Dead Line Circus - Interativa
4 Chá e chocolate
Notas iniciais
"Para onde as lembranças esquecidas vão? "
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Michael e os gêmeos estavam em um café que ficava a oito quadras do apartamento onde os irmãos tinham se hospedado. No caminho até ali tinham passado por três outros cafés, mas Michael insistiu em que queria ir naquele em especial. Leo não viu nada que diferenciasse aquele lugar dos demais. As paredes estavam cobertas por um papel floral com cores pastéis, as mesas eram de madeira maciça, as cadeiras eram bancos estofados com almofadas vermelhas e o lugar era bem quente e confortável graças ao aquecedor. Não havia muita decoração, apenas um relógio de parede com pêndulo, quadros monocromáticos e uma coruja empalhada que estava na estante.
Leopold estava sentado do lado esquerdo do estranho, encarando a coruja de olhos esbugalhados que olhava em sua direção, Nikon do lado direito, olhando a neve se acumular na janela do café e Michael estava bem entre os dois, com uma expressão entediada. Os três eram as únicas pessoas no lugar, tirando o cozinheiro e a garçonete emburrada que mandava torpedos pelo celular. Quando o pedido enfim ficou pronto, a garota de avental serviu os três sem se dirigir a ninguém e voltou para suas mensagens.
Leopold, Nikon e Michael sopraram a bebida e então tomaram o chocolate quente de maneira quase sincronizada, suspirando depois de engolirem. Em dias frios, uma bebida quente levantava o animo de qualquer um. Pelo menos era o que eles pensavam.
— Então... Vamos direto ao assunto: quem é você? — pergunta Nikon depois de um tempo apreciando a bebida.
— Eu já disse, meu nome é Michael.
— Meu irmão perguntou quem realmente é você — pronuncia-se Leopold. — Não me entenda mal, estamos gratos por você ter nos tirado daquela enrascada e por ter pago essas bebidas, mas não sabemos seu sobrenome, nem de onde veio, nem o que você faz e principalmente, o que você quer conosco. As circunstancias são suspeitas demais para ignorarmos nossa atual situação.
— Sobrenomes não são importantes, pelo menos de onde eu vim. Quanto a mim eu sou um artista de Dead Line Circus e isso já é uma explicação mais que suficiente para qualquer um.
— Não para mim. Seja mais especifico. Quem ou o que é você? — Leo diz encarando o estranho.
Michael não não gostou muito desse tom imperativo, perguntas como essa deixavam-no irritado por vários motivos, mas soube não se zangar, bebeu mais um gole de sua bebida com calma e suspirou em seguida.
Uma garota de cabelos alaranjados como o pôr-do-sol entrou pela porta do café, seus cabelos eram lisos e compridos, onde ela os prendia com duas presilhas em formato de flocos de neve. Tinha seios grandes demais para seu corpo, mas possuía curvas bem leves e femininas. Ela move os olhos cinzentos pelo local procurando por alguma coisa e quando encontra os três que estavam sentados ali, mira os olhos neles avaliando um por um, quando termina abre um sorriso simpático e se dirige até a mesa deles.
A garota desconhecida pousa a bolsa que carregava no canto do banco estofado e senta-se em frente aos três com um olhar cúmplice.
— Não sabia que ia trazer os seus filhos — ela diz.
Leopold e Nikon se engasgam com a bebida no meio de um gole e tossem compulsivamente enquanto recebem leves tapinhas nas costas dados por Michael.
— Não são meus filhos. Acabei de conhecê-los.
— Eu sei, só estava brincando — ela diz com um sorriso brincalhão e tira um envelope vermelho vinho de dentro da bolsa. — Foi você que me enviou isso?
— Sim, que bom que aceitou — ele fala depois de analisar o formato do envelope.
— Me pareceu interessante, mas você não podia simplesmente enviar pelo correio? O encontrei de uma forma pouco convencional e estranha em várias circunstâncias. Como sabia que eu escolheria aquela mulher?
— Ficaria surpresa se eu dissesse — Michael diz bebericando o líquido presente no copo.
— Sei... — ela lhe lança um olhar pouco convencido — Aliás... Por que está sequestrando esses dois?
— Estamos sendo sequestrados? — Nikon fala exaltado compreendendo a situação, mas a garçonete estava tão absorta nos torpedos que nem percebe o que o garoto diz.
— Não exatamente, eu ia fazer um convite a vocês antes de realmente sequestrá-los — Michael fala.
— Está mentindo — a garota diz cantarolando — Ele ia convencê-los a acompanharem-no por livre e espontânea vontade, mas se não desse certo ia fazer... — ela se esforça para ler a expressão dele — Algo... ruim... para convencê-los? Ei, como fez isso?
— Isso o que? — ele pergunta com um sorriso divertido.
— Agora a pouco. Você mudou totalmente sua perspectiva, deixou tudo embaralhado.
— Está se confundindo, ninguém faz uma coisa dessas. Aliás, qual seu nome?
— Ellie. Ellie Romanov — diz se encostando nas costas do banco estofado, analisando-o novamente.
— Michael. E estes são Leopold e Nikon Vasilliev.
— É um prazer — os dois dizem juntos e ao mesmo tempo.
— O prazer é meu — ela diz — Se nem sabia o meu nome por que me chamou aqui? Posso saber?
