Dead Radio Fm
14 Dead Words
Notas iniciais
Meu dia parecia ter começado com essas palavras:
“O que esteve a fazer no dia em que tudo isso começou?”
Não lembro quem as proferiu, nem mesmo lembro se tais palavras se dirigiam a mim. Mas não era como se eu estivesse inconsciente ou até mesmo dispersa. O que aquelas palavras me fizeram foi me acordar para o que estava acontecendo, pois até então eu não havia parado pra pensar, embora o que acontecera com Anju não me fosse interessante.
Após a pergunta, lembro-me de ter me silenciado por alguns instantes. Era como se eu sentisse toda a pressão, dor e angustia dos eventos nos quais eu passei em um único instante. Incrivelmente, não quis chorar nem ao menos senti meu rosto aquecer, eu estava indiferente como sempre. A diferença agora era uma amargura que se instalava em meu peito enquanto pensava naqueles eventos como realidade, algo que eu era obrigada a aceitar.
Felizmente, talvez, aquela sensação não era suficiente para tirar a indiferença de meu rosto. Mas eu me perguntava como as pessoas notavam o quanto meus sentimentos se distorciam, enquanto eu continuava com o mesmo rosto.
- Mika? – A voz de Susumo parecia ter me tirado do estado em que eu me encontrava. Infelizmente, a angustia dentro de mim continuava ali. A voz da pequenina não parecia querer tira-la dali de dentro e eu sabia que esta não sabia o que se passava.
- Sim?
- Susumo acha que você está muito quieta. – Albert disse, enquanto dirigia calmamente. Deu um riso abafado, tirando sarro do que havia dito. Aquilo irritou a pequena moradora de rua, que só não botou a cara no pé do motorista, pois ele estava dirigindo.
- Não foi isso que eu quis dizer! – Exclamou a pequena. – Susumo só acha que a Mika está mais séria que o normal! – O olhar esverdeado de Susumo logo se virou furiosamente para Daisuke. O moreno apenas se afastou assustado.
- Só estou... Cansada. – Respondi. – Ao invés de se preocupar comigo, por que não pensam no cara que está nos seguindo? – No mesmo instante vi Daisuke, Susumo e até Steven olhando para trás. Tive o impulso de olhar também e tudo que vi foi um rapaz um tanto confuso pelo fato de estar sendo encarado por todos. Obviamente nós estávamos falando dele. Virei meu rosto de volta e suspirei. Não tinha porque dormir àquela hora.
Em fato, eu havia dormido tão bem que pude sonhar. Não exatamente um sonho, mas uma imagem monocromática onde tudo que eu podia ouvir era o riso insano de Anju. O que poderia ser algo assim? Eu nunca havia me intimidado pelo riso dela. Mas ela havia desaparecido logo depois.
Perguntava-me porque ela não havia me matado, eu tinha certeza que ela queria arrancar cada pedaço de todos os membros presentes naquele grupo e não me surpreenderia se a idéia de usar nossas cabeças como um troféu passasse pela cabeça dela.
De certa forma, eu havia pena de Anju. A culpa era nossa por ela estar naquela situação e era aceitável o fato dela querer se vingar. Mas aquela idéia ao mesmo tempo em que era compreensível, era assustadora.
- Albert, nós ainda estamos longe? – Daisuke perguntou, se apoiando no banco da frente. Albert apenas acenou negativamente com a cabeça.
- Paciência, rapaz. Acho provável que tenhamos que parar em algum lugar novamente essa noite. –Ele suspirou. Parecia estar com idéias negativas em sua cabeça. – E o problema é a gasolina. Não irá durar por muito tempo.
- Tenho certeza de que há postos por aqui. – Respondi, com certeza sobre o que dizia. Mal sabia que o problema não era a localização de postos.
- Sim, Mika. – Albert continuava a olhar para a estrada deserta. Pude ver que Steven olhava para mim do espelho, mas tinha certeza de que ele não entendia o que eu dizia. – Acho que ainda terá gasolina, certo? – Sorriu.
- Ah... Isso. – Suspirei. – Esses arredores são desertos. Encontramos poucos infectados por aqui...
- Qualquer coisa, o Daisuke empurra o carro que nem ele fez na casa do tio! – Exclamou Susumo, sorrindo como se aquilo fosse algo bom. O rapaz apenas respirou fundo, não faria aquilo nem sonhando.
- Hahaha, seria bem interessante! – concluiu o estrangeiro.
- Do que estão falando? – Steven perguntou olhando para Albert que estava ao seu lado. O homem apenas abriu um sorriso largo no rosto, ainda com os olhos na estrada.
- Achamos um trabalho perfeito pra você. – Respondeu, rindo. A cara do outro apenas se contorceu em duvida, enquanto Susumo sorriasem entender o que estavam falando. Daisuke apenas agradecia pelo fato de que não teria que empurrar o carro em ultimas questões.
- Você se juntará ao estrangeiro. – Eu olhei para o rapaz moreno que tinha um sorriso bobo no rosto. – Não pense que ele irá empurrar o carro sozinho. – Concluí.
-... Não brinca.
Não demorou a que achássemos um posto de gasolina. Albert deu o sinal para Kouta e logo paramos no posto. O local, no entanto, parecia um tanto deserto. Tão deserto que parecia que todas as formas de vida –e morte- haviam passado por ali, pegado tudo o que podiam e fugido.
Havia também uma loja de conveniências, cujos vidros estavam quebrados. Parecia ter sido furtado diversas vezes e eu me perguntava como, pois era um lugar deserto e não havia muito que se fazer por ali.
Por outro lado, a gasolina não parecia ter sido exatamente furtada, ou algo do tipo. Seja lá o que tivesse acontecido quem havia roubado o local ainda estava por perto, se sustentando com as porcarias que se vendia na loja.
Albert notando a situação botou a mão na cabeça em um gesto preocupado, enquanto analisava o que podiam fazer.
- Nunca pensei que diria isso, mas... Precisamos de dinheiro. – Falou o mais velho.
- Entendo, é daqueles que só funcionam quando se coloca dinheiro. – Daisuke se aproximou da máquina, com o mesmo gesto analítico de Albert. – Mas acho que não haveria dinheiro na caixa registradora que há na loja ali do lado.
- Acho que vale a pena checar. – Disse o mais velho. – Você e o Kouta vão até lá.
- Ok. – O moreno acenou para Kouta que estava por perto para que este se aproximasse. Logo, eles foram até a loja. Em passos lentos. Eu fiquei a observar.
Segurei com força a espada que se encontrava em minhas mãos. Eu não deveria hesitar. Eu não ia hesitar. Mas mal sabia que desde o inicio, onde toda essa loucura havia começado, eu já estava hesitando. Desde o primeiro segundo.
Decidi que iria junto com os dois, vendo que já estavam a entrar na pequena loja. Olhei para Albert, no entanto, este apenas sorriu com a mesma expressão boba e confiante que tinha. Peguei aquele sorriso como confiança para ir até lá. Algo me dizia que não o que eu iria ver não era bom.
Quando comecei a correr, meus passos pareciam cada vez mais pesados. Não se tem um motivo para tais acontecimentos, mas não é uma questão de física, química ou qualquer merda que estivesse puxando meus pés para baixo. Era apenas inevitável, imperceptível aos olhos de quem via, mas claramente era um fardo aterrorizante para aqueles que sentiam.
Junto de tal sensação, o tempo parecia parar, no entanto, parecia estar mais depressa do que nunca. Como se poderia descrever isso sem causar uma contradição? Em minha opinião, isso sempre fora impossível. Aquela sensação havia de ser contraditória assim como muitas vidas, sentimentos e sensações... Aquela não era exceção. No entanto, ela era única.
Lembro-me de filmes que eu assistia quando era mais jovem. Tal sensação só podia significar algo:
O privilégio de cada ser humano, algo que não podia ser tirado de ninguém. Um fato a ser encarado por todos os seres vivos, algo que poderíamos chamar de destino. Muitos nomes, muitas formas, muitas dores e muitas histórias. Quem poderia entendê-la melhor do que uma funerária? Em tal situação, quem mais além de mim poderia entendê-la? Quem poderia entender...
... A morte?
- Ok... A caixa registradora está destruída. Que ótimo. – Daisuke reclamou, colocando a mão atrás da cabeça.
- Sem dinheiro, sem gasolina. – Kouta se aproximava de algumas máquinas destruídas, procurando por algo que talvez ajudasse. Nada além de refrigerantes, infelizmente.
