Notas iniciais
Capítulo dedicado à Livia Dias pela linda recomendação! Obrigada mesmo, eu amei! Espero que gostem desse capítulo. =) ... Boa leitura!

Dead World Assembly

“Brian ergue o taco. Fica no mais absoluto silêncio. Está voltando a aprender a dinâmica do medo: quando você está com muito, mas muito medo, você não fica tremendo, como mostram nos filmes. Você fica parado, como um animal arrepiado”.

KIRKMAN, Robert. A Ascensão do Governador (pag. 35).

Capítulo IV:

A Era dos Afogados

Sakura estudou a sala de estar em completo silêncio. Finos e compridos fachos de luz esgueiravam-se pelas fendas das tábuas de madeira e dos pedaços de pano usados para vedar as grandes janelas; o mormaço macambúzio ardia por trás delas com uma sutil intensidade.

Uma densa crosta empoeirada repousava sobre o assoalho e o cheiro de naftalina mesclava-se ao odor mofado desconfortavelmente familiar de ambientes que ficam fechados e sem ventilação por tempo demais. Havia poucos móveis dispostos ao longo do cômodo; uma solitária cadeira com estofado acolchoado, uma mesa de mogno, um sofá que foi arrastado para os fundos, sob a janela, e com uma manta xadrez estendida sobre ele. Os papeis de parede descascavam nas paredes, tão abandonados quanto o restante daquele cômodo parcamente escurecido parecia sugerir.

E agora o garoto que a salvara havia desaparecido dentro daquele apartamento. Ela não sabia o que fazer, não sabia se deveria entrar, mas se sentiria idiota se ficasse parada ali, diante da porta escancarada, plantada no corredor.

Engolindo em seco, ela tomou sua decisão; colocou um pé diante do outro e mordeu o lábio quando a madeira do assoalho rangeu sob o seu peso. Equilibrou-se estupidamente em uma das pernas enquanto curvava-se e alcançava com os dedos ainda trêmulos os cadarços esgarçados do seu coturno. Tirou um, e depois o outro, deixando-os diante dos pequenos degraus. A sensação áspera do piso gelado nas solas nuas de seus pés deu-lhe um choque de realidade — que ela conteve rapidamente.

Sakura caminhou até o meio do cômodo, sentindo-se mais insegura e amedrontada do que já podia se recordar — ali, cercada pelas sombras anormalmente diurnas — e a ferida acima de sua sobrancelha continuava latejando dolorosamente, lembrando-a do sangue fresco que corria do seu olho esquerdo até o queixo.

Mas em um instante, o garoto estava de volta, pisando duro e com um olhar raivoso que não parecia particularmente direcionado a ela, mas que ainda assustava. Em silêncio, ele cruzou o cômodo, passou por ela, e estacou diante de um armário, abrindo-o e alocando algo ali dentro. Ela inclinou-se discretamente, tentando espiar seu conteúdo, mas as costas do garoto bloquearam seu campo de visão e logo ele a fitava novamente, descartando a jaqueta de couro velha e depositando-a sobre o encosto da única cadeira remanescente.

Então, ele lhe dirigiu as primeiras — e arrogantes — palavras em longos e torturantes minutos:

— Qual é a do cabelo cor-de-rosa? — perguntou com um tom monocórdio, mas que facilmente denotava a curiosidade e até mesmo a incredulidade.

Sakura piscou e tocou uma mecha do próprio cabelo, uma que descansava sobre o seu ombro. Seu cabelo já tivera dias melhores com certeza; ele estava sujo e ressecado e ela facilmente encararia uma horda de zumbis com as mãos nuas só para obter um pouco de xampu e condicionador.

Limpando a garganta de leve, tratou de recuperar a sua compostura.

— Vai me dizer que nunca sofreu com a moléstia da rebeldia durante a fase da adolescência?

Ele sorriu torto e algo dentro dela se retorceu; inopinada e inesperadamente, o garoto levantou a bainha de sua camiseta surrada e expôs uma grande tatuagem negra que escalava o osso do seu quadril e enrolava-se acrobaticamente até as costelas pouco salientes por baixo dos músculos esguios: um intrigante dragão que se contorcia como uma serpente e fitava-a de volta com ferocidade. A tatuagem negra contrastava de forma gritante contra a pele pálida.

— Impressionante — ela admitiu e isso o levou a sorrir torto de novo. — Sakura — entoou com uma indiferença que certamente não seria sua. — Sou Sakura.

