada, plantada no corredor.
Engolindo em seco, ela tomou sua decisão; colocou um pé diante do outro e mordeu o lábio quando a madeira do assoalho rangeu sob o seu peso. Equilibrou-se estupidamente em uma das pernas enquanto curvava-se e alcançava com os dedos ainda trêmulos os cadarços esgarçados do seu coturno. Tirou um, e depois o outro, deixando-os diante dos pequenos degraus. A sensação áspera do piso gelado nas solas nuas de seus pés deu-lhe um choque de realidade — que ela conteve rapidamente.
Sakura caminhou até o meio do cômodo, sentindo-se mais insegura e amedrontada do que já podia se recordar — ali, cercada pelas sombras anormalmente diurnas — e a ferida acima de sua sobrancelha continuava latejando dolorosamente, lembrando-a do sangue fresco que corria do seu olho esquerdo até o queixo.
Mas em um instante, o garoto estava de volta, pisando duro e com um olhar raivoso que não parecia particularmente direcionado a ela, mas que ainda assustava. Em silêncio, ele cruzou o cômodo, passou por ela, e estacou diante de um armário, abrindo-o e alocando algo ali dentro. Ela inclinou-se discretamente, tentando espiar seu conteúdo, mas as costas do garoto bloquearam seu campo de visão e logo ele a fitava novamente, descartando a jaqueta de couro velha e depositando-a sobre o encosto da única cadeira remanescente.
Então, ele lhe dirigiu as primeiras — e arrogantes — palavras em longos e torturantes minutos:
— Qual é a do cabelo cor-de-rosa? — perguntou com um tom monocórdio, mas que facilmente denotava a curiosidade e até mesmo a incredulidade.
Sakura piscou e tocou uma mecha do próprio cabelo, uma que descansava sobre o seu ombro. Seu cabelo já tivera dias melhores com certeza; ele estava sujo e ressecado e ela facilmente encararia uma horda de zumbis com as mãos nuas só para obter um pouco de xampu e condicionador.
Limpando a garganta de leve, tratou de recuperar a sua compostura.
— Vai me dizer que nunca sofreu com a moléstia da rebeldia durante a fase da adolescência?
Ele sorriu torto e algo dentro dela se retorceu; inopinada e inesperadamente, o garoto levantou a bainha de sua camiseta surrada e expôs uma grande tatuagem negra que escalava o osso do seu quadril e enrolava-se acrobaticamente até as costelas pouco salientes por baixo dos músculos esguios: um intrigante dragão que se contorcia como uma serpente e fitava-a de volta com ferocidade. A tatuagem negra contrastava de forma gritante contra a pele pálida.
— Impressionante — ela admitiu e isso o levou a sorrir torto de novo. — Sakura — entoou com uma indiferença que certamente não seria sua. — Sou Sakura.
— Hn. Sasuke — ele respondeu calmamente e deu-lhe as costas, desaparecendo em uma das portas, voltando antes que ela pudesse contar até vinte, mas desta vez trazia nas mãos o que ela reconheceu como sendo um kit de primeiros-socorros.
Com um floreio habilidoso do pulso, jogou o pequeno objeto para ela, que o apanhou sem dificuldade:
— O banheiro é na segunda porta à direita no corredor. Tem água encanada, mas minha hospitalidade vai, infelizmente, até aí só.
Sakura não conseguiu conter o sorriso bobo que redesenhava a curva de sua boca.
— Tem água encanada aqui ainda?!
— O prédio tem uma cisterna que capta a água da chuva — ele explicou com um dar de ombros. — Não que tenha chovido muito nos últimos dias.
A possibilidade de um banho — ainda que frio — fascinou Sakura, no entanto, havia pormenores que impediriam a concretização da sua felicidade.
— Todos os meus pertences ficaram no carro — ela lamentou e, em resposta, ele a encarou beligerante.
— Algumas das minhas roupas podem servir em você.
Ela subitamente sentiu ondas de calor subindo através do seu pescoço e ameaçando esquentar as suas bochechas. Virou-lhe as costas então, para esconder o quão encabulada estava se sentindo.
— Hmm, obrigada... Eu acho.
— Vou deixar as roupas e uma toalha para você na porta do banheiro em alguns minutos.
— Certo, obrigada novamente — desvencilhou-se de qualquer hipótese de fitá-lo no olho, comprimindo o kit contra o peito.
Apressou-se pelo corredor, mas, antes de entrar, ouviu-o murmurar às suas costas:
— A propósito, onde uma garota interiorana como você aprendeu a atirar daquele jeito?
Se antes ela queimava por embaraço, agora estava corando violentamente pelo súbito elogio.
— Hmm, tive um ex-namorado que não se conformou exatamente com o término da relação — ela esclareceu relutante.
Sasuke emitiu o que lhe pareceu um som de esgar, e ela prosseguiu, corrigindo-o:
— E eu não nasci no interior, na verdade sou de Tóquio.
Fechou a porta suavemente e encostou-se à sólida estrutura, fitando o teto branco por um tempo inesgotável. O banheiro estava igualmente escuro, apesar das paredes de azulejos brancos absorverem todo e qualquer feixe luminoso. Havia uma única janela e a luz diurna atravessava precariamente o vidro grosso e ondulado.
Com um suspiro, ela aproximou-se do balcão de mármore da pia e fitou seu reflexo no espelho logo acima. Gemeu quando seu olhar encontrou o ferimento acima da sua sobrancelha esquerda. Ela estava suja, cansada e agora sua pele estava manchada de rubro.
Primeiro um banho, alegou para si mesma e certificou-se da porta estar trancada antes de começar a se despir. Tirou o casaco largo e depois abaixou as calças. Por último removeu a blusa fina que usava, mas decidiu ficar com a lingerie branca de algodão no corpo.
Abriu o registro e ficou hipnotizada pelo fluxo de água que caía sobre o azulejo floreado. Estendeu a mão e a retraiu quando constatou que a água estava de fato muito fria. Suspirou novamente e por fim adentrou de uma vez debaixo da torrente.
Cobriu seu corpo com os braços, apertando as pálpebras cerradas sobre os olhos até que se acostumasse com a temperatura. A água que escorria pelo seu corpo logo adquiriu uma tonalidade rosada enquanto escorria até o ralo. E nos minutos seguintes, Sakura dedicou-se incansavelmente a remover a sujeira do corpo e do cabelo.
Havia uma esponja de banho e ela não hesitou em usá-la para esfregar a sua pele pálida até que ela se tornasse vermelha e começasse a pinicar. Tinham sido longas e tempestuosas semanas, mas pela primeira vez ela tinha a sensação de que as coisas ficariam bem, de que não seria tolice fomentar suas esperanças.
No entanto, a porção racional e arisca de seu cérebro ainda não se dava por convencida. Seria aquele estranho confiável? Ela sabia que baixar a guarda estava fora de questão, mas agora que tinha um teto sobre a cabeça e água encanada, Sakura sentia-se um pouco mais propensa a relaxar os nervos em frangalhos.
Ela fechou o registro e saiu do chuveiro pingando. O ferimento em sua testa ardia ainda mais, agora que fora limpo com água e sabão, e o cansaço começava a cobrar o seu preço sobre ela. Encolhida pelo frio, ela aproximou-se silenciosamente da porta, destrancando-a lentamente. Colocou ambas as mãos sobre a maçaneta e abriu-a sem produzir qualquer ruído.
Aos seus pés havia uma muda de roupas limpas e uma toalha, os quais ela apanhou com desespero, agarrando-se a eles e comprimindo-os contra o peito. Trancou a porta novamente e enrolou-se na toalha, esperando que os tremores em seu corpo diminuíssem. Quando desdobrou as peças de roupa, teve que conter um gemido. A camiseta — assim que a vestiu — caiu-lhe como um vestido, alcançando metade das suas coxas, já os shorts de algodão, por sorte de elástico, pendeu um pouco de um dos seus quadris, o que ela consertou facilmente com um pequeno nó.
Diante do espelho outra vez — e sentindo-se a criatura mais impropriamente apresentável — ela dedicou-se a pentear os nós do seu cabelo com os dedos. Dedilhou delicadamente o corte em sua testa e abriu o kit de primeiros-socorros. O antisséptico ardeu de forma terrível, mas o curativo adesivo aderiu perfeitamente ao ferimento.
Assim que deixou o banheiro, ela foi pega pelo aroma de comida, precisamente macarrão harusame, e ficou constrangida quando o seu estômago a lembrou de sua última refeição, no dia anterior. Aproximou-se na ponta dos pés da cozinha, e ficou surpresa por ver o garoto cozinhando, mexendo com dedicação a massa grudenta em um fogão a lenha improvisado.
— Hmm, é Sasuke, certo? — ela indagou incerta às costas dele e ouviu-o murmurar em aprovação. — Então, suponho que você morava aqui?
Ele concordou novamente, mas desta vez apenas com um aceno de cabeça.
— E você? — virou-se para ela, tendo o cuidado de continuar mexendo a massa fumegante. — Como veio parar aqui?
— Eu não estava exatamente prestando atenção no destino da minha fuga, sabe? Tinha apenas caos e morte por todo o lado e... Eu não sei, talvez eu estivesse pensando que se fugisse para o interior do país, poderia evitar a praga.
— E como está Tóquio? — ele rapidamente mudou o tópico da conversa.
— Resistiu só por algumas semanas. Na verdade eu saí de lá antes que as coisas escapassem do controle, mas garanto que não havia esperança.
— Porra! — ele sibilou de súbito, sobressaltando-a. — Eu ainda tinha esperanças de que a situação estivesse melhor nas metrópoles, mas pelo visto está ainda pior.
Em seguida ele retirou a panela do fogo e levou-a até o balcão da pia. Despejou a massa fumegante e cheirosa em um escorredor e apanhou uma lata de molho pronto. Minutos depois, ele serviu a gororoba em duas tigelas e ofereceu uma delas à Sakura, entregando também um par de hashis.
Ela o acompanhou, constrangida, mas juntou-se a ele quando se sentou sobre o chão, as costas contra a parede. Comeram em silêncio até que ela decidiu quebrar o silêncio constrangedor.
