De volta a vila.
1 Olhos nos olhos e nosso passado.
Notas iniciais
Boa Leitura. ♥
Faziam anos que Francisca não era chamada de Chiquinha, ela nem se lembrava mais daquele sentimento e a nostalgia foi logo substituída pela culpa. Desde aquela fatídica aula de "História da filosofia da arte" em que seu professor, que tinha recentemente perdido o pai começou um discurso tocante sobre o tempo e como as coisas acontecem de repente surpreendendo nossa crença de nada nunca acontecerá de fato com a gente. Desde então ela se sentiu sedenta pela presença do velho Sr. Madruga, o franzino senhor de chapéu de pano, que durão como sempre foi nunca deixou ser uma opção ela deixar de seguir seus estudos na capital, conseguidos depois de três tentativas frustradas e desgastantes. "Você vai ter o futuro que eu sonhei pra mim, filha. Não quero que te chamem de acomodada também. Eu sei o quanto isso pesou todos esses anos nas minhas costas." Essas palavras nunca saíram da cabeça dela, principalmente quando a vontade louca de voltar pra casa batia a porta do seu dormitório da faculdade. Ela se sentia sozinha, mas também se sentia forte como seu pai e com o dever de cumprir o desejo que ele projetou nela. Depois de noites em claro em sites de passagens aéreas por conta de um verdadeiro milagre de natal ela conseguiu de última hora um acento no voo do dia 22/12, num preço acessível que caberia perfeitamente no seu modesto orçamento mensal, pois o salário de garçonete ainda não lhe permitia grandes extravagancias. Fez as malas com o coração cheio de ansiedade e alegria. Mal podia esperar para ver a cara de seu pai ao lhe ver entrando pelo velho portal da vila com suas malas e o presente de natal comprado há um ano atrás que ainda não havia tido a chance de entregar, um velho violão de modelo exato ao antigo, que de velho ruiu e perdeu o fundo. Ela embarcou com os olhos felizes e foi ver seu pai, que valia todo e qualquer esforço do mundo.
Sua mente variava em momentos de felicidade excitante a dolorosas lembranças de um passado que ela preferia esquecer, como voltar à vila sem se reencontrar com o passado? Ela precisava deixar de fato o que aconteceu com Frederico pra trás. Fazia três anos que o relacionamento havia acabado, e sendo bem sincera com ela mesma, nunca havia entendido muito bem o porquê te terem começado, os dois eram jovens e estavam machucados, ela por ter sempre uma fagulha de esperança de que chaves um dia tivesse olhos pra ela e Quico machucado pelo orgulho de sempre ouvir de sua mãe que ele merecia "coisa" melhor do que a filha de gentalha. Eles conseguiram nutrir e segurar o relacionamento por alguns anos da adolescência, dentre crises e reconciliações tudo teve fim quando ela decidiu que era hora de seguir a vida, de sair pra estudar na casa de sua tia que já havia lhe arrumado até um emprego perto do campus. Ela viu nesse momento que teria duas opções, sua vida mudaria completamente ou ela ficaria na vila e manteria um namoro morno com Frederico ouvindo sempre de sua mãe que ela não era o bastante para o filho, vivendo sempre a sombra de um amor de infância por um menino de rua que poderia aparecer casado com outra pessoa, ou mudar de cidade de deixar tudo isso pra trás, guardado no seu velho baú junto com seus casacos vermelhos desgastados e seguir em frente pra escrever seu próprio destino. Ela não se arrependeu depois. Não até agora.
