Notas iniciais
Damon segue instruções de Katherine para invocar um demônio da encruzilhada e fazer um pacto que poderá salvar a vida de Elena, mas o seu plano não ocorre da forma que deseja.

Damon desligou o carro e escuridão e silêncio tomaram conta da rua deserta assim que o farol apagou-se e o barulho do motor desapareceu. Nunca antes, em toda sua vida, ele havia experimentado uma sensação de aflição e angústia tal como a que experimentava agora. Ele permaneceu receoso dentro do carro, ambas as mãos firmemente apertadas ao redor do volante. Respirou fundo e tentou acalmar-se. Tinha que fazer isso.

Ele bateu a porta com força ao sair do veículo. A estrada de terra sob seus pés produzia barulhos esquisitos a cada pisava que dava. Pensou, então, que talvez tivesse sido uma boa ideia trazer uma lanterna ou algum tipo de arma para esse encontro. Estaria completamente debilitado no escuro caso algo fora do roteiro acontecesse.

Para ser sincero, Damon ainda não conseguia acreditar que estava realmente seguindo esse plano maluco. Quando Katherine lhe contara a história, parecia que tudo que ela dissera havida sido grosseiramente inventado, um conto de terror que ela criara simplesmente para fazê-lo pagar de idiota. Conhecendo Katherine, Damon não havia completamente descartado a possibilidade; porém, algo nos olhos dela mostraram-lhe que ela acreditava naquilo que falava, e temia também. Sabendo que estava ficando sem alternativas, Damon concluíra que tentar não faria mal algum, e se tudo não passasse de uma farsa, ele podia negar toda a história e ninguém nunca questionaria.

Olhou mais uma vez para a pequena caixinha em suas mãos. Pó extraído de um túmulo, ossos de um gato preto que encontrara rodando por Mystic Falls, uma foto sua com seu melhor sorriso de galã, algumas moedas e uma erva maluca difícil de encontrar. Segundo Katherine, tudo que faltava agora era enterrar o pequeno recipiente de ferro no centro da encruzilhada. Damon voltou ao carro e deixou-o ligado para que o brilho do farol iluminasse os seus arredores. Ele estava uns bons trinta quilômetros fora de Mystic Falls e algumas milhas fora da estrada principal. Um atalho não pavimentado entre as árvores havia lhe direcionado ali, cercado por muros de capim e árvores mortas, no meio do nada, em um ponto onde quatro estradas de terra igualmente atemorizantes se encontravam.

Ajoelhou-se no ponto que acreditava ser o meio e começou a cavar com suas próprias mãos, torcendo o nariz à medida que a poeira levantava. Sua garganta queimava: sempre que ficava nervoso, a fome e o desejo de sangue aumentavam consideravelmente. Tentou afastar isso de sua cabeça; precisava estar focado para encontrar-se pessoalmente com um demônio.

Depositou o pequeno invólucro na cova que fizera e jogou a terra por cima desleixadamente. Levantou-se de pronto e deu alguns passos para trás. A luz do farol de seu carro piscou duas vezes, e uma brisa rápida e gélida soprou-lhe os cabelos. Ele começou a olhar ao redor freneticamente, girando seu corpo para todos os lados. Durante alguns minutos, nada aconteceu, e Damon realmente considerou voltar para dentro de seu carro, ligar o motor e acelerar de volta para sua cidade e seu copo de Bourbon. Porém, no momento que deu o primeiro passo em direção ao veículo, a viu.

Sentada no capô de seu carro estava uma mulher tal como nunca vira antes. Seus olhos eram completamente vermelhos, assim como seu cabelo liso, da cor do fogo, que se estendia até a sua cintura perfeitamente esculpida. Seus seios fartos pareciam estar prestes a escapar do vestido justo e preto que ela vestia. Posicionada entre os dois faróis, ela parecia emanar uma luz branca, quase etérea, o que definitivamente não combinava com sua identidade de demônio. Damon hesitou, com medo de falar qualquer coisa, lutando o desejo de fugir antes que fizesse algo de que iria se arrepender.

— Não precisa ter medo — ela pôs-se de pé e começou a caminhar glamourosamente, sem ao menos tropeçar nos desníveis da estrada apesar de estar usando um salto agulha — Eu não machuco homens como você.

— Como eu? — Damon gaguejou.

— Sim — ela riu.

Agora, ela já estava tão perto de Damon, que ele podia sentir sua respiração quente em seu rosto. Ele não conseguia mexer-se, hipnotizado pelos olhos dela que pareciam emanar chamas. Por um segundo, ele pensou que ela fosse beijar-lhe, mas subitamente ela afastou-se e começou a andar em direção ao centro da encruzilhada:

— Vampiro — ela cuspiu a palavra, bufando e mexendo a cabeça em desaprovação — Desculpe, querido, mas você perdeu seu tempo. Eu só faço pacto com humanos.

