De um continente ao outro
2 O introduzir
O introduzir – Capítulo 2
Um dia depois que a busca havia começado, em uma manhã que não estava fria nem quente, morna, minha mãe havia saído para caminhar um pouco pela vila, dar bom dia aos vizinhos, verificar se a ponte, que passava por cima do Laguinho Agudo, não havia quebrado, dar carinho nos cachorros de rua que sempre passavam pela frente da nossa porta pela manhã, rodopiar a água do Rio Adivinho, que ficava ao lado da nossa casa, com o dedo. Minha mãe adorava suas caminhadas matinais. Quase na hora do almoço, quando o sol já estava quase no meio do céu, ela retornou. Antes do roubo das ervas, minha mãe sempre saía de casa bem cedo para realizar seus passeios, e quando voltava, trazia consigo, em seus braços, pães suficientes para o café da manhã, almoço e janta, ela repetia isso todos os dias, mas depois da “crise” tudo ficou diferente. Quando ela voltou pra casa naquela manhã, em vez de trazer os pães quentinhos de Srivaio (obviamente) , trouxe várias maçãs, algumas peras e outros vários legumes que não me recordo o nome agora. Provavelmente tivera arranjado aqueles alimentos na residência do Anoso Despeito, um velho que morava perto da nossa casa. O próprio conservava muitos legumes, frutas, salgados e doces no seu porão (que mais parecia um armazém), ele tinha praticamente tudo que podia ser chamado de “comida”, com exceção dos pães do velho padeiro. Fico pensando se ele começou a guardar aqueles alimentos depois do furto de toda erva ou até mesmo antes.
Na mesma manhã que minha mãe foi caminhar sobre as calçadas da Vila dos Fósforos, já na sua chegada, com os alimentos nos braços, as nuvens fecharam o céu, a mesma luz que cobria as frutas e os legumes, já em cima da mesa da cozinha, e também mantinha a água do Laguinho Agudo e do Rio Adivinho cristalinas havia sumido, ou melhor, escurecido. Olhei na direção da minha mãe, só consegui ver seus olhos, sua córnea estava branca como as orelhas de um gnomo febril (longa história), a cozinha estava realmente muito escura, fiquei pensando por um tempo “Será que o sol faleceu?” “ É realmente minha mãe que está do outro lado da cozinha? ”. Rapidamente, antes que a própria escorregasse em alguma coisa, acidentalmente, jogada no chão, fui pegar algumas velas na primeira gaveta do armário mais alto da sala, demorei uns dois minutos por consequência da escuridão, minha mãe pegou a caixinha de fósforos que guardamos do lado dos talheres, arrancou um de dentro e acendeu as quatro velas que arranjei, colocamos cada uma nos quatro cantos da mesa. Depois disso, a cozinha ficou iluminada, e finalmente conseguimos ver a cara um do outro, percebi a expressão de nojo dela olhando para as frutas e os legumes acomodados no centro da mesa. Fui o único, da minha casa, que comi algo naquele breve café da manhã( uma pera e a metade de uma cenoura) , a expressão da minha mãe permaneceu igual até o fim do desjejum. Enquanto mordia, pela segunda vez, a pera em minhas mãos, pensei mais ainda “ Será que a era ardente acabou ou é só uma simples nuvem nômade ?”.
Parecia que a nossa cozinha era o único local que apresentava luz no vilarejo, afinal, quando olhávamos pela solitária janela que ficava no canto cozinha( próxima a geladeira), não conseguíamos enxergar nada, escuridão total, tive a impressão de que as nuvens negras haviam descido até encostar as imundas ruas e calçadas do vilarejo, causando a cegueira absoluta. Quando acabei a metade da cenoura, minha mãe afastou a cadeira da mesa e se levantou, pegou uma vela ( já gasta ) e se dirigiu ao corredor, sem falar absolutamente nada. Observei ela rodear a mesa para chegar à porta que levava ao corredor, quando virou para a esquerda do próprio, me levantei rapidamente e comecei a seguir a luz da vela, não queria ficar sozinho( principalmente naquela situação sombria que ocorria na Vila dos Fósforos). Ela estava dando passos longos e pesados pelo corredor, eu estava começando a ficar com medo, tentei acompanhar o caminhar dela para ficar o mais próximo possível da vela ( que estava quase se apagando). Eu estava tão preocupado em ficar o mais longe possível da escuridão e o mais próximo da minha mãe( sendo mais específico, da vela que ela estava segurando ), que não percebi para onde a própria estava indo, ou me levando, quando fui me dar conta estávamos na entrada do quarto dela.
