De repente, você
16 Coragem
— Dani, você não vai jantar conosco? – Caroline perguntou, através da porta fechada do quarto do rapaz, onde ele havia passado a tarde toda, isolado. – Charles saiu e nós vamos a um restaurante japonês.
— Não, obrigado. Estou sem fome – ele respondeu, por trás da porta, sem se preocupar em abri-la.
— Tem certeza? – ela insistiu.
— Sim, tenho – ele não queria demonstrar sua irritação, nem passar o resto da noite ao lado daquelas pessoas.
— Quer que eu traga algo para você comer mais tarde? – Caroline quis saber, querendo parecer solicita e preocupada.
— Não é necessário. Não estou com fome, obrigado.
— Então, estamos indo! Boa noite, Dani – Caroline esperou um pouco pela resposta que não veio, frustrada, desistiu e foi embora, sabia que aquela batalha estava perdida.
Ficar preso entre quatro paredes, na casa vazia e quieta, deixou Dani muito mais angustiado, quando abriu a porta e saiu do quarto, estava cansado daquele lugar e daquelas pessoas, com a única exceção do seu amigo Charles. Por isso, ele se esforçava ao máximo para ser sociável, no entanto, não fazia parte da sua natureza, sentia-se estranho e desconfortável, fazendo que só desejasse regressar para sua grande e impessoal casa materna, onde ninguém prestava muita atenção nele. Sentindo-se aprisionado e sufocado, assim tentado melhorar um pouco o seu humor, saiu da casa, sem rumor, em busca um pouco de ar puro e liberdade, sentindo a brisa do mar acariciando o seu rosto e o cheiro acre da maresia impregnando suas narinas. Começou a andar rápido, sem destino, cada vez mais depressa quase correndo pelas ruas vazias, como se quisesse fugir, deixar tudo para trás, esquecer a garota, por quem sentia-se atraído e que o odiava.
Pensava exatamente nela, no momento em que aconteceu, como uma brincadeira cruel do destino, uma estranha conspiração do acaso, pois, quando menos esperavam, Dani e Elisa quase se esbarraram e estancaram um diante do outro. Agora, estavam ali no meio da rua, parados, sem saber o que fazer, o que dizer, os olhos se encarando, a expressão de surpresa nos seus rostos, até se desviarem, a procura de uma saída, sem sucesso.
— Oi! – Elisa conseguiu falar em voz baixa, com o peso da culpa apertando o seu peito, mas Dani não respondeu, mas não se moveu um milímetro em qualquer direção.
“Ele me odeia”, ela pensou, nesse instante.
— Eu estava voltando da sorveteria – Ela tentou parecer casual, para esconder o seu nervosismo, sem entender porque ele a deixava assim, desse jeito tão exaltada.
— