Dead World.

2 Amanhecer.


Notas iniciais
Sejam bons comigo e me digam onde posso melhorar. Deixem reviews e espero que gostem de Dead World.

Aquilo tudo pareceu durar dias e semanas intermináveis, e eu observei Anna lutando pela própria vida sem saber o que fazer. Meu coração pareceu entalado no meu peito e eu mal conseguia escutar o que estava acontecendo com o nosso grupo, que aparentemente também fora atacado por walkers. Aparentemente estávamos encurralados, e pensei em Kate, minha pequena e inocente irmã que estava sendo obrigada a amadurecer tão depressa.

Anna caiu no chão, o sangue escorrendo depressa da ferida no braço e o walker avançou pra cima dela rangendo os dentes podres. Ela tentou alcançar sua pistola, mas seu braço de atirar estava ferido demais, seus olhos voltaram-se pra mim pedindo ajuda e finalmente eu consegui reagir.

De repente a noite havia ficado agitada, a floresta estava barulhenta com as árvores se mexendo ao vento e os grilos e insetos criaram vida. Saquei minha arma do coldre e apontei para a cabeça semi-apodrecida do zumbi. Anna gritou novamente enquanto chutava o corpo do walker para longe, e ele segurou sua perna e a puxou para si.

Apontei a arma, surpreso por estar tremendo tanto e mirei na cabeça do morto. Quando ele ia morder a perna dela, que se debatia e tentava agarrar um galho de árvore, eu atirei. A bala atravessou o crânio com um barulho característico de vidro se estilhaçando e o corpo caiu para o lado.

– Você está bem? – exclamei, assustado e com vontade de chorar. Anna se arrastou pelo chão, segurando a ferida ensangüentada. Ela tremia e estava pálida pela grande perda de sangue. Me abaixei ao seu lado e agarrei seu corpo. Lágrimas rolaram do meu rosto.

Houveram mais tiros vindos do nosso grupo, e gritos esparsos procurando por sobreviventes. Dentre esses pude escutar alguém chamando meu nome, e em seguida o de Anna.

– Eu fui mordida!! – ela gritou, assombrada enquanto tocava na ferida no braço. Sacudiu-se severamente contra o meu corpo enquanto tentava lutar contra a verdade implacável. – Porra, John. Eu fui mordida!

– Calma, por favor. – implorei, olhando para os lados sem saber o que fazer. O sangue dela já encharcava minha camisa, e acabei fazendo um torniquete para tentar estancar o sangramento. – Nós vamos resolver isso, por favor.

– JOHN, eu não quero morrer! Eu não quero virar uma daquelas coisas.

O rosto dela estava se transformando numa máscara de pânico e dor, e usando toda a minha força de vontade ajudei Anna a se levantar e a levei de volta até nosso grupo, ou ao que restara dele. Novamente gritaram nossos nomes, e eu pensei o que diria para os pais dela; que eu não pude ser rápido o suficiente, que eu não consegui salvar a vida da mulher que eu amava.

Eu chorava, e meu peito parecia que iria explodir de tanta agonia. O corpo de Anna estava cada vez mais fraco ao meu lado.

Assim que entramos no campo onde estava nosso acampamento, agora lotado dos corpos dos walkers, além de várias perdas nossas, houveram novos gritos de terror. E em seguida algumas pessoas nos rodearam, eu chorava tanto que era incapaz de distinguir alguém.

– O que aconteceu com ela? – escutei a voz do meu pai, grave e autoritária. Em seguida a mãe de Anna chamou pela filha e puxou-a de mim. Todos gritavam e choravam, e eu não reagi enquanto minha mãe, pude reconhecer pela voz, me puxava para junto de si. Sua presença me acalmou.

– Ela foi mordida, mãe. – disse aos prantos. – E eu não pude fazer nada, ela foi mordida!



Eu só percebi que havia caído no sono quando acordei algumas horas depois enrolado no meu saco de dormir. Pisquei diversas vezes porque a luz do sol estava forte, e olhei ao redor. A fogueira estava apagada, e aparentemente alguém havia retirado os corpos que eu vira na noite passada. Mas ainda havia o cheiro agridoce de sangue no ar, além do odor fétido da morte.

Tudo estava arrumado, Antonio e o meu pai conversavam perto da caminhonete e havia uma movimentação estranha dentro do trailer. Caroline, uma mulher alta e de aparência severa, saiu naquele minuto da floresta. Estava carregando uma espingarda.

– Todos os corpos dos walkers estão queimando. – falou alto, olhando de mim para Antonio e meu pai. – E achei melhor enterrar o corpo de Lauren junto o da garota.

Levantei-me do chão, arregalando os olhos àquela notícia. Lauren era uma senhora de 63 anos que nós socorremos quando estávamos na saída do Colorado.

– Mas alguém morreu? – perguntei, andando até Antonio e meu pai. Os dois estavam analisando um mapa da costa sul dos Estados Unidos.

Nenhum dos dois respondeu, mas algo no olhar dos dois já acabou me preparando para o pior. Ergui a cabeça para o trailer, e para minha mãe saindo dele, minha irmã saiu junto com ela.

– Mãe, onde está a Anna? – perguntei, feliz por ver Kate bem.

– Querido, por favor, se acalme. – seus olhos azuis me deram a notícia antes mesmo de suas palavras. – Ela estava muito ferida, e perdeu muito sangue. Ela se foi, John.

Ela se foi. Ela se foi. Ela se foi. Ela se foi.

Aquelas palavras não pareciam certas, e dentro de mim eu soube que não eram. Eu amava Anna, e daria minha vida para ela. Na verdade eu deveria ter morrido ontem, eu deveria estar no lugar dela.