— Para convidá-la formalmente para um trabalho. Você e esses dois — Michael diz pousando suas mãos na cabeça dos garotos — Estou convidando-os pacificamente para trabalharem em Dead Line Circus.
— Tem alguma coisa errada com esse lugar não tem? — Ellie diz de maneira desconfiada — Você é bom em se esconder, mas deixa escapar algumas coisas. Tem alguma coisa errada lá que você não gosta.
— Você é uma mentalista* ou o que? — ele pergunta sorrindo.
— Apenas muito observadora — Ellie provoca — Eu aceito ir. Já tinha feito essa decisão no momento em que recebi este envelope. Vocês vem meninos?
— Não — Eles dizem juntos.
— Mesmo? Parece que tem algo que seja do interesse de vocês lá — a mulher fala analisando o rosto de Michael — Uma coisa... muito rara... que não existe em nenhum outro lugar — ela se esforça para ler a expressão que ele faz, era bem mais difícil do que com suas garotas.
— E o que seria? — pergunta Nikon sarcástico.
Michael se inclina em direção a orelha do garoto e sussurra alguma coisa que muda a expressão de Nick, o garoto fica incrédulo, aquilo era possível? Ele olha para o irmão como se a resposta que procurasse estivesse com ele.
— Leo, você vem comigo não é? — pergunta com esperança nos olhos — Já sei o que temos que fazer. Tudo vai dar certo.
— Não. Por que essa mudança súbita? Não vamos a lugar nenhum. Este lugar é nosso lar Nick. Nossa família está aqui.
— Leo... — Nikon estica o braço e segura a mão do irmão de modo terno — Por favor, confie em mim.
Aquele olhar. Leo odiava quando o irmão fazia aquele olhar em momentos críticos, olhos amendoados e doces de um cãozinho abandonado, Leopold não conseguia resistir a seus pedidos, amava o irmão independente do que fizesse.
— Que raiva... — ele tenta fazer uma careta irritada mas acaba rindo. — Tá legal. Mas se acontecer alguma coisa você vai se ver comigo.
— Eu te protejo, esqueceu? — Nikon diz com um sorriso iluminado.
Leopold e Nikon encaram um ao outro, magnetismo pairando entre os dois, puxando um para mais perto do outro. O clima fica mais quente entre eles, querem se abraçar e não se soltarem mais.
— Então... — Michael ainda estava entre os dois, olhando desconfortável para o clima em que eles criaram com ele bem no meio. — Vamos?— Michael fica envergonhado e sem graça.
Ele cola um adesivo de coração azul em Leo e um coração vermelho em Nick, para Ellie ele fixa uma flor laranja em sua testa. O que a faz arquear a sobrancelha, ela não era criança.
~ ❖ ~
— Este vai ser o seu quarto Ellie — Michael fala abrindo uma porta de madeira.
O lugar em que a garota ia ficar era bem iluminado. As paredes eram pintadas de laranja e possuíam desenhos de sóis e astros dourados serpenteando por sua extensão. Cada canto possuía algo brilhante que chamava a atenção, seja nos detalhes dourados da mobília, os objetos brilhantes espalhados por toda parte ou o fato de existir muitas luzes e lâmpadas no quarto. A sensação era de se estar dentro de uma estrela amarela.
— Por que tem duas camas? — ela pergunta ao observar o móvel extra.
— Você vai dividir o quarto com uma velha amiga minha.
— Velha? — Ellie logo pensa em uma pessoa idosa — Como ela é?
— É... um... amor de pessoa — Michael diz forçadamente como se estivesse com algo entalado na garganta. — Quanto a vocês... — ele vira-se para os gêmeos — vou deixá-los com Madame Sondhein.
— Quem é essa mulher? — Leo pergunta desconfiado.
— Uma pessoa que vai acolhê-los. É só o que precisam saber.
— Eu levo eles até lá — diz uma pessoa se aproximando do grupo.
Cabelos negros e olhos cristalinos. Um certo mordomo muito conhecido e odiado se oferece para guiar os irmãos até a mulher misteriosa. Michael aperta suas mãos enluvadas nos ombros deles quando vê a figura, numa atitude de posse e egoísmo. Era possível perceber em seu olhar que ele não queria deixa-los com aquela pessoa.
— Quem é você? — pergunta Nikon olhando curioso o mordomo, confuso com a tensão entre ele e Michael.
— Meu nome é Magnos, tenho certeza que em pouco tempo vocês não esquecerão esse nome — ele diz olhando para eles. O mordomo os observava de um modo analítico, como se fossem cavalos que ele estava pensando em comprar. — Venham, me sigam.
Inicialmente os irmãos mostraram-se relutantes, mas depois de analisar melhor o homem bem vestido em frente a eles não sentiram nada que pudesse indicar algo perigoso. Parecia um simples mordomo que ia guiá-los até outra pessoa. Os olhos cristalinos não podiam ser malignos, eram tão puros e sinceros que seria impossível de enganar alguém com aqueles olhos. Assim como Michael fez, o mordomo estendeu suas mãos para eles segurarem. Os irmãos pegaram, cada um, uma respectiva mão que o mordomo estendia e o acompanharam, porém ao contrário de Michael, que parecia um pai atravessado a rua com seus filhos, as mãos do mordomo pareciam algemas prendendo os dois para levá-los até a prisão.
Enquanto caminhava com os gêmeos o mordomo vira levemente a cabeça em direção a Michael, lançando um olhar sarcástico de quem sabe que venceu um jogo interno, ato que não foi percebido pelos garotos. Ele lança palavras sem som no ar e então vira a cabeça de volta ao trajeto, desaparecendo com os garotos no meio dos visitantes. O loiro demorou um tempo para ler os lábios do mordomo, tentando formar palavras e sentido entre elas.
— De...onde...estou...vindo? — ele joga o olhar para a direção de onde o mordomo surgiu. Sabia o que tinha naquela direção, ficando bem preocupado em seguida — o quarto da Alma.
— Quer que eu vá conferir para você? — Ivie pergunta abraçando Michael por trás. De onde ela tinha saído?
— Poderia fazer isso por mim? — ele pergunta tentando parecer calmo, mas sua voz lhe trai.
— Seria um prazer — a ruiva diz com um sorriso.
— A propósito, como está Tzvetana?
— Finalmente acertou o nome dela? Ela está... ahn... bem. Dependendo do ponto de vista. Cain está brincando com ela... mas, você sabe... é Cain.
— É eu sei. Tome conta das coisas por aqui enquanto eu estiver fora. Não deixe os novatos morrerem antes de eu terminar de buscá-los.
— Pode deixar — Ivie diz com um sorriso malicioso. — Mas não prometo nada.
— Até mais Ivie. — ele diz desaparecendo, mais tranquilo do que quando tinha chegado.
~ ❖ ~
Aldan. Rússia.
Um homem albino de cabelos platinados olhava para os restos de uma imponente construção no alto de um morro. O que devia ter sido uma mansão, agora era só cinzas e restos de madeira queimados. O jardim que existia ali não tinha mais nenhuma planta viva, todas estavam cobertas pela neve ou com os galhos secos e queimados. Não fazia muito tempo que o incêndio tinha acontecido, no máximo uma ou duas semanas, mas parecia que tinha sido há séculos atrás. O cemitério dos fundos ainda existia, embora muito deteriorado e com varias vigas de madeira sobre as lápides. O homem procurava por um túmulo em especial e o encontrou embaixo de uma árvore caída.
O homem vestia um casaco surrado com vários buracos e neve acumulada, estava usando uma touca que tinha encontrado no lixo e mantinha as mãos no bolso pela falta de luvas para cobri-las. Um mendigo. Era a impressão que a maioria tinha ao observar sua figura.
Ele tira uma das mãos do bolso e a usa para limpar a neve que cobria o nome do túmulo. Justin. Era só o que dizia, não tinha sobrenome e nem a data de nascimento ou de morte. Apenas um nome e uma dedicatória escrita por um giz de cera "Uma breve existência".
— Voltei — ele diz baixinho, quase num sussurro, sua voz era melodiosa mesmo assim. — Como eu prometi.
Ele senta-se em frente a lápide no meio da neve, com os olhos fixados no nome. Um passarinho pousa em um dos galhos da árvore caída e passa a olhar a figura. Entortava a cabeça para olhá-la de vários ângulos diferentes, os pequenos olhinhos curiosos.
— Parece que não sou o único a te visitar. Pode vir amiguinho, não precisa se incomodar comigo.
O pássaro voa até a figura e pousa em uma de suas pernas. Olhando mais de perto o homem com os cabelos cor de neve com curiosidade.
— Lindo dia não? Apesar do tempo. Você não deveria ter voado para um lugar mais quentinho? Se esse tempo piorar nós dois vamos morrer congelados — ele diz fazendo carinho na minúscula cabecinha emplumada — Vou me encontrar com um velho amigo mais cedo do que eu esperava.
— Eu também estou procurando um velho amigo — uma voz desconhecida pronuncia-se.
O homem ergue os olhos e encontra outra pessoa sentada em cima de um dos túmulos do cemitério esquecido. Há quanto tempo ele estava ali?
— Você por acaso viu o dono dessa mansão? — o desconhecido pergunta apontando para a construção queimada — Ele era um velho amigo meu, pensei em fazer uma visita para ele.
— Você é o diabo por acaso? O dono dessa casa era um demônio — o homem pergunta com um sorriso cansado.
— Depende do ponto de vista — o desconhecido diz divertindo-se.
— Ele foi morto. Esfaqueado por um de seus empregados e queimado vivo dentro da própria casa.
— Entendo... bem, isso já era esperado. Você conhece alguém chamado Ivan que trabalhava para ele?
— Ivan?
— Sim, Ivan. Ele me escreveu uma carta de recomendação sobre esse homem, disse que era alguém que eu devia conhecer.
— Bem... meu nome é Ivan Valenki. O que você quer comigo?
— Ah, então é você? Isso deixa as coisas mais fáceis. Vim para lhe propor um trabalho.
— Trabalho? — ele pergunta surpreso.
— Sim, você não tem para onde ir não é? Estou te oferecendo moradia, emprego e uma chance de viajar.
— Isso é uma piada? — Ivan diz com um tom cansado.
— Não, estou falando sério. Você quer?
Ivan levanta sua face na direção do estranho, inicialmente com uma sobrancelha arqueada em descrença, mas então um sorriso puro e radiante se espalha por seu rosto enquanto seus olhos brilham esperançosos. Suas roupas eram trapos sujos e surrados que mal o cobriam do frio, a touca que usava parecia muito velha, mas mesmo com tecidos tão precários ele tinha um rosto angelical. Michael olha espantado para tal figura e sente um aperto descomunal no peito. Droga, ele era puro!
