Dead Line Circus - Interativa
16 O passado me persegue
Notas iniciais
“Olhe nos meus olhos, é onde meus demônios se escondem.”
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No Céu dos Acrobatas, Isis se balançava nos trapézios se jogando no ar e mudando de barra conforme avançava em sua trajetória.
– Mas você é bem dedicada hein? – Saga falava sentada em uma plataforma a observando.
– Não. Os trapézios são bem altos e estão escondidos no escuro. Não acho que alguém vai querer subir aqui em cima sem enxergar onde está pisando. – Isis responde. – Sem falar que eu quero ficar aqui.
– Saga acha que Isis está se esforçando demais. É desnecessário treinar agora, amanhã o de tapa-olho vai estar aqui pra fazer a mesma coisa.
– Não me importo com ele. Eu gosto de ficar em lugares altos e ele não está aqui pra me impedir de brincar.
Saga se deita na plataforma entediada, ouvindo os sibilos de suas cobras em seus ouvidos. Olhando para o teto pode ver que a lona estava pintada imitando um céu estrelado, se ficasse encarando bastante quase podia jurar ver as estrelas brilhando, mas sabia que devia ser falso.
Quando o primeiro tempo termina, Isis aterrissa na plataforma de Saga se espreguiçando prestes a descansar um pouco.
– Terminou?
– Não, só estou recuperando o fôlego.
Saga se vira de lado pouco se importando, seus cabelos escorrem pelas costas e Isis observa sua silhueta. Havia escamas presas à sua pele ou então sua própria pele estava formando escamas, seus cabelos começavam como fios normais, mas suas pontas se moviam e sibilavam como cobras, mesmo os olhos de Saga eram diferentes de olhos normais, eram perolados e brilhavam no escuro, se Medusa existisse seria parecida com ela?
– Saga, você... É meio-cobra não é? Como foi que você ficou assim?
A mulher se vira para ela com as sobrancelhas arqueadas.
– Por que quer saber?
– Por nada, só curiosidade.
– Saga nasceu assim. – A mulher diz. – Lixos humanos fizeram a Saga assim.
– “Lixos”?
– Todos que não são cobras são lixos para a Saga. – Ela empina o nariz como se não fosse nada.
– Não te incomoda ter nascido assim? Quer dizer... meio-cobra?
– Saga é perfeita. Ninguém se equipara a Saga. – Ela exibe um sorriso orgulhoso. – Todos esses vermes imundos nascem para ficar aos meus pés, exatamente como os lixos que são.
– Você fala de um jeito bem engraçado. Se ficar chamando todos assim ninguém vai gostar você. Você não liga pra isso?
Os olhos da mulher ficam tristes com a pergunta.
– Não. Eu não teria companhia de um jeito ou de outro... pelo menos desse jeito é mais fácil pra mim. Eu vou pisar em todos antes que pisem em mim.
– Do que está falando?
– Decidi há muito tempo que nunca mais ficaria abaixo de alguém. Quando saísse de minha jaula, jurei a mim mesma que eu não olharia ninguém de baixo, eu seria a única em pé, enquanto eles ficariam aos meus pés.
– Fala dos lix-...ahn... cientistas que a criaram?
– Sim. Quando estava presa eles pareciam tão grandes... mas depois que fugi eles ficaram pequenos. Saga não tem defeitos, não é bichinho de estimação.
– O que aconteceu depois que você fugiu? – Isis se endireita interessada pela história, de certa forma ela também era uma fugitiva.
– Depois que fugi... Kumiko encontrou a Saga. Saga estava comendo ratos quando viu Kumiko, ela não olhou a Saga de cima, olhou de frente e sorriu. Ela levou Saga pra uma casa nas montanhas, todo dia tinha margaridas na janela. Kumiko sempre viu Saga como igual, ela sempre se abaixava quando ia conversar com Saga. Era uma boa pessoa, pelo menos acho que ela era.
– Você gostava dela?
– Saga não gosta de ninguém além da Saga. – Ela diz com teimosia. – Mas Kumiko era... confortável. Fazia Saga se sentir bem.
– O que aconteceu com ela? Morreu?
– Não sei, mas espero que sim.
– Eu hein. Pensei que gostava dela... – Isis fica pensativa. – Teve mais alguém que gostou de você do jeito que você é?
– Kumiko não gostava de mim, só cuidava de mim.
– Que exagero.
– Isis eu sou uma cobra. – Ela se senta para Isis observá-la melhor, o que surpreende a hibrida por ouvir pela primeira vez ela falando em primeira pessoa. – Você sabe o que isso quer dizer. Cobras são traiçoeiras, venenosas e frias. Não posso ser fiel como um cão e nem companheira como um gato. Mesmo que eu fosse leal a alguém, ainda haveria a desconfiança de que eu a trairia por que não passo de uma víbora. Se eu me dedicasse a uma pessoa a vida inteira e a traísse no final ninguém ficaria surpreso por já esperar isso de alguém como eu.
A egípcia fica em silencio.
– Eu sou venenosa e sou traiçoeira, não devo satisfação a ninguém. E se alguém achar que é melhor do que eu vai engolir suas palavras. Eu não estou embaixo de ninguém e ninguém é melhor que eu. Saga está bem com quem ela é, se Saga se acha perfeita por que vai ouvir as opiniões de lixos que rastejam aos seus pés?
– Sua auto-estima é mesmo impressionante. – Isis olha para o lado encabulada.
Saga estava prestes a dizer um comentário sarcástico quando as duas se calam ao ouvir o som de alguém entrar. Graças as estrelas pintadas no teto os olhos brilhantes das duas foram facilmente confundidos com o cenário, e suas presenças não foram percebidas pela ruiva que se aproximava.
Dama Escarlate corria olhando em volta, parecia desnorteada e perdida. Pelos sons secos que escapavam de sua garganta parecia que ela tinha chorado e agora estava tentando se controlar para não cair em lágrimas de novo. Um tiro acerta sua perna e ela tropeça e cai, ouvindo a arma ser engatada para o próximo tiro.
– Acredita que eu me lembro de você? – Uma pessoa se aproxima atrás dela.
Arisu estava com uma espingarda e um sorriso de orelha a orelha. Seus olhos, agora vermelho sangue, não desviavam sua atenção da ruiva caída.
– Você estava batendo palmas enquanto minha mãe arrancava a própria perna. Eu me lembro muito bem.
– Eu não me lembro de você. – Dama escarlate diz se arrastando, tentando ganhar distancia dela e distrai-la com alguma coisa. – Quem é você? Uma VIP?
– Não me compare a esses vermes.
Lá do alto, Saga balança a cabeça feliz, vermes, lixos, a garota estava pegando o jeito.
–Eu era rica, mas não era doente como vocês. Seus vermes parasitas. Meu nome é Arisu Koga, filha de Izumi e Hazuki Koga, antigos grandes donos de indústrias alimentícias.
– Eu não sei do que está falando. Não sou do setor industrial, sou da área política. – Anastasia apalpa sua coxa, lamentando ter sido roubada justo num momento como aquele.
– Eu não estou atrás de você por isso. Só quero te matar por que sua felicidade me incomoda.
– Seu azar não é minha culpa.
– Mas sua alegria durante o sofrimento de meus pais é. – Arisu mira na cabeça dela e atira.
A bala atravessa sua testa e a faz cair de cabeça no chão, com os olhos arregalados sem olhar para nada em particular. Arisu atira mais duas vezes para ter certeza de que ela estava morta e então sai dali aos pulinhos, feliz da vida com o assassinato.
Saga apoia o queixo em uma mão entediada.
– É só isso? Que morte mais pobre. Pra você ver como humanos são frágeis, no fim das contas todos morrem do mesmo jeito. – Saga se levanta e coloca as mãos na cintura. – O QUE O DINHEIRO PODE FAZER POR VOCÊS AGORA HEIN? – E então ri alto imitando uma vilã.
De repente, a Dama Escarlate se levanta, fazendo Saga se abaixar imediatamente com os olhos arregalados. Anastasia Ivanovith se coloca de pé de um jeito desengonçado, primeiro com os cotovelos sendo puxados para cima e depois tentando ajeitar as pernas para ficarem em pé em vez de tortas como estavam.
– Parece uma marionete puxada por fios. – Isis comenta observando a cena estranha.
Uma vez estando perfeitamente de pé, Anastasia puxa o ar com força para os pulmões como se tivesse se afogado ou prendido a respiração por muito tempo. Ela olha em volta desorientada e então suspira de alivio, saindo dali com cautela.
– Mas que raios-...? – Isis nem completa a pergunta.
As duas hibridas olham uma para a outra com a mesma pergunta em seus olhos. Como ela sobreviveu?
~ ❖ ~
Alma arrastava Callisto por um braço apressada, fazendo-o tropeçar em muitas pedras quase caindo e escorregar no musgo de outras, apesar de saber que seria melhor se deixasse-o acompanhá-la normalmente não conseguia evitar de puxá-lo com força toda vez que ele parava para admirar a formação de estalactites no interior da caverna. Era só se distrair e quando olhava para trás via-o examinando o teto, apressada como estava ela resolveu puxá-lo pelo caminho todo. Atrás deles Ênia caminhava sem pressa acompanhando a dupla, não parecia muito interessada na caminhada, mas desde quando alguém sabia como ela se sentia? Sua expressão calma e impenetrável raramente demonstrava emoções.
Alma chega em uma grande árvore seca e torta e estende os braços apresentando-a como se fosse uma pessoa importante, pela expressão ansiosa em seu rosto Callisto imaginou que devia demonstrar alguma reação ante a descoberta.
– É um prazer conhecê-la. – Ele fala segurando um galho mais baixo e balançando-o como se apertasse uma mão.
A pequena pierrot balança a cabeça em negativa e faz um gesto como se estivesse cavando uma cova.
– Espero que não esteja me pedindo para enterrar um corpo...
A menina abre o livro no conto de Michael e o entrega para Callisto, que dá uma rápida olhada pela folha. Ênia se aproxima e observa por cima do ombro dele, memorizando a história com um rápido olhar.
– Não me diga que é essa árvore!? – Callisto aponta para a figura seca cujo corvo observava-os com olhos inquisidores.
– Onde você conseguiu isso? – Ênia observa Alma com olhos frios e analíticos.
A pequena dá de ombros desviando-se do olhar de Ênia e se aproxima da árvore, rodeando-a como fez na primeira vez. O homem e a garota também observam suas raízes grossas, que penetravam profundamente na terra.
– De certa forma é estranho, como ela consegue permanecer viva se não há luz? – Ênia observa as raízes grossas, talvez fossem longas o bastante para atravessarem a terra e conseguirem água do lago, mas sem luz ela não poderia sobreviver.
Uma planta que não recebe a luz do sol duraria no máximo um ou dois meses, isso se fosse uma planta que tivesse um ciclo de vida muito longo, pois plantas mais fracas mal durariam dez dias, mas aquela árvore? Parecia que estava ali há anos, a casca envelhecida sugeria décadas de existência e ela não dava indícios de podridão, o que era estranho uma vez que já devia estar morta aquela altura.
– Não entendo muito de biologia. – Callisto diz dando de ombros.
Eles rodeiam a árvore procurando por um pedaço de terra que fosse mais fofo ou que parecesse ter sido remexido recentemente, uma marca que indicasse algum local para cavar ou até mesmo algum padrão diferente entre as raízes.
– Ah, acho que achei alguma coisa. – Callisto diz analisando uma irregularidade.
Os três se aproximam para observar. Em um certo ponto, as raízes se emaranhavam cobrindo um buraco onde suas raízes grudavam uma na outra formando um circulo perfeito do tamanho de um punho, havia um buraco dentro desse círculo que provavelmente só passaria uma mão, como estava escuro não dava pra ver até onde ele ia ou o que ele tinha, mas pela localização devia dar para algum lugar debaixo do tronco da árvore.
– Então... Alguém se habilita a enfiar a mão lá dentro? – Callisto coça a cabeça sem graça virando-se para as duas.
Tanto Alma quanto Ênia olhavam para ele.
– O que?
– Você não vai fazer uma garota enfiar a mão em um buraco tão suspeito, não é? Pode ter qualquer coisa lá dentro.
Alma move os braços e as mãos, imitando cobras, aranhas, insetos e uma porção de outros animais.
– Ei, isso é feminismo... Ou é machismo?... Preconceito? Como se chama essa situação mesmo? – Ele pensa. – Só deixam os serviços ruins pros homens hein?
