De volta a Cape Cod
1 Capítulo único
De volta a Cape Cod
Sinopse: Após Garden of Light, Eiji decide conviver com suas memórias. Como num estalo, ao lembrar de sua viagem a Cape Cod, decide voltar a cidade sozinho e se encontra com novas histórias e descobertas sobre o Ash.
Um dia de cada vez, afinal toda essa intensidade estava guardada em mim. Olhar estas fotos, pensar em tudo o que aconteceu, me dá esse sentimento ambíguo de gratidão e dor. Olhar essas fotos... Ah, eu precisava olhar essas fotos! Mas o que eu faço com esses sentimentos?
— Eiji... – Sing estava na porta do quarto enquanto eu olhava novamente, uma por uma, as fotos que tirei do Ash. Difícil ainda dizer seu nome! – Desde que Akira voltou para o Japão você não tem saído.
Sorri e não respondi. Eu não posso trazer mais nenhum fardo para o Sing, pois ele ainda se sente culpado pela morte do Ash. Já faz sete anos que ele vem aqui em casa, janta comigo, me acompanha. Sete anos que ele guarda para si sua raiva do Lao, assim como eu guardei, sem nunca poder falar para mim. Não é justo para com ele ainda trazer essa dor que ressurgiu. Os trabalhos em China Town, ter que lidar com o Yut-Lung, nossa! É ter que lidar com as memórias do Ash todo dia.
Eu fiz um caminho contrário, de negar essas memórias. Tirar fotos de outras coisas, não passar por onde o Ash passou por sete anos. Talvez por isso ter ido para Cape Cod mexeu tanto com os sentimentos que estavam ali guardados. Quando estava perto de Akira e do Sing eu tirava o foco dessas emoções a fim de curtir, com eles, aquele local. Eu queria tanto que os dois ficassem bem que fiz de tudo para eu mesmo parecer bem.
Novamente esse sentimento estranho. Eu estou bem, consigo rir, consigo trabalhar...Mas é como se esse paz só existisse porque eu neguei rever as memórias do Ash. Tolo! Como eu iria fingir que nada tivesse acontecido? Eu estou feliz, mas cada dia mais eu tenho certeza de que só serei plenamente feliz se eu fechar essa história dentro de mim. Não dá mais para deixar só o tempo passar.
— Sing, eu vou voltar para Cape Cod.
— Está bem, o Buddy adorou correr por lá, podemos ficar naquela casa novamente.
— Não. – Respondi antes que ele pudesse trazer mais alguma ideia. – Dessa vez eu vou sozinho.
Sing se calou, virou de costas e fechou a porta do meu quarto com violência. Tenho absoluta certeza que ele pensou que não poderia me proteger se eu fosse sozinho. Raiva porque provavelmente ele sabia que teria um ponto que eu teria que me arriscar emocionalmente. Mas eu trago a memória que os meus melhores momentos foram de quando me arrisquei a sentir, a viver intensamente o que estava acontecendo. Foram os mais duros, mas não os trocaria por nada nesse mundo.
— Boa viagem. Tem previsão de quantos dias pretende ficar por lá? — Neguei com a cabeça. O rosto de preocupação de Sing estava evidente. – Aiai...Vou levar então o Buddy lá para minha casa. Por favor... se cuide.
Senti nas palavras de Sing que o “se cuide” carregava um monte de sentimentos como “não enlouqueça” e até mesmo “não morra”. Dessa vez não neguei nem acenei com a cabeça, peguei simplesmente o carro e comecei a dirigir em direção a Cape Cod. Tudo estava planejado na minha cabeça e num caderno que tinha ao lado o mapa da região. Parei o carro por um momento a fim de rever esta lista. Nela estava escrito:
Cape Cod
— pegar fotos da infância de Ash
— Ver com quem ficou a casa dos Callenreese.
Uma parte de mim temia escrever o que, de fato, eu sentia no meu coração, mas entendi que era hora de pôr no papel o que me doía:
— Procurar parentes do Ash.
Algo me dizia que eu deveria fazer isso e que eu teria resposta em Cape Cod. Depois que fomos lá, eu vi um homem loiro de costas que se parecia com o Ash. Por mais que nos Estados Unidos muita gente seja loira e veja loiros todos os dias, parece que aquela pessoa não era simplesmente uma pessoa parecida. Será que havia parentes do Ash naquela cidade? Quem serão? Se o pai, a madrasta e o irmão se foram...
Fechei o papel e coloquei no banco que estava ao meu lado. Só eu, uma pequena mochila, câmera fotográfica e essa lista. Ash, será que eu descubro ainda mais coisa sobre você?
Click!
Perto da estrada que adentra Cape Cod me lembro das nossas memórias tomando coca-cola e correndo no gramado, fugindo para o mar. Foi lá que fomos jovens pela última vez. Tirar fotos daquele lugar depois de tudo ter acontecido me traz paz e saudade. Como você vivia tenso, Ash! Tudo, seu pai, sua mãe, papa Dino, a morte do Griffin... Às vezes fingíamos que não havia morte nem máfia, simplesmente corríamos e falávamos sobre a vida. Enquanto estávamos só nós, parecia que nada disso existia. Mas sim, existia.
Ah, Ash! São sete anos sem entender o porquê você se deixou morrer. Uma parte de mim se revolta, pensando que seria tão bom estar fazendo essa busca de suas fotos, de sua casa, de sua mãe ao seu lado. Por outro lado, mesmo que você não escolhesse a morte, será que você viria comigo? Após acontecer tudo o que houve e voltar a uma cidade onde foi violentado, seu pai morreu e teve uma mãe que abandonou? Tirando foto desse local me faz pensar que meu otimismo beirasse a crueldade com a memória dele. Eu queria tanto que ele vivesse!
— Ô, moleque. O que tá fazendo? – Ouvi a voz de um senhor branco quase vermelho de seus sessenta anos, parecia um fazendeiro meio arretado com uma pá na mão. Eu tinha saído do carro para fotografar no meio do gramado e, quando havia visto, já estava tão distante que nem lembrava direito onde havia estacionado. Será que entrei em uma propriedade privada? Acabei correndo com medo do homem com a pá e depois só ouvi uma voz ao largo – Ei! Tu era conhecido do Jim?
Quando eu ouvi o nome Jim eu parei de correr. Jim Callenreese, pai do Ash. Apesar de fazer sete anos, era muito evidente que assassinato dentro de uma hospedaria em uma cidade pequena faria um grande escândalo. Pelo que esse homem continuou a dizer, tanto Jim como a Jennifer eram muito conhecidos pela cidade, assim logo os vizinhos souberam da visita de uns asiáticos e jornalistas e pouco tempo depois de um assassinato que ali ocorrera. Suspeitaram também que um daqueles que vieram com os “de fora” era Aslan, o filho bastardo de Jim e que este seria responsável pela morte do pai.
— Não havia digitais na arma, mas se imaginava que ele ou o Griffin voltariam para matar o pai.
— Não... Ele nunca desejou isso. – Respondi como num sussurro, ainda mais machucado por ouvir tantas palavras duras.
— Ah, mas um moleque que mata um veterano de guerra com 8 anos de idade pode fazer qualquer coisa. Aquele menino nasceu desgraçado...
— Por que você fala assim dele se nem o conheceu de verdade??? – Parece que dentro de mim saiu uma força que me fez gritar essas palavras, retirando de mim toda essa dor que estava guardada. – Você não sabe o que ele passou, você não sabe o que passamos! Ash amou seu pai mesmo tendo o expulsado de casa. Ele nunca se levantaria contra ele, muito menos com a Jennifer! Ele só veio aqui olhar os arquivos da história do Griffin! E para piorar... Ele não está nem mais aqui para se defender...
Quando reparei eu não só estava gritando, mas chorando também. Talvez eu tenha ficado tão patético chorando com uma câmera fotográfica na mão que o homem se silenciou. Acho que fazia anos que eu não chorava tão intensamente, berrando de dor como naquele momento. Eu não podia mostrar essa fragilidade para o Sing, nem para o Ibe-san.
— Realmente eu não disso aí que você está falando. – O homem se virou de costas como se ia embora. – Mas se você veio aqui resolver essa história de sete anos atrás, procure o bar do Howard. Talvez você tenha um bom depoimento para a polícia sobre o que aconteceu.
Após estas palavras o homem caminhou por dentro do mato com sua pá e não ligou mais para minha presença ali. Fiquei ainda alguns minutos em pé no meio do gramado ainda me recuperando, respirando fundo, sentindo o cheiro de grama cortada. Ah, grama tem sempre o mesmo cheiro, seja nos dias passados como nos dias de hoje. Cresce o capim, nasce, morre, mas o cheiro está ali. O capim tem cheiro de histórias.
Caminhei tranquilamente de volta ao carro tentando retomar a memória o motivo pelo qual estava ali. Impressionante como a última vez que eu havia vindo para Cape Cod evitei ao máximo possível o gramado largo. Ficamos em uma casinha, depois passeamos pelas áreas turísticas. Sing não esteve conosco quando estivemos aqui, muito menos a Akira. Só eu posso realmente me levar até o lugar das lembranças. Shorter não está mais vivo, Max e o Ibe estão vivendo suas vidas, então... Era um percurso para eu enfrentar, só.
De carro procurei logo onde ficava esse bar do Howard e no caminho eu encontrei o restaurante/hospedaria do pai do Ash. A casa estava completamente abandonada, com uma cerca grande e uma placa da prefeitura. Dava para ver ao fundo onde Griffin e o Ash moravam, mas de fato desde todo aquele acontecimento perceptivelmente a casa não foi utilizada mais. Eu precisaria entrar no terreno abandonado para investigar dentro destas casas. Pensei em deixar o carro no bar do Howard e ir andando discretamente por meio do mato a fim de invadir a casa e ver se havia alguma foto, algo que me explicasse o porquê do total abandono.
Estacionando no bar, tentei não ser visto por ninguém para que não houvesse suspeita enquanto eu invadia o terreno do pai do Ash. Infelizmente não sou tão ágil ou estratégico e acabei sendo visto pelo homem que chamou minha atenção pela manhã. Realmente, se eu fosse viver na máfia com o Ash, eu logo seria morto.
— Não é que você apareceu mesmo, moleque? Entra aí, pegue uma cerveja. – E o homem adentrou ao espaço sem nem ao menos eu pudesse responder. A solução seria entrar no local, que era um bar de madeira, com cadeiras vermelhas e mesas lustradas como se tivessem ainda nos anos 60. O homem entrou na parte interna do bar e já preparou uma cerveja para mim, sem ao menos eu ter pedido.
— Ah, eu estou dirigindo... Não precisa se preocupar com a cerveja. – respondi enquanto me assentava no bar que tinha ao lado mais dois homens de meia idade conversando alto sobre algum canalha que tinha passado a perna neles. – Você que é o Howard?
— Sim, eu sou. E agora me fala, quem é você?
— Meu nome é Eiji, sou fotógrafo. Há um tempo eu vim com meu tutor, Ibe-san, alguns amigos e com o Ash procurar algumas fotos de família. Era uma pesquisa que estávamos realizando como fotógrafos. Mas...Pelo jeito muita gente era inimiga do Ash e decidiram atacar a família para afetar ele. – Aquela não era hora de falar a verdade, expor o que foi o Bananafish e muito menos explicar sobre máfia. Eu estava sozinho então qualquer informação perigosa que eu expusesse poderia me trazer dificuldades. Fiz a escolha deliberada de não andar armado, então eu precisava contar com a criatividade.
— Eiji, hein? A última vez que vocês, asiáticos, vieram para cá só trouxeram problemas. Se fossem tão vítimas assim não precisavam ter fugido... – Mesmo tendo a fala agressiva, ele não parecia como se estivesse me ameaçando. – A questão é que Jim era um colega da cidade e ele estava feliz de ver o Aslan. Pelo que entendi, Ash era algum apelido do Aslan.
Abri um sorriso porque no meu círculo não havia quem o chamasse pelo primeiro nome. Talvez devido a tantas memórias ruins de infância, nem comigo ele se mostrava aberto a ser chamado assim. Foram poucas as vezes que eu pude conversar com ele sobre a beleza que era ter um nome tão diferente como Aslan Jade. Falando assim nem parece ser o nome do Ash.
— Sim. Nós o chamávamos de Ash. – Ali eu precisei beber a cerveja que já estava esquentando na minha frente. – Ninguém imaginou que algo poderia acontecer com o seu amigo. Jim não sabia como lidar com o Ash, mas era uma pessoa boa. No fundo o Ash também queria que o destino fosse diferente. Meus pêsames pela sua perda, eu sei como é perder uma pessoa querida...
— Você não veio aqui para me dar os pêsames por isso. O que faz você na cidade? – A cada passo que eu me abria parecia que cinco portas se fechavam sobre mim. Como sou idiota! Eu não estou ali para fazer um velho de terapeuta! Será que eu guardei por tanto tempo que eu estou soltando meus sentimentos a primeira pessoa que eu encontro mesmo só tendo tomado dois goles de cerveja?
— Eu vim trazer um auxílio financeiro a família Callenreese. Bem ou mal, eu presenciei toda essa desgraça e não os ajudei. O mínimo que eu poderia fazer era voltar e propor um suporte nessa área. Consegui nesses sete anos levantar um montante. Acha que existe ainda algum familiar vivo a quem eu possa entrar em contato?
Se eu dissesse que queria as fotos e informações de dentro da casa, logo saberiam que eu desejaria invadir. Pensei então em buscar nesse contato com o Howard alguma pista para essa busca.
— Ter, tenho o contato. – E logo meu coração se acelerou como se minha aposta na família do Ash fosse real. – Mas duvido que queiram seu dinheiro sujo.
— Por favor! – Levantei da cadeira e parecia que uma ansiedade vinha sobre mim. – Não me importo se eles recusarem, eu quero pelo menos tentar!
Então o homem, me olhando de cima a baixo pegou um papel e escreveu um número, assinando no final com as seguintes letras: A.Q. Era evidentemente um telefone, mas sendo já uma da manhã eu só conseguia olhar para o papel e pensar o que significava. Sai do bar e não quis naquela noite invadir a casa. Sentei no carro com o papel na mão ao qual o Howard havia me dado e o que eu havia escrito.
Cape Cod
— pegar fotos da infância de Ash
— Ver com quem ficou a casa dos Callenreese.
— Procurar parentes do Ash.
E em outro papel
+XX 380002-12345
A.Q
Tudo o que me vinha a cabeça era “Aslan Q...”. O que é Q? Quarto? Querido? Quest? QI? O Ash não está vivo para usar seu QI de 200 nessas horas. Eu estou sozinho, quebrando a cabeça do que isso pode significar. E se for uma armadilha? E se me deportarem? Eu já tenho o greencard! Estava a mil e tinha certeza que, mesmo se perguntasse, Howard não me diria o que é. Eu precisaria ligar e era essa a primeira coisa que iria fazer ao acordar no dia seguinte.
Um sonho dentro do sonho.
Eu acordava assustado no meio da noite assustado, suando frio de preocupação de como seria essa viagem em Cape Cod. Contudo, ao olhar ao meu redor percebia que estava no apartamento em Nova Iorque, na cama que Ash preparara para mim ao lado dele e ele mesmo dormindo, tranquilamente.
Parece que o jogo virou, hein? Ele sequer acordava e eu acelerado. Passando a mão pelo meu cabelo percebia que estava crescido, como meu corpo de hoje em dia, com 28 anos, porém o Ash que ali dormia era o mesmo de minha memória, de 18 anos, tão novinho e dessa vez descansando em paz como nunca conseguiu. Olhando assim é tão evidente o como o tempo passou e eu fiquei.
Mas ele estava descansando tão em paz... Deve ter sido assim que o encontraram na Biblioteca Nacional. Parecia um sono tão bom, então porque eu tinha medo de passar por aquele lugar? Ao mesmo tempo, ver ele descansando pacífico me dava uma tristeza, pensando que ele decidiu descansar na morte em vez de tentar seguir em frente. Por que ele quis seguir sem minha presença? Será que eu estou sendo egoísta em querer que ele simplesmente não descanse no céu? Por que só um pode descansar em paz? Não, eu quero tentar dormir plenamente como antes fazia mesmo no meio do caos. O caos agora está dentro de mim, mas continua sendo caos.
Acordei dentro do carro com os dois papéis em minha mão. Logo abri a porta e procurei um telefone público para ligar mesmo sem tomar café da manhã ou algo do tipo. Disquei o telefone e, de fato, existia linha. Realmente alguém existia nesse número, mas o que dizer?
— Alô? – Uma voz masculina atendeu o telefone.
— Ah... Tem alguém chamado Callenreese por aqui?
— Não temos não, é engano. – E logo o homem desligou o telefone.
E agora? Se não é um parente dos Callenreese, quem é? A mãe do Ash sumiu então provavelmente quem deveria ter ficado aqui na cidade são os parentes do pai. Será que é um contato da família da Jennifer? Ou será que a pessoa conhecia um Callenreese?
Pelo jeito ligar não vai solucionar meus problemas então decidi que iria mesmo invadir a casa do Jim e do Griffin no fundo atrás de pistas. Dessa vez peguei o carro e levei para um terreno baldio a fim de que o Howard não suspeitasse da minha ação. Havia uma cerca elétrica grande que fechava a casa e senti que, novamente, eu teria que saltar.
— Já faz quase dez anos que não salto, mas vamos lá. — Peguei uma das varas que segurava a cerca, como se amarradas em um nó, com todo o cuidado para não me machucar. – Só você, Ash, para me fazer pular de novo.
Corri com a vara e saltei um pouco mais desengonçado que antigamente e cai terrivelmente no meio do gramado do outro lado. Nossa, foi péssimo! Que bom que ninguém estava aqui para ver. 28 anos faz diferença quando você cai torto, mas me levantei um pouco dolorido e fui andando primeiramente a casa de Jim, para ver havia ainda algo por lá. Adentrando pela porta, só havia alguns móveis velhos e, infelizmente, gotas de sangue pelo chão e bancada. Graças a Deus os corpos foram retirados, mas olhar aquelas marcas me fizeram lembrar do que aconteceu como se fosse ontem. De fato, deve ter sido muito difícil para o Ash viver sabendo que o pai morreu numa briga dele. Ash sofreu muito e parece que cada dia isso se torna mais obvio para mim. Mesmo assim, tentei seguir por dentro do restaurante e percebi que no fundo havia dois quartos e banheiros, que poderiam ser para o Jim e a Jennifer e outro para hóspedes. Eu precisava investigar.
Abrindo as portas do cômodo de hóspedes realmente não havia nada. Só aranhas, poeira e mofo, mas isso eu já estava um pouco acostumado porque na época do Ash a gente tinha que dormir e se hospedar em qualquer canto para fugir da polícia. O problema era ratos, até hoje eu não gosto e espero não ver nenhum na casa. Dessa vez não vou ter ninguém para afastar o rato caso eu o veja. Difícil fazer essas aventuras sozinho!
Depois eu segui para o quarto do Jim e da Jennifer e ali sim, parecia que teria alguma coisa de útil pois ainda havia suas roupas, papéis e outros objetos pessoais. A princípio não achei nenhuma foto do Ash, apesar de encontrar algumas do Griffin. Eu devia ter imaginado isso, afinal o pai estava brigado com o Ash. Ainda investigando o território fui abrir uma gaveta e dei de cara com um rato em cima de um álbum escrito “filhos”. Me afastei para trás num impulso e fiquei uns 5 minutos sem saber o que fazer. O rato claramente tinha menos medo de mim do que eu dele.
— Ah não... De novo não. – Achei então uma régua que estava na cabeceira da cama e tentei o afastar com ela. – Sai, ratinho, por favor. Eu não queria te tirar do seu canto, mas você precisa sair daí.
Pelo menos o rato de fato fez um caminho estranho e foi embora, me deixando com um pequeno álbum a qual tentei pegar com muito cuidado.
— Se eu pegar leptospirose, a culpa vai ser tua, Ash.
Abri o álbum e para a minha infelicidade não havia nenhuma foto do Ash, somente do Griffin. Contudo, era estranho porque parecia que havia fotos lá e foram retiradas, afinal havia uma sombra, uma marcação em formato de fotografia. Será que em uma das crises, Jim guardou as fotos? Ou pior, será que ele teria cortado, queimado, as destruído? Mesmo procurando pelo resto do cômodo, não havia nenhuma foto, sequer um papel escrito o nome do Ash/Aslan por ali. Isso estava me deixando frustrado, como se eu fosse sair daquela cidade sem as fotos e sem poder fazer nada por essa casa.
Ainda olhando as gavetas, já decepcionado com minha busca, encontrei uma arma. Olhar para ela me trouxe novamente uma tristeza gigantesca. Jim foi morto por aquilo que ele acreditava que poderia proteger ele. Do que adiantou ter a arma em casa? Ele e a Jennifer morreram mesmo assim.
Acho que somente conseguirei achar fotos na casa do Griffin e do Ash de infância que, provavelmente estará mais acabada e cheia de ratos do que essa aqui. Por isso, fui andando até lá e vi que a porta estava aberta, com os copos e as coisas que tínhamos posto a época que ficamos ali. Nada mudou. Me lembro de dormir no chão com o Shorter e o Max, conversar até cansarmos e contar histórias de terror. Ah se nessa época eu já soubesse que o Ash tinha medo de abóbora... Eu com certeza teria contado uma história com abóboras para ele se assustar.
Mas... espere. Algo mudou sim. Não lembro de termos deixado gavetas abertas ou papéis sobre a mesa. Éramos bem bagunceiros, mas isso aqui está estranho. Procurei novamente por aquelas fotos que tínhamos visto quando viemos para Cape Cod e novamente: havia as fotos do Griffin, mas não havia as fotos do Ash. Olhando melhor, algo pior eu percebi: as cartas que o Griffin mandava ao Ash também não estavam lá. Nada que tinha o nome do Ash estava lá!
Isso me deixou apavorado. O Ash existiu, certo? A gente viu as fotos juntos, as cartas juntos. Será que alguém veio aqui depois do que tudo aconteceu? Não teria sido o pai, pois ele havia falecido. A prefeitura pegou as cartas e as fotos? Então por que não apreendeu a arma? Será que vieram os pedófilos do Papa Dino pegar foto dele de criança? Mas, e as cartas?
Comecei a chorar de pânico, pensando em todas as opções horríveis do que poderia ter acontecido com as memórias de infância do Ash e ao mesmo tempo me sentindo incapaz e solitário para lidar com tudo isso. Será que realmente só sobrou aquilo que eu fotografei? É tudo o que sobrou do Ash e de sua memória? Que crueldade!
Me deitei no chão, onde dormíamos todos juntos naqueles dias que não existem mais. Shorter, Ash... Será que tudo o que tenho é isso? Chorei e chorei até que adormeci.
さーよーなーら
— Ash, não é assim que escreve. Se escreve Sayounara, faltou o u na palavra. É como se prolongasse a palavra, ok?
Neste sonho eu estava sentado a mesa novamente com o Ash, ensinando japonês para quando ele fosse me visitar. Eu novamente apareço no sonho com meus 28 anos e ele, tão novinho, em seus 18.
— Prolongar a palavra? Tipo no inglês que tem Aaron, school etc?
— Isso! Exato. – Então eu escrevia no papel corretamente a palavra e percebia que minha camiseta estava sangrando, como se tivesse levado um tiro, mas eu não sentia nenhuma dor.
さーよーうーなーら
Ele também estava sangrando, abaixo do peito enquanto reescrevia a palavra com calma. Parecia ser onde Lao fez a facada, mas pelo jeito ele também não sentia nada. Éramos duas pessoas machucadas, mas aquilo não importava no momento. O que importava era nós, ali.
Acordei num susto e já era noite. Olhando meu relógio era já 20h, deixando o local bem mais escuro do que entrei. Fiquei ali sentado um pouco, pensando no que eu iria fazer. Não há fotos, não tenho parentesco para pedir na prefeitura acerca do local. O que eu faço? Tudo o que eu tinha agora era esse telefone, de A.Q. Não era parente dos Callenreese – ou até pode ser, mas não disse – então o que é? Ah! Talvez eles saibam o paradeiro das fotos do Ash. Se eles conheciam o Jim, provavelmente sabia da história do Aslan.
Sai da casa correndo, com um sentimento de despedida porque eu não saberia se voltaria para lá em algum momento. Eu só não queria ter mais uma coisa não resolvida dentro de mim. Por favor, que eles possam me dar alguma resposta! Perto da entrada do terreno havia um orelhão público e eu nem pensei duas vezes em ligar. Estava com fome, mas o que era A.Q. estava me consumindo profundamente.
— Alô? – Dessa vez quem atendeu foi uma mulher. Então havia pelo menos duas pessoas nesse número.
— Ah... Boa noite. Meu nome é Eiji Okumura, sou fotógrafo. Recebi esse telefone como contato do Howard porque talvez você tenha alguma informação sobre o Jim Callenreese e mais especificamente do seu filho Aslan Jade. Estou procurando umas fot- E a mulher desligou o telefone. Aquilo me deixou ainda mais certo de que ela sabia de alguma coisa. Preciso ligar novamente. Após poucas discagens, atenderam novamente.
— Boa noite. – Agora a voz era do homem que havia atendido o telefone na última vez.
— Tem alguma pessoa com nome A.Q. nesse número?
— O que você quer com minha mãe?
— Mãe? – Acabei pensando em voz alta. Droga! Ele vai perceber que eu não a conheço! Mas... Mãe? Será que é a mãe do Ash? Será que é uma tia e esse menino é um primo? O que está acontecendo?
— Sim, você não está procurando Abigail Quinn?
— Er... – Não sabia que estava procurando por ela, mas pelo jeito sim. Quem seria Abigail Quinn? Não são Callenreese. Eu preciso fingir normalidade. – Sim... Estávamos conversando e a ligação caiu... Bem, acho que era ela com quem eu estava conversando, já que nunca tinha ouvido sua voz, mas... Er...
— Está bem, vou passar para ela. – E ele apoiou o telefone em algum lugar. Não faço a menor ideia de quem sejam essas pessoas, mas pelo jeito é minha única opção para lidar com esse mistério. Enquanto esperava eu ouvia no fundo uma conversa dessa voz masculina com a voz feminina com quem eu conversei antes, que pelo jeito se chama Abigail.
“Mãe, é para você. É a pessoa com quem você estava conversando antes.” “Filho... Eu não sei se consigo atender... É sobre o Aslan.” “Mãe, pelo amor de Deus! Você comprou essa casa em Cape Cod para ter notícia do Aslan, mandou seu telefone para o Howard e agora não quer atender?”
A tensão me fazia suar frio. Então eu estava falando com a mãe do Ash que morava aqui em Cape Cod? Ela estava procurando o Ash? Ele tem um irmão? Será que ela pegou as fotos do Ash? Acabei nem reparando que ela atendeu o telefone, só consegui ouvir ela dizendo:
— Menino, me encontra na baia amanhã as 10h. – Depois, ela desligou o telefone.
O que foi tudo isso? Eu iria conhecer a mãe do Ash? O Howard sabia e não me disse? Eu fui caminhando bem lentamente processando cada uma dessas informações. Mãe. Irmão. Família. Cape Cod. Lembro-me dele contando de como era ser irmão mais novo na infância, de como o Griffin era o parceiro dele, já que a mãe o abandonou. Se ela morava por aqui, estava atrás dele, como o Ash nunca me falou? Por que o Ash nunca me falava as coisas que eram importantes? Será que eu sou tão impotente assim, mesmo tendo passado sete anos?
Achando meu carro me dirigi ao bar do Howard, não sabendo exatamente o porquê, mas era o único lugar que eu poderia ficar nesse momento. Chegando no comércio, assentei novamente nas cadeiras antigas ao lado de muitos homens desconhecidos, falando de assuntos diversos, de mulheres a venda de peças usadas. Eu só conseguia ficar com minhas ideias.
— Ei, moleque. Vai beber alguma coisa? – Quem havia me perguntado era o Howard, percebendo que eu não estava exatamente prestando atenção no bar.
— Acho que hoje eu quero uma cerveja.
— Conversou com a Abigail? – Ele entregou a tulipa de cerveja na minha frente.