Nunca tinha percebido como seu quarto era bonito “Porque não percebi antes? Por qual motivo só fui notar isso quando apenas uma parte dele estava iluminada pela vela?”. Havia um longo tapete de lã no centro (existia um urso pardo com um salmão em sua boca desenhado nele), cujo os quatro pés da cama se acomodavam em cima, o chão era preenchido por uma madeira bem clara, provavelmente meu avô(meu pai herdou a casa dele) arranjou ela na Floresta Do Repouso, a maior floresta de Taiafin( dizem que os troncos das árvores de lá são mais brancos que a pelugem de um urso polar) “Porque será que o vovô foi até Taiafin para pegar madeira para o chão de seu quarto, sendo que existe uma floresta ( o nome dela é muito longo) bem perto da Vila dos Fósforos? Aquele velho era estranho”. Olhando para as paredes, consegui ver muitos quadros, alguns mostravam paisagens lindas(quase todas eram das praias do sul), e outros exibiam o rosto de pessoas que eu nunca tinha visto na minha vida,homens e mulheres, todos estavam me observando, fiquei com mais medo ainda. No teto tinha um lustre bem pequeno, porém muito bonito, não consegui acreditar que aquilo conseguia iluminar o quarto inteiro à noite. Durante a minha longa observação do quarto (sendo mais específico, dos locais que estavam sendo iluminados pela vela), a vela que minha mãe segurava, que já estava fraca, se apagou, foi a segunda vez que meus olhos viram a escuridão naquela manhã. Sem pensar duas vezes, disse:
– Mãe, mãe, está ai? Consegue me ouvir? — Escutei o silêncio — Mãe, responda por favor, estou ficando com medo. – Comecei a dar passos leves para a frente, tentando achar ela com as mãos, já que meus olhos só enxergavam o preto, encontrei seu braço esquerdo, o mesmo que estava segurando a vela:
– Mãe, consegue me ouvir?- Falei com um pouco mais de calma.
– Sim. – Ela respondeu com uma voz de choro.
“O que aconteceu com a voz dela?” pensei.
– Vamos voltar para a cozinha e arranjar outra vela, esta se apagou. – Falei com mais calma ainda, ela não gosta que eu fale alto dentro do seu quarto.
– Não, ela não se apagou. – Retrucou, restabelecendo sua voz.
– Como assim?- Não tinha entendido sua resposta.
– Eu que apaguei ela.- A voz de choro retornou.
– Porquê? – Perguntei.
– Não quero que você me veja chorar. – Graças ao eco do quarto consegui ouvir suas lágrimas caindo no chão (eram como as gotas de uma torneira mal fechada caindo na pia), provavelmente as próprias mancharam a madeira clara que preenchia o chão.
Fiquei em silêncio por um tempo, ouvindo seus gemidos. “Silêncio e escuro, a junção perfeita” pensei. Depois de um tempo, como um filho exemplar, perguntei:
– Qual o motivo?
– Motivo de que? – Ela perguntou, no meio de gemidos, de volta.
– Do choro. – Já estava tentando adivinhar a resposta dela.
– Saudades...- Minha mãe disse. Errei.
– Dos pães de Srivaio? – Aumentei o tom de voz – Mas a busca começou só faz um dia, eles vão conseg...
– Não.- Ela me interrompeu – Do seu pai...- No momento exato que ela disse isso, o céu se abriu, e o sol voltou tocar as águas do Laguinho Agudo e do Rio Adivinho, que se cristalizaram novamente. Era só uma simples nuvem nômade.
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