Damon subitamente acordou e lembrou-se do motivo para estar ali. Precisava salvar Elena. Não sabia quando Klaus viria para roubá-la, mas precisava evitar que o amor de sua vida fosse morta para satisfazer as volições de um vampiro maluco de mil anos.

— Você disse que não machuca homens como eu — Damon tentou — Quem sabe faça exceções para homens como eu?

Ela gargalhou, sua voz frígida e cortante.

— Depende do que você tem para me oferecer, Damon Salvatore

Damon ponderou por um instante como ela poderia saber seu nome, mas concluiu que seu nome era, possivelmente, bem cotado no inferno.

— O que você quiser — Damon tentou o máximo que pôde para soar sedutor, desafiando seu medo e seu receio. Estava diante de uma criatura desconhecida, sobre a qual nunca ouvira falar durante seus mais de cento e cinquenta anos de vida. Era surreal descobrir que, além de lobisomens e vampiros e bruxos, ainda existiam demônios.

— Eu, Damon, quero muitas coisas. E nenhuma delas você pode me oferecer — ela riu sarcasticamente — Mas, por ser extremamente bonito, eu lhe darei uma chance. Conte-me a sua história. Eu vejo o que posso fazer.

Damon suspirou fundo. Estava determinado a não mencionar seu irmão ou Elena ou qualquer um de seus amigos durante o processo.

— Bem, eu quero salvar uma pessoa — começou.

— Não, Damon... Eu quero saber detalhes — ela sorriu, como tivesse lido sua mente — Todos eles. Até aqueles que você não acha prudente confidenciar a mim. Caso contrário, outras duzentas caixinhas estão sendo enterradas nesse exato momento, e eu tenho outras encruzilhadas para estar — ela checou seu pulso como alguém que olha o relógio preocupado com a hora, só que ela não usava qualquer tipo de relógio.

Damon suspirou fundo. Era sua única chance de manter Elena humana e evitar que ela fosse sacrificada. Sabia que, se algo desse errado, ela poderia estar em maior perigo, mas esse risco era um que ele estava disposto a correr. Se necessário, ele a protegeria.

— Eu quero salvar a namorada do meu irmão. O nome dela é Elena. E ela é especial. É importante para quebrar uma maldição — mordeu o lábio enquanto observava o demônio, que balançava a cabeça, estimulando-o a continuar — Um antigo vampiro, o primeiro vampiro de todos os tempos, chamado Klaus, quer sacrificá-la para quebrar a maldição do Sol e da Lua, para evitar que vampiros e lobisomens sejam prisioneiros destes.

— E você quer salvar a Elena? — ela questionou, sugando os dentes — Bom, Damon, os pactos que eu faço são bem simples. O humano faz um pedido, eu concedo esse pedido e em dez anos eu volto e recolho a alma dele com os meus cães. Você, Damon... Sua alma não vale tanto assim. E o que você está pedindo é proteção contra uma das criaturas mais poderosas de todas... Acho que não vai dar.

Damon usou sua super velocidade e parou em frente ao demônio, súplica em seus olhos. Ele a segurou pelos ombros.

— Por favor — pediu.

Ela deu alguns passos para trás.

— Tudo bem — concedeu, com um sorriso malicioso que escondia segundas intenções e que soava insanamente provocante por culpa do batom que dava aos seus lábios a cor do sangue que Damon desejava — Com uma condição, Damon...

— Eu cedo a minha alma! — ele exclamou, quase aliviado.

— Ora, eu não quero a sua alma.

— Então o que você quer? — Damon perguntou, confuso.

— Nós vamos controlar a situação. Vamos evitar que Klaus pegue Elena, e sua donzela ficará feliz para sempre com seu irmão. Você, pelo outro lado, em um ano, virá trabalhar conosco. Quando seu prazo acabar, você se tornará um demônio. Assim como eu! Você vai adorar! — ela exclamou, abrindo um sorriso que exibia todos os seus dentes.

Damon sorriu. Era um sorriso amargo. De certa forma, esse acordo era melhor do que poderia imaginar. Iria salvar Elena e, no fim de tudo, iria partir como o herói que era. Ela continuaria a viver seus dias em Mystic Falls com Stefan, Caroline, Bonnie, sua tia Jenna, Alaric e seu irmão e todos estariam livres dos problemas que ele causava. Era o final feliz perfeito.

— Feito — suspirou fundo.

— Fico muito feliz. Algo me diz que teremos um futuro promissor, Damon. Agora, venha aqui — ela sinalizou com os dedos para que ele se aproximasse — Para selar o acordo, precisamos beijar.

— Você tá brincando? — Damon perguntou, cético.

— Não — ela deu de ombros.

Damon aproximou-se e ela jogou seus braços ao redor se seu pescoço, atacando seus lábios com uma voracidade que o fazia pensar em Katherine. O beijo durou poucos segundos, pois um segundo farol surgira à distância, fazendo Damon se afastar.

