Elisa abriu a pequena janela do avião ao seu lado, demorou um pouco para acostumar-se com a primeira claridade do dia, que iluminou os seus olhos e foi surpreendida pelo belo cenário que descortinava lá fora, todo o céu estava tingindo em tons dourados, anunciando o amanhecer. Ela sorriu, encantada com a visão, e cutucou a irmã, ainda adormecida no assento ao lado. Joana abriu os seus belos e doces olhos azuis, ainda zonza de sono, espreguiçou-se e encarou a irmã de um jeito confuso, franzindo a testa. Elisa não disse nada, apenas sorriu e apontou para a janela. Um imenso sorriso despontou, iluminando o rosto sonolento de Joana, que se debruçou por cima da irmã e juntas apreciaram o espetáculo do nascer do sol, no céu límpido, acima das nuvens. Aquele podia ser o prenúncio das maravilhosas férias de verão que estariam por vir. Foi nesse momento que o comandante anunciou a chegada ao seu destino, em trinta minutos.

Depois da aterrissagem, veio toda aquela costumeira chatice, com a demorada saída do avião e a ansiosa espera na esteira de bagagens, e após apanharem suas malas, as garotas rumaram para a porta da área de desembarque, onde o seu pai as esperava.

Parecia que haviam passado poucos dias e não meses, desde o momento que o pai se despediu das garotas, naquele mesmo aeroporto, no fim do verão passado.

Rodrigo estava ansioso, esperando diante da saída da área de desembarque, pela chegada das suas filhas mais velhas, já que a cada ano, sempre se surpreendia, quando elas surgiam através daquela porta e ele percebia como cresceram e amadureceram e tudo que perdeu com a distância. Mas, dessa vez, a surpresa foi bem maior no instante em que surgiram duas belas garotas no auge da sua juventude, aquele era o verdadeiro sinal que o tempo passava muito depressa.

— Finalmente! – Rodrigo exclamou ao ver as filhas, abrindo os braços para recebê-las, abraçando as duas ao mesmo de tempo e dando um beijo estalado do rosto de cada uma. Aquele era um ritual, que se repetia desde que elas puderam viajar sozinhas pela primeira vez, para passar as férias de verão com o pai naquela cidade litorânea de belas praias.

Já que os seus pais eram separados, há muito tempo, elas não se lembravam dos dois juntos como um casal, quando eram uma família, nem sabiam o motivo da separação, pois Joana tinha apenas dois anos de idade e Elisa era ainda um bebê. Essa falta de lembranças tornava essa situação mais fácil para as duas garotas.

Enquanto, o carro prosseguia pela tortuosa estrada costeira, Joana, sentada na frente ao lado do pai, tagarelava, contando as novidades, sobre o seu último ano do colegial, a difícil escolha da carreira profissional, a sua entrada na faculdade, enquanto, sem prestar atenção, Elisa observava o horizonte, onde o azul do céu tocava o mar, percebendo como sentia falta daquela paisagem, do ar saturado de sal e da brisa fresca.

— Ligaram para a sua mãe, para avisar que chegaram bem? – Rodrigo indagou, de um jeito sério.

— Já. No aeroporto, enquanto esperávamos pela bagagem – Joana respondeu, sacudiu a cabeça afirmativamente.

A mãe delas era uma jornalista política, mudou-se para a capital, logo após a separação para ficar mais perto das notícias, segundo ela, ou para ficar mais distante do ex-marido, de acordo com as fofocas de família, mas Elisa não queria saber a causa da separação, não queria tomar partido, por algo que aconteceu há tanto tempo.

— O primo Eduardo vem passar alguns dias conosco – o pai deu a notícia, no meio da conversa, de forma casual, esperando pela reação das filhas.

— Que bom – Joana disse, com fingida animação, pois ela era sempre a mais educada.

Já, Elisa, sem disfarçar sua irritação, soltou o ar com força, pois, achava o primo Eduardo muito chato. Ele era o único filho do irmão mais velho de seu pai. Seus pais eram mais velhos quando o garoto nasceu, depois de um longo tratamento de infertilidade e uma gravidez complicada. E, ainda por cima, ele havia sido criado junto aos avós, por isso, foi superprotegido e mimado, sua vontade era lei, tinha que ter tudo primeiro, sabia de tudo e todos à sua volta eram uns bobos e inúteis. Esse seu modo de agir acabou por afastar as primas, que nunca gostaram das suas visitas.

— Ele é muito chato! – Elisa exclamou, revirando os olhos, aborrecida por ter que passar suas férias junto aquele primo irritante.

— Por favor, Elisa! Ele é o meu único sobrinho, filho do meu irmão. Vamos recebê-lo bem em nossa casa.

— Se ele não se meter comigo – Elisa ameaçou, cruzou os braços em frente do peito e continuou o trajeto calada, com a cara emburrada.