— Por que você me mandou o telefone e só as iniciais? Por que não me disse que era a mãe do Ash? Eu não sabia nem como me referir a ela! – Sentia uma inquietação que vinha com uma tristeza, tudo isso ficava muito confuso dentro de mim.
— Porque eu não queria que você ligasse para ela. Mas, pelo jeito, você queria muito ter alguma informação então eu te mandei o telefone.
— Por quê? Por favor, me diga o que está acontecendo!
— Está bem... Era muito comum na década de 1960 virem Irlandeses para a região passarem as férias em Cape Cod. Aqui vieram morar muitos descendentes e acabou ficando famoso pelas suas praias, como uma cidade veraneia mesmo. Lembro bem que no verão de 1968 veio a família Quinn para cá passar as férias e todos da região ficaram estupefatos com esses estrangeiros, mas principalmente por Abigail. Ela, sem dúvida, é uma das mulheres mais bonitas que já conheci e quando nova, nossa! Era uma modelo. Ela tinha um cabelo loiro comprido, olhos verdes e aquilo chamou a atenção de muitos jovens aqui da região. Todo mundo queria conquistar Abigail Quinn. Mas não tinha jeito, o Jim era muito garanhão. A ex mulher, a Audrey, mal tinha se separado dele e ele já estava flertando com Abigail Quinn. Ele tinha essa criança pequena em casa, o Griffin, sofrendo o luto da mãe e o pai flertando por ai. A gente conhece como nós, homens, somos. Não perdemos rabo de raia. Não deu outra, Abigail engravidou. É claro que os Quinn não ficaram felizes com umas férias de verão que viraram uma maternidade. Ela se esforçou muito para ficar com o Aslan o máximo possível, mas a família foi toda voltando, sua relação com o Jim não deu certo, havia a esperança de um casamento com o antigo namorado irlandês e ela decidiu voltar. Só que nós nos tornamos amigos e ela deixou comigo o endereço e o telefone dela para que caso eu visse o Aslan, tivesse alguma notícia, eu enviasse para ela. Eu fazia isso até que ele matou o veterano e teve todo o escândalo do Barba Azul de Cape Cod... Ali não havia condição de contar essa história para a mãe.
— E o que aconteceu para ela voltar para Cape Cod? Ela sabia do Ash nesse tempo?
— Nada, não contava nada. A questão é que há sete anos o Jim foi morto e o Aslan apareceu. Aquilo me deu muito ódio. Jim tentou proteger a cidade contra um escândalo, fez de tudo para manter a paz e ele aparece com vários desconhecidos e não só matam a ele como também a Jennifer, mulher boa que conseguiu sossegar o Jim.
— Não foi isso que aconteceu! As pessoas fizeram isso com o pai do Ash e a Jennifer para o atacar. O Ash ficou muito ferido. – Imagina quanto tempo as pessoas culparam o Ash de matar o pai! Que difícil seria para ele viver com essa notícia. Ouvir tais palavras me machucava.
— Agora você me fala, mas não era isso que falávamos na época. Eu tive muito ódio e eu liguei para a Abigail. Contei de fato quem era o filho dela e o que tinha feito. Para minha surpresa, em vez dela realmente desistir do Aslan, ela saiu da Irlanda e comprou uma casa em Cape Cod, imaginando que um dia ela poderia achar o filho e fazer com que ele mudasse. Parece que ela tem culpa, sabe? Como ele tivesse ficado assim porque ela o abandonou. A questão é que, para ela vir até Cape Cod, ela abandonou dois filhos, um marido e toda uma vida. Já faz sete anos que ela vive assim, sozinha, esperando o Aslan aqui. Um deles já é adulto e de vez em quando vem aqui cuidar da mãe, a outra ficou na Irlanda e não fala mais com ela.
São dois? Então aquela voz do homem era esse filho que ainda a visita. O Ash tem mais dois irmãos e uma mãe que sempre quis ter ele de volta nos braços. Ah, se ele soubesse! Imagino como seria para ele cuidar de irmãos menores.
— Então ela está em Cape Cod esperando o Ash.
— Sim, há sete anos sendo engolida por esse desejo de reencontrar o filho. Eu acho complicado, mas eu também sou pai. Eu não sei o que aconteceria se eu soubesse de algo acerca do meu próprio filho. Então... Se ela quer saber, que ela sabia. Pelo menos isso dará o fim a dor dela.
Pelo menos isso dará o fim a dor dela. Contudo ela não sabe que o Ash morreu, não sabe nem de um terço de tudo o que ele passou. Será que isso dará um fim a dor dela? Ou melhor, será que esse terreno que estou me adentrando poderá dar um fim a minha dor? Após esta cerveja eu fui para o carro e tentei descansar para o que viria no dia seguinte.
— Sua irmã deve ser fofinha! – Ash sempre comentava isso quando eu falava sobre a minha família.
— Nada, ela é pentelha! – Falavamos muito pouco sobre a história de nossas famílias, pois tudo era muito pesado, difícil. Cuidar de um irmão que tão jovem não conseguia fazer as atividades básicas, ser expulso de casa pelo pai, não conhecer a mãe, enfim. Nada da real história do Ash era leve por si só. Tudo que se tornava agradável era quando podíamos sonhar, falar do futuro e de nossos desejos. Ali riamos e brincávamos um com o outro.
— Quando eu conhecer sua irmã, vou me juntar a ela para pentelhar você. Parceria de irmão mais novo para perturbar o mais velho.
Infelizmente ele não teve tempo de brincar tanto com o Griffin como seu irmão. Como seria se ele tivesse de cuidar de irmãos menores, se ele fosse criado na Irlanda? Pode ser que nunca o visse. Mas será que ele seria feliz? E se ele fosse, talvez eu sem querer acabasse sendo feliz também.
Na manhã seguinte eu acabei me adiantando demais. Havia marcado as 10h, mas as 9h eu já estava na baia com um café na mão olhando o movimento do mar, as garças no céu e os barulhos do cotidiano. Pessoas, ventos, sons de skates e de pessoas tocando instrumentos a beira mar. O dia estava aberto, bonito, amanhecido e pacífico. Estranhamente pacífico. Parece que tudo o que era doloroso e caótico estava dentro de mim e não nas circunstâncias mesmo. Um dos pontos embaraçados dentro de mim é como eu iria reagir quando visse a mãe do Ash e seu irmão. Será que eu vou reconhecer? Ela nem descreveu para mim como era, só tenho a informação do que o Howard – que provavelmente foi apaixonado pela Abigail – tem sobre ela.
E ela mesma não faz ideia de quem sou eu. Aliás, como eu vou me apresentar? Sou amigo do seu filho e por isso eu invadi a casa dele procurando fotos? Eu o conheci num dia que um bar foi assaltado e ele acabou sendo sequestrado junto comigo? Tivemos amigos em comum que morreram? Moramos juntos alguns meses porque nós estávamos sendo perseguidos por pedófilos e químicos malucos do governo que queriam dominar o mundo? Não havia como me preparar para o momento como este.
Olhando para os lados eu vejo ao largo duas pessoas também um pouco perdidas, como se procurassem alguém e, quando elas vão se aproximando é muito evidente que elas são parentes do Ash. A cada passo parece que meu coração trava, confuso, pois sei que o Ash morreu, mas estranhamente parece que algo dele está ali, naquelas pessoas. A mulher era uma senhora de seus cinquenta anos, com um cabelo bem loiro com pequenas mexas de fios brancos, que desciam até seus ombros, com eles, mesmíssimos, olhos verdes do Ash. A senhora era alta, porém muito magrinha e vestia um moletom, apesar do dia caloroso. Ao lado dela parecia um jovem um pouco mais novo do que eu, bem loiro, porém de olhos escuros, um pouco mais baixo do que o Ash, mas era muito parecido. Chegando cada vez mais perto, eu percebia que ele era o homem que eu confundi com o Ash há poucos meses. Então era óbvio! É porque ele é irmão do Ash.
Eles pareciam não prestar atenção, mas senti meu corpo indo em direção a eles, me aproximando e meio sem entender eu simplesmente abracei aquela mulher. Espontaneamente caíram algumas lágrimas, mas não era vontade de chorar. Parecia mais uma emoção acumulada que transbordava. E, por incrível que pareça, ela também não se afastou de mim.
— Ei, moleque, sai de cima da minha mãe. – O homem me afastou da mulher e a trouxe para trás. Pude olhar para os dois novamente e a cada vez que eu os via parece que meu tempo parava. Melhor, meu tempo passava por um looping que me trazia para o passado e o presente em um ciclo sem início ou fim.
— Você conhece meu filho, não? – Diferentemente do homem, ela me lembrava o Ash quando estava machucado: disposto a receber afeto, confiando em mim. Não sei porquê motivo, até hoje não sei, como foi que o Ash começou a ver em mim esse espaço de cuidado. Foi acontecendo ou talvez tudo que já havia acontecido já nos deixou muito abertos um ao outro. Parecia o mesmo com a Abigail. Apesar de ter sofrido tanto, queria ter alguém para abrir o coração. – Por favor, me fale tudo o que sabe sobre meu filho.