Alma dispensa ele com um gesto que Ênia imita por considerar o movimento prático. Com um suspiro Callisto se agacha perto do circulo e devagar ele enfia a mão no buraco, tomando cuidado com qualquer coisa suspeita que ele pudesse sentir. Engoliu em seco, ele se assustava fácil. Tateando a superfície gelada e seca, ele sente os sulcos da árvore, junto com suas linhas e espirais, não havia nada de suspeito no inicio, então ele vai adentrando o buraco um pouco mais. Ele acaba enfiando praticamente o braço inteiro no buraco com o passar do tempo, só quando as raízes atingem o ombro é que ele sente alguma coisa.
– Ah, acho que encontrei alguma coisa. – Ele diz tentando arrastar o objeto desconhecido para mais perto com a ponta dos dedos.
– A propósito, você veio aqui em dupla não é? Onde está a Evanecer? – Ênia pergunta para Alma lembrando-se que ela não tinha ido ali sozinha.
Uma onda de escuridão se projeta por uma passagem mais à frente junto com um grito feminino, engolindo o trio como se fosse uma onda do mar. Era a passagem que Evanecer tinha passado, Alma tinha até se esquecido dela. Aquele escuro era sólido como lama e o grito era tão alto e desesperado que parecia o ultimo grito que uma vitima dá antes de morrer. Alma sentiu seus pés afundarem no chão como se tivesse pulado em um buraco de areia movediça, Ênia foi levada pela onda de lama, chegando ao ponto de quase se afogar, e Callisto que finalmente conseguiu pegar o objeto, sentiu seu corpo levitar no ar enquanto duas mãos desconhecidas cobriam seus ouvidos.
Um sorriso. Ele podia sentir alguém sorrindo pelas suas costas.
Callisto abriu bem os olhos chegando a arregalá-los enquanto olhava em volta. Sua vista tinha escurecido, ele não conseguia mais enxergar nada, mas sentiu seu corpo ficando reto como uma tábua imóvel sem gravidade, enquanto um braço se arrastava rente ao seu em direção ao objeto que ele segurava tão firmemente. De reflexo ele afastou o braço desconhecido e trouxe o objeto junto ao peito, protegendo-o da pessoa que queria pegá-lo.
Com um esforço, ele contorce seu corpo com impulsos tentando se virar para ver o que tinha atrás dele, e quando consegue vê o brilho de um flash, ele pisca desnorteado e quando abre os olhos de novo vê uma mulher com uma câmera fotográfica à sua frente. Ela era muito bonita, tinha longos cabelos negros e olhos violeta, que brilhavam como ametistas. Ela sorri pra ele de um jeito brincalhão tirando a câmera da frente do rosto e dá um oizinho. Atrás dela havia muitas barracas e grades, faixas multicoloridas e artistas de circo com cores vibrantes. Aquilo era Dead Line Circus.
Callisto fica chocado, encarando-a naquele ambiente alegre e colorido.
– Sorria! Se ficar fazendo essa cara séria, vai parecer triste na foto. – Ela se aproxima dele dando-lhe um beijinho na bochecha.
– Amélia... – Ele diz mudo de choque, tão baixo que era quase um sussurro.
– Hum? – Ela olha diretamente nos olhos dele com uma animada inocência. – Vamos, qual o problema? Só um sorrisinho sem graça também vale.
Amélia se afasta dele e coloca a câmera em posição, sorrindo atrás da lente. Callisto avança um passo dando um sorriso aliviado e feliz, enquanto a admirava viva e alegre à sua frente. A mulher bate uma foto e pisca um olho para ele, dando as costas e continuando a tirar fotos do ambiente. Corria pela estrada como uma criança, tirando fotos das barracas, dos balões, dos artistas, das pessoas, de tudo que seu olhar captasse, e Callisto ignorado, apenas ria observando-a andar em círculos tentando tirar foto até dos animais que passavam por ali.
– Call, olha! São acrobatas. – Ela aponta para um grupo de artistas toda animada. – Vamos, eu quero pegar o show antes que comece.
A mulher arrasta o moreno junto com ela.
– Ah, não! Tem um malabarista de fogo ali. – Ela para no meio do caminho. – Qual eu vou primeiro? Qual é melhor? Ahn... ahn...
Callisto sorri aliviado, sem duvida era ela. Doce, animada, gentil e indecisa, sua amada e querida Amélia.
A mulher sai correndo em direção a malabarista, esquecendo-se momentaneamente do colega, fazendo Callisto rir cobrindo a boca com uma mão por já esperar tal comportamento dela. Ele se vira para vê-la e não a encontra, a malabarista de fogo rodopiava suas tochas um pouco mais a frente, mas não havia nenhum sinal de Amélia. Ele olha em volta começando a entrar em desespero, onde ela estava?
Callisto corre por entre as atrações procurando por sua amada, de barraca a barraca, estava com um pressentimento ruim desde que tinha entrado ali. Ele chama pelo nome dela desesperado, mas não ouve um único som. Conhecia cada uma daquelas pessoas, desde os cidadãos até os artistas, ao menos agora conhecia os artistas, mas a pessoa que estava procurando: nenhum sinal.
Se aquilo era um sonho, não estava gostando do rumo dos acontecimentos. Da ultima vez que perdeu ela de vista encontrou-a só no dia seguinte, morta, e por acaso foi justamente naquele circo.
Parecia real demais para ser um sonho, ainda mais quando ele não se lembrava de ter ido dormir, mas mesmo assim, sendo sonho ou não, não queria passar por aquilo de novo.
Mais uma vez ele chama-a e dessa vez ouve a voz dela: “Estou aqui”.
Confuso, ele caminha na direção do som. Amélia estava em um lugar que parecia um salão de baile vazio, ela olhava fixamente para o teto, com sua máquina fotográfica caída no chão.
– Amélia?
Recobrando a atenção ela olha para ele, surpresa, como se o visse pela primeira vez.
– Call? – Ela arqueia uma sobrancelha, mas logo tampa a boca. Amélia olha em volta assustada, com medo de alguém ter ouvido. – V-Vá embora. – Ela sussurra. – N-Não entre aqui, é sério, por favor.
– Do que está falando? – Callisto fica sério, sentindo que ela estava falando uma coisa muito importante, mas sem conseguir compreender o que estava acontecendo.
– Fique aí. – Ela estende os braços como quando se tenta acalmar um animal selvagem e caminha bem devagar na direção dele, como se estivesse pisando em gelo fino. – Agora eu me lembrei. Ainda dá tempo, você só tem que me esquecer. Finja que eu não estou aqui.
– Esquecer... – Callisto repete para memorizar. Não entendia o que estava acontecendo, mas podia sentir a atmosfera perigosa e a urgência na voz dela. Amélia falava como se estivesse na mira de uma arma.
De repente, um som. Ela só deu mais um passo e ouviu-se o som de ossos se quebrando, suas duas pernas entortaram para o lado e ela caiu.
O som assustou Callisto e de reflexo ele correu na direção dela, sabia que ela disse para não entrar ali, mas ficou com medo dela ter quebrado alguma coisa. Quando você está parado em frente ao amor de sua vida e de repente ela quebra as duas pernas na sua frente é natural que qualquer um corra na direção dela para ajudá-la. No momento que a pegou nos braços foi que percebeu que ela tinha mudado radicalmente naqueles poucos segundos.
Seus membros tinham sido arrancados e costurados porcamente de volta no lugar com linhas e grampos de metal, as roupas rasgadas não conseguiam esconder as marcas de arranhões, cortes e contusões de sua pele, e sua linda cabecinha, agora com um buraco do tamanho de uma mordida no crânio, tinha o rosto coberto por buracos negros e musgo, exatamente como nos sonhos que vinha tendo desde que a viu nos noticiários. Seus olhos foscos demonstraram pavor e ela bateu uma vez no ombro dele dizendo para ele fugir o mais rápido possível, até seu corpo desaparecer transformando-se em pó antes que ela fizesse mais alguma coisa.
Todo o cenário desaparece e Callisto é engolido de novo pela escuridão, perguntando-se se estava ficando louco, aquilo parecia muito real, era mesmo só um sonho?
De repente, ele sente que havia mais alguém ali. Não podia vê-lo, mas sentia em cada célula do seu corpo de que tinha mais alguma coisa ali. Seguindo o conselho de Amélia ele tenta correr, mas não sentia mais o chão, parecia que estava flutuando em gravidade zero.
Podia sentir a presença esmagadora e cruel, uma aura poderosa que se assemelhava a da própria morte. O ar tenso tornou-se irrespirável e calafrios percorriam seu corpo como ondas de choque. Callisto estava tremendo, sentindo-se muito exposto na presença de um predador cruel.