— Então... Nenhuma chance de você devolver a minha arma? — Ela estava arriscando, sabia, mas manter a Glock por perto tinha um efeito relaxante e tentar dormir separada dela seria um inferno.
Sasuke, no entanto, sorriu torto.
— Já disse que se quiser ficar, terá que seguir as minhas regras.
— Eu entendi — ela retorquiu de forma áspera e mordeu a parte interna da bochecha para não gritar palavreados nada gentis. — E você, onde aprendeu a atirar daquele jeito? Nunca vi ninguém usar um Remington .300 com tanta precisão antes.
Por algum motivo, o rosto pálido dele tornou-se sombrio, carrancudo. Seus olhos beligerantes eram como um oceano negro em tempestade e ainda pareciam sugar a escuridão que se alongava pelo cômodo como dois rodamoinhos violentos.
— Meu pai era capitão na Jieitai — limitou-se a dizer, baixando o rosto para a tigela de macarrão. — E era um colecionador de armas.
— Uau! — ela exclamou incapaz de se conter. — Seu pai trabalhava para as Forças de Autodefesa do Japão?! Isso é... incrível.
Sasuke deixou sua tigela de lado, parecia ter perdido o apetite e mergulhado dentro de um poço escuro e profundo pertencente ao seu passado.
— Ele ficava muito tempo fora de casa, às vezes meses. Mas integrar a Jieitai era o que o deixava mais orgulhoso.
— Entendo — Sakura aquiesceu e depositou sua tigela vazia no chão.
Inesperadamente, ele a olhou, desconcertando-a, deixando-a dolorosamente consciente das sombras que espreitavam o passado dele. Era possível sentir empatia por um estranho que ela conhecera ainda pouco?
— Eu nunca pensei em seguir os passos dele — continuou, acrescentando uma mágoa dilapidada à sua voz enrouquecida. — Ele era um velho narcisista e patriota de merda, mas eu... — deteve-se e olhou-a ferido, como se tivesse acabado de enfiar uma faca no próprio braço. — Meu irmão por outro lado era o orgulho dele. Itachi nunca quis servir o exército, eu sempre soube... As loucuras que faziam para agradar aquele desgraçado, e ainda assim... — Cerrou os dentes e não disse mais palavra alguma; suas palavras permaneceram suspensas no ar carregado de estática por um longo, longo tempo.
— Você era a ovelha negra da família? — Sakura supôs calmamente e viu-o assentir, relutantemente.
— Nunca tive pressa para morrer — ele acrescentou taciturno. — Mas e você?
A pergunta inesperada a surpreendeu e ela levou mais tempo do que o julgado necessário para respondê-lo.
— Hmm, estava cursando a Universidade de Tóquio com a minha melhor amiga.
— E o que fazia? — ele a interrompeu, o olhar brilhando de diversão, avaliando-a de diferentes maneiras, estudando-a bem de perto.
— Medicina — respondeu concisa e por alguma razão isso o levou a sorrir.
— Sério? — ela não se sentiu nem um pouco ofendida pela incredulidade contida no tom de voz dele. — E quem era o ex-namorado inconformado?
— Ele também cursava medicina, mas queria se especializar em outra área. O nome dele era Sasori e era um completo babaca — ela acrescentou com um ressentimento palpável e denso. — Depois que terminamos, ele passou a me perseguir em todos os lugares, ligava para o meu celular todos os dias e fazia ameaças. E, bem, eu fiz o que tinha de ser feito...
— Que foi...? — ele a instigou, claramente interessado em sua história.
— Tive aulas de defesa pessoal — ela deu de ombros, visivelmente desconcertada. — E quebrei os dois braços dele. Depois disso, consegui que expedissem um mandato que o obrigava a ficar, pelo menos, a trinta metros de distância de mim. Ele nunca mais me incomodou.
Sasuke gargalhou baixinho e ela corou. Claro que havia se gabado do feito na época, mas seria errado ainda sentir orgulho por isso tanto tempo depois?
— Ora, não somos perfeitos para sobreviver a esse novo mundo louco? — ele perguntou a ela, compenetrado, e ainda se divertindo. Sakura assentiu.
Ele levantou-se então, apanhando as duas tigelas sujas e levando-as para a pia, descartando-as com um desdém categórico. Voltou instantes depois, enquanto ela se também levantava.
— Vou arrumar o quarto que pertencia ao meu irmão. Você pode ficar com ele.
— Tudo bem — ela sussurrou, mas estava insegura.
Sasuke passou por ela novamente e desapareceu no corredor pouco iluminado. A verdade é que a tarde estava caindo e o dia apenas escureceria dali em diante. Ela não tinha muitas certezas e não sabia se ainda confiava o bastante nele, mas estava convicta de que esta noite manteria a porta trancada e dormiria com um olho aberto, sempre vigilante.
Não é como se os monstros estivessem apenas lá fora gemendo em coro, de qualquer maneira.
* * *
Por que a pressa agora?
Todo mundo tem o seu dia para morrer.
A Perfect Circle — Trecho de The Outsider.
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