Depois de três horas de voo, dois ônibus e um taxi ela estava de pé em frente a porta da vila, espreitando do outro lado da calça a silhueta do velho portal de madeira maciça que mesmo com alguns arranhões e a falta de algumas lascas ainda era uma fortaleza. Ela vestia o seu sobretudo bege inseparável e por baixo um vestido preto simples acompanhado de botas pretas também para manter os pés longe da umidade da chuva recente. Trazia consigo uma mala grande de rodinhas, cheia de adesivos que variavam de acordo com sua idade e viagens feitas, segurava um guarda-chuva amarelo em uma das mãos e nas costas tinha o violão guardado em uma capa protegida e muito bem fechada. Era chegada a hora e ela sabia que dali não poderia voltar e seu pai estava a metros de distância, provavelmente sentado lendo jornal no mesmo canto gasto do sofá. A companhia de um carteiro em sua bicicleta a resgatou de seus pensamentos e ela pode reconhecer Antônio, neto do carteiro Jaime que decidiu seguir a tradição da família e trabalhar no único correio da cidade, ela sorriu se sentindo em casa e finalmente atravessou a rua, passou a mala pelo portão e entrou fechando o guarda-chuva, respirou fundo ajeitou as malas e deu passos firmes a frente.
— Sim, trago os ovos também, mãe. Precisa de mais alguma coisa? eu não vou voltar a vendinha atoa de novo não. — Frederico ficou estático. Ele não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo, ela estava tão diferente, tão bonita, seus cabelos pretos, pesados caiam em cascatas em seus ombros e sumiam em suas costas, suas sardas acentuavam o sorriso gentil e seus olhos eram tão marcantes quanto ele conseguia se lembrar, antes por trás de óculos imensos quase irreconhecíveis.
—Ei. Como você está? — Ela quebrou o gelo, começando uma aproximação formal e polida para que o clima não fosse tão gélido quanto parecia estar sendo naqueles primeiros momentos, se olharam de frente e se abraçaram meio sem jeito, tropeçando e sorrindo amarelo um pro outro, trocando cumprimentos quadrados de velhos amigos sem nenhuma intimidade.
—Quanto tempo mais você vai levar pra ir, Tesouro? — Dona Florinda, se debruçou na janela e nitidamente ficou sem fala quando a viu. Ela realmente estava mudada e nem mesmo a mulher mais classuda da vila conseguiu manter sua frieza diante dela. Para romper o silencio e sem nenhuma intenção de quebrar o gelo com Florinda, ela seguiu em frente dando um ultimo aceno de cabeça pra Frederico que ainda estava hesitando em sair do portal e olhando pra trás. Respirou fundo em frente a porta “72” e deu três batidas.
— Papai. Papaizinho lindo? — ela riu com o quanto isso lhe soava familiar e nostálgico.
Depois de segundos de assimilação a porta se abriu ligeiramente revelando Srº Madruga com olhos marejados e arregalados olhando fixamente nos olhos da filha. Ele tinha a pele enrugada e envelhecida, ainda tinha a magreza costumeira e ainda usava o mesmo chapéu de pano surrado. Seus cabelos grisalhos eram quase totalmente brancos e seu bigode ainda era o mesmo só que agora com fios de branco vivo, com um sorriso amoroso e gentil ele deixou o jornal cair sobre os pés e esmagou a filha em um abraço apertado e cheio de amor, parou por minutos e segurou seu rosto entre as mãos e suspirou aliviado, seu anjo estava de volta ao lar, a abraçando mais uma vez.
—Vem, entra entra. Não fique na porta! eu acabei de passar café e tem pão fresquinho.- Ele a ajudou com as malas e entraram juntos na antiga sala de cor verde desgastado, ela sorria sem conseguir descrever o amor que sentia transbordar de seu peito, era quase como se pudesse ser criança outra vez. Correu a mão pelos moveis com uma fina camada persistente de poeira, e parou em frente a mesa sorrindo pro pai.
— É tão bom estar em casa pai, senti tanto a sua falta.