Depois de algum tempo, Rodrigo parou na frente de uma cancela, que se abriu quase imediatamente, e o carro entrou pelas ruas bem cuidadas daquele condomínio de casas de luxo, próximo a uma praia quase exclusiva, parando na frente da casa branca de janelas azuis, no estilo Mediterrâneo, de onde dava para ver o mar, lá no fim da rua. O pai foi o primeiro a sair do carro, para tirar as malas do bagageiro.

— Pronta?! — Elisa perguntou e encarou a irmã, de um jeito firme.

Joana sustentou o olhar e deu um sorriso desanimado, assentindo com a cabeça. Assim, abriram as portas e saíram ao mesmo tempo do carro.

— Bem-vindas, meninas – o pai disse, quando entravam pela porta da frente da casa.

Rodrigo carregava as maiores malas, e todos pararam no meio da sala, de decoração um tanto destoante para uma casa praiana, quando sua madrasta Lilian surgiu, devia ter acabado de acordar, mas já estava maquiada, com os cabelos arrumados e bem vestida, e as garotas se prepararam para a recepção, que viria.

— Que bom que chegaram, garotas! Olha! Joana, você emagreceu, está ótima! – Lilian falou com satisfação da mudança da enteada mais velha. — Elisa, você cortou o cabelo... – a voz dela diminuiu de tom. – Ficou...moderno – Terminou quase em um sussurro, depois, deu um sorriso que não refletiu nos olhos.

Rodrigo olhou mais uma vez para as filhas e ficou espantado, pois ainda não havia reparado naquelas mudanças

— Obrigada, Lilian — Elisa respondeu, com dissimulada gentileza, passando a mão nos cabelos bem curtos e escuros. Pensando que nunca entendeu o porquê seu pai havia casado com fútil Lilian, talvez, ele estivesse se sentido muito sozinho e triste, logo após a sua separação da mãe delas. Entretanto, ela tinha consciência que sua madrasta era bem bonita e possuía uma certa animação irresponsável, aquela leveza de ser, que contrabalançava o jeito sério e preocupado do pai, um economista, que havia ganhado um bom dinheiro escrevendo livros de autoajuda, onde ensinavam, em linguagem simples, pessoas comuns a ganhar dinheiro e saldar suas dívidas.

Logo atrás de Lilian, surgiram suas meias-irmãs, as gêmeas Maria e Lídia, de 15 anos, muito parecidas com sua mãe tanto na beleza, louras de olhos verdes, com na personalidade extrovertida e um tanto irresponsáveis.

— Vocês demoraram! – Lídia reclamou, imperiosa, com as mãos na cintura, antes mesmo de cumprimentar as meias-irmãs, que não via há quase um ano.

— Desculpe, mas nosso voo atrasou – Joana sempre tentava manter o clima bom entre elas, com seu espirito meigo e tranquilo.

— Estávamos todos esperando para irmos até a praia, juntas – explicou Maria, um pouco mais diplomática. – Papai não deixou que fossemos, antes de vocês chegassem.

— É bom ver vocês também, garotas! – Elisa sempre foi mais sarcástica, não gostava muito das maneiras atrevidas e, muitas vezes, grosseiras das irmãs.

— Elisa, você cortou o cabelo! – Maria ficou admirada. – Ficou legal!

— Pois, eu não gostei – Lídia sempre mais direta e desaforada, disparou. – Está parecendo um garoto. Mas, Joana está muito melhor, depois que emagreceu – ela concordou.

Joana sempre foi muito bonita, com seus cabelos louros escuros e olhos azuis, mais era um tanto gordinha para os padrões estéticos rigorosos daquela cidade praiana e para o círculo um tanto frívolo da vizinhança do local, um condomínio de alto luxo, onde sua madrasta fazia questão de passar todas as férias de verão. Ao contrário da irmã, Elisa era alta, magra e cabelos castanhos escuros e, agora, curtos, além do seu modo de vestir e de ser descontraídos, dava-lhe a aparência de um garoto.

— Então, já que, finalmente, vocês chegaram, podemos ir para a praia. Deve estar todo mundo lá, agora – anunciou Lídia, sem paciência, com se não pudesse desperdiçar um minuto do dia de verão.

Naquela casa, Elisa e Joana dormiam juntas, no mesmo quarto com duas camas de solteiro, em um estilo romântico, cheio de laços e babados, bem ao gosto da madrasta e muito diferente do delas.

— Nosso lindo quarto de princesa! – Elisa falou, com ironia e uma voz dissimuladamente meiga, para a irmã e colocando as malas no chão.

— São apenas algumas semanas – Joana a consolou, olhando para o quarto cor-de-rosa e branco demais – Vamos nos arrumar, senão Lídia vai ter um treco por não poder ir à praia.

— Ela deve estar a fim de alguém por lá, para variar – Elisa cogitou, conhecendo muito bem a irmã, que adorava ser o centro das atenções, enquanto, tiravam os biquínis e os apetrechos de praia das malas — Mas, tenho que confessar, que estou morrendo de saudades da areia e do mar.