Dead Nation

3 Seja bem-vinda


Hayley

Eu estava sozinha na sala com pouca luz, um bebedouro com água esverdeada ficava de frente a três fileiras de cinco cadeiras de madeira pura em cada, com um acolchoado de veludo vermelho. E nenhuma janela. Preferi ficar em pé mesmo. Dois passos para a esquerda, suspiro, dois passos para a direita. Outro suspiro.

Pulei ao ver a porta pesada, da mesma madeira feita das cadeiras, se abrir.

O mesmo garoto que estava comigo na sala antes dos testes e que havia me ignorado entrou junto com dois guardiões, ambos altos, musculosos, de pele morena acinzentada. O rosto não se via por causa dos capacetes que tampavam grande parte da cabeça. A única coisa que se via eram as bocas carnudas. Eles se colocaram um de cada lado nas laterais da porta no interior da sala.

O garoto tinha um corpo definido, nada de tão exagerado. Sua pele era acinzentada assim como todos submundanos. O seu rosto tinha traços orientais e seu cabelo preto lhe caia bagunçado até o final do pescoço, sua franja estava sobre seus olhos. Suas roupas estavam todas esfarrapadas. Tinha a aparência cansada e com alguns hematomas aparentes.

Uma gota de sangue lhe caia sobre a lateral direita da boca.

– Ei!

– Er... — Senti minha voz falhar e minhas bochechas queimarem. — Oi.

– Como foi o seu teste? — Perguntou friamente.

– Legal. — Falei com pouca vontade.

Ele fez uma pausa e começou a me encarar.

– Tem algo de errado comigo por acaso?

Vi seus olhos se arregalarem.

– Ah não, não. Desculpa.

Cruzei meus braços e olhei em direção contraria dele.

– Atenção! — Gritou uma voz grave feminina.

Era uma guardiã. Mas diferente dos outros, vestia um vestido branco que lhe caia até abaixo dos joelhos. Na cintura usava um cinturão dourado, que combinava com os braceletes, e com a tiara que ficava ao alto da sua cabeça. Seus cabelos eram negros e caiam em cascata até o final de suas costas. Era magra e seu rosto parecia a de um esqueleto. Possuía certa beleza exótica.

Segurava um arco em uma das mãos e nas costas tinha uma bolsa com flechas. Ela era uma guardiã arqueira e tinha uma postura rígida. Começou a me analisar da cabeça aos pés, fazendo o mesmo com o garoto ao meu lado.

– Quero parabenizá-los por conseguirem chegar até aqui. — Ela deu um sorriso de lado enquanto assentia com a cabeça. — O meu nome é Erin. Nossas tarefas começam às seis horas da manhã, não perdoaremos atrasos. Por isso, cheguem na hora. No centro de treinamento vocês executaram e aprenderam a habilidade escolhida por cada um, para isso terão guardiões para auxiliá-los. Depois do almoço que acontece ao meio dia, vocês poderão descansar até as seis horas da tarde no qual terão um pré-treinamento. Sete horas é o jantar, e às nove horas farão atividades noturnas. As onze todos devem estar em seus dormitórios. Ala sul, dormitório masculino. Ala norte, dormitório feminino. — Ela olhou para nós e deu um sorriso malicioso desta vez. — O menino que for pego na ala feminina, ou vice e versa, será altamente punido. Vocês não podem sair daqui, a menos que seja para as missões. A partir do momento que vocês decidiram ser um guardião, vocês tem que levar isso a sério, ninguém mais saberá da existência de vocês.

Ela fez uma pausa e então voltou a falar.

– Aqui vocês também aprenderão um pouco sobre a história dos guardiões, e isso incluirá segredos. Por isso, se caso houver vazamento de arquivos e sigilos, ele ou ela terá sua mente apagada, não saberá de nada, somente as lembranças de antes de chegarem aqui. — Senti uma corrente fria percorrer meu corpo e engoli seco. — Essas são as regras básicas, mas muito importantes. Bom, agora, vou entregar a vocês um pergaminho com as atividades mensais que valem a partir de amanhã. Vocês serão levados aos seus respectivos dormitórios, ajeitem-se para o jantar. Até mais e boa sorte. — Ela nos entregou os pergaminhos e logo saiu.