— Hn. Sasuke — ele respondeu calmamente e deu-lhe as costas, desaparecendo em uma das portas, voltando antes que ela pudesse contar até vinte, mas desta vez trazia nas mãos o que ela reconheceu como sendo um kit de primeiros-socorros.

Com um floreio habilidoso do pulso, jogou o pequeno objeto para ela, que o apanhou sem dificuldade:

— O banheiro é na segunda porta à direita no corredor. Tem água encanada, mas minha hospitalidade vai, infelizmente, até aí só.

Sakura não conseguiu conter o sorriso bobo que redesenhava a curva de sua boca.

— Tem água encanada aqui ainda?!

— O prédio tem uma cisterna que capta a água da chuva — ele explicou com um dar de ombros. — Não que tenha chovido muito nos últimos dias.

A possibilidade de um banho — ainda que frio — fascinou Sakura, no entanto, havia pormenores que impediriam a concretização da sua felicidade.

— Todos os meus pertences ficaram no carro — ela lamentou e, em resposta, ele a encarou beligerante.

— Algumas das minhas roupas podem servir em você.

Ela subitamente sentiu ondas de calor subindo através do seu pescoço e ameaçando esquentar as suas bochechas. Virou-lhe as costas então, para esconder o quão encabulada estava se sentindo.

— Hmm, obrigada... Eu acho.

— Vou deixar as roupas e uma toalha para você na porta do banheiro em alguns minutos.

— Certo, obrigada novamente — desvencilhou-se de qualquer hipótese de fitá-lo no olho, comprimindo o kit contra o peito.

Apressou-se pelo corredor, mas, antes de entrar, ouviu-o murmurar às suas costas:

— A propósito, onde uma garota interiorana como você aprendeu a atirar daquele jeito?

Se antes ela queimava por embaraço, agora estava corando violentamente pelo súbito elogio.

— Hmm, tive um ex-namorado que não se conformou exatamente com o término da relação — ela esclareceu relutante.

Sasuke emitiu o que lhe pareceu um som de esgar, e ela prosseguiu, corrigindo-o:

— E eu não nasci no interior, na verdade sou de Tóquio.

Fechou a porta suavemente e encostou-se à sólida estrutura, fitando o teto branco por um tempo inesgotável. O banheiro estava igualmente escuro, apesar das paredes de azulejos brancos absorverem todo e qualquer feixe luminoso. Havia uma única janela e a luz diurna atravessava precariamente o vidro grosso e ondulado.

Com um suspiro, ela aproximou-se do balcão de mármore da pia e fitou seu reflexo no espelho logo acima. Gemeu quando seu olhar encontrou o ferimento acima da sua sobrancelha esquerda. Ela estava suja, cansada e agora sua pele estava manchada de rubro.

Primeiro um banho, alegou para si mesma e certificou-se da porta estar trancada antes de começar a se despir. Tirou o casaco largo e depois abaixou as calças. Por último removeu a blusa fina que usava, mas decidiu ficar com a lingerie branca de algodão no corpo.

Abriu o registro e ficou hipnotizada pelo fluxo de água que caía sobre o azulejo floreado. Estendeu a mão e a retraiu quando constatou que a água estava de fato muito fria. Suspirou novamente e por fim adentrou de uma vez debaixo da torrente.

Cobriu seu corpo com os braços, apertando as pálpebras cerradas sobre os olhos até que se acostumasse com a temperatura. A água que escorria pelo seu corpo logo adquiriu uma tonalidade rosada enquanto escorria até o ralo. E nos minutos seguintes, Sakura dedicou-se incansavelmente a remover a sujeira do corpo e do cabelo.

Havia uma esponja de banho e ela não hesitou em usá-la para esfregar a sua pele pálida até que ela se tornasse vermelha e começasse a pinicar. Tinham sido longas e tempestuosas semanas, mas pela primeira vez ela tinha a sensação de que as coisas ficariam bem, de que não seria tolice fomentar suas esperanças.

No entanto, a porção racional e arisca de seu cérebro ainda não se dava por convencida. Seria aquele estranho confiável? Ela sabia que baixar a guarda estava fora de questão, mas agora que tinha um teto sobre a cabeça e água encanada, Sakura sentia-se um pouco mais propensa a relaxar os nervos em frangalhos.

Ela fechou o registro e saiu do chuveiro pingando. O ferimento em sua testa ardia ainda mais, agora que fora limpo com água e sabão, e o cansaço começava a cobrar o seu preço sobre ela. Encolhida pelo frio, ela aproximou-se silenciosamente da porta, destrancando-a lentamente. Colocou ambas as mãos sobre a maçaneta e abriu-a sem produzir qualquer ruído.