— Eu quero — Ivan diz sereno.
Michael aperta os lábios com força. Agora que o viu pessoalmente não queria mais levá-lo.
— Não tenho lugar para ir, faz dias que eu não como algo decente, a essa altura eu aceitaria qualquer coisa — Ivan diz sorrindo docemente.
"Droga." Era só o que Michael pensava, repetitivamente e inúmeras vezes. Estava esperando uma pessoa bem diferente quando recebeu uma carta de seu amigo. Para ele recomendar alguém para o circo tinha que ser uma pessoa realmente fria e cruel, sem medo de machucar ou matar o que estivesse em seu caminho. Pelo menos era isso o que Foyer procurava nas pessoas com quem queria conviver. Aquele homem não podia ser o que ele estava procurando. Talvez fosse outro Ivan. Ou talvez não. Independente do que fosse, agora que já tinha o convidado tinha que levá-lo, querendo ou não.
— Tudo bem, vem comig-...
Quando Michael encostou no ombro do homem desolado teve sua mão torcida pelo punho do mesmo. Caiu no chão tão rápido que nem conseguiu acompanhar o movimento súbido de Ivan. Quando se deu conta da situação viu que tinha uma mão forte o enforcando.
— NÃO TOQUE EM MIM! — Ivan grita de maneira gélida e raivosa, um sentimento intenso brilhando em seus olhos
Michael olha surpreso para a mudança súbita.
— Imbecil — Ivan ri, passando a apertá-lo com mais força — Que som os seus ossos fazem quando quebram? É crock ou clack?
O loiro olha para o homem de cabelos platinados surpreso e muito confuso. O que aconteceu? Um minuto atrás parecia a mais pura e serena das criaturas e agora era um assassino tentando enforcá-lo. O loiro ficou bem mais aliviado depois de notar isso, afinal de contas ele era mesmo cruel, que bom que Foyer continuava o mesmo.
— Você me deu um susto — Michael diz retirando a mão de Ivan que enforcava seu pescoço.
O homem tenta voltar a apertar o pescoço do loiro, mas suas mãos foram retiradas com tanta facilidade que parecia que o outro nem estava fazendo força. Isso o irritou. Ivan usou um de seus pés para esmagar o tornozelo de Michael, que soltou um gemido quando sentiu a dor de um osso se quebrar, aquele som parecia dar prazer aos ouvidos do albino, que ria ainda mais. Michael olhou para Ivan com olhos ferozes, tão frios quanto o gelo que os cercava, eram quase bestiais. Se era briga o que queria, era o que iria ganhar. Isso pareceu acordar Ivan, que piscou os olhos e olhou para o loiro confuso.
— O que você está fazendo aí? A neve vai congelar você — ele diz saindo de cima de Michael e o ajudando a se levantar.
Dessa vez foi Michael quem ficou confuso. Ivan estava se fazendo de bonzinho novamente para atacá-lo com a guarda baixa? Olhou para o albino enquanto este tirava a neve de sua roupa, avaliando aquela figura. Novamente aquele olhar angelical no rosto. O homem de cabelos platinados estava genuinamente preocupado com o loiro.
Michael sentou-se em cima de uma lápide e segurou o queixo com uma das mãos, cerrando os olhos fixados em Ivan. O que raios Foyer fez com ele?
— Onde você vai me levar? Pode me dar qualquer trabalho que você quiser, eu farei o possível para ser útil. Costumava trabalhar como cozinheiro, mas pode me colocar em qualquer outro setor. Embora não pareça eu sou bem forte. De onde você é? Por falar nisso, eu ainda não sei o seu nome, como você se chama?
Depois de um momento refletindo, Michael finalmente entendeu as ações daquele homem. A compreensão chegou de maneira súbita, quase como uma epifania. Mesmo depois de morto Foyer ainda o metia em enrascadas, isso era típico dele.
— Dead Line Circus. É pra lá que nós vamos. Espero que você saiba cozinhar bem, algumas pessoas são bem críticas quanto a isso. Por falar nisso, meu nome é Michael — o loiro adquire uma expressão gentil, sendo seguido por um sorriso angelical de Ivan.
"Vai ser bem complicado" — Michael pensa depois de entender como sua nova vitima funciona, era a primeira vez que via alguém bipolar.
Entrega um adesivo de floco de neve para o homem e o vê desaparecer em frente aos seus olhos.
~ ❖ ~
— Escolha.
Michael e Ivan estavam em um quarto bem simples do circo. As paredes eram em tons de creme e eram enfeitadas apenas por quadros cujas fotografias pareciam bem antigas. Não havia muitos móveis no lugar, apenas um armário, uma cama de casal, uma penteadeira e uma escrivaninha, todos feitos de cedro. Apesar de simples o quarto transmitia uma atmosfera calma, era silencioso e confortável. O loiro estava em frente ao armário aberto mostrando as diferentes roupas que existiam ali dentro.
— Pode ser que fiquem um pouco grandes, mas serão provisórias. Em breve mandarei fazer roupas com suas medidas. Você pode tomar um banho ali e em seguida escolher alguma dessas roupas para vestir. Não me entenda mal, mas as suas estão meio acabadas — Michael olha as vestes do novo empregado com reprovação.
— Certo.
— Ah, e antes que eu me esqueça. Não saia deste quarto até eu voltar e principalmente, não deixe ninguém entrar. Ninguém! Não importa quem seja. Não saia de forma alguma e não deixe ninguém entrar.