- O que faremos então? – Perguntou o outro jovem, que se esticava, cansado da longa viagem que tivemos.
- Shh. Tem alguém aqui. – Botei o dedo indicador em frente aos meus lábios em um gesto impaciente.
Os dois olharam pra mim com um rosto assustado, mas logo se colocaram em estado de alerta. Aparentemente, não havia nada ali além de produtos industrializados. Eu conseguia ouvir alguns sons abafados vindos do banheiro, no entanto, tinha medo do que poderia se encontrar lá.
O que estava ali dentro provavelmente não havia notado a nossa presença. Isso já era um ponto positivo. Se fosse uma daquelas criaturas, era apenas esmagar seu crânio.
Ah, não que isso não valesse para humanos também.
- Eu irei checar... – Daisuke adiantou alguns passos a nossa frente, engolindo a seco. Franzi o cenho, observando os passos hesitantes do rapaz.
- Não hesite. – Afirmei. Ele apenas balançou a cabeça e continuou a andar até o banheiro.– Qualquer coisa que apresente perigo deve ter o crânio... – “Esmagado” era o que eu pretendia dizer. Por algum motivo, maior do que minha lógica, eu não havia terminado a frase.
Em fato, acredito que o motivo tenha sido os barulhos desagradáveis vindos do banheiro. Olhei em volta e não pude deixar de notar as páginas de revista eróticas que estavam na parede e de repente, tudo fez sentido. Lembro de ter sentido meu rosto se contorcer em nojo, voltando a olhar para o rapaz que estava a ir ao banheiro. Algo me dizia que ele não iria gostar do que iria ver.
Eu não sabia se tal pessoa poderia ser um aliado ou inimigo. Eu só sabia que a queria bem longe de mim e faria de tudo para que tivesse.
Kouta parecia ter notado a situação ao olhar para minha expressão de nojo. Não deixou de soltar um riso discreto enquanto voltava a observar com atenção. Atualmente, ele parecia querer rir (e muito). Não pode se segurar e teve que rir um tanto alto.
- Fica quieto... Droga. – Sussurrei para o espadachim ao meu lado, atraindo a atenção de Daisuke. Por algum motivo isso o fez hesitar ainda mais chegando a um ponto de retroceder e voltar onde nós estávamos.
- Do que estão rindo? – Perguntou, com um rosto confuso.
Em fato, estava tão concentrado no golpe que teria que dar na tal criatura que nem notara que esta fazia sons... Estranhos. De certo modo, a porta do banheiro parecia ser bem revestida para abafar tanto aquele som.
- Chegamos à conclusão de que o que está lá dentro está mais vivo que nunca. – Riu de novo. Talvez pensassem que aquele ser que estava lá dentro fosse um aliado embora praticasse gestos nojentos?
- O quê? Como? – Tudo que pude fazer foi apontar para os tais pôsteres e fazê-lo imaginar o que estaria ali dentro.
Não demorou a que levasse a mão ao rosto em um gesto um tanto decepcionado. A partir dali, o silêncio se instalou por alguns segundos e tudo que pude pensar foi em talvez matar a pessoa caso ela tivesse o dinheiro. Não estava a fim de levá-la conosco.
- Acho que devemos ir até lá. – Daisuke comentou, voltando a olhar para a porta que emitia barulhos estranhos. – Talvez seja a única forma de conseguirmos dinheiro. É só ter cuidado e nada a perder.
- Talvez só a virgindade.– Kouta comentou rindo da própria... “piada.” Eu não pude deixar de olhar com desgosto para a cara do rapaz. – Mas nada que nos impeça de tomar cuidado não é? Hehe.
- Vou fingir que você não disse isso. – Completei, andando até a porta. O clima até lá, já estava bem tranqüilo. Abrimos a porta lentamente, apenas segurando nossas armas de forma imprudente.
Eu fui a primeira a entrar no lugar, e confesso, não saí da entrada. Meu corpo paralisou logo que vi o que havia ali dentro. Era apenas um banheiro masculino, simplificando bastante a minha visão.Mas não poderia deixar de mencionar o que havia nas paredes.
Era vermelho. Aquele líquido se espalhava pelo piso branco do lugar de forma grotesca. Estava fresco. Tinha muitas marcas já secas também, o que me levava a acreditar que já havia algum tempo em que algo estava acontecendo ali.