A tarde seguiu em plena harmonia na casa 72, Seu Madruga não deixava que ela desse um passo sem que contasse mais de todos os detalhes da vida na cidade grande, ele quis saber os medos, as alegrias e de todas as vezes em que ela se surpreendeu com a própria força que ele já conhecia tão bem, ressaltou que o "bochechas de Bulldog velho" estava morando com a mãe de novo, já que a tal loja de família da cidade vizinha havia ido a falência depois de sua administração ruim e que isso o fez ficar com o sorriso mais largo do mundo todas as vezes em que passava por Florinda na vila e via em seus olhos a vergonha e o desdém por saber que Chiquinha estava cursando faculdade fora, coisa que Quico nunca conseguiu seguir, já que desistiu de duas tentativas de estudos por ser "bom, demais pra trabalhar com aquilo". Os dias na Vila foram passando e antigos amigos foram chegando, o nome Chiquinha voltou a ser falado com mais frequência e já nem era estranho pra ela responder a ele. Ela conseguiu rever Poppis que havia se casado com NhoNho, que levava cuidadosamente os negócios do pai a frente, prosperando e ostentando a pesada barriga da família que já era quase uma tradição. Elizabeth e Gonidez formaram um casal silencioso mais muito carinhoso um com o outro e sempre cuidadosos com suas demonstrações de afeto em publico, Candida e Paty chocaram a cidadezinha pequena quando assumiram a união e começaram a morar juntas cuidando da pequena Manoelinha, uma menininha resgatada da rua e que nutria um sentimento de amor e apego muito grande por Paty, era muito comum vê-la em seu colo, olhando desconfiadamente para as pessoas que se aproximavam tentando arrancar lhe um sorriso, ela sempre se contorcia e escondia o rosto nos cabelos da mãe, que gentilmente a dava conforto. Assim os dias foram passando rápido na vila, Chiquinha mimava o pai o máximo que podia, limpando a casa, fazendo doces, tortas e bolos praticando as receitas aprendidas no trabalho e ela adorava cada uma delas, até aquelas que não ficavam muito boas.
Na véspera de Natal, Srº Madrugada martelava fervorosamente com NhoNho uma mesa grande bem no centro da vila, que abrigaria uma ceia de natal para todos os moradores, ideia sugerida pelo orgulhoso pai de Chiquinha que distribuía sorrisos e histórias de superação a mais ou menos uma semana quando a filha chegou, NhoNho que havia construído a uma forte ligação com seu Madruga depois da perda do pai, adorou a ideia de unir toda a vila de novo depois de tanto tempo e ajudava animado nos detalhes. Dona Florinda trabalhava exclusivamente em uma receita chique de família que prometia surpreender o paladar de todos os moradores que provavelmente nunca teriam tido a chance de provar a combinação daqueles sabores especiais em uma cidade tão pequena. Chiquinha verificou mais uma vez o pernil no forno, receita da sua querida vozinha que quase assado já cheirava muito bem, relaxou por alguns momentos no sofá aproveitando a atmosfera da sala, fechou os olhos e aproveitou a paz do ambiente.
—Não é possível! Esse ano não poderia ser mais maravilhoso que isso! — A voz de NhoNho rompeu os sons dos preparativos e Seu Madruga Gritou — Chavinho!
Os olhos de Francisca se arregalaram e a realidade pesou como a gravidade em seus ombros. "Não pode ser. Não é possível. Não pode ser ele. Ele não tinha ido embora. Como ele voltou? Porque ele voltou?" mil pensamentos passaram como foguetes por sua cabeça e ela ficou paralisada no sofá, não conseguia mexer um musculo. "porque eu tô assim? Não faz isso Chiquinha! era só uma queda infantil. Relaxa. Fica calma. Porque diabos eu tô tão nervosa?"
—Olha só como está bonito! nem parece aquele menino feio que dormia no barril do lado da escada — ela pode ouvir os risos e se mandou pro banheiro se abaixando e quase engatinhando pelo chão pra não ser vista pela janela, entrou com urgência e fechou a porta do banheiro num rompante, se olhou no espelho e depois de um delay de quinze segundos começou a rir de nervoso. "Olha pra minha cara. Porque diabos eu tô tão nervosa? é só o Chaves. ok calma. calma." Ela se apoiou na pia pequena e respirou fundo três vezes, quando finalmente conseguiu se acalmar ouviu a voz de seu pai pelo lado de fora da porta.