– Por que a pressa? – Uma voz profunda e misteriosa ecoa na escuridão.
Callisto sente seu corpo paralisar, uma força invisível o petrifica e o arrasta de volta para cada vez mais perto da coisa maligna. A imagem de milhares de Amélias correndo assustadas passa por ele enquanto seu corpo é arrastado na direção que elas estavam fugindo, sentia-se dentro de um sonho, mas por que parecia tão real e por que ele não acordava?
– Você não pode fugir, não de mim, você não tem força para tal proeza.
Algo o toca e ele arqueja de dor. Sentindo os choques por seu corpo aumentarem e sua respiração ficar descompassada. O que tinha tocado nele? Uma arma de choque? Nitrogênio liquido? Deixaria sequelas?
– Shhh...
Do local onde tinha sido atingido, uma onda amena de prazer sobe pelo seu corpo, fazendo-o ficar mais relaxado e sonolento. Ele se pega sorrindo, embalado pela sensação, enquanto apenas se deixa cair pra onde quer que fosse.
– Agora me diga, Callisto... – A voz grave torna-se mais séria, sussurrando a próxima fala em seu ouvido. – Qual é o seu desejo?
Imerso em deleite, ele abre seus olhos dourados e aos poucos o brilho apaixonado em seu olhar vai se acentuando para um olhar sombrio, seu sorriso doce se transformando em um sorriso cruel e ele vai abrindo a maior expressão de escárnio possível. Aquele não era o Callisto que todos conheciam. Sua máscara cai, revelando um turbilhão de emoções e sentimentos que muitos nem considerariam que ele possuísse.
O moreno de olhos dourados gentil e brincalhão era apenas uma casca vazia que ele usava para proteger sua alma escura. Ninguém se aproximaria dele e ele nunca conseguiria atingir seus objetivos se vissem sua verdadeira face, era a lei da vida, os lobos se faziam de ovelhas para entrarem facilmente em seus rebanhos. Seus sentimentos não eram nem um pouco puros e ingênuos como costumava atuar.
A ganância fazia parte de sua alma, o ódio que a todo custo tentava esconder, mas que agora transbordava por todos os poros, podia ser tão sombrio quanto a própria morte, a tristeza que possuía era como um oceano turbulento, banhado na mais pura solidão e o vazio corroía o que chamava de coração.
Aquele era Callisto, cujos demônios se escondiam em seus olhos dourados que queimavam cheios de ódio por tudo que existia à sua volta. Vazio de qualquer humanidade e que já havia envenenado suas próprias emoções há muito tempo atrás.
– Finalmente achei você. – Ele sorri com sarcasmo.
Callisto sente ondas contornarem seu corpo, aprovando seus horriveis sentimentos expostos. Ele estende a mão para tocá-las e sente dedos entrelaçarem-se aos seus. Uma escuridão e crueldade tão grandes quanto a que guardava em sua alma se estendiam à sua frente, puxando-o para ela, convidando-o a entregar-se ao mar escuro cuja luz se dissolvia em trevas, tentando, chamando, seduzindo.
– Isso mesmo, exiba sua alma para mim. Mostre-me do que você é feito. Diga-me, com suas próprias palavras... alto e claro. – A voz se aproxima, incentivando-o. – Qual é o seu desejo?
A escuridão de Callisto se mistura a escuridão dele, e é então que Callisto responde.
– Ela. Eu desejo que Amélia volte para mim.
Algo frio encosta em seus lábios e Callisto não demora para perceber que eram os lábios dele. Eram tão frios quanto gelo, não existia o menor sinal de que algum dia aquilo teve calor corporal, mas de alguma forma, era uma sensação boa. Causava entorpecimento e Callisto se viu querendo que aquilo não parasse.
– Eu atenderei o seu desejo.
Do meio de seu peito, ele sente alguma coisa ser arrancada, podia sentir a carne se desprendendo de seu corpo e os nervos serem arrebentados no ar, a dor era demais para colocar em palavras.
– Com seu pedido realizado, agora você é meu. Tomarei tudo o que você tem e te darei o que você quer em troca. Este será nosso trato.
Callisto começa a cair em um abismo profundo, sentindo sua consciência lhe abandonar. Ele ainda estende um braço na direção da figura sombria que o abandonava e faz uma ultima pergunta para ela, recebendo a sensação de um sorriso sarcástico como resposta.