— Certo. Não precisava repetir — ele diz rindo.
— Preciso resolver uma coisa agora e quando eu voltar quero discutir algo com você.
— Ok.
Michael dirige-se até a porta mais tranquilo e antes de sair olha aflitivo para Ivan. Que homem complicado, como lidaria com ele? Passa pela porta e a tranca pelo lado de fora, apenas por precaução. Enquanto ele estivesse naquele lugar poderia ir até a próxima pessoa com tranquilidade. Esperava que ninguém o encontrasse enquanto ele estivesse fora.
Ivan olha em volta admirando seu novo quarto. Era bem simples, mas exatamente o que ele gostava. Algum deus deve ter enviado aquela pessoa para ele. O albino estava mais do que contente com essa ideia. Mas por um momento olha para suas mãos, as mesmas que enforcaram o seu salvador, por que tinha feito aquilo? Não fazia sentido. E ainda quebrou o tornozelo de Michael com um chute. Por que mesmo depois disso o artista ainda lhe quis? Ele não poderia ser como seu antigo mestre poderia? Aquela pessoa era pior que um demônio, até duvidava que ele poderia ter algo próximo de um amigo. Como Michael o conhecia?
~ ❖ ~
Michael andava livremente pelas ruas de Liverpool. Olhava de um lado para outro vendo as vitrines das lojas, depois que achasse quem estava procurando não ia mais ter a chance de aproveitar um bom passeio. Esperava não pôr mais os pés na Rússia, já estava cansado de ver tanto gelo em todos os lugares que a vista alcançasse. Estava agora na Inglaterra. Se conseguisse iria adorar provar um chá inglês, aquele mordomo dos infernos realmente adorava esses chás.
Michael balança a cabeça rapidamente para afastar o pensamento daquele rosto. Estava bem longe, não queria gastar seu precioso tempo livre pelas ruas pensando naquele rosto.
Um homem distribuía panfletos um pouco mais a frente em seu caminho. Ao pegar um dos panfletos que ele entregava aos passantes notou que se tratava da inauguração de uma nova casa de chás perto da estação de trem. Um sorriso torto se formou em seu rosto ao ler aquilo. Coincidência? Magnos estava mandando indiretas a ele mesmo a quilômetros de distancia?
— Talvez eu compre um pacote para levar a ele como suborno. Embora eu ache que ele vai me cortar em pedacinhos quando me ver — Michael suspira desanimado.
Mesmo assim ele vai na estação de trem. Com o rosto constrangido por realmente ter ido lá. A casa de chás parecia uma lanchonete comum por fora, as altas janelas de vidro e as mesas dispersas pelo local. Mas antes de entrar teve sua atenção roubada pela figura de uma garota que olhava os horários dos trens. Não havia nada muito chamativo em sua aparência. Tinha cabelos loiros apagados, pele clara e olhos azul bebe. Pelo seu rosto ela devia ser uma japonesa e estava usando um vestido de babados floral. Mas o que lhe chamou a atenção era que ela tinha uma marca estranha no pulso. Resolveu se aproximar para poder ver melhor.
— Procurando o seu trem? — ele pergunta casualmente.
Ela desvia os olhos da placa de horários e encara ele.
— Não é da sua conta.
"Já vi que não é das mais amigáveis" — o loiro pensa rindo.
— Pra onde você vai? — Michael pergunta olhando a placa.
— Eu não sei... — ela diz adquirindo um tom monótono.
— Qual seu nome?
— Eu não sei...
— Quantos anos tem?
— Eu não sei... — ela diz engolindo um soluço, estava prestes a chorar.
— Calma, calma, calma. Não chora — ele diz preocupado, odiava ver alguém chorar sem motivo algum. Quando alguém chorava perto dele adquiria atenção desnecessária e ele se via obrigado a fazer alguma coisa até o choro passar — Quer tomar um chazinho comigo? Você gosta de chá?
— Eu não sei — ela diz chorando definitivamente agora.
Ele coloca a mão levemente em suas costas e a guia até a casa de chás preocupado. O interior da loja era igual o de uma lanchonete, as mesas eram de metal com cadeiras dobráveis, tinha um balcão que separava o refeitório da cozinha e um espaço onde os pedidos passavam para os garçons. A única diferença era que o lugar cheirava a ervas frescas em vez de hambúrguer e batata frita. Michael pediu um chá de camomila para ela e um chá de hortelã para ele, também encomendou alguns pacotes de chá para levar pra viagem. Sentou-se com a garota em uma das mesas e esperaram os pedidos.
— O que aconteceu com você? — ele pergunta pousando os braços na mesa.
— Eu não sei, não consigo me lembrar de nada.
Genial. Talvez devesse parar de fazer perguntas que ela não pudesse responder.
— Que marca é essa no seu pulso? Posso ver?
Ela estende a mão para ele e Michael avalia melhor a figura no pulso dela. Era um circulo negro, com símbolos estranhos circundando à sua volta, sempre que via aquela marca tinha a impressão de ser uma mordida. Entendeu perfeitamente o que aconteceu com a garota no momento que se lembrou que marca era aquela.
— Entendi. Você perdeu a memória. Tinha alguém com você quando recuperou a consciência?
— Não, eu estava sozinha.
— Ainda bem — ele fala aliviado.
