De volta aos sonhos...
2 Capítulo 2 - Chapeleiro
Notas iniciais
– Estou investigando palavras que comecem com a letra A, que tal Alice? Ameixa? Amor? Amora? Ave? Aventura? Agonia?
– Ora, falando sozinho novamente, Chapeleiro? Andas fazendo isso desde que a Alice errada nos deixou. – Disse-me Mallymkun irritada. – Devias estar feliz por o reino da Cabeçuda ter acabado, e a Alice não ter que voltar mais aqui.
Estou encarando o chá que já esfriou há tempos, todos tomam chá, mas não consigo festejar! Como tudo parece cinza se a única cor que sumiu foi a cor de seus cachos, Alice?! Não consigo suportar, não consigo esperar, e se tu me esqueceste? Não consigo suportar, não consigo...
– Não consigo, não consigo, não consigo...
– O que não consegues, meu caro Chapeleiro? – Indaga-me Mirana com curiosidade brilhando em seus olhos de cor tão escura quanto chá de jabuticaba.
– Não consigo Alice, não consigo espera-la, não consigo esquece-la, seus cabelos não me saem da mente, sua muiteza me faz falta. Não deixo de vê-la cheia de valentia e muiteza e beleza e esperteza e loucura quando matou o jaguadarte. Não consigo pensar em nada mais. Por que contastes que o sangue do jaguadarte lhe concederia qualquer coisa? Ela poderia ainda estar aqui agora, eu poderia tê-la. Poderia ter ficado com ela e não com sua promessa? Por que me esqueceste Alice? O que tens na superfície que podes ser tão mais interessante do que tens aqui? Por que há tanta distância entre os mundos? Por que não voltas? Por que me esqueceste? Por que ela me esqueceu Mirana?
– Não creio que ela tenha te esquecido, caro amigo, ela não lhe fez uma promessa?
– Prometeu não me esquecer, e prometeu voltar antes que eu desse falta, mas não cumpriu os dois. Eu sinto sua falta desde que sumiu, Alice, mas você já me esqueceu.
– Ah meu caro Chapeleiro, não acho que Alice tenha o esquecido...
– Mas então por que minha querida Alice não voltas para cá? Alice... sempre muito pequena ou muito grande, mas quando a vi do tamanho certo... ah... era o tamanho perfeito, era pequena e grande ao mesmo tempo, me olhava nos olhos com uma certeza muitaz, um sorriso escondido nos cantos dos lábios... ah pequena Alice...
– O que sentes por ela, Tarrant?
– Sinto... loucura. Sinto que a loucura dela foi feita para a minha, assim como as suas mãos foram feitas para se encaixarem em minha face nos momentos de insanidade.
– E você sabe como se chama essa loucura?
– Desconheço a palavra que dá nome a esse sentimento.
– O nome desse sentimento esquisito e confuso é amor.
– E qual é a semelhança entre o amor e a loucura?
– Os dois mexem com a sua cabeça.
Com isso a rainha me deixou com o chá, este que já tinha esfriado há tempos, o qual eu fiquei encarando por horas, na tentativa de não lembrar da garota de cachos loiros e vestido azul, que pelo jeito era por quem eu nutria o sentimento amor.
Mally já havia saído há um tempo, enquanto eu conversava com Mirana, resmungando algo sobre achar o local ideal para o cochilo de uma dormidonga como ela, Thackery deve estar em uma das várias cozinhas de Marmoreal, Mirana o deixa usá-las para seus experimentos com chás, biscoitos, e novos sabores de suco minimizador e altestrudel.
Sai andando sem rumo, tirei do bolso uma de minhas últimas lembranças de Alice, o tecido que sobrou de seu vestido em meu bule de chá, era do azul preferido dela, uma cor que combinava perfeitamente com sua cabeleira e seus grandes olho profundos.
Sem perceber andei até Marmoreal, o grande castelo branco, que apesar da felicidade do mundo subterrâneo, sempre parecia triste.
– Chapeleiro, o que faz aqui? – Ouvi a voz, e depois, apareceu primeiro o sorriso, depois o corpo listrado de Cheshire.
– Ora Chesire, vim-me andando sem rumo, e quando percebi, já estavas aqui! E você? O que andas aprontando aqui, Cheshire?
– Apenas segui essa magnifica cartola pela qual tenho grande apreciação.
Pego minha cartola e a abraço no peito, antes que ele pudesse pega-la de minha cabeça.
– Fique longe de minha cartola, você sabe que não irá usá-la.