~ ❖ ~
Callisto acorda jogado no chão de um quarto. Sem mover seu corpo ele olha em volta tentando identificar onde estava, quando o som de um par de botas se aproxima dele o homem fecha os olhos fingindo que estava dormindo. O som passa por ele e Callisto abre-os novamente, identificando os longos cabelos roxos de Arman.
Tinha que colocar sua máscara de novo, ninguém podia ver o verdadeiro Callisto, não depois do encontro que teve com seu tão odiado alvo. Ingênuo, amigável, infantil, tinha que se recompor imediatamente.
O francês boceja e se coloca de pé coçando o olho sonolento e olhando em volta.
– Acordou cedo. – Arman para sua trajetória para observá-lo.
– Bom di-... – Callisto para no meio da frase ao observar Arman com um pegador de gelo e Evanecer desacordada em uma cama com grampos abrindo um de seus olhos. – Ei, ei, espera aí! Você vai arrancar o olho dela?
– Volte a dormir. – Arman diz se sentando na cama ao lado do corpo dela. – Daqui a pouco vai amanhecer e você não terá mais tempo para nada.
– Espera aí! VOCÊ VAI ARRANCAR O OLHO DELA?
– Está tudo bem, eu já esterilizei. – Ele diz mostrando o pegador de gelo.
– Essa não é a questão aqui.
Callisto então percebe que eles não estavam sozinhos, Ênia também estava ali, jogada no chão ao lado de Alma. Coração Mecânico brincava de cama-de-gato com Lua Azul. Todos num quarto em que quase tudo tinha tons de roxo e as cômodas estavam abarrotadas de objetos decorativos e bibelôs.
– Meu quarto. – Arman responde.
– Como foi que eu vim parar aqui? Podia jurar que eu estava em outro lugar fazendo outra coisa.
– Eu só ia trazer essa tal de Evanecer para alguns assuntos pessoais, mas Lua Azul arrastou o resto.
– Você vai mesmo arrancar o olho dela?
– Prefere que eu arranque o seu?
Callisto de cala, fazendo uma careta infantil. Uma música alta é ouvida ao longe fazendo os dois VIPs virarem a cabeça na direção do som.
– Já está amanhecendo... – Coração Mecânico constata com melancolia, abandonando a brincadeira e se dirigindo até Callisto. – Aqui. – Ele entrega um globo de neve na mão dele. – Você estava segurando firmemente isso quando te achamos, não queria soltar de jeito nenhum, estou devolvendo.
Callisto observa o objeto, era um globo de neve bem simples, com formato redondo e um bonequinho de argila de frente com um lobo, os dois estando sozinhos cara a cara. A única diferença era que não havia neve. Não importava o quanto Callisto chacoalhava o globo, não havia um único floquinho flutuando.
– Foi um prazer conhecê-los. – Luz Azul faz uma reverencia. – Espero termos mais tempo juntos na próxima.
O que parece ser uma página se levanta do chão e passa por ela fazendo-a sumir, o mesmo acontece com Coração Mecânico. O francês passa a mão no lugar onde eles deveriam estar, tentando sentir se eles ainda estavam ali, mas não sente nada além do ar.
– Eles morreram?
– Não, está na hora deles irem, então eles foram. Quando a noite termina eles voltam para casa.
– Ah, claro...
Callisto desiste de perguntar por mais, já viu tanta coisa estranha lá dentro que desistiu de tentar entendê-las, simplesmente aceitando-as.
– Então... Você vem sempre aqui?
Arman lança um olhar mal humorado para ele fazendo-o calar a boca. Era o quarto dele, é claro que ele sempre ia ali.
– Eu sugiro que você saia daqui e leve essas duas irritantes ocupadoras de espaço daqui com você. Vá para o mais longe possível de minha vista e tente pensar nas consequências de mexer com quem está quieto.
– Ok. Entendido e operante.
Callisto pega Alma e Ênia no colo e sai dando um ultimo olhar preocupado para Evanecer. Quando atravessa a porta vê o céu ainda escurecido sendo iluminado por alguns fracos raios do amanhecer, havia espirros de sangue em várias paredes ao longo de seu caminho, para os quais ele finge um olhar chocado e continua sua trajetória, sem perceber que ao passar em frente a um espelho, o espectro de uma mulher de cabelos negros e olhos violetas se reflete na sua superfície seguindo Callisto de perto, a menos de cinco passos de distancia.