Não pude deixar de notar cadáveres que estavam perfeitamente intactos, apenas com a cabeça esmagada.
- Que merda é essa?! – Não poderia dizer exatamente quem havia perguntado isso. Se era Daisuke ou Kouta. Só sei que isso atraiu a atenção de seja lá quem estivesse ali dentro, e este saiu com um taco de baseball. Graças a deus, ele não tinha uma arma de fogo.
Ele ficou a nos encarar por algum tempo. Corrigindo: Ele ficou a me encarar durante um bom tempo. As conclusões tiradas disso não foram nem um pouco boas, levando em consideração a situação do lugar e o fato dos cadáveres que estavam por ali serem todos femininos. Logo, o rapaz abriu um sorriso. Com a voz alta, quase como em uma situação de desespero, o rapaz gritou.
- Achamos mais uma! Novinha em folha! – E assim, começou a rir insanamente. Meus olhos estavam paralisados assim como o resto do meu corpo. Não podia dizer que estava com medo, ou se apenas estava um tanto triste pelas pessoas. – E ela não é como as outras. Não precisaremos cortar-lhe a cabeça.
Soltou outro riso maldito e começou a correr em nossa direção com aquele taco em mãos. Eu estava na frente, mas eu sabia que ele não iria me matar.
- Mika! O que está fazendo?! Vamos sair daqui! – Com isso, Daisuke me puxou, segurando meus dedos de forma um tanto bruta e assustada. Aquilo me machucou de forma inesperada, fazendo com que eu derrubasse minha espada no chão enquanto era puxada junto do rapaz. Tal situação fora resultado de minha imprudência, falta de cuidado e até medo.
- O que?! Por que vocês não atacam?! – Gritei.
- Você não entendeu nossa situação?! Não há apenas um! – Ele retrucou. Meus olhos finalmente pareciam se abrir, enquanto olhava um grupo de mais de dez pessoas correndo atrás de nós- todos eles no mesmo estado que o outro. Ainda sem armas de fogo, mas apenas as armas brancas já eram suficientemente perigosas.
- Espere droga! Eu derrubei minha espada!
- Precisamos voltar e pegar nossas armas de fogo! Deixe para pegar depois! – Fora esperança que eu ouvira? Kouta parecia crer que aqueles rapazes carregavam consigo dinheiro suficiente para dar o fora dali.
... Não. Quem tinha esse desejo era eu. Eles queriam apenas sobreviver naquele instante; eu queria mais. Eu estava cansada de apenas sobreviver, eu queria viver e aquilo já estava cansativo o suficiente. Matar ou morrer, nós não havíamos sido criados para tal coisa, apenas aprendemos a fazer tal coisa porque a situação pedia.
No entanto, não é essa uma das melhores características humanas? Conseguir facilmente se adaptar.
Quando voltamos, encontramos Albert, Steven e Susumo na mesma situação que nós. Por incrível que pareça, Hachiko estava a ajudar a pequena moradora de rua na hora de acabar com o inimigo; e ainda mais incrível era o numero em que se encontravam.
Albert estava a atirar na maioria e ainda assim, eles não hesitavam em atacar. Não hesitavam em continuar, mesmo em desvantagem;
Eles não estavam a hesitar por que haviam perdido a sanidade? Ou por que acreditavam que continuariam a viver se nos matassem?
- Daisuke! Kouta! Mika! Entrem no carro, vamos dar o fora daqui! – O mais velho gritou, enquanto atirava em mais um. Ele não parecia se importar com aquilo, apenas estava desesperado. – São muitos, e eu não quero gastar munição!
Não. Não podíamos ir embora. Não teria outra parada mais tranqüila, não haveria outra chance de pegar dinheiro. E minha espada, eu havia deixado ela. Eu tinha que voltar para ela, eu não poderia perdê-la. Minha vida não era tão importante quanto ela.
- Não podemos ir! – Eu gritei novamente. Dessa vez, minha voz realmente falhou. Minha expressão falhou e deixou-se ser dominada por sentimentos. Todos, por um instante pareceram se assustar com aquilo. Mas não havia tempo para aquilo e todos nós sabíamos disso. Não havia tempo para sentir.