Acenei positivamente com a cabeça e sentamos juntos em um banco, de frente para o mar. O meio-irmão do Ash não falava absolutamente nada. Ficava quieto, ao lado da mãe, como um guardião disposto a proteger caso fosse falado algo que a afetasse demais. Enquanto isso eu falava sobre o Ash, mais especificamente, sobre o Ash que eu conheci. Um Ash que teve um passado difícil, mas que era uma pessoa doce, determinada, sagaz, inteligente, bela e carinhosa com as pessoas ao seu redor. Alguém que cuidou do irmão e dos amigos, que fazia tudo para sobreviver e proteger os seus. Não falei de Banana Fish, não falei de Papa Dino, nem das violências e das mortes que ocorreram em suas mãos. Falei sobre seu medo de abóbora, seu gosto de mostarda, sua paixão por leitura e seu mal-humor matinal. Eu sei que essa não é toda a história do Ash, mas é a história que importava. Sinto, claramente, que Abigail sabia que eu não estava contando tudo o que seu filho passou, mas ela percebia que as informações que eu omitia tinha um motivo para o ser. Já conhecíamos dor suficiente do Ash para ainda avançar olhando para esses machucados. A única coisa que eu não consegui falar para ela...
— Onde ele está morando? Como eu faço para o visitar? Eu sempre achei que em algum momento ele fosse visitar aqui Cape Cod ou quisesse ficar com a casa do pai. Acho que me iludi, ne? Quem que mora em Nova Iorque iria querer morar aqui? Ele veio com você?
Como se fala para uma mãe que seu filho morreu? Esse é um fardo grande demais, será que eu sou capaz de aguentar? Eu me lembro de quando o Sing me contou sobre a morte do Ash... Eu perdi meu chão, não havia mais sentido para nada. Eu não podia voltar para o Japão e fingir que nada aconteceu. Aquilo foi – e talvez ainda seja – o grande divisor de águas na minha vida. Como serei eu a pessoa que digo para alguém que o amor da sua vida morreu? Mas, ao mesmo tempo, o fato de ter passado por tanta morte, por tantas perdas me faz pensar que sim, talvez seja eu a pessoa que deva contar isso para ela. Perder o Skipper, o Shorter e, principalmente, perder o Ash me traz a luz do que eu precise fazer.
— Eu posso te mostrar, mas ele não está aqui na cidade. Está disposta a fazer uma viagem?
Ela sorriu e olhou para o meio irmão do Ash que estava ao lado.
— Eu não vou deixar você ir sozinha com um homem que acabou de conhecer. Se você for, eu vou contigo.
— Então nós vamos! – Ela respondeu e começamos ali uma das viagens mais improváveis que eu jamais imaginei.
Fui de carro até a casa de Abigail e ela subiu correndo para dentro de casa, dizendo que estava cheia de coisas para levar pro Ash, separando roupas etc. O meio irmão, todavia, ficava na porta do carro a esperando, como se não fosse levar nada em especial.
— Eu ainda não sei seu nome. – Perguntei para ver se quebrava um pouco do gelo que estava desde a primeira vez que nos vimos.
— Aaron.
— Aaron Onix! – Abigail gritava de dentro da casa. – Meus três filhos têm nomes parecidos: Aslan Jade, Aaron Onix e a Anne Emerald. Você vai amar conhecer a Anne também, vou levar algumas fotos. Vi que você é fotógrafo, não? — Ela estava eufórica, não conseguia parar de falar do como ela planejou esse dia e como esperava fazer um almoço com Apple Pie para os três filhos, como uma família tradicional. – Olha aqui: Eu e os meus dois caçulas. O Aaron tinha 10 e a Anne tinha 2. Hoje ele tem 23 e ela tem 15...
— Ela não lembra muito da minha mãe antes dela vir para cá. – Aaron a cortou enquanto falava. A foto apresentava uma criança muito pequeninha, também de olho verde e com cabelo castanho, mas ainda muito carequinha. O Aaron parecia uma criança normal, com um dente a menos, agarrada na perna da mãe. De fato, se Abigail voltou para Cape Cod há sete anos, Anne tinha oito. Tão jovem quanto o Ash quando saiu de casa e foi parar no Papa Dino. Hoje ela é uma adolescente que também deve se sentir abandonada, confusa com a decisão da mãe.
— Mas logo estarei com ela! Agora com o Aslan, podemos ser uma família completa. Agora, pé na estrada! – Ela se sentou no banco de trás junto com um monte de sacolas enquanto Aaron ficava na frente. Novamente, ele em silêncio. – Agora me fale, você falou que veio até Cape Cod tirar fotos e ver a casa dos Callenreese?
— Er... – Eu tinha que sempre ser um pouco mais criativo que o normal para essas situações. – O Ash não pode vir então acabei fazendo esse trabalho para ele.
— Ele deve então realmente confiar muito em você. – Com ênfase no muito, que ela falou sorrindo enquanto olhava pela janela. – Onde vocês se conheceram? Você não parece americano.
— Não, não! Eu sou japonês. Vim há sete anos para cá e o conheci enquanto ajudava um conhecido em uma reportagem. Estava aprendendo sobre fotografia... Depois eu só fui mais uma vez para o Japão e não voltei mais.
— Sete anos... Parece que há sete anos algo mudou nas nossas vidas, não é? Eu tentei tanto recuperar os anos que estive longe do Aslan. Eu pedi até para o Aaron entrar na casa dos Callenreese e pegar tudo o que tinha o nome dele para termos pistas. Tadinho! Ele vem aqui passar as férias e a mãe maluca pede esse tipo de coisa. Sete anos morando nos Estados Unidos, mudando meus hábitos, vivendo ao redor do desejo de rever o Aslan...
De um modo diferente, nós dois estávamos vivendo o mesmo ciclo. Ir e voltar nas memórias, seguir em frente e se prender cada dia mais. Tentar não olhar para trás, mas não conseguir deixar de imaginar como tudo poderia ter sido diferente.
— Preciso ir no banheiro, podemos parar em algum restaurante para isso? Deve ser nervosismo! – Abigail estava realmente agitada por todo o percurso. Cantarolava, falava sobre as memórias de bebê do Ash, do Aaron e da Anne, comentava sobre a comida norte-americana e depois voltava a cantarolar. Ash com certeza perderia a paciência com ela.
— Está bem, estamos perto de um. – Estacionei então na primeira lanchonete que vi e sai do carro a fim de me esticar um pouco. A viagem não é longa, mas ela estava sendo particularmente intensa. Aaron não saia do carro e eu já tinha visto que ele não estava muito confortável com toda essa história. A Abigail pediu para ele invadir a casa dos Callenreese e pegar as fotos que eu estava procurando. Isso era engraçado, estranho e reconfortante em saber que as fotos do Ash não estavam nas mãos de algum pedófilo ou de um inimigo. Estavam nas mãos do irmão dele. – Aaron, você não quer-
— Eu sei que o Aslan morreu. – Ele soltou essa frase sem mais nem menos. Aquilo me deixou sem chão. – A minha mãe também sabe ou, melhor, eu tentei falar com ela. Ele era um sujeito estranho, eu achei duas certidões de óbito, uma com o nome de Aslan Jade Callenreese e outra com o nome de Aslan Jade Goldzine, duas no mesmo ano, há sete anos. Callenreese era o Jim e o Griffin, mas Goldzine... Pelo jeito, o homem era de máfia, sabe? Isso faz muito sentido com o assassinato que teve do Jim lá em Cape Cod. Umas pessoas estranhas, de fora, brigando entre si dentro de uma hospedagem no interior? Na ficha dele aparece prisão, tentativa de homicídio, agressão, um monte de coisa. Menos de um ano o tal de Ash Linx aparece morto. Eu pesquisei de tudo para que minha mãe saísse dessa paranoia, voltasse para a Irlanda. Mostrei as reportagens, as certidões, tudo. Ela não consegue acreditar. E agora aparece você... Dizendo que vai a levar até o Aslan... Um asiático, que nem no dia do assassinato do Jim... Não sei o que esse Aslan está aprontando ainda, se estava fingindo que estava morto e agora querem o ameaçar comigo e minha mãe. Mas se você tentar pôr as mãos na minha mãe, eu te mato.
Ouvir essas palavras me fizeram respirar fundo e refletir do porquê eu estava fazendo isso. Ash... Sua mãe já confia em mim, como eu faço agora para seu irmão também confiar?
— Sim, o Ash morreu. Toda essa história de máfia, todas essas dores, tudo foi embora com ele quando se foi. – Voltei para dentro do carro, ficando ao lado do Aaron. – Não há mais ninguém atrás dele. Ele morreu, pacificamente, dentro de uma biblioteca lendo uma carta que eu escrevi... Me falaram até que ele estava sorrindo quando morreu. Sabe, tem dias que gostaria muitíssimo que ele estivesse vivo, mas ele viveu intensamente. Isso me traz paz, mesmo quando meu coração doi. Eu não contei para sua mãe, mas eu amava muito o Ash e prometi que estaria ao lado dele para sempre. É uma dor de saudade que eu não sei explicar, mas não há mais esse medo. Sempre que conversávamos eu dizia que ele devia ir para o Japão, pois lá não é legalizado o porte de armas. Não que ele usasse armas legalizadas, mas, enfim. Eu sei pelo menos que hoje, nesse exato momento em que estamos conversando, Ash não está envolvido nenhuma violência, nenhuma arma, nenhum choro.
— Eu imaginei que fosse isso... – Uma voz feminina me respondeu. Abigail tinha entrado no carro e eu sequer havia percebido. Minhas mãos gelaram e minhas palavras se foram totalmente. Ela apoiava a cabeça sobre o banco como se não quisesse que víssemos o seu rosto. Sua voz estava tremula como se estivesse chorando. – Como sou idiota em ter realmente crido que o Aslan estava vivo!
— Não! Eu que não tinha conseguido contar para vocês. – Novamente eu atrapalhando mais do que ajudando os negócios do Ash. Que saco! Queria tanto não sentir mais nenhuma culpa e agora estou com a mãe do Ash chorando no banco de trás. Aaron estava de cabeça baixa, trazendo um olhar triste porém incapaz de chorar.