O garçom chega com as xícaras de chá e serve para os dois. Ao vê-la beber o chá de camomila que o garçom serviu não pôde deixar de pensar o quando aquilo era irônico. Embora a situação e a circunstância fosse completamente diferente, lembrava-lhe do tempo que ele passou com o mordomo. Só existia quatro pessoas que podiam apagar a memória de alguém e deixar uma marca com aquela forma. Três delas estavam no circo e o cadáver da outra também estava no circo.
— Seu nome é Arisu — Michael diz após beber um gole de chá.
— Ahn?
— Está escrito aqui — ele diz mostrando o logotipo impresso na xícara de chá. — Por enquanto vou te chamar assim, já que você não sabe o seu nome. Você gostaria de ter sua memória de volta?
— Claro que sim. Não faz ideia de como é sentir um buraco dentro da própria cabeça.
Na verdade ele sabia, mas não era de um buraco psicológico.
— Sim de fato. Mas me diz, qual a ultima coisa que você se lembra?
— De acordar em um beco cheia de arranhões sem me lembrar do que tinha acontecido.
— Antes disso?
— Quase nada, só de sonhar com um candelabro de chamas vermelhas.
Michael fica em silêncio. Sem ter visto nada e sem mesmo conhecê-la, já sabia tudo sobre ela e sobre o que a garota passou. Pobre menina.
O garçom que os atendeu volta e entrega o pedido que o loiro fez sobre as caixas de chá. Ao todo eram cinco caixas, cada uma contendo os chás que Magnos adorava. Michael esperava que aquilo fosse o suficiente para o que pretendia.
— Onde você está morando?
— Em lugar nenhum. Ultimamente tenho dormido nos bancos da estação de trem.
— Não sabe quem é, não sabe pra onde ir e nem sabe o que deve fazer. Quer vir comigo? Acho que posso te ajudar com seu problema. O que você tem a perder, não é?
— Tanto faz. Acho que pior do que estou agora não fico.
~ ❖ ~
Paris. França.
Uma garota caminhava por Notre Dame mascando chiclete enquanto ouvia música nos fones de ouvido. Ela tinha cabelos castanhos ondulados e um olho enfaixado por bandagens. Era muito bonita, parecia uma boneca. Mas seus olhos (ou melhor, seu olho que não estava enfaixado) demonstrava tristeza. Caminhava distraidamente pela catedral de sinos ouvindo uma música de rock. Seu vestido cor de areia flutuando a cada passo que dava. O único olho visível observando as pinturas nas paredes quando sente um braço circundar o seu ombro.
— Achei uma princesa encantada — uma voz excessivamente animada diz. — Aposto que esse lugar te deixa entediada. Quer dar uma volta com a gente?
Ela direciona seu olho azul para quem estava lhe segurando e encontra um garoto magrelo cheio de piercings. Cinco em cada orelha, um no nariz, dois em cada sobrancelha e um na língua. Estava usando uma blusa castanha e tinha o hálito de quem tinha fumado. Quatro outros garotos circularam ela, acompanhando o primeiro, provavelmente seus amigos. Um deles era alto como um poste, um era gordo com o cabelo em um moicano punk, um era baixinho e o outro se escondia atras do gordo.
Já tinha visto situações assim antes. Eram perigosas para garotas inocentes e desavisadas, mas ela não era assim.
— Passo — ela diz calmamente.
— Vamos. Vai ser bem divertido, só vamos brincar um pouco de casinha. Coisa boba — o primeiro diz com um sorriso malicioso, esticando um pouco mais a mão em direção ao corpo dela.
Será que podiam ser mais burros? Estava na cara o que queriam e em qualquer lugar que fossem isso era contra a lei. Como que as coisas chegaram ao ponto de algo assim ser feito descaradamente? O que se passava pelas cabeças de bagre de pessoas assim?
— Ei — uma garota de cabelos loiros apagados e olhos azul bebe se aproxima correndo da garota. O rapaz retira o braço que segurava ela ao ver a outra se aproximar. — Seu pai está te chamando. Temos que nos apressar para ver a exposição.
A garota de cabelos castanhos olha confusa para a recém chegada. Quem era ela?
— Quer vir com a gente querida? — o gordo com penteado punk pergunta. — Tem sempre lugar pra mais uma. Seu pai pode esperar.
— Você acha?
Um ameaçador homem loiro que surgiu do nada estala os dedos encarando o grupo de garotos. Tinha a aura de quem ia matar alguém naquele dia. A loirinha e a morena dirigem seu olhar em direção a ele, assim como todos os garotos rebeldes do grupo.
— Não senhor... — o fumante diz calmamente enquanto se retira com cautela junto aos outros. Quando pais entram no meio o melhor a se fazer é desistir.
— Ela não parece filha de soldado, como eu ia saber? — o gordo sussurra para os companheiros batendo em retirada.
Quando o grupo já está bem longe Arisu desata a rir, pensando em como eles são covardes e Michael encosta sua cabeça em uma parede depressivo.
— Me sinto tão velho. Primeiro Tzna e agora isso, é a segunda vez que sou confundido com um pai hoje, será que não podiam nem duvidar? Algo como "Ele não é jovem demais?".
— Quem são vocês? — a garota de cabelos castanhos pergunta olhando de um para outro.
— Eu sou... ahn... não sei... — a garota loirinha diz entrando em depressão logo em seguida, encostando sua cabeça com melancolia na parede ao lado de Michael.