O demônio virou-se para encarar o carro. Ela deu alguns passos para frente e, subitamente, não conseguia mais caminhar. Damon cerrou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo. Era como se subitamente uma prisão invisível e circular tivesse caído sob ela. Damon ficou estático, sem saber o que fazer enquanto ela se debatia inutilmente contra a gaiola invisível que a continha. Ao passo que a agulha de seu salto chutava e levantava areia, Damon pode identificar um desenho por baixo da camada superficial de terra. Ele não sabia que espécie de símbolo era aquele, e nunca vira algo parecido em toda sua vida. Quando ela notara a gravura, soltou um urro de descontentamento.

O Impala freou, levantando uma nuvem de poeira, de dentro da qual dois homens emergiram, segurando armas e com mochilas em suas costas.

— Winchesters... — ela bufou, como alguém cuja paciência havia se esgotado há muito — O que é que vocês querem? Eu já lhes disse, um milhão de vezes que eu não rescindo contratos, Dean. Os cães estão chegando e você não tem como evitar.

— Bom... Eu diria que tenho sim — o homem que Damon identificara como Dean tinha um sorriso cínico em seus lábios — Mostre para ela o que descobrimos, Sammy.

Damon não sabia o que fazer diante da situação. Ele não entendia o que estava acontecendo. Como dois humanos, com fortes corações pulsantes e veias quentes podiam estar manipulando um demônio? Algo dentro dele dizia para atacá-los e acabar com aquela dissimulação, mas resolveu não fazer nada. Percebera que ainda não havia sido notado pelos rapazes, já que estava posicionado um pouco fora do campo de luz gerado pelo farol de seu carro. Iria lidar com a situação quando, inevitavelmente, fosse puxado para dentro dela.

— O que é isso? — perguntou o demônio.

Damon não conseguia ver o que era que Sam estava mostrando.

— Isso — a voz de Sam ecoou pela noite — são os seus podres ossos. Fizemos uma descoberta, Kelly, e acontece que, quando queimamos os ossos de um demônio, eles morrem. Para todo o sempre. Não mais você irá possuir outros corpos ou torturar alguém no inferno. Esse é o seu fim. E a única chance de se salvar é desfazer o contrato do meu irmão.

Por algum motivo, saber que eles eram irmãos lutando um pelo outro fez Damon sentir-se um pouco mais confortável.

— Eu não tenho esse poder — ela berrou, mas sua voz não mais possuía aquele tom de comando que ela usara com Damon. Era agora uma súplica, um pedido por misericórdia.

— QUEM TEM? — Dean exigiu, sacando uma arma esquisita, com um cano longo. Algo que Damon nunca antes havia visto.

— É melhor você falar — ameaçou Sam, segurando um maçarico em suas mãos.

Kelly ficou em silêncio por vários minutos. Dean colocou o cano da arma na testa dela e pressionou, forçando-a a dar alguns passos para trás.

— Dez segundos — Sam provocou — Ou eu queimo seus ossos.

O silêncio que pairou foi tão intenso que fez Damon prender a respiração. Ele ainda não tinha certeza de como deveria proceder agora.

— Lilith — ela finalmente confessou — A chefe, ela se chama Lilith. Ela decide quem morre e quem vive, mas vocês nunca vão conseguir capturá-la. Ela é um dos demônios mais poderosos de todos.

— Obrigado, Kelly — Sam sorriu — Agora, queime.

— NÃO! — ela urrou — DAMON, MATE-OS!

Tudo então aconteceu muito rápido.

Dean finalmente distinguiu Damon na escuridão e levantou uma arma em direção â ele, atirando. Damon desviou rapidamente e, correndo mais rápido do que nunca, contornou a rua e surgiu por trás de Damon, atacando-o e rolando no chão de terra com ele. Ao mesmo tempo em que rolava, Damon pôde ver Sam ateando fogo ao saco de ossos e ouvir os brados agonizantes de Kelly, quase como um choro, enquanto todo seu corpo era lambido por chamas vivas e seu esqueleto começava a surgir por baixo de sua pele. Damon enrolou suas mãos ao redor do pescoço de Dean, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu uma agulha picar a pele de seu pescoço e um líquido viscoso entrando em suas artérias. Não sabia o que era, mas em segundos, todo o seu mundo escureceu e ele caiu, desmaiado, ao chão.

Notas finais
"Devil May Cry" é uma música do The Weekend que me ajudou bastante a escrever esse capítulo, por algum motivo. Peço perdão por qualquer erro que eu tenha deixado passar, apesar de ter revisado várias vezes! Contem-me o que acharam sobre o enredo mas também sobre a escrita, o tamanho do capítulo e coisas do tipo. Boa leitura e espero que gostem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.