- Ficou maluca?! Precisamos sair o quanto antes! – Ele retrucou. Aquilo me irritou.Mas eu já sabia o que ia fazer; eu iria até o carro e pegaria a SPAS 12. Eu iria sozinha até lá. E tinha duas opções para mim:
A primeira era viver. E eu não faria aquilo sem aquela maldita espada.
E a segunda já era óbvia, curta e sem enrolar. Essa era a opção em que a morte acenava para mim, durante tanto tempo em que trabalhamos juntas.
Cheguei ao carro e peguei rapidamente a arma que estava a me esperar. Kouta e Daisuke olharam confusos para mim. Eu apenas olhei de volta e mal pude notar como estava o meu rosto naquele instante; qualquer um que me conhecesse sentiria medo. Era uma explosão de expressões que eu nunca faria enquanto estivesse indiferente.
Meu rosto estava contorcido em ódio, fúria. Os músculos do meu corpo apenas respondiam a tal sentimento e minhas ações idem.
“Sim, estes olhos. Os olhos de uma mulher que esta pronta para matar. Será isso uma característica de uma mulher decidida, independente? Ou apenas de uma mulher que não tem mais o direito de fazer escolhas, que está perdida?”
Quem havia me dito aquilo, eu me perguntava. Eu sabia que, se me lembrasse, conseguiria com certeza lembrar a resposta. No entanto não era o que importava.
Segurei a SPAS 12 com força e saí correndo de volta para a loja de conveniências.Pude sentir alguém tentando me puxar de volta, no entanto, fora uma tentativa desastrada. Eu consegui escapar facilmente.
- Mika! O que está fazendo? Volte aqui! VOLTE AQUI! – Albert gritava desesperadamente. Queria ter dado-lhe ouvidos, mas era impossível naquela situação. Susumo parecia gritar para que eu voltasse também, mas Hachiko decidiu me seguir. Ela me seguia abanando seu rabo como sempre, enquanto latia animadamente. Só mesmo ela para ficar feliz em uma situação como aquela.
- Tsc! Que droga! Não podemos deixá-la sozinha! – O maior continuava gritando, cada vez mais alto. – Que droga! QUE DROGA! Alguém vá atrás dela! – Atirou contra o chão apenas de raiva. Aquilo fez com que alguns recuassem um pouco. A raiva do maior estava amedrontando eles, será?
“Não tema a derrota, pois é isso que seu inimigo teme.” Essa era a frase mais adequada que eu consegui pensar.
Dentro da loja, pude notar o cheiro de podridão que estava no ar. Obviamente ele vinha do banheiro e eu não pude senti-lo antes porque a porta estava fechada. Minha espada não estava muito longe dali, mas eu não poderia abrir a guarda a momento algum. Hachiko também estava atenta enquanto me dava cobertura.
“Seja qual for a resposta para tal pergunta, Mika...”
- Woof!
- Hachiko...? – Olhei para a cachorra confusa. Ela latia e abanava o rabo, como se quisesse que eu a seguisse. E eu o fiz.
Andando rapidamente até onde ela me levava, eu cheguei até um corpo, que ficava atrás da caixa registradora já destruída. Essa pessoa vestia uniforme, obviamente o do posto. Observei aquilo por alguns instantes, esquecendo-me de que eu não tinha tempo para aquilo.
- Não tem nada aqui, Hachi. – Eu virei. Talvez fosse estranho conversar com um animal, mas já era um costume... Eu acho. Hachiko apenas se moveu até o corpo. Aproximou seu focinho do corpo e o levantou com o mesmo. Embaixo do corpo havia o que eu menos esperava encontrar; um envelope. Levantei uma sobrancelha, confusa, mas decidi pegar o envelope já sujo de sangue. Quando o abri, primeiramente vi um bilhete. Pequeno, com uma letra bonita e feminina, não tive dificuldade em ler.
“Mamãe e Papai, queria agradecer tudo o que vocês fizeram por mim durante todos esses anos com uma pequena surpresa para vocês.
Aqui vai o dinheiro para ajudar as economias agora que vocês se aposentaram e estão morando nos Estados Unidos. Gostaria de entregar isto antes, mas não consegui. Não vou precisar desse dinheiro enquanto estiver casada, por isso, estou mandando por correio. Estes vão ser meus últimos dias nesse posto.
Abraços, amo vocês. Fuyuko.”