Os dois suspiram juntos por razões diferentes. A garota espera pacientemente esse momento entre eles passar para ter sua pergunta respondida, olhando-os imersos em seus próprios pensamentos. Quinze minutos depois o mais velho ergue a cabeça e responde.
— Eu sou Michael. Artista de Dead Line Circus. E essa é Arisu, minha nova aquisição.
— Eu sou Evanecer Victoria Darby. É um prazer conhecer vocês — ela diz pegando a barra do vestido com as pontas dos dedos e fazendo uma reverência.
— Gostei dela, ela é educada — Arisu diz se aproximando da garota. — Me diga que gosta de circos e que quer me acompanhar rumo ao desconhecido?
— Perdão?
— Posso te apresentar um circo que você nunca viu antes? — Michael lhe convida tomando as rédeas da conversa.
— Há pouquíssimas coisas que eu já não tenha visto, senhor. Pelo contrário já vi coisas demais.
— Tenho certeza que você nunca viu algo igual ao que irei te mostrar.
Michael cobre delicadamente o olho azul escuro de Evanecer com a palma de sua mão, deixando livre aquele que estava enfaixado e escondido.
— Você tem olhos lindos. Especialmente esse que você está escondendo — ele diz com um tom provocante de quem sabe mais do que aparenta.
Os ombros da garota ficam rígidos. Ele sabia?
— Esses olhos veriam tantas coisas lá... Coisas que você nunca veria aqui. Não está curiosa? Não tem alguma coisa que você quer saber a todo custo?
Evanecer move levemente a cabeça, uma pontada de interesse se acendendo em seu corpo. Ele sabia. Sabia sobre ela.
— Você pode vir se quiser. Nós estamos de partida — o loiro sussurra retirando sua mão do rosto de Evanecer e dando meia volta.
Arisu se coloca ao lado de Michael e o segue em sua caminhada. Evanecer fica um pouco mais atrás, observando os dois andando mais a frente com curiosidade. Seguir um estranho não era algo muito inteligente de se fazer, ainda mais quando não se sabia nada sobre ele. Seria melhor continuar ali, mas antes dele sumir precisava dar só uma "olhadinha".
Leva uma das mãos ao olho enfaixado e levanta levemente as bandagens, apenas o suficiente para vê-los. Quando consegue enxergá-los abre um sorriso em sua face.
Estava vendo uma sombra negra e vazia cheia de correntes vermelhas a prendendo, milhares de braços secos saiam de cada elo e a sufocavam, era uma figura bem bizarra, especialmente pelo fato de ter vários olhos flutuando ao seu redor. Ao lado dessa sombra Arisu era uma garota com um colar de espinhos de roseira em volta do pescoço e uma cobra com tons de rubi enrolada em seu pulso, uma névoa cobrindo ligeiramente sua cabeça.
Aquilo não era o bastante, Evanecer queria ver mais. Sabia exatamente no que estava se metendo quando saiu correndo em direção aos dois e não estava arrependida.
~ ❖ ~
— O que exatamente ela está fazendo?
Arisu olhava incrédula para sua nova colega. Desde que chegara ao circo Evanecer movia os olhos rapidamente de maneira frenética pelo lugar. Enquanto algumas vezes ela corria de um lugar para o outro, algumas vezes ficava parada em um só lugar encarando o vazio. Houve até um período em que ficou encarando uma parede lisa durante quase vinte minutos.
— Aproveitando da maneira dela... eu acho — ele diz incerto.
— Você vai me mostrar esse lugar ou vamos continuar correndo atrás dela? — Arisu pergunta entediada.
— Acho que não tem jeito. Venha.
Os dois caminham pelo cenário colorido. Já era noite e o horário VIP tinha começado a algum tempo. Não havia tantas pessoas quanto haviam durante o dia caminhando pelo local, mas as que tinham ali valiam por cem daquelas.
Michael andava lentamente, parecia não ter pressa em seguir o caminho que ele escolheu. Só parou quando chegou em frente ao Fantasia. A porta de carvalho estava fechada, mas com um leve empurrão ela se abriu facilmente, permitindo que os dois entrassem no lugar. Havia uma escuridão infinita do outro lado, como se o lugar estivesse coberto por piche. Não era possível discernir formas, nem mesmo o chão podia ser visto, apenas sentido pelos pés.
Michael e Arisu entraram no lugar caminhando em linha reta, sem enxergar nem mesmo as próprias mãos em frente ao rosto. O lugar parecia infinito, pois não importava o quanto andassem eles não esbarravam em nada e nem podiam ver alguma coisa naquela escuridão. Velas flutuantes apareciam de vez em quando pelo lugar. Não havia nada para segurá-las, apenas flutuavam para cima e para baixo em movimentos contínuos. Elas tinham formatos de cones bem coloridos com uma chama amarelo-ouro no topo. No entanto não iluminavam mais do que alguns centímetros a sua frente. Grunhidos eram ouvidos na escuridão, junto com sons de algo sendo rasgado. Arisu segurou a barra do casaco de Michael inconscientemente, o fato de não conseguir ver o lugar em que estava a deixava aflita.