Um movimento rápido ao meu lado me fez virar depressa, e em seguida caí ao chão. Uma dor excruciante no queixo. Durante alguns segundos fiquei sem saber o que havia acontecido.

– VOCÊ PODERIA TER SALVADO ELA! – gritou a voz do pai de Anna, dominado pela dor da perda da própria filha. Eu me mexi, tentando me levantar, e em seguida um chute no meu estômago me fez cair novamente.

– Harry, por favor. – gritou minha mãe, se jogando na minha frente. O gosto de sangue na minha boca mostrou que o soco me fizera sangrar. – Ele não tem culpa do que aconteceu, e está sofrendo também.

Meu estômago doía, e eu quase poderia apostar que alguma costela estava quebrada. Mas obriguei-me e a levantar, minha mãe ajudando.

– Parem com isso! – gritou meu pai, com a voz de autoridade. – Nós entendemos sua dor, Harry. Mas meu filho não é o culpado.

– Esse filho da puta levou minha filha pra dentro da floresta! Se ela tivesse por perto eu poderia ter salvado! – o pai de Anna correu na minha direção outra vez, a raiva estampada no seu rosto. – Agora ela morreu por sua causa John!

Antonio e meu pai seguraram o pai de Anna, que depois de um tempo caiu ao chão chorando e me xingando de todos os nomes. Eu não o culpava, eu me culpava.

Caroline se aproximou, tentando controlar a situação.

– Pessoal, temos que manter a cabeça fria. Aqui é perigoso, e fazer barulho pode atrair mais walkers.

– FODA-SE OS MALDITOS WALKERS! – rugiu o pai de Anna, ainda jogado ao chão e com as lágrimas rolando pelo rosto abatido pela tristeza. – Eles tiraram minha única filha, minha garotinha!

Minha mãe me puxou para longe daquela bagunça, tocando no meu rosto e limpando o sangue da minha boca.

– Desculpa, querido. – disse, o rosto cansado pela noite em claro e os olhos abatidos. – Ela está lá dentro, — e apontou para o trailer. – Mas você sabe o que teremos que fazer, ela foi contaminada. Pode voltar a qualquer momento.

“John eu não quero morrer! Eu não quero virar uma daquelas coisas.”

A voz dela ecoou na minha mente, e tive que segurar toda a minha vontade de chorar porque precisava mostrar a força que o grupo precisava. É claro, alguém teria que dar um tiro na cabeça de Anna, porque só assim ela não se tornaria uma deles.

– Tenha calma. – minha mãe voltou a pedir, assim que eu lhe dei as costas e caminhei na direção do trailer. – Jill está com a filha lá dentro. – disse, se referindo a mãe de Anna. Ela está arrasada.

Eu entrei no trailer com o coração apertado no peito, me preparando para a cena que eu veria em seguida e que ficaria gravada para sempre na minha mente. Respirei fundo, sentindo o cheiro de morte impregnado por todo o lugar, e em seguida escutei o som de choro.

O trailer era pequeno, um lugar para o motorista na frente, uma pequena sala com uma geladeira, um banheiro e na parte traseira uma cama de solteiro. Era ali que Jill chorava sob o corpo da filha, enrolado num lençol branco.

Parei na entrada, olhando para Jill porque ainda não tinha coragem de ver Anna pálida e sem vida. Minha vontade era sair dali e correr, correr até que minhas próprias pernas não me obedecessem mais.

– Ela chamou por você antes de morrer. – disse Jill, a voz cansada e o rosto manchado por lágrimas e pelo sangue da filha. – Mas foi tudo rápido demais, numa hora ela estava e depois não estava mais.

Me aproximei lentamente, vendo pela primeira vez o rosto de Anna, branco como papel embora parecesse surpreendentemente em paz. Havia um curativo em volta da sua ferida no braço, e não tinha mais vestígios de sangue.

– Me desculpa, Jill. – implorei, deixando algumas poucas lágrimas escorrerem. – Eu tentei salvá-la, eu...

– Poupe suas palavras, garoto. Eu não te culpo igual ao meu marido. Minha filhinha morreu, e não existem palavras que podem amenizar isso. Nem mesmo as suas.

Minha mãe entrou no trailer nesse momento, parou atrás de mim e falou com Jill.

– Querida, precisamos levar a Anna para o enterro. – ela evitou dizer o resto, que Anna poderia voltar e que aquilo seria perigoso, mas eu sabia que a mãe de Anna havia entendido isso.

– Por favor, me ajudem com ela.

Foi terrível tocar em Anna daquele jeito, sua pele ainda estava quente e o corpo mole. Seus cabelos estavam sujos de sangue, folhas e terra da floresta.

Os túmulos estavam cavados logo abaixo de uma enorme macieira. Um lugar bonito quando o sol batia sobre as folhas, e internamente eu pensei que seria o lugar perfeito para deitar com Anna e conversarmos sobre os planos para o futuro. Mas não existia mais nenhum plano, agora tudo estava acabado.

Minha mãe sussurrou algo para meu pai e para Antonio, e em seguida empunhou sua pistola. Chamou a mãe e o pai de Anna e disseram outra coisa que eu também não escutei, mas eu sabia o que seria: eles iam atirar nela, iam cravar uma bala no cérebro dela para evitar que o vírus fizesse Anna voltar.

Ergui a cabeça, incapaz de ficar ali por mais tempo, e virei de costas enquanto via Antonio apontando a pistola na direção de Anna. Tentei segurar o grito de dor e saí correndo para longe.

Mas o barulho do tiro ecoou por todo o lugar, e os pássaros se assustaram e levantaram voo das árvores.

E eu deixei as lágrimas rolarem com força.

Notas finais
Espero que gostem e deixem reviews.