Aos seus pés havia uma muda de roupas limpas e uma toalha, os quais ela apanhou com desespero, agarrando-se a eles e comprimindo-os contra o peito. Trancou a porta novamente e enrolou-se na toalha, esperando que os tremores em seu corpo diminuíssem. Quando desdobrou as peças de roupa, teve que conter um gemido. A camiseta — assim que a vestiu — caiu-lhe como um vestido, alcançando metade das suas coxas, já os shorts de algodão, por sorte de elástico, pendeu um pouco de um dos seus quadris, o que ela consertou facilmente com um pequeno nó.

Diante do espelho outra vez — e sentindo-se a criatura mais impropriamente apresentável — ela dedicou-se a pentear os nós do seu cabelo com os dedos. Dedilhou delicadamente o corte em sua testa e abriu o kit de primeiros-socorros. O antisséptico ardeu de forma terrível, mas o curativo adesivo aderiu perfeitamente ao ferimento.

Assim que deixou o banheiro, ela foi pega pelo aroma de comida, precisamente macarrão harusame, e ficou constrangida quando o seu estômago a lembrou de sua última refeição, no dia anterior. Aproximou-se na ponta dos pés da cozinha, e ficou surpresa por ver o garoto cozinhando, mexendo com dedicação a massa grudenta em um fogão a lenha improvisado.

— Hmm, é Sasuke, certo? — ela indagou incerta às costas dele e ouviu-o murmurar em aprovação. — Então, suponho que você morava aqui?

Ele concordou novamente, mas desta vez apenas com um aceno de cabeça.

— E você? — virou-se para ela, tendo o cuidado de continuar mexendo a massa fumegante. — Como veio parar aqui?

— Eu não estava exatamente prestando atenção no destino da minha fuga, sabe? Tinha apenas caos e morte por todo o lado e... Eu não sei, talvez eu estivesse pensando que se fugisse para o interior do país, poderia evitar a praga.

— E como está Tóquio? — ele rapidamente mudou o tópico da conversa.

— Resistiu só por algumas semanas. Na verdade eu saí de lá antes que as coisas escapassem do controle, mas garanto que não havia esperança.

— Porra! — ele sibilou de súbito, sobressaltando-a. — Eu ainda tinha esperanças de que a situação estivesse melhor nas metrópoles, mas pelo visto está ainda pior.

Em seguida ele retirou a panela do fogo e levou-a até o balcão da pia. Despejou a massa fumegante e cheirosa em um escorredor e apanhou uma lata de molho pronto. Minutos depois, ele serviu a gororoba em duas tigelas e ofereceu uma delas à Sakura, entregando também um par de hashis.

Ela o acompanhou, constrangida, mas juntou-se a ele quando se sentou sobre o chão, as costas contra a parede. Comeram em silêncio até que ela decidiu quebrar o silêncio constrangedor.

— Então... Nenhuma chance de você devolver a minha arma? — Ela estava arriscando, sabia, mas manter a Glock por perto tinha um efeito relaxante e tentar dormir separada dela seria um inferno.

Sasuke, no entanto, sorriu torto.

— Já disse que se quiser ficar, terá que seguir as minhas regras.

— Eu entendi — ela retorquiu de forma áspera e mordeu a parte interna da bochecha para não gritar palavreados nada gentis. — E você, onde aprendeu a atirar daquele jeito? Nunca vi ninguém usar um Remington .300 com tanta precisão antes.

Por algum motivo, o rosto pálido dele tornou-se sombrio, carrancudo. Seus olhos beligerantes eram como um oceano negro em tempestade e ainda pareciam sugar a escuridão que se alongava pelo cômodo como dois rodamoinhos violentos.

— Meu pai era capitão na Jieitai — limitou-se a dizer, baixando o rosto para a tigela de macarrão. — E era um colecionador de armas.

— Uau! — ela exclamou incapaz de se conter. — Seu pai trabalhava para as Forças de Autodefesa do Japão?! Isso é... incrível.

Sasuke deixou sua tigela de lado, parecia ter perdido o apetite e mergulhado dentro de um poço escuro e profundo pertencente ao seu passado.

— Ele ficava muito tempo fora de casa, às vezes meses. Mas integrar a Jieitai era o que o deixava mais orgulhoso.

— Entendo — Sakura aquiesceu e depositou sua tigela vazia no chão.

Inesperadamente, ele a olhou, desconcertando-a, deixando-a dolorosamente consciente das sombras que espreitavam o passado dele. Era possível sentir empatia por um estranho que ela conhecera ainda pouco?