Finalmente esbarraram em alguma coisa depois de andarem muito, alguma coisa peluda. As velas se moveram de seu lugar pela primeira vez desde que tinham chegado ali. Circularam Michael e Arisu e iluminaram a figura em que tinham esbarrado. Era um coelho de cinco metros de altura. Tinha o pêlo branco encardido e uma orelha rasgada, os olhos vermelhos pareciam vidrados nos dois e de sua boca escorria uma espuma amarelada. Arisu puxou o ar da atmosfera para dar um grito, mas teve a boca tampada pelas mãos de Michael. Um coelho igualmente grande de pêlo preto surgiu de trás do coelho branco. Michael e Arisu deram um cauteloso passo para trás e sentiram que tinham pisado em alguma coisa. Uma rosa branca. O chão outrora liso estava coberto por rosas, com seus galhos cheios de espinhos e as folhas verdes com pontas rasgadas.
Uma maçã bem vermelha cai em direção as mãos de Michael, que pega a fruta calmamente, sem estranhar o fato dela estar ali.
— Você não costuma me visitar durante o horário VIP, a que devo a grande honra?
Uma música eletrônica começa a tocar abruptamente na escuridão, era um tema de circo, a tipica música que tocava nos carrosséis, mas que ia aumentando gradativamente.
— Só uma visita Mago — ele diz girando a fruta entre as mãos.
O dono daquele espaço surge em frente aos dois, o que faz os coelhos recuarem alguns passos quando veem sua figura. Usava a mesma cartola vermelho vinho com argolas douradas e um Ás de copas. O terno ainda tinha o colete vermelho com botões dourados e a cauda de andorinha. Um de seus olhos era coberto pelo tapa-olho com formato de relógio que tanto gostava e seu único olho visível escarlate observava Arisu.
— Vejo que está indo bem em sua busca. Onde encontrou essa criança?
— Não sou criança! — Arisu diz exaltada, pensando melhor em seguida — Eu acho...
— Onde estão os VIPs? — Michael pergunta.
O mago ri e desaparece como fumaça em seguida, tornando a surgir atrás dos dois com dez metros de altura. Só era possível ver sua parte superior, ou seja, a cabeça, os braços e o peitoral, a parte inferior tinha sumido, como quando se está apoiado em uma mesa. Ele escora sua cabeça em uma das mãos e abaixa seus olhos na direção deles com um sorriso sarcástico no rosto.
— Estão aqui — ele diz estalando os dedos.
As velas flutuantes se iluminam com mais potência, jogando luz sobre um raio de oito metros a partir de onde eles estavam. Pessoas vestidas elegantemente surgem no lugar, como se estivessem ali a horas. Mulheres em longos vestidos de seda, homens de terno e smocking, crianças bem arrumadas com roupas aristocráticas sem nenhum amassado. Todos, sem exceção, usavam máscaras em seus rostos. Havia de diversos tipos, máscaras douradas que cobriam o rosto inteiro, máscaras de raposas, máscaras de borboletas, máscaras de monstro, máscaras divididas pela metade, máscaras de ouro e prata, máscaras gregas, a variedade era grande. Ao redor dessas pessoas bonecos de madeira flutuavam, serpenteando pelo ar enquanto dançavam a música circense que estava tocando. Havia desde bonecos orientais à bonecos indígenas de madeira. Podiam ser bem vestido como lolitas ou ser cobertos por palha e grama como bonecos voodoo. Expressões educadas e doces podiam virar expressões fanáticas de dentes afiados em questão de segundos. Aquilo parecia um baile elegante em um lugar macabro e assustador. Os VIPs eram muito excêntricos.
— Vamos embora — Arisu diz puxando a barra do casaco dele. — Agora!
A garota sentia medo em todos os poros de seu corpo. Tinha a sensação de já ter visto aquele lugar, como um de-já-vu. E essa sensação gritava para ela correr dali.
— Já? — o mago pergunta aproximando seu rosto gigante dos dois — Não querem ficar para o show?
Os VIPs dão risadas discretas que cobrem com as mãos enluvadas. Uma das velas flutua para um cantinho onde havia várias pessoas amordaçadas empilhadas uma em cima da outra. A maioria estava inconsciente, mas as que tinham acordado tentavam se livrar das cordas enroladas em seu corpo e gritar por ajuda, mesmo com um pano cobrindo suas bocas. Os VIPs bebericavam seus champanhes indiferente as pessoas escolhidas.
— Nos veremos em breve — Michael diz olhando para os olhos vermelho sangue do mago com aparente indiferença.
— Então vão.
Um retângulo de luz surge a alguns metros dos dois, era a porta que tinha sido aberta. Arisu corre até ela sem exitar. Sai correndo da atração com a velocidade de um fugitivo em direção a luz. Uma vez lá fora não diminui o ritmo, continua a correr em disparada até a saída. Corria, corria, corria. Corria com a respiração ofegante, a placa de entrada com a escrita dourada e as bordas vermelho vinho estava bem a sua frente. Faltava pouco. Mas quanto mais corria, mais longe ela ficava. Se distanciava a cada passo que Arisu dava. Ela acelerou sua velocidade e conseguiu passar pela entrada, batendo em uma porta no momento em que saiu. Michael estava saindo da sala escura quando viu Arisu correr em sua direção.
— Voltou rápido — ele constata com indiferença.
A garota estava de volta em frente a porta do mago, olhando confusa para aquilo. Se levanta novamente e corre em direção a saída de novo, mas o mesmo processo se repete e quando ela finalmente consegue sair, bate a cabeça no loiro e se vê novamente dentro do circo.
— Não pode fugir daqui. Esqueci de lhe avisar isso.
— Estou presa aqui?
— Isso aí.
— NEM MORTA.
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