Dead Inside
5 Morto-vivo
Notas iniciais
Aquele banheiro poderia facilmente me lembrar de casa. Os cosméticos espalhados, o secador inútil em cima da pia, os azulejos tão brancos quanto as nuvens lá fora. Entretanto, o reflexo que o espelho à minha frente refletia não me lembrava de nada. Tentei afirmar para mim mesma que aquela era eu, Blair, mas meu cérebro se recusava a acreditar.
Meus cabelos castanho-claros caíam em forma de ondas em meus ombros, sujos e emaranhados. Suas pontas levemente douradas estavam ressacadas e me arrependi por descolori-las. Havia algo em meu rosto que eu não reconhecia como uma característica minha: Tristeza talvez? Meus lábios estavam naturalmente repuxados para baixo. Lembro-me de como eram avermelhados mesmo sem batom, e como se esticavam para formar sorrisos. Os meus olhos costumavam brilhar com aquele tom de castanho que, à luz do sol, tornava-se verde. Agora estavam opacos, e olhando fundo neles, via-se um abismo. Se eu me distanciasse o suficiente, veria meu corpo. Se é que podia piorar, este estava pior. Sempre fui magra, mas eu realmente parecia desnutrida; ao levantar a camisa, minhas costelas salientavam-se, e tom de minha pele era cada vez mais pálido, mais sem vida. Eu era pequena, sempre fui baixinha, e agora, naquele estado anêmico, eu parecia um esqueleto ambulante. Nunca eu teria dezesseis anos – doze, no máximo.
Parei de me lamentar, afinal, não ganharia nada de positivo com isso. Eu havia ido ao banheiro para limpar minhas roupas manchadas de sangue de walker, e faria isso sem consternações. Tirei minha calça jeans azulada e minha camiseta amarela e as enfiei na pia, ficando apenas com a roupa íntima. Peguei o balde de água coletada das garoas do dia anterior e fechei o ralo, despejando um terço de seu conteúdo para deixar minhas roupas de molho. Suspirei. Olhei para o canto onde Michonne havia deixado as roupas que encontrou nas casas vizinhas; estava com preguiça de experimentar, e devido ao meu físico, estava prevendo que ficariam largas demais. Relutantemente, peguei as peças que presumi servirem em mim – uma calça jeans preta, uma regata cinza e um moletom de lã azulado e largo demais para mim, enfeitado por desenhos abstratos que pareciam espirais. Não estava frio de dia, muito pelo contrário, mas era bom estar vestindo alguma coisa assim. De qualquer forma, poderia pendurá-lo na cintura caso ficasse insuportavelmente quente. Vesti as botas de couro marrom, bem mais sofisticadas que meu all star preto e surrado. Deixei que a água lavasse as manchas de sangue, peguei meu machado que estava recostado na cama e me dirigi para a escadaria.
Contudo, não consegui descer os degraus. Ao invés disso, sentei-me em um deles, lembrando-me de como tudo conspirou para que eu estivesse ali naquele momento. Não queria me recordar do passado, mas evidentemente, isso era impossível. Ele estava impresso dentro das minhas pálpebras, de modo que toda vez que eu fechava os olhos, eles me atormentavam. O primeiro dia da infecção, a primeira morte, o primeiro tiro. Amaldiçoei meu pai, é claro, mas não podia amaldiçoá-lo mais do que a mim mesma por não defendê-lo. Eu estava tão esgotada.
Inspirei e expirei lentamente, já não era mais necessário se pensar em motivos para viver. Talvez esse fosse meu erro afinal; pensar em viver já era o suficiente durante esses novos tempos. Uma causa maior, como diria meu pai. Levantei-me determinadamente, pronta para esquecer quaisquer que fossem os motivos que tinham me levado a pensar que não valia à pena respirar. Decidi que manteria minha mente ocupada.
Desci a escadaria rapidamente. O canto de meus olhos avistou Carl jogado no sofá, sozinho. Meus ouvidos captaram o que parecia ser uma conversa sigilosa entre Rick e Michonne, vinda da cozinha. Ri ao pensar que aquele cômodo em particular se tornara a sala de reuniões. Enfim. Eu lhes seria útil agora, então simplesmente firmei meu machado em minha mão e pus um olhar confiante ao meu rosto. Passei pela sala e percebi os olhos de Carl um tanto surpresos e intrigados. Pela primeira vez eu enxergava algo além de trevas neles.
“O que vai fazer?” – ele perguntou. Seu tom foi medido, como um pai interrogaria a filha antes de um encontro. Suas sobrancelhas arquearam-se e ele se esforçou para aparentar desinteresse.
“Buscar suprimentos. Não quero ser inútil” – eu disse, calmamente. Não tinha a mínima vontade de prestar esclarecimentos para ele, mas também não queria comprometer mais ainda nossos laços afetivos, considerando que eu planejava ficar com o grupo.
“Vou com você” – ele disse, sem dar espaço à minha reação. Levantou-se depressa, pondo-se à minha frente e seguindo para o lado oposto. Provavelmente avisaria a Rick e a Michonne que sairíamos e para não se preocuparem, porque ele era um homezinho responsável. Argh. Tão depressa foi, tão depressa voltou, afastando o sofá da porta e a destrancando. Esforcei-me para sair de meu estado de imobilidade que sempre me atingia quando a situação saía de minha zona de conforto, e me pus a segui-lo. Ridículo, porque era ele quem estava me seguindo.