- Ora. Parece que ela estava prestes a sair daqui quando foi morta, huh? Uma historia bem triste. Pelo visto ela se casou com um cara rico. – Eu disse, pegando o dinheiro do envelope. De fato, havia muito dinheiro. Acredito que os homens ali fora não tiveram nem mesmo vontade de vasculhar os corpos para ver se havia dinheiro. Apenas faziam... Outras coisas com eles.
Pensando assim, era óbvio que todos os outros poderiam ter dinheiro também. E por que não? Eu iria vasculhar cada um deles. Sentia-me muito mal por ter de fazer tal coisa e por isso peguei o envelope para mim. O endereço ainda estava ali. Talvez pudesse fazer uso daquilo? Guardei a pequena carta também.
Entrei no banheiro novamente com um preparo mental do caramba. De fato, havia muitos corpos ali e fiz questão de revistar todos. Havia muito dinheiro juntando tudo e eu tratei de ser rápida. Peguei minha espada novamente e quanto estava prestes a sair do banheiro, me deparei com outra figura masculina. Ele sorriu para mim.
- Ora essa, aonde pensa que vai pequena gatinha?! – Ele tinha um sorriso cínico, assustador no rosto. De tão amedrontador, até me esqueci de que estava muito mais armada que aquele rapaz. Tudo que eu menos queria era encontrar um desses. – Pelo visto também tempos uma cadelinha?!
- Tsc. Você é doente. – Retruquei. Ele soltou um riso abafado, que ecoava pelo banheiro inteiro. Uma típica cena de filme de terror.
- O mundo está doente! Você não viu?! Os mortos andam! E você deve esmagar seus crânios! – Continuou rindo, enquanto vinha em minha direção. Meus passos para trás iam aumentando cada vez mais e eu sabia melhor do que ninguém que logo chegaria uma parede. – Mesmo com isso, você ME chama de doente!
- Você é um caso perdido... – Hachiko começou a latir mais alto. Obviamente, aquele rapaz logo iria atacar. Eu estava preparada, ou pelo menos era o que eu pensava.
Segurei com força a espada, eu iria atacar. Iria partir a cabeça daquele maldito em duas. Morto vivo ou não, eu faria questão de que aquele rapaz nunca mais iria andar por ai.
Prestes a atacar, eu cerrei meu olhar. Eu estava pronta para qualquer coisa, e eu já me movia em sua direção quando senti a hesitação voltar. Se eu o matasse, o que seria de mim? Ele era algo vivo. Ele ainda vivia. A morte ainda não havia abraçado sua existência. Seria perdoável tirar a vida de alguém que não havia entregado a mim para isso?
Gelado, frio e cortante era o que havia atravessado minha coxa da perna esquerda. O ferro líquido, de cor vermelha escorria enquanto meus olhos se arregalavam em confusão e dor. O sorriso do rapaz a minha frente apenas aumentou ao ver tal expressão.
- Tente não danificar muito, ela parece ser das boas. – Sorriu, olhando para a minha perna. O que estava a escorrer agora estava a jorrar. A lâmina já havia deixado a ferida. Hachiko rosnava como um animal selvagem. Seu olhar pedia por sangue e seus olhos fitavam uma única figura que segurava uma faca ensangüentada.
Ela, sem hesitar, acabou por pular em cima do que estava atrás de mim; um grito de dor ecoou pelo lugar inteiro de tão alto que havia sido. Os caninos de Hachi estavam encravados no pescoço do homem e não pareciam querer soltar. Puxando cada vez mais, meus olhos apenas acompanhavam a cena.
Eu nunca imaginaria que Hachi era tão forte até vê-la arrancar um pedaço do pescoço do rapaz. Novamente, aquele banheiro fora manchado de sangue. E essa fora uma imagem que se instalou em minha cabeça.
Sim, eu devia fazer como ela. Eu deveria deixar de hesitar, ou eu levaria a pior. Segurando a espada perante o rapaz que se assustara com a imagem de Hachiko furiosa, com os caninos sujos de sangue, eu fazia minha decisão. No final, de nada adiantara a SPAS.
“... Tanto uma mulher decidida, quanto uma mulher indecisa não devem hesitar na hora mais importante. Sem medo do que pode acontecer, ela deve...”
“Matar.”