Dei uma olhada rápida no meu pergaminho sem o ler direito, o enrolei e respirei fundo. Comei a andar em direção a porta.

– Ei… Espere um momento. — Ele havia agarrado forte o meu braço. — Qual é o seu nome?

– É-é Hayley. — Comecei a tremer, e ele provavelmente percebeu. — Hayley Young. E… Eu tenho que ir. — Puxei meu braço e comecei a andar mais depressa.



Passei por um saguão onde podia ver vários guardiões e alguns novatos ainda perdidos. O local tinha alguns sofás e poltronas, uma maquina de comida e outra de bebidas. Subi as escadarias em direção à ala norte. Passei por um corredor comprido com pelo menos vinte e cinco portas de cada lado, todas numeradas.



Cada um tinha o seu próprio quarto, o meu ficava ao final do corredor, perto de outra escada que levava ao banheiro. Era pequeno e estreito de um jeito que só cabia uma cama, um pequeno armário de canto, um criado mudo com um relógio digital em cima, e mais uma vez nenhuma janela.

As paredes eram cobertas por uma tinta fúnebre cinza, o chão era de um carpete felpudo preto, a cama era dura e o travesseiro era mole demais. Mas tinha pelo menos um cobertor grosso e aconchegante.

Meus pertences já estavam lá.

Tirei da mochila um retrato o coloquei no criado mudo e comecei a encará-lo.

Tive que controlar as lágrimas.

Passei meus olhos para o relógio que marcavam 18hrs28min.

Decidi tomar um banho rápido no banheiro comunitário. Peguei o roupão que estava dobrado em cima da cama e uma nécessaire onde se tinha um frasco de shampoo, um de condicionador e um sabonete pequeno.


O banheiro era grande e claro. Ao centro tinha um balcão com pias dos dois lados e espelhos, na lateral direita tinham umas oito cabines com as privadas e na lateral esquerda oito chuveiros, sem nenhuma divisão entre eles, era tudo aberto. Tinha pelo menos umas dez garotas ali.


Um grupo de três garotas de roupão estava no canto perto do balcão de pias. Elas me encaravam. Uma era baixa e tinha os cabelos pretos e curtos, a outra tinha uma estatura mediana, cabelos cor de chama e enrolados que iam até a metade de suas costas e a ultima, que fazia cara de nojo pra mim, era alta, loira e tinha braços um pouco musculosos.

Elas se aproximaram. A loira passou a língua nos dentes e então disse:

– Olá novata. Meu nome é Megan. Está é Nathaly, — Ela apontou para a ruiva. — E está é Miuk. — Apontou para a baixinha. — Qual o seu nome?

– Hayley. — Minha voz saiu tremula. Droga.

– Meow, a gatinha está assustada?

Elas fecharam o cerco em minha volta. Escutei sussurros das outras garotas que estavam no banheiro. Comecei a me sentir sem ar. Apertei os olhos e os abri de novo. Tudo em minha volta havia ficado embaçado. Senti minha cabeça pesar e tudo começou a rodar. Não! Eu não podia desmaiar ali agora.

Foi então que o primeiro soco veio. Bem na boca do meu estomago. Eu perdi o fôlego e cai de joelhos. Depois pude sentir um chute por baixo do meu queixo e me vi vacilando para trás. Um chute lateral. E eu estava caída no chão.

– É só isso? Acabou? — Perguntou Megan em uma voz irônica e risonha se afastando junto com Nathaly e Miuk.

Sentei vagarosamente. Primeiro fiquei de joelhos e aos poucos fui levantando. Cada músculo do meu corpo tremia e sentia uma corrente de ódio percorrer por ele todo.

Curvava para frente, meus joelhos estavam dobrados e meus braços caídos. Minha cabeça estava abaixada, meus cabelos jogados para frente tampavam a minha visão. Peguei ar, e o máximo que conseguir sentir foi o vapor dos chuveiros. Minhas mãos se fecharam em punho.