– Por que não, Chapeleiro? Eu juro que irei cuidar muito bem dela.
Seguro com mais força minha cartola querida e fico extremamente irritado.
– Ora Cheshire, não irá usar a minha cartola! Eu a havia perdido, mas a Alice me trouxe ela de volta, e não vou deixar ninguém me roubar o presente da Alice!
Comecei a tremer e ficar com os olhos injetados, como Cheshire ousa querer roubar a cartola que Alice me devolveu?! Não deixarei ele me roubar o que Alice me trouxe, nem ele nem ninguém.
– Acalme-se Chapeleiro. Venha comigo dar um passeio nos jardins. – Mirana disse-me com a mão em meu ombro e um olhar calmo e firme.
Botei de volta a cartola em minha cabeça, e escondi o tecido do vestido de Alice, no bolso interno de meu casaco.
– Tarrant, sentaremos para tomar chá perto das árvores, quero lhe contar uma coisa.
– Sim, vossa majestade.
Nos sentamos em uma mesa redonda inteira prata e branca, embaixo da copa de uma das árvores que possuíam tronco branco e folhas rosas. Sobre a mesa um bule de chá inteiro de prata, e em um prato, biscoitos e bolinhos de diversos tamanhos e cores.
– Foi Thackery quem preparou?
– Sim sim, ele está bem melhor na arte de cozinhar, também está melhor na arte de tacar a comida na cara dos outros. – Mirana ri baixo e com brilho no olhar.
– Posso lhe perguntar o que faço aqui, cara amiga de muitas facetas?
– Pode sim, meu amigo.
– E o que eu, aqui faço?
– Você reparou que o McTwisp andas sumido, não reparou?
– Para falar a verdade, não havia reparado até teres comentado.
– McTwisp andas sumido porque fora a superfície em busca de Alice.
– Ele fora atrás de Alice? A minha pequena Alice?
– Sim. Infelizmente Alice não pode retornar com ele, mas McTwisp trouxe algo para você.
Meu coração doeu quando ouvi que Alice não havia retornado, mas McTwisp aparecendo na minha frente, com um pedaço de papel dobrado estendido a mim, me despertou a curiosidade.
– O que é isso afinal, McTwisp?
– Uma carta de Alice. Uma carta que a própria Alice escreveu para você.
Pego a carta com o coração dando cambalhotas, sem saber o que sentir. Medo? Tristeza? Saudade? Loucura? Amor.
Abro a carta com as mãos tremendo, e a leio. Alice não se esqueceu de mim! Alice disse que é minha! Será que ela também tem essa coisa chamada amor?
– Será que ela me ama, Mirana?
– Sim, Tarrant.
– Dois meses até ela voltar. 60 dias. 1440 horas. 86400 minutos. Eu não consigo. E se ela me esquecer na China? Eu não consigo. E se ela não conseguir voltar? Eu não consigo. O que eu faço, Mirana? Estou feliz, mas tenho medo. Isso é o amor agindo como a loucura? Ou a loucura agindo como amor? O que eu faço? Eu não consigo.
– Acalme-se Tarrant. Por que não aproveita esses dois meses para descobrir como conquistar ela, e fazê-la ficar aqui?
– Obrigada pela ideia. O que ela tem na superfície? Ela tem chapéus? Ela toma chá com os amigos? Ela tem muitos vestidos? Ela sonha em se casar?
– Não sei, caro amigo. Há alguma coisa que eu possa fazer para lhe ajudar?
– Há. Preciso de usar a sala de fazer chapéus de Marmoreal. Farei para Alice o que melhor sei fazer. Chapéus.
Entrei no castelo sem esperar respostas de Mirana, sabia o que queria fazer para conquistar Alice, faria os vestidos mais bonitos, os chapéus mais loucos, lhe faria uma cartola azul, para lhe enfeitar os cachos loiros, lhe faria vestidos de todos os tamanhos, pequenos e grandes, e faria do tamanho certo. Queria que todas as formas de Alice vestissem os meus vestidos, com suco minimizador ou altestrudel, e com o tamanho perfeito.
Cheguei ao ateliê de chapéus, e já me pus a trabalhar, mas antes, escrevi uma resposta na carta de Alice, e a enrolei no tecido de seu antigo vestido, para guardar junto ao meu peito.
“Cara Alice,
Estarei te esperando, espero que me ame como eu te amo. Estou ansioso ao seu retorno, e então, não lhe deixarei mais partir, guardarei a ti e ao teu amor aqui, ao meu lado, comigo.
Dono de muita loucura,
Seu amado, Tarrant.”
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