Aquele rapaz fora minha terceira vitima. Fiz questão de fazer como Hachiko e cortar-lhe a cabeça para que não voltasse a andar. Ainda assim, um peso na consciência baixou em mim. Mas antes esse peso do que a morte, eu pensei.
“Terceira?” Oh, bom. É uma história chata de se contar.
- Mika! Mika você está bem? – Daisuke chegava correndo e ofegante no banheiro. Assustou-se ao ver a cena, mas se assustou mais ainda com a Hachiko que estava a rosnar, como se fosse atacar.
- Hachi, quieta. É apenas o Daisuke. – Eu falei, tentando esconder a dor que sentia em minha perna. A cadela logo se acalmou ao notar que não havia mais perigo e ficou em alerta.
- O que aconteceu aqui? – Ele fitou o corpo sem cabeça que não havia sinal de corte de lâmina assustado. Mas logo que fitou o ferimento em minha perna e notou que o sangue não era do cadáver, ele entrou em desespero. – A sua perna! Está sangrando muito!
- Está tudo bem. – Eu disse. Embora minha expressão de indiferença contradissesse o suor e o tremor do meu corpo.
- O caramba que está tudo bem!
- É sério. Vamos para o mais importante... Eu consegui-
- Tch! Tem uma garota sangrando pra caralho na minha frente e tem algo mais importante que isso! – Havia ironia em sua voz e muita irritação. Era algo que eu nunca havia visto, de fato.
Ficamos em silencio durante algum tempo. O olhar furioso dele fitava minha perna esquerda. Eu não duvidaria que ele matasse um dos dois sem hesitar por conta daquilo e de certo modo, era algo difícil de acreditar.
Decidi quebrar o silencio.
- Vamos ver isso depois, ok? – Tentei parecer calma e amigável, mas acho que saiu indiferente como sempre. – Agora veja, eu consegui dinheiro.
- Woof!
Daisuke não conseguiu esconder a felicidade de ver a grana na minha mão, mas logo sobrepôs a emoção com preocupação.
- Só não faça esforço, ok? Vamos eu te levo. — Com isso, ele acabou por me levantar com os dois braços. Talvez estivesse se esforçando?
- Para, isso é muito brega. – Resmunguei.
- Devia ter pensado nisso antes de entrar aqui por conta própria. Albert está furioso.
- Woof!
- Da próxima vez não quero saber, Mika. Não entre por conta própria. – Albert resmungava no volante, enquanto passava a mão no rosto. Parecia ter se estressado bastante, mas estava aliviado.
- Sim! Susumo estava muito preocupada! – Ela reclamou, se segurando em Hachiko.
- Sim, exatamente. Quem sabe da próxima não deixem só um rombo na sua perna, como em outros lugares. – Continuava reclamando. O estrangeiro parecia querer falar aquilo só para comprovar o alivio que sentia na hora.
- Desculpem. Mas eu não poderia deixar essa espada para trás. – Eu falei.
Eles pareceram entender. Antes de irritados, estavam felizes por nada ter acontecido. Até mesmo Steven que não estava entendendo porcaria nenhuma da conversa parecia concordar.
- Por que ela é tão importante? – O moreno perguntou, olhando para ela com os olhos confusos.
- Um presente de despedida do meu falecido avô. – disse. Ninguém ousou falar mais nada.
Albert parecia entender dessas coisas melhor do que ninguém. Susumo continuava com a mesma cara boba de sempre porque não entendia droga nenhuma. Steven entendia dessas coisas, mas não entendia a conversa e Daisuke parecia ter se lembrado de algo muito, MUITO importante.
- Er... O importante é sobreviver, certo? – Perguntou o moreno.
- Sim, por que pergunta Dai-chan? – Susumo ainda estava agarrada com Hachiko. Mal ligava para as manchas de sangue da mesma.
-... Não me matem.
- O que você fez Daisuke? – Albert engrossou a voz, irritado e segurando o volante com força já imaginando o que estava por vir.
- Acabei de lembrar que tenho dinheiro de quando eu fugi da escola. E é bastante... – Respirou fundo, vendo que a reação das pessoas não era das melhores. — Suficiente pra encher o tanque de gasolina.
-...
-...
-... Esse último comentário era desnecessário, Dai-chan.
-... What happened?
- Woof!
Dead words — fim
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