—Filha! o Chavinho chegou! você precisa ver ele! Ele está inacreditável! Vem!
—Eu já vou pai! Vou tomar um banho antes, o Pernil já está quase pronto. Se arrume também ok?
Foi difícil se concentrar em se arrumar no quarto sabendo que ele estava na sala conversando animadamente com Srº Madruga, ela ouviu eles mencionarem o seu nome umas três ou quatro vezes porem não respondeu por puro nervosismo, não sabia se tentava espiar pela fechadura ou se aquilo seria muito piegas, ela precisava se acalmar de fato, não era mais uma criança e repetia isso religiosamente em frente ao espelho quando seu pai bateu a porta novamente, ela respirou fundo e a abriu, pronta pra verdade, pronta pra vê-lo novamente cara a cara depois de tantos anos. Ela abriu a porta segurando a respiração.
—Filhinha você precisa ver o Chavinho, ele parece outra pessoa! — seus olhos varreram a sala procurando por ele, seu pai entrou no quarto pegando uma toalha estendida na cabeceira da cama — Ele está tão bonito e limpo! e está com cara de rico! Deve ter ganhado uma bela bolada de herança daquele velho rico do 86, ele morreu e deixou todo dinheiro pra ele! uma sorte grande pro pobre do Chavinho...
— Ué. Cadê ele? — ela se virou claramente desanimada pro pai.
— Ele foi a casa do Godinez, saiu conversando animado com os meninos. Mas ele volta pra festa. vocês ainda vão ter tempo de se ver.
Ela suspirou e mais uma vez se perguntou. "Porque diabos eu estou tão nervosa?"
O relógio marcou 22 horas e as pessoas começaram a chegar e se sentar animados em volta da grande mesa da vila, as novas crianças filhas e filhos dos filhos dos antigos moradores corriam pra lá e pra cá e a música alternava animada entre o violão de seu Madruga e o aparelho de som da janela de Dona Florinda, que fazia questão de mexer no cabelo perfeitamente arrumado a cada trinta segundos, desviando o olhar que insistia em analisar Francisca de tempos em tempos, que animada conversava com Paty, Cândida e Poppis sobre as grandes mudanças em suas vidas. A noite era aconchegante quando as voltas da 23:40 os meninos voltaram para Ceia, entraram pelo portal que se encontrava aberto dessa vez e chegaram animando mais ainda a festa, entre gritos das crianças abraços e beijos das esposas e pratos trazidos das casas que ainda faltavam os olhos de Chaves cruzaram os olhos de Chiquinha, que acabava de dar uma gargalhada gostosa sobre uma história que ouvirá das meninas, seu sorriso foi ficando delicado e sereno quando
reconheceu o velho amigo, ele ficou parado à baixo ao portal da vila, olhando com o mesmo sorriso sincero. Ele vestia um terno fino em tons de cinza claro, ele usava um lenço lilás no bolso, delicadamente colocado, seus cabelos pretos estavam alinhados de forma relaxada pra trás, de forma que seus dedos poderiam desenhar as ondas molhadas acentuando seu charme, ele ostentava um sorriso branco e perfeito e pousava gentilmente a mão direita no bolso da calça. Ela se levantou e caminhou até ele, passou pelo meio da multidão animada que mal percebiam eles, seu vestido leve vermelho era alegre, possuía alças finas e uma saia rodada leve com seda delicada e transparente que se acentuava abaixo dos seios em um delicado e recatado decote, ela usava uma bota de salto médio e cano curto quase nada feminina que contrastava divertidamente com sua personalidade, seus cabelos pretos e pesados caiam em cachos harmoniosos sobre seus ombros e costas, ela parou em frente a ele e um pouco sem graça sorriu baixando os olhos
e colocando o cabelo gentilmente atrás da orelha.
—Uau. Você está... — ele suspirou sem tirar os olhos dela — linda. — ela corou e finalmente pousou os olhos nos olhos dele.
— E você? Olha pra você! Tão diferente quase não consegui te reconhecer. Ta parecendo um ator de novela. Está mais bonito que o Héctor Bonilla! — Eles riram. Chaves não se segurou e a abraçou apertado, a tirando do chão e mergulhando o rosto em seus cabelos e pescoço, soltando em tom baixo uma frase em meio a um suspiro pesado que a fez arrepiar.
—Eu senti tanto sua falta.
A noite se estendeu e eles sentaram lado a lado na grande mesa, conversando animados, relembrando tantas aventuras de infância, revivendo todas as coisas com risos gostosos e relaxados. Aquilo era estar em casa pra eles. Quico chegou a se juntar ao grupo e mesmo dentre olhares hora ameaçadores de sua mãe, se divertiu e acabou abraçando os dois de forma demorada antes de deixá-los a sós. Cearam juntos e fizeram um natal memorável para aquela vila, algo que com certeza ficaria marcado pra sempre não só nas várias fotos tiradas por tantas pessoas da festa mas com certeza na memória de todos. A festa continuava animada às três da manhã quando ele chegou ao lado dela mais uma vez e cutucou carinhosamente sua cintura, a fazendo pular.
—Ei, quer dar uma volta comigo? — Ela olhou o pai feliz tocando seu violão animando uma roda de pessoas que cantavam juntos, até mesmo Dona Florinda que já havia bebido várias taças de vinho se rendeu à música e cantava junto com o coro animadamente, ela deu um beijo na cabeça de seu pai e saiu acompanhando Chaves para o outro pátio, esse mais silencioso e com menos pessoas.
—Bem, pelo menos aqui conseguiremos nos ouvir direito. — ele se sentou à beira da antiga fonte, entrelaçando os dedos no cabelo e modelando-o pra trás, seu terno agora estava mais aberto e a camisa de baixo estava com dois botões abertos pra amenizar o calor da noite mexicana. Ela se sentou a seu lado o olhando com cuidado.
—Você consegui acreditar no quanto você mudou? Quer dizer, você parece outra pessoa, olha pra vc. — ele sorriu e baixou cabeça a olhando de novo.
—Não, olha pra você! Você está estonteante. Linda... — ela corou mais uma vez. — É sério — ele insistiu — suas sardas... quem diria que elas te deixariam mais bonita ainda. — eles riram.
— Você sempre me zuou por elas, é estranho te ouvir elogia-las.
—Você merece, de verdade. — Eles sorriram. — ..., Mas sendo bem sincero, eu não cheguei a perceber a tão mudança sabe? eu acho que de fato o momento mais valioso pra mim foi dormir em uma cama limpa pela primeira vez. Ter o que jantar por uma semana e café da manhã. De fato, o Srº Rodolfo me salvou de tudo aquilo, essa foi a grande mudança que eu senti. O que veio depois foi só consequência de ser bem cuidado.
— Rodolfo... ainda não consigo te imaginar com outro nome além de Chavinho.
—Pois é, outra grande mudança na minha vida, eu também demorei muito a me acostumar com esse nome tão grande...
—...Rodolfo Pietro Filiberto Raffaello Guglielmi. — Ela repetiu pela vigésima vez naquela noite com voz pomposa claramente zoando ele.
—Pois é. Pra um Chaves só tantos nomes não foram fáceis de ser adquiridos. — Eles riram — Depois disso vieram os estudos na capital, as aulas de boas maneiras, as pessoas tão diferentes de todos que eu já havia conhecido. — Ele ficou pensativo. — Eu não conseguia entender porque era tão bem tratado por desconhecidos, não foi fácil assimilar as coisas já que antes não era desse jeito. Eu demorei a me acostumar. Chegou a me causar revolta em certo período. — Ele suspirou baixando a cabeça e emergindo dos pensamentos. — Mas sou extremamente grato.
—Claro. Srº Rodolfo te teve como um filho, te deu toda uma vida. Ele merece ser lembrado e horando sempre com muito carinho.
—Sim, com certeza. — Ele a olhou apoiando os braços no beiral do poço e olhando as estrelas do céu, — mas sou grato a você também. Você, os meninos, seu pai... vocês sempre me tratavam como um igual, sem descriminações pela minha condição social. Isso não tem dinheiro em todo mundo que pague. Toda gratidão é pouca. Era nesse amor que eu pensava quando as ondas de irá me acalcavam e eu queria fugir de tanta gente puxando o saco. Era aqui nessa vila que meu pensamento vinha buscar paz e calma. — Ela estava perdida nele, mergulhada profundamente em tudo aquilo que ele havia se tornado. Ela sempre o admirou quando criança, por ser forte, esperançoso e alegre apesar de tantos dias sem comerem direito, sem ter onde dormir ou ser maltratado nas ruas. mas agora ele estava envolto por uma sabedoria absoluta e inspiradora e ela não conseguia mais voltar.
—Sabe, eu ... pensei em você diversas vezes. Pensei em voltar aqui e te buscar — O coração dela acelerou e o sangue avivou ferozmente suas maças do rosto. — Eu não conseguia acreditar naquelas mulheres que se aproximavam de mim com o único intuito de usufruir de alguma forma do dinheiro do meu pai. Eu sempre acabava buscando encontrar nelas todo aquele amor que eu sempre recebi de você. Eu pensei em você várias vezes e desejei seu amor. Aquele amor infantil persistente que você tinha por mim mesmo quando eu estava babando aos pés da Paty. — Eles riram. — Eu pensei em você todos os dias. Até cheguei a voltar a vila uma vez, mas nem cheguei a entrar quando te vi passando de mãos dadas com o Quico. — Ela olhou pra ele com olhos aflitos. — Não posso culpa-la, de fato, eu sumi. Fui embora e não voltei mais. Não tive forças pra te tirar dele, pra te abraçar e te levar comigo. Eu fiquei devastado em pensar que seu coração tinha desistido do meu...
—Isso nunca aconteceu! — ela o interrompeu com lagrimas nos olhos, com os punhos no colo e cabeça baixa, ela confessou — Mesmo estando com ele era com você que meu coração queria estar. — ele tinha os olhos fixos nela como se precisasse de cada uma daquelas palavras pra respirar. Ela ainda olhava para as mãos cerradas. — Mesmo com tantos anos eu nunca deixei de sentir amor por você. Estávamos juntos sim, mas porque os dois estavam feridos e sem esperança, nos agarramos a tudo que nos dava força pra continuar, eu me agarrei a ele porque era o último vestígio que eu tinha de você. E eu sei que isso foi egoísta, mas ele também foi me usando pra conseguir confrontar as expectativas irreais da mãe dele. — Chaves ficou de pé e se posicionou em frente a ela que perdida em devaneios nem percebeu. — Por isso terminei com ele e me mudei daqui, decidi parar de mentir pra mim mesma, eu precisava viver outras coisas. Parar de esperar por você ou parar de esperar que um sentimento infantil fosse levado a sério ou que um milagre...
— Vem cá. — Ele a interrompeu a pegando pelos pulsos e a puxando com firmeza, gentileza e cuidado a trazendo pros seus braços fazendo ela se calar com um beijo quente e urgente que parecia querer sanar anos de saudade naquele mesmo segundo, — Não fala mais nada. — de olhos fechados ele encostou a testa na dela e disse franzindo o celho — por tantos anos você cuidou de mim, do meu coração...- os olhos dele encontraram os olhos dela e seus dedos gentilmente seguraram o queixo de Francisca — ... deixa eu cuidar do seu coração agora. Pra sempre. — Eles se beijaram, se encontraram no amor que sempre tiveram um pelo outro e não puderam dividir, ela encontrou o que tanto procurava e ele também, se sentiram completos assim.
Notas finais
Fiquem a vontade pra comentar!
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