A tarde estava inundada em mormaço, mas resisti à tentação de guardar meu moletom. Apressei o passo, a fim de estar na frente; eu queria escolher a casa a ser explorada, eu queria fazer tudo sozinha, para ser sincera. Se ele quisesse me acompanhar, que acompanhasse.
Olhei discretamente por cima do ombro assim que o ultrapassei, encontrando-o cauteloso e com a mão repousada sobre seu coldre. Havia muitas perguntas que eu gostaria de fazer a ele, como por exemplo, sua história, por que era tão frio, tão arrogante e estúpido. No entanto, contive-me e desisti de todas elas. Se uma amizade fosse surgir entre nós, surgiria naturalmente, assim como um sentimento de repulsa poderia nascer com a mesma facilidade.
Concentrei-me na rua pela qual estávamos passando. Algumas casas pareciam ter sido brutalmente saqueadas, com janelas quebradas e portas arrombadas. Algumas, entretanto, permaneciam na quietude do abandono repentino. Mirei em um sobrado alaranjado, cujas janelas estavam intactas e mostravam cortinas fechadas. Fui em direção a ele, repelindo minha vontade de me certificar de que Carl estava me seguindo. Subi cuidadosamente pelos poucos degraus que davam acesso à varanda, sem poder conter o rangido da madeira velha da qual eram feitos. Espionei as frestas das duas janelas do andar debaixo, sem obter sucesso; apenas um objeto ou outro era visto do único ângulo permitido pelo tecido. Carl foi mais objetivo, dirigindo-se à porta e a examinando como a um médico usando um estetoscópio. Girou a maçaneta e, para nossa surpresa, a porta se abriu sem rodeios. Um barulho agudo de dobradiças sem óleo ecoou pelo primeiro cômodo, mas não pareceu ser alto o suficiente para atrair alguma atenção.
Os móveis que ali estavam encontravam-se caídos ou quebrados, cômodas com gavetas para fora e cadeiras deitadas ao chão. O papel de parede, cor de salmão e enfeitado por rosas vermelhas, estava descascando, o que tornava tudo um pouco sombrio. Encarei as escadas e olhei para Carl, que pareceu entender o que eu queria dizer; vou subir, dê uma olhada aqui embaixo.
Os degraus estavam cobertos por um carpete bege e sujo, mas davam firmeza aos meus pés por serem bem aderentes. Subi tranquilamente, embora estivesse atenta à qualquer coisa “fora do normal”. O corredor não era muito amplo, e possuía três portas que estavam fechadas. Antes que eu pudesse escolher uma delas, um barulho de vidro se espatifando no chão chegou aos meus ouvidos. Carl.
“Carl?” – entre os maiores atos de burrice que já cometi na vida, confesso que esse foi um deles. Gritei a pergunta, esperando obter uma censura em resposta. Porém, tudo o que recebi em troca foram alguns gemidos e nada coerente e que pertencesse à voz do adolescente de olhos azuis.
Subitamente, desesperei-me. Respirei fundo. Você tem que se defender, Blair. Meu pai estava certo – não era hora para nervosismos, eu havia matado três walkers naquela manhã e minha coragem não se dissiparia só porque estava em uma situação difícil.
Desci a escadaria o mais rápido que pude, apenas para me deparar com uma cena lamentável: Um walker estava indo em direção a Carl, enquanto outro estava em cima dele, que se debatia debilmente para não ser mordido. Meu coração disparou ao se deparar com a possível morte dele, com o possível choro e depressão de Rick, com o olhar amargo e saudoso de Michonne. Afastei todos aqueles pensamentos para que pudesse agir de forma coesa. Um abajur estava em cacos no chão, ao lado de Carl. Um sofá nos separava, e eu o pulei para não ter de perder tempo dando a volta por ele. Puxei o morto pelos poucos cabelos que ainda se agarravam em sua cabeça fétida e o lancei contra a parede. Enquanto ele se recompunha para que pudesse me morder, ergui meu machado e o finquei em sua testa. Logo ele estava no chão, e sem me preocupar em verificar se Carl havia sido mordido, fui em direção ao outro, que tentava passar pelo sofá. Um retardado. Decepei sua cabeça assim que fiquei próxima o suficiente a ele, e então, permiti a mim mesma um pouco de ar.
Carl estava tão ofegante quanto eu. Seus olhos estavam tristes e vazios, como da primeira vez em que nos vimos. Eu o encarei, esperando palavras de gratidão ou alguma coisa parecida, mas tudo o que recebi em troca foi um golfada de ar longa e duradoura seguida de um par de olhos fechados. Conformei-me, ainda parada de pé, sem saber o que dizer. Era a primeira vez que eu realmente salvara a vida de alguém e estava me sentindo ótima por isso.
Sobrepujando minhas expectativas, Carl levantou-se e passou reto por mim, sem ao menos me dirigir o olhar. Sua atitude enfureceu-me repentinamente, fazendo com que meus pulmões se enchessem de ar, preparando-se para me ajudar a soltar um grito potente.
“Não vai dizer nada?” – soou mais alto do que deveria, mas não me importei com a quantidade de walkers que estaria atraindo. Carl parou em resposta, mas não olhou para trás. Parecia cansado. Isso apenas alimentou minha fúria. – “Você está vivo por minha causa, seu merda!” – falei mais alto, indignada. Ele queria ignorar aquilo?
“Eu estou morto!” – ele gritou tão alto quanto eu. Sua voz estava carregada de desprezo por si mesmo, como se ele estivesse provando algo amargo e cuspindo imediatamente. – “Eu estou morto por dentro” – ele abrandou seu tom, e então, vi uma coisa que eu jamais pensei que veria. Carl começou a chorar.
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