~ ❖ ~
Anastasia Ivanovith massageava sua testa em frente ao espelho amaldiçoando a albina que atirara em sua cabeça, junto com o albino que lhe roubara suas armas. Ela devia ter algum problema com albinos para encontrar dois na mesma noite.
A ruiva se joga em sua cama king size e abraça uma almofada, pensando no albino que tinha beijado. Engatinha pela cama até um porta retrato e o pega examinando a foto. Lá estava ela e seu irmão. Ana, ruiva de olhos amendoados, e Alexei, albino com olhos azuis.
– São parecidos... – Ela se lamenta.
Três batidinhas na porta a tiram de seus pensamentos e um homem de smoking abre uma fresta para falar com ela.
– Está na hora de seu vôo madame, sua mãe está te esperando.
– Já vou, obrigada.
O mordomo fecha a porta e se retira. Anastasia amarra seu cabelo em um rabo de cavalo e coloca uma roupa simples para passar o dia, perfuma-se e sai do quarto. Seu pai teria uma conferencia em outro país e isso arrastava a família com ele, não que ela se importasse de viajar, mas não gostava nem um pouco de aviões.
Ciaran era bem parecido com Alexei, como ela devia interpretar isso? Um bom ou mal sinal?
O carro em que a garota entra a leva até o aeroporto, seus pais, claro, mexendo nos celulares para atualizarem suas agendas, impossibilitavam dela ter qualquer conversa com eles. Não que Anastasia tivesse algo para dizer, cada individuo de sua família era uma parte independente, eles não conversavam muito sobre seus segredos e seus problemas, sua dificuldade era sua e apenas sua, então pra que dividir com outra pessoa? Anastasia abandona-se em pensamentos imaginando como deveria se comportar na próxima vez que visse Ciaran de novo, deveria ficar com raiva por ele ter lhe roubado? Deveria fazer uma piada para tentar se aproximar dele? Queria conhecê-lo mais a fundo, não é qualquer um que seduz uma Ivanovith apenas lhe roubar, disso ela tinha certeza, mesmo que ele não soubesse quem ela era.
Um movimento brusco a faz bater a cabeça no teto, parecia que um pneu tinha estourado. Aos poucos o carro vai parando e o motorista desce do veiculo para concertar o estrago. Sua mãe tira os olhos do celular confusa, em poucos minutos uma arma encosta no vidro mandando eles saírem do carro.
Sua mãe sai com muita cautela sendo seguida pela filha. Com uma arma apontada para a cabeça de cada uma, o ultimo que sai do carro é o pai.
– “Rebeldes.” – Anastasia os identifica.
O governo de seu pai não era muito bem recebido em alguns setores, o que causou a morte de seu irmão Alexei em um atentado terrorista alguns anos atrás. Alexei era o filho favorito, perfeito em todos os sentidos, depois de sua morte seu pai mandou caçar cada um dos rebeldes até que não houvesse nem poeira deles para contar história. Isso os deixou mais irritados ainda e aqueles que não eram rebeldes se juntaram a causa, dando uma grande dor de cabeça para seu pai.
Uma arma é encostada na cabeça de Anastasia e o portador dela começa a fazer exigências para seu progenitor. A mãe, a Ministra de Finanças, treme preocupada com a filha, mas o pai, não se abala, ele estava mais concentrado no rebelde que cuspia ordens para ele do que na filha que tinha uma arma na cabeça.
Anastasia sabia no que aquilo ia acabar, ela ia morrer e quando eles mirassem na Ministra de Finanças seu pai ia reagir e protegê-la. Talvez lamentassem sua morte no começo, mas com o tempo se esqueceriam dela, a posição de Anastasia era bem inferior a de Alexei.
Chegava a ser engraçado, ela tinha morrido uma vez naquela noite e agora morreria de verdade.
– Acho que não vou poder ver Ciaran de novo... – Ela diz fechando os olhos.
O tiro atinge sua cabeça e o impacto a faz cambalear a cair no chão, seu sangue começa a escorrer do buraco misturando-se a seus cabelos ruivos. Atrás de suas pálpebras, ela vê a imagem de uma mariposa se desprender de seu cartão VIP, antes de cair na inconsciência da morte.
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