De volta a você
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Julho de 2006
Rebecca acabara de acordar na manhã daquele domingo ensolarado de julho. Ela nunca precisou de despertador para levantar cedo, pois o sol adentrava pela janela de seu quarto, iluminando todo o pequeno espaço em que a jovem dormia. Era a época das férias escolares, e ela sentia-se extremamente solitária vendo seus amigos viajando enquanto ela permanecia em casa, sem recursos para fazer qualquer outra coisa empolgante.
Uma das únicas atividades que a garota podia fazer era andar de bicicleta pelo parque próximo a sua casa. À tarde, ela ainda conseguia encontrar alguns colegas desafortunados como ela que também não viajaram. Dentre eles, Lucas. Ele sempre estava por lá, jogando alguma partida de futebol ou vôlei no campinho do parque com outros rapazes.
Desde que começou a estudar no colégio Maximiliano, um dos maiores centros educacionais reconhecido por ser quase que exclusivamente da classe alta, Rebecca sempre foi da mesma turma que Lucas. Entretanto, ambos não possuíam contato algum. Já estavam no 3º ano do ensino médio e as poucas palavras que trocavam em sala de aula resumiam-se em dever de casa, data de entrega dos trabalhos, datas de inscrição em vestibular e eternos empréstimos de canetas que nunca foram devolvidos por ele.
Entretanto, aquela tarde foi especial. Enquanto Rebecca pedalava ao lado de sua vizinha Victória ao redor do campinho onde os rapazes jogavam vôlei, ela ouviu alguém gritar seu nome.
— Becca! – gritou Diego, correndo para o lado do campinho em que Rebecca passava. Ele estava brilhando de suor, usando uma camisa regata que parecia velha demais para estar sendo usada em um lugar público. – Por que você e sua amiga não jogam com a gente? Estamos precisando de duas pessoas para fechar o outro time.
Rebecca olhou timidamente para os rapazes que estavam no campinho encarando a garota e sua colega, à espera da resposta. Victória sorriu para Diego e, antes de consultar a resposta de Rebecca, desceu na bicicleta e seguiu em direção ao campo:
— Eu adoro vôlei. – disse Victória. — Vou só colocar a bicicleta ali e já vou lá com vocês. Vamos Becca!
De cima da bicicleta, Rebecca olhava para Victória indo em direção ao campinho, balançando a cabeça negativamente. Ela não queria jogar. Não queria estar enfiada no meio de um monte de rapazes dos quais mal conhecia dois.
— Vamos lá, por favor! – pediu Diego novamente. – Pelo menos uma partida. Se você não quiser mais depois, aí pode ir embora.
— Tudo bem... Só uma partida. – disse a garota por fim, cedendo ao pedido e descendo da bicicleta. Internamente ela pensou que jamais passaria por lá novamente.
Diego claramente esboçou seu ar de satisfação. Era conhecido por sempre fazer as pessoas mudarem de ideia. Rebecca particularmente odiava essa fama, principalmente porque ela era uma das mais afetadas em relação a isso. Ela reconhecia que, das diversas vezes em que não quis fazer algo, Diego conseguiu fazê-la repensar melhor.
Após a divisão dos times, Rebecca acabou por ficar no mesmo time de Lucas. Ele espontaneamente lhe deu um sorriso amigável do qual ela retribuiu meio sem jeito. Quando a partida começou, ficou claro para todos que Rebecca não sabia jogar. Todas as defesas e manchetes feitas pela garota foram, no mínimo, constrangedoras.
— Olha pessoal, acho que pra mim já deu aqui. – disse ela ofegante depois de tanto pular em vão. Já era a segunda partida e ela se sentia um fracasso. Apesar de seu time estar vencendo, ela retirou-se do campo.
Os demais perceberam também que já não tinham mais pique para continuar jogando. Removeram a rede e se dirigiram para os bancos ao redor do campinho onde beberam água e começaram conversas banais. Em uma dessas rodas de conversa estava Victória que logo fez amizade com um dos rapazes que Rebecca não conhecia.
Enquanto estava sentada amarrando seu cadarço distraidamente, Rebecca não percebeu que Lucas vinha em sua direção. Ele esticou uma garrafa de água para a garota.
— Você quer? – perguntou ele. Rebecca não conseguiu ver seu rosto a princípio, por conta do sol daquela tarde.
— Obrigada. – disse ela aceitando a garrafa de água. Lucas sentou-se ao seu lado em uma distância considerável.
Um silêncio se instalou entre os dois. A única coisa audível naquele momento era o som dos goles de água que Rebecca dava.
— Sempre vejo você passeando de bicicleta por aqui. – disse ele rompendo o silêncio. – Hoje eu pedi pro Diego te chamar pra cá.
Rebecca não soube esconder a surpresa por saber daquilo. Entregou a garrafinha para Lucas e riu.
— Por que me chamou? Eu sou péssima em todos os tipos de jogos. – disse ela.
— Eu sabia que você era péssima, mas não tão péssima assim. – ele riu. – Eu só chamei porque... Sei lá. Estudamos a anos e eu não sei nada sobre você. Não sei nada sobre quase ninguém. – a resposta de Lucas soou melancólica para Rebecca que, a princípio, não sabia como continuar aquela conversa.
— Bom... Foi bem legal. – disse ela por fim. – Mas eu preciso ir. Tchau, Lucas.
Rebecca levantou-se e começou a caminhar em direção a sua bicicleta, mas o rapaz insistiu na conversa.
— Acho que você devia vir aqui mais vezes. – disse ele a acompanhando até o outro lado do campinho. – Assim você aprenderia a jogar.
Os dois riram. Ao chegar do outro lado do campinho, ambos começaram a observar a roda de conversa dos demais colegas no banco da pracinha.
— Bom, a Vic está bem acompanhada pelo visto, então eu vou pra casa. – disse Rebecca a Lucas. – Obrigada pela... Companhia.
Lucas a observou subir na bicicleta. Observou enquanto ela prendia os cabelos em um rabo de cavalo meio frouxo. Percebeu o quanto ela era diferente das demais garotas da turma. Ela sempre foi ofuscada pelas outras por ser pequena e tímida, enquanto as outras eram tão desinibidas e encorpadas. Havia uma beleza em Rebecca da qual Lucas jamais percebera até aquele dia. Algo que o fez parecer um idiota por não notar em todos aqueles anos estudando juntos. Talvez fosse o jeito dela de simplesmente não esbanjar uma aparência fajuta, como a maioria das pessoas do colégio. Lucas sabia que Rebecca só estudava lá por causa do pai, que era professor da escola. Ela não fazia o perfil das outras garotas, e ele começou a ser grato por reconhecer isso.
— Tchau, de novo. – disse ela rindo.
— Você bem que poderia vir aqui amanhã. – disse ele. – Não pra jogar vôlei, mas pra tomar sorvete ali... – ele apontou para a sorveteria do outro lado da rua. – Comigo.
Quase sem acreditar no convite que acabara de receber, Rebecca acenou a cabeça em um gesto afirmativo para Lucas. Depois, foi embora dali.
Ao chegar em casa, Lucas fez uma breve pesquisa na rede social de Rebecca. Viu suas postagens e fotos, percebendo que a garota mal postava alguma coisa. Aquela tarde o deixou intrigado: “como eu pude passar anos e não percebê-la?” , pensou ele.
A partir dessa tarde, os dois jovens começaram a perceber um ao outro de uma forma que jamais imaginariam. Foi o começo de algo que, para os dois, não seria fácil esquecer.
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