— Eiji... – Estranho ouvir meu nome vindo de uma voz masculina tão parecida com o do Ash. – Você estava nos levando ao cemitério para o ver, então?
— Sim e não. – Respondi enquanto tentava recuperar o ar de todo aquele sofrimento que estava no carro. – Tenho muita coisa do Ash para mostrar para vocês... Coisas que dizem mais do Ash do que um túmulo. Porém... Eu também nunca fui ao túmulo do Ash, nem voltei a Biblioteca Pública desde que tudo aconteceu. Achei que poderíamos ir juntos também... Se não quiserem agora, vou entender.
— Não, eu quero. – Abigail levantou o rosto inchado e botou a mão sobre o ombro do Aaron. Ali o filho não iria negar nada a sua mãe. Apenas acenou positivamente com a cabeça e voltamos para a estrada.
— Você nos trouxe para sua casa? – Aaron percebeu que estávamos numa rua residencial, longe de qualquer cemitério ou mesmo da Biblioteca Pública. Estacionei o carro e abri a mala para tirar principalmente as centenas de sacolas que a Abigail havia posto para levar de viagem.
— Sim, gostaria de mostrar algumas coisas do Ash e descansarmos antes de continuarmos. – Assim abri a porta de casa e logo o Buddy veio para cima de mim, me lambendo todo feliz. – Buddy! Que saudade! Me deixe apresentar as visitas...
— Quem são eles? – Sing tinha ido atrás do Buddy porque meu cão estava tão animado que estava querendo simplesmente sair por aí correndo. Se o Sing tivesse visto por mais de um segundo o rosto deles, provavelmente imaginariam quem eram.
— É a mãe e o irmão do Ash.
— Hã?? – Sing já estava agarrado no chão com o Buddy o segurando, pois como era um cachorro grande era difícil de controlar. Mas naquele momento ele prestou a atenção nos rostos, com os olhos arregalados e travados sem fazer ideia de como reagir.
— Então você também conheceu o Aslan... – Disse Abigail. – Com certeza vou querer ouvir as suas histórias!
Enquanto isso Aaron simplesmente entrava com as sacolas e deixava a beira do sofá e Abigail olhava para todos os lados, analisando as fotos, comidas e o formato daquela casa. Buddy já estava calmo, vendo que eu havia voltado para casa, mas o Sing estava visivelmente transtornado.
— Eiji, o que você está fazendo? – Se levantou de perto do cão e começou a me sacudir. – Onde isso vai parar? Pensei que você ia simplesmente tirar umas fotos e ficar com suas memórias, mas o que está acontecendo? Você quer viver fazer o Ash estar vivo a que custo?
— Sing... Obrigado por se preocupar comigo. – O abracei por meio de suas sacudidas para que ele percebesse que eu estava em paz. Os seus músculos, que estavam tensos, foram relaxando enquanto eu o mantinha ali por perto. – Acho que dessa vez vou finalmente poder seguir feliz e pleno após a morte do Ash. Deixe como está.
O separei dele e olhei em seus olhos com a convicção daquilo que estava dizendo. Sing entendeu e foi um pouco contrariado até a cozinha preparar um chá. Nesse tempo eu peguei minha caixa de fotos – aquelas que eu não via a tanto tempo – e as revi ao lado deles. Uma a uma, mostrando como era o Ash nos seus últimos dias. Pedi ao Sing que deixassem que vissem o computador e ele não o negou.
— Nossa, como ele era inteligente. Tem várias coisas de geopolítica, química etc. Ele tinha uns interesses estranhos para um homem que se metia em encrenca. – Sentia que o Aaron foi se abrindo ao ver o nosso olhar sobre o Ash. Nesse momento, meu trabalho como fotógrafo é muito grato, pois as pessoas só conhecem aquilo que você tira foto pelo seu olhar. É uma honra poder passar um pouco como eu te via, Ash, para pessoas que te amam tanto quanto eu. Deixei Aaron e Abigail dormirem no meu quarto e fui para o do Sing, pondo um colchonete no chão como nos velhos tempos.
— Que história louca... – Sing não parecia conseguir dormir de jeito nenhum. Estava impaciente, perguntando tudo o que havia acontecido nessa viagem. – Esse Aaron não é o homem que você confundiu com o Ash naquela viagem para Cape Cod que fizemos?
— Sim. Ele mesmo. Não quis dizer nada sobre isso porque ele não parece muito confortável com a ideia de ser parecido com o Ash. Sinto que ele me reconheceu também, lembrou daquele dia. – Apesar de empolgado, estava cansado pois o excesso de emoções tinha consumido meus últimos dias. Além disso, dormir no carro era bastante desgastante.
— O que você pretende fazer com esses dois daqui para frente? Eles vão se mudar para cá?
— Eu quero levá-los para ver a foto que eu pus em exposição e depois... Eu quero poder os levar a biblioteca e ao cemitério. Não sei se eles vão querer tão logo, mas já demonstraram o interesse.
— Eu levo vocês.
— Não, Sing. Você ainda não entendeu? – Mesmo deitado me remexi todo por causa desse protecionismo que naturalmente o Sing tem por mim. – Eu preciso fazer isso sozinho, você já está cuidando de mim há muito tempo. Você também precisa confiar em mim. O Ibe me superprotegia, o Ash e agora você, Sing. Sou tão frágil assim?
— Não... Mas você mesmo me disse que ficamos muito tempo guardando essas coisas do Ash sem falarmos um para com o outro. Você sabia da carta, sentia culpa e não me falava. Eu culpava o Lao e a mim mesmo... Talvez seja corajoso para a gente agora é podermos falar sobre isso e resolvermos. Você está parecendo o Ash tentando segurar o mundo nas costas.
— Hum... – Ri comigo mesmo. – Eu prometo parar de parecer o Ash se você também parar de o imitar.
— Yut-Lung falou a mesma coisa para mim, acredita? É, parece que nós dois precisamos sair da sombra do Ash ainda... Ah, melhor a gente ir dormir. – Sing fazia isso quando sentia que estava perdendo a discussão. Achava engraçado como, apesar de 23 anos e um homem de negócios, Sing ainda me lembrava quando tinha 16 anos, teimoso e fiel.
— Então vamos amanhã sair com eles como Sing e Eiji, não como Ash e Ash, ok? – Tentei fechar o diálogo com uma resposta não só para amanhã, mas com um trato para a vida.
— Ok.
Que engraçado, neste sonho o Ash estava vestido com a roupa do Sing de adolescência! A calça não fechada direito, o casaco azul parecia ir até o final do braço e a regata deixava o umbigo de fora. Eu estava rindo no sofá vendo aquela situação enquanto ele se observava no espelho.
— Do que você está rindo? Preciso me disfarçar, parecer mais novo... E ainda fala de mim, olha você!
Quando eu percebia estava com uma blusa social branca, como do Ash antigamente, meio aberta também não muito grande. Meu corpo era como de hoje, com 28 anos e aquelas roupas claramente era de um jovem de 19. Mesmo sendo o jovem alto, eu também parecia ridículo com aquela calça jeans colada e rasgada e um all-star vermelho. Será que o Ash era tão pequenininho se comparasse comigo hoje? Não que eu tenha crescido muito, mas... Ele de fato não tinha o corpo de um adulto de 20 e poucos anos. Aquilo não cabia, não fazia sentido de ser.
A manhã acordou bonita novamente e acordei cedo para preparar o café para todos. Aaron já tinha acordado e parecia estar na sala olhando para as fotos, dentre elas as últimas de Cape Cod feitas há meses.
— Você se lembrou de mim, não? – Disse para ele enquanto ia até a cozinha pegar o café em pó para coar.
— Sim. Lembrei na hora. Ninguém nunca me confundiu com alguém na rua e como eu já tinha visto fotos de meu irmão, pensei que você o conhecesse.
— Então porque não me parou e pediu para que eu falasse sobre o Ash? – O cheiro de café crescia sobre a cozinha e peguei duas xícaras como eu fazia quando o Ash esteve comigo. – Servido?
— Obrigado. Acho que no fundo eu só queria que o Aslan fosse um cara normal, que viveu com o pai até uma idade, havia casado e estava por aí com sua família. Minha mãe, eu e minha irmã iriamos visitar como qualquer família de pais separados. Mas, sei lá... apareceu esse buraco sem fundo. – Ele dava goles e olhava para dentro da xícara. – É como se eu bebesse, bebesse desse café e nunca se acabasse.
— É, o Ash era assim. Ainda hoje me surpreende. Gostaria também que eu faça um sanduiche, um natto para você? O Ash não gostava muito, mas vai que você gosta de comida japonesa. – E me levantei novamente, sem ter tocado mesmo no café, para preparar minha especialidade na cozinha.
— Me diz a verdade. Você era namorado do Aslan, não? Amigos não guardam fotos assim, vão atrás da vida da pessoa anos depois, tem foto em exposição da pessoa. Eu tinha lido algumas coisas sobre ele ser garoto de programa e tal, mas... Ele ter sido gay? É cada uma que aparece sobre ele.
— É complicado afirmar isso. – Fiquei rindo comigo mesmo porque anos se passaram e eu não também não saberia explicar totalmente. – Nós nos amávamos, estávamos sempre juntos, mas não tínhamos um nome. Às vezes me chamava de irmão, de Eiji, de amigo, de velho, de pentelho... E ele já teve namoradas, sabe? Hoje talvez poderíamos dizer que ele era bissexual, mas não usávamos nenhum termo na época.
— E seu atual namorado não se incomoda? – Aaron apontou para o quarto do Sing, onde eu estava.