— Eu nunca pensei em seguir os passos dele — continuou, acrescentando uma mágoa dilapidada à sua voz enrouquecida. — Ele era um velho narcisista e patriota de merda, mas eu... — deteve-se e olhou-a ferido, como se tivesse acabado de enfiar uma faca no próprio braço. — Meu irmão por outro lado era o orgulho dele. Itachi nunca quis servir o exército, eu sempre soube... As loucuras que faziam para agradar aquele desgraçado, e ainda assim... — Cerrou os dentes e não disse mais palavra alguma; suas palavras permaneceram suspensas no ar carregado de estática por um longo, longo tempo.

— Você era a ovelha negra da família? — Sakura supôs calmamente e viu-o assentir, relutantemente.

— Nunca tive pressa para morrer — ele acrescentou taciturno. — Mas e você?

A pergunta inesperada a surpreendeu e ela levou mais tempo do que o julgado necessário para respondê-lo.

— Hmm, estava cursando a Universidade de Tóquio com a minha melhor amiga.

— E o que fazia? — ele a interrompeu, o olhar brilhando de diversão, avaliando-a de diferentes maneiras, estudando-a bem de perto.

— Medicina — respondeu concisa e por alguma razão isso o levou a sorrir.

— Sério? — ela não se sentiu nem um pouco ofendida pela incredulidade contida no tom de voz dele. — E quem era o ex-namorado inconformado?

— Ele também cursava medicina, mas queria se especializar em outra área. O nome dele era Sasori e era um completo babaca — ela acrescentou com um ressentimento palpável e denso. — Depois que terminamos, ele passou a me perseguir em todos os lugares, ligava para o meu celular todos os dias e fazia ameaças. E, bem, eu fiz o que tinha de ser feito...

— Que foi...? — ele a instigou, claramente interessado em sua história.

— Tive aulas de defesa pessoal — ela deu de ombros, visivelmente desconcertada. — E quebrei os dois braços dele. Depois disso, consegui que expedissem um mandato que o obrigava a ficar, pelo menos, a trinta metros de distância de mim. Ele nunca mais me incomodou.

Sasuke gargalhou baixinho e ela corou. Claro que havia se gabado do feito na época, mas seria errado ainda sentir orgulho por isso tanto tempo depois?

— Ora, não somos perfeitos para sobreviver a esse novo mundo louco? — ele perguntou a ela, compenetrado, e ainda se divertindo. Sakura assentiu.

Ele levantou-se então, apanhando as duas tigelas sujas e levando-as para a pia, descartando-as com um desdém categórico. Voltou instantes depois, enquanto ela se também levantava.

— Vou arrumar o quarto que pertencia ao meu irmão. Você pode ficar com ele.

— Tudo bem — ela sussurrou, mas estava insegura.

Sasuke passou por ela novamente e desapareceu no corredor pouco iluminado. A verdade é que a tarde estava caindo e o dia apenas escureceria dali em diante. Ela não tinha muitas certezas e não sabia se ainda confiava o bastante nele, mas estava convicta de que esta noite manteria a porta trancada e dormiria com um olho aberto, sempre vigilante.

Não é como se os monstros estivessem apenas lá fora gemendo em coro, de qualquer maneira.

* * *

Por que a pressa agora?

Todo mundo tem o seu dia para morrer.

A Perfect Circle — Trecho de The Outsider.

Notas finais
Tentarei manter as postagens semanais, no entanto, se eu receber bastante reviews, posso retornar na mesma semana, depende, é claro, de vocês. Se houver atraso, será porque tive uma crise de inspiração ou não recebi reviews suficientes, ok? ... Não se esqueçam de comentar, por favor! Reviews me motivam, pois assim sei que vocês ainda estão acompanhando a Fanfic. Se pararem de comentar, pensarei que não estão mais interessados na Fanfic e inevitavelmente vou travar nos próximos capítulos. ... O novo sistema de contagem de visualizações já está funcionando e nos últimos dias, Dead World Assembly teve 294 acessos! Ainda não sei como me sentir com isso porque não sei se tratam de pessoas que não possuem conta no site ou se são leitores fantasmas. Mas enfim, uma parte de mim ficou contente que a Fanfic tenha tido tantas visualizações, mas não fiquem acanhados... Comentem! Reviews fazem bem à autoestima de qualquer autor. ... Mais uma vez obrigada à linda da Livia Dias pela linda recomendação! =) ... Tentarei responder os reviews do capítulo anterior ainda hoje. Nos vemos no próximo. Até.