Em um movimento rápido, peguei impulso e saltei. Minhas pernas estavam indo em direção ao peito de Megan. Ela conseguiu bloquear. Caí com as costas no chão. Meu corpo se contorceu todo.

Megan se agachou em cima do meu corpo. E com as unhas afiadas iguais à de um gato fez três cortes na minha bochecha esquerda. Foi lento e doloroso. Senti o líquido quente e viscoso escorrer pelo meu rosto, minhas bochechas queimaram. As lagrimas surgiram, mas não as derrubei.

– É isso o que acontece com os fracos aqui. — Ela lambeu o sangue de um dos cortes. — Seja bem-vinda.

Depois disso olhei para os lados, tudo começou a escurecer e eu apaguei.


– Ei, — a voz era feminina, suave e estava longe. — Acorda! Vamos perder a hora do jantar!


A parte de trás da minha cabeça estava doendo. E quando acordei estava em um quarto que não era o meu. A luz fazia meus olhos arderem, pisquei por varias vezes até conseguir me acostumar.

Passei a mão suavemente em meus ferimentos doloridos do rosto e percebi que estavam encharcados por um tipo de pomada. Fiz cara de dor. Virei para o lado e vi uma garota baixinha, magra, de olhos grandes e azuis. Seus cabelos eram brancos iguais à neve que cobria o chão no inverno. Ela me olhava com medo. Mas, abriu um sorriso um tempo depois.

– Quem é você? — Minha voz tremia.

– Holy. Você é a Hayley não é?

– Sim. — Sentei na cama.

O quarto de Holy estava cheio de fotos penduradas na parede ao lado da cama. Provavelmente fotos de seus familiares. E algumas frases escritas com uma letra perfeitamente delicada em folhas de papeis coloridos. No criado mudo um vaso de rosas já murchas em um tom amarronzado.

– Você apanhou muito feio.

– Você viu? — Voltei meu olhar a ela.

– Sim. Eu e mais algumas garotas te trouxermos para o meu quarto depois que elas saíram de lá.

– Há quanto tempo eu estava desmaiada?

– Uns 10 minutos.

Coloquei minha mão na nuca e tombei a cabeça para trás.

– Preciso de um banho e comer alguma coisa.

– Tente ser rápida! O refeitório ficara aberto só até às oito horas. Vou te esperar no saguão.

Assenti.

Ela sorriu.

– Ah, passe isso de novo nos arranhões quando sair do banho. — Ela me entregou um potinho preto com uma pasta transparente dentro. — Passe muito para ajudar a melhorar rápido.

– Obrigado.


Peguei o meu roupão e a nécessaire que por sorte não haviam deixado para trás. Para a minha surpresa, o quarto de Holy ficava de frente ao o meu. Virei à direita e subi novamente a escada que levava ao banheiro.


Estava vazio. Fiquei a vontade para tirar a minha roupa. Liguei todo o chuveiro, a água que descia era gelada. Entrei de cabeça e tudo. Quando terminei de me lavar vesti meu roupão e voltei ao meu dormitório.

Coloquei uma calça jeans rasgada nos joelhos, uma regata preta e vesti meus tênis surrados. Penteei o cabelo de qualquer jeito. Passei a pasta nos arranhões que arderam um pouco e desci para me encontrar com Holy no saguão.

Holy estava sentada em uma das poltronas com um livro a mão que eu não consegui ler o nome. Ela me olhou por cima dos óculos de leitura e sorriu.

Seguimos para o refeitório que ficava um andar abaixo do saguão. Estava lotado. No centro, uma mesa enorme com todo o tipo de comida que podia se imaginar. E várias mesas em volta. O relógio enorme que ficava preso na parede entre duas colunas marcavam 19hrs35min.

Todos me olhavam e cochichavam algo, era constrangedor. Todos encaravam os arranhões em meu rosto. Até alguns guardiões que apenas observavam o comportamento dos novatos e dos veteranos também. Queria cavar um buraco e enterrar a minha cabeça ali mesmo. Em uma mesa a minha frente vi Megan, Nathaly e Miuk.

Elas riam.

Minhas pernas travaram e me encolhia cada vez mais para dentro de mim mesma.