— Atual namorado? Você está falando do Sing? – Eu fiquei rindo pensando em como realmente é difícil explicar o que mantém as relações das pessoas pós-banana fish. O que vivemos foi como quem foi para a guerra. Há um laço estranho que nos unem, memórias, experiências, sonhos e, claro, parte de laço se chama Ash. – Não... Uma das coisas que me conecta a ele é o seu irmão. Desde que o Ash se foi, Sing sente uma dor enorme, muito específica dele e acha que pode compensar enquanto cuidar de mim. Ele precisa tanto resolver essa morte quanto eu. De modo diferente, mas ele também está preso ao passado.
— Ash... – Pela primeira vez Aaron usou o apelido que usávamos para o irmão. – Apesar de tudo, eu agradeço por vocês estarem me contando a história dele. Acho que vivi um bom tempo tentando fazer com que minha mãe o esquecesse, seguisse em frente, como se ela estivesse enlouquecendo. Eu tinha ciúme mesmo de como ela vivia falando dele. Mas hoje eu meio que entendo. Parece que ela sabia, de algum modo, que ele era uma pessoa boa e queria ir até o fim para confirmar isso que ela sentia. Eu achava que era apenas desilusão dela, mas deve ser algum instinto materno. Ela conhecia esse Ash que vocês falam sem nem ao menos conhecer. Quem de fato só está o conhecendo agora sou eu, que sempre achei que soubesse sobre ele por ter pesquisado bastante em jornais, documentos etc. Faz algum sentido o que estou dizendo?
— Sim. Não te julgo, é uma pessoa enigmática mesmo. – Enquanto eu estava na cozinha eu percebia que Aaron tomava seu café e chegava ao final da xícara. Ele olhava para o fundo e parecia encontrar o fim daquele looping que sentia. – Quer experimentar natto?
— Eu quero! Nunca comi essas coisas japonesas! – Quem havia respondido era a Abigail, que saiu do quarto já arrumada, preparada com duas bolsas e reluzente logo pela manhã. Ela não estava mais com um moletom, mas com um vestido meio longo florido de girassóis que fazia parecer uma outra pessoa. Ela se sentou ao lado do Aaron como se esperasse que eu colocasse a mesa o natto. Foi o que eu fiz: separei uma porção para cada um e os deixei experimentar. Mas minha cabeça estava longe, pensando no porquê do Sing não ter aparecido ainda na sala. Normalmente ele acordava cedo e isso me deixou preocupado.
— Vocês podem experimentar. Deixe-me só ver como o Sing está e depois vocês me dizem o que acharam! – Ali os deixei tomando café e fui até o quarto. Sing estava pronto, mas sentado na cama, quieto. – Você lida com assuntos muito mais complexos do que esses nos trabalhos que o Yut-Lung te mete.
— Mais complexo do que levar uma mãe para ver o seu filho no cemitério? Fingir tranquilidade depois do que o Lao fez? – Ele continuava ali sentado e fui ao lado dele como eu fazia quando o Ash precisava desabafar. Sing estava tenso, porém não de tristeza, mas um senso de responsabilidade novamente pairava sobre a sua cabeça.
— Assim como você não é o Ash, também você não é Lao. – Respondi olhando bem para ele. – Já carregamos fardo demais como Eiji e como Sing. Não precisamos ainda incluir os do que nem estão mais aqui. Vamos, preparei natto. Sei que você gosta.
Nos levantamos e fomos juntos até a sala aonde Aaron e Abigail pareciam ter comido um pouquinho do natto, mas não gostaram muito não. Eles comentavam entre si baixinho como se disfarçassem suas opiniões sobre a camida. Melhor, havia mais para o Sing que gostava muito e para mim.
— Diferente, né? Tem um cheiro peculiar. – Abigail comentava enquanto eu e Sing nos esbanjávamos em nossos pratos. Eu ri comigo mesmo em minhas memórias e pensei o como eles sequer imaginavam de como nesse ponto estavam se parecendo com o Ash.
— Verdade, não é qualquer um que gosta. – Olhei para o Aaron enquanto pronunciava essas palavras e sinto que ele logo entendeu, abrindo um sorriso leve. Pode ser que nessas pequenas coisas eles se sintam em família.
Ainda estava cedo, mas queria mostrar a exposição antes que abrisse o espaço ao público. Tinha a chave do local e liguei as luzes enquanto os deixava adentrar. Aaron olhava para cada uma das imagens, mas Abigail saiu correndo buscando logo a foto do Ash. Não era difícil de achar: a última. Ficava em um lugar especial, iluminado e embaixo havia a legenda de sua foto.
— Amanhecer. É o significado de seu nome. – Abigail estava petrificada em frente a foto, a observando. – Posso tocar?
— Sim, claro. – Respondi e logo atrás de mim, Aaron se desprendeu o olhar das outras imagens e foi até o rosto do irmão. Os dois ficaram um ao lado do outro em silêncio. Sing estava um pouco atrás, como se não quisesse aproximar, mas vendo a fascinação dos dois, veio mais para perto. Diferentemente do que imaginei, Sing demonstrava uma satisfação de ver os dois absorto pela fotografia em vez de se deixar consumir pelos sentimentos. O fato de o ver assim também me ajudou a curtir e agradecer internamente a qualquer um dos mil deuses pelo dom da fotografia e pela coragem que acabei conseguindo ter de por essa imagem em exposição.
— Eiji... – A mãe apontou para mim e a minha câmera. – Você pode tirar uma foto nossa com o Aslan? Eu trouxe também uma foto da minha menina. Assim pelo menos posso ter uma imagem dos meus três filhos juntos!
— Será um prazer. – E ali posicionei a câmera para os dois. Abigail com um rosto disposto a lacrimejar, Aaron segurando uma alegria dentro de si, uma menina bem pequena na foto e o Ash sereno, pela janela, nem imaginando que a vida estava amanhecendo para sua própria família. Fiquei ansioso para revelar essa foto e talvez pela primeira vez eu desejei que uma imagem do Ash não ficasse comigo, mas fosse para eles.
Ela pediu para que pudesse ficar mais algum tempo de frente a fotografia. Não desejava ir ao banheiro, beber água ou se sentar. Só quis ficar ali. Aaron se assentou e eu junto com Sing ocupamos o resto do banco. Todo meu trabalho como fotógrafo havia valido a pena só por aquele momento.
— Você acha que depois dessa foto ela ainda vai querer ir ao cemitério? – Perguntou Sing para mim, porém Aaron estava ao meu lado e ouviu também.
— Sim, na verdade ela já tem uma programação fixa na cabeça dela. – Aaron permanecia variando seu olhar para a mãe e para o irmão, mesmo respondendo ao Sing. – Ela quer ir ao cemitério, partir para a Biblioteca Nacional, comer um cachorro-quente, descansar e amanhã nós temos um vôo para a Irlanda as 11h.
— Já? Vocês chegaram ontem! – Sing se posicionou porque eu mesmo não tinha palavras para lidar com essa informação. Era tudo muito rápido! Como é que se lida com tudo isso ao mesmo tempo?
— Vocês têm uma casa em Cape Cod... Então devem voltar, não? – Dessa vez fui eu que mostrei minha indignação. – Agora que vocês puderam realmente conhecer o Ash e já vão?
— A noite a gente conversa sobre tudo isso. Ainda temos muito o que fazer hoje. – O irmão do Ash se levantou do banco e foi até a mãe como se a tirasse do estado de transe. Será que ele que não queria mais saber do Ash? Por isso precisávamos correr e fazer tudo em um dia? Não importava o motivo, ela mesma demostrou depois:
— Vamos ao cemitério?
Como nunca havia ido até o local, Sing dirigiu o carro que nos conduzia até o cemitério. Abigail queria passar numa floricultura para deixar uma homenagem então fomos antes de adentrarmos em direção ao túmulo do Ash. Ela escolheu girassóis, como aqueles que estavam em seu vestido. Uma escolha alegre e radiante e colocou nas flores um papel, com um recado que ela pediu para que ninguém lesse. Era a mensagem dela para o filho. E se eu tivesse a oportunidade de falar alguma coisa para o Ash ainda hoje? O que eu escreveria? A última vez que pude escrever para ele... Bem, levou até onde ele está. Comprei um arranjo de rosas e pus um pequeno recado:
“Ash Linx, um verdadeiro leopardo no Kilimanjaro. Você escolheu seu destino. Saudades eternas. さようなら.”
Sing então nos conduziu onde ele estava enterrado e, diferente do tempo em que tivemos na exposição, ficamos poucos minutos. A sensação era que o Ash no túmulo, era apenas um memorial. Deixamos as flores e rezei para que o Ash estivesse bem aonde fosse. Fiquei bem menos afetado do que imaginei. Ver uma foto do Ash evocava sua presença, aqueles momentos bons que tínhamos juntos, mas o túmulo só trazia a morte, algo estático que não tinha muita solução. Prefiro ficar com a foto. A memória é mais forte do que a morte.
Entardecia e estacionávamos o carro perto da Biblioteca Pública. Diferentemente do espaço do cemitério, a Biblioteca era carregada de memórias, de risos, de brigas, de encontros e desencontros. Ali verdadeiramente minha mão suava fria e me sentia confrontado. Não era uma foto que eu mesmo havia tirado, nem um túmulo que não segura uma memória. Era tudo, desde o cheiro dos livros até as cadeiras em que sentávamos juntos para estudar.
— Não sei se o Aaron falou para vocês, mas quando voltei para a Irlanda, comecei a dar aula de literatura. Fiquei como professora até sete anos atrás. E provavelmente o Aaron também não falou que ele é formado em literatura inglesa.
— Não falou mesmo. – Comentei. Eu fiquei perplexo como mesmo distante do Ash, eles também tinham o apreço pela literatura, já o Sing ficava impaciente porque a Abigail gostava muito de falar. Ao subir as escadas da biblioteca me lembrava das vezes que o encontrava e era peculiar trazer tudo isso à tona agora. Sentia como se fosse ontem, mas que também fosse há muito tempo. Eu tentava olhar sempre para o Sing, pois mesmo tendo o irmão morto por aqui e o amigo dentro ele permanecia sério, observando meus passos e dos dois.
A parte interna é lindíssima e as memórias ficavam cada vez mais vívidas. Ela ali, logo ali, que diziam ter encontrado o Ash, exatamente onde eu me sentava ao ficar ao lado dele. Deitou-se, sorriu e se deixou ir. Que coisa boa, ele se foi em um lugar que amava e estava feliz. Que sentimento difícil.
— Bibliotecas são lindas! – Abigail olhava para o teto pintado como se fosse céus abertos, reluzentes em seus olhos verdes e no cabelo loiro com mexas brancas. – Eu fico feliz que meu filho Aslan também amava esse lugar. Pena não poder pegar um livro emprestado, já que vamos amanhã...
— Por que vocês vão amanhã? – Perguntei e logo várias pessoas que estavam ali estudando chiaram, avisando que não deveríamos estar conversando. Indo para a área externa, perto da porta, ela decidiu falar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Meninos, eu não tenho como agradecer o que vocês têm feito por mim e minha família. Esse talvez seja um dos dias mais felizes da minha vida, apesar de ver o túmulo de meu filho. Isso tudo me fez pensar o quanto eu queria, a todo custo, não precisar ver o Aslan nessa situação. Eu queria o ver vivo. Tenho dois outros filhos que amo tanto quanto o Aslan e que estão vivos, mas não sabemos o dia de amanhã. Do que adianta eu ficar com as memórias dele aqui e voltar para ver uma foto da Anne? Vocês tiveram o prazer de o ver vivo e eu tenho o prazer de poder ver meus dois outros filhos hoje, vivos. Eu sei que é isso o que preciso fazer, principalmente ver a Anne que eu deixei para estar ao lado de um filho que não está mais aqui. Cada segundo só tenho mais certeza que devo estar ao lado dos meus filhos vivos, como prova de como queria amar o Aslan. Eu sei do que eu quero agora, só desejo saber também o que o Aaron está pensando...
Aaron de fato permanecia mudo, apenas acenando com a cabeça. Ele me lembrava de quando o Ash entrava em seus processos de elaboração de grandes ideias. Às vezes demorava segundos ou dias, mas sempre valia a pena. Contudo, não sabíamos o que se passava pela mente dele.
— Vamos comer o cachorro-quente? Daqui a pouco a biblioteca vai fechar. – Ele disse sem responder o questionamento da mãe. Acabei indo até a lanchonete que normalmente eu comprava para mim e o Ash. Fiz o modelo exato de como o Ash gostava de comer para o irmão e a mãe, enquanto para mim e o Sing fiz o modelo com menos mostarda. Sentamos nas escadas da biblioteca e reconstruímos uma memória que eu tinha daquele lugar. – Eiji...
Era a voz do Aaron que ecoava às vezes tão parecida com a do Ash. Levava alguns sustos, mas logo percebia quem falava.
— Sim?
— Por que o Ash é o verdadeiro leopardo do Kilimanjaro?
— Você repara bastante nas coisas. – Eu disse por que não havia mostrado para ninguém o recado que havia posto dentre as rosas. Que bom que não pus nada extremamente pessoal. – O Ash falava muito nesse conto de um leopardo que foi encontrado no topo da montanha, a qual para ele não escolheu seu destino. Era comum o Ash se comparar a ele, dizendo que havia coisas aos quais não podia mudar. Na época eu dizia que não era verdade, que ele não era um leopardo e por isso havia a potência de ter uma vida diferente. Hoje eu... Acho que eu estava parcialmente certo. Acredito sim que podemos mudar o destino das coisas, mas eu hoje vejo que o leopardo fez sua escolha, dentro do possível. Talvez eu não quisesse entender que a morte poderia ser uma escolha.
— Como no conto de Hemingway, não? “O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.”
— Ash sempre lembrava desse trecho. – Sorri e percebi que todos já haviam terminado o cachorro-quente, observando a nossa conversa.
— É... O que o leopardo procurava? – Aaron se perguntava como se não fizesse questão de que os outros ouvissem a sua indagação. Era algo que precisava resolver consigo mesmo.
À noite voltamos para minha casa e eu estava exausto, pensativo de tudo o que passamos.
— Como você está, Eiji? – Sing me perguntou enquanto eu tirava os sapatos para entrar em casa.
— Me sinto livre. E você? – Essa era a palavra que resumia todo aquele emaranhado de ideias que pairavam pela minha cabeça.
— Livre... Ainda não sei, mas acho que essa é uma palavra boa. -Ele foi direto para o banho como se precisasse de um tempo só para sintetizar. Aaron e Abigail se sentaram no sofá, mas eu só tinha em mente que deveria revelar as fotos o quanto antes para a viagem dos dois amanhã. Nem troquei de roupa e fui a câmara trabalhar com o material que tinha levantado do dia. Muitas fotos e pessoas que precisavam muito delas. Minha correria com as fotos me fez não perguntar se eles queriam uma água, um chá ou café. Sou um péssimo anfitrião! Enquanto eu trabalhava, eu vi o Aaron se aproximar.
— Eiji, preciso falar com você. – E ali ele parou próximo, ao meu lado, como se quisesse que eu olhasse bem em seus olhos escuros. – Eu tomei algumas decisões e eu preciso que você compreenda, ok?
— Ok. – Não estava tão confiante quanto eu sentia ao lado do Ash, mas eu não tinha outra opção além de acreditar nas palavras do Aaron.
— Minha mãe queria que eu ficasse com o terreno de Cape Cod, pois já tínhamos falado com a irmã do Jim Callenreese e ela não possui interesse nenhum naquele lugar. Teoricamente estaria no nome do Ash, mas com a morte dele sem nenhum testamento ficou algo vago. Minha mãe queria que eu ficasse, mas não me dava paz. Depois desse tempo contigo eu acho que você é a melhor pessoa para herdar aquele lugar. Você tem história lá. Não foi a toa que te encontramos em Cape Cod. Nós, ou melhor, eu, decidi que esse terreno será seu.
Aquilo me deixou em estado de choque. Como eu poderia ficar com a casa da infância do Ash?
— Mas...
— Não tem “mas”. Já decidimos. Você era o companheiro dele, nada mais justo do que isso. Só gostaríamos de pôr uma cláusula nessa entrega: que uma parte do terreno seja usada para construir uma biblioteca.
— Uma biblioteca? – Eu praticamente sussurrei.
— Sim. Se tem algo que nossa família quer perpetuar é o gosto por livros e pelo jeito o Ash também o queria, não? Acho que esse é um belo final para o Ash.
Naquele momento eu já sentia lágrimas escorrendo sobre meu rosto. Eu nunca tinha me sentido tão feliz e finalmente pleno como naquele momento. Era mais do que ser livre, era ver um futuro bonito com a memória do Ash.
— Obrigado... – O abracei logo no instante seguinte como se tivesse não só agradecendo as Aaron, mas ao próprio Ash em seus braços. – Muito obrigado... E você? Esse terreno era para ficar contigo. O que você vai fazer? Vai continuar atrás de sua mãe na Irlanda?
Ele permanecia em silêncio, tenso, sem respostas para essa pergunta.
— Aaron... Fique e faça essa biblioteca comigo. Você tem formação em literatura, esse terreno já era para ser teu. Eu preciso de alguém como você aqui. Talvez seja o seu lugar!
Ele arregalou os olhos do mesmo modo que o Ash fazia quando percebia algo de importante nas minhas palavras. Contudo, aquela conversa parecia insuportável demais para Aaron que se virou e foi para o quarto.
Na manhã seguinte, Abigail estava com todas as sacolas preparadas para ir ao aeroporto, vestida com uma calça jeans e uma regata amarela. Ela parecia um girassol após uma boa chuva, que reabre e floreia o dia. Aaron não possuía muita coisa e então fomos nós quatro até o aeroporto, lugar também que eu não ia há muito tempo. Lá eu me despedi de Abigail, ajudando a despachar as sacolas e abraçando diversas vezes. Entreguei algumas fotos que havia tirado no dia de ontem, mas também algumas que eu tinha guardado dos dias que convivi com o Ash. Deixei comigo o mínimo para me certificar de que jamais o esquecesse. Na hora de me despedir do Aaron ele acenou negativamente com a cabeça.
— Não, eu vou ficar.
— Vai? – Sorri e olhei para o Sing, ao qual já havia contado no dia de ontem sobre a conversa acerca do terreno.
— Sim, preciso resolver algumas burocracias e vou aproveitar ficando na casa que minha mãe tinha em Cape Cod. Assim até é bom porque você pode continuar morando em Nova Iorque e eu fico de olho na biblioteca quando estiver pronta. Você fica de patrão e eu de funcionário.
— Até parece! – Respondi o abraçando mais uma vez e agora com um sorriso no rosto de nós dois. Sing observava a cena e parecia que a liberdade fluía sobre seu corpo, podendo curtir a ideia de ajudar a construção de uma nova biblioteca. – Então... Posso te dar uma carona de volta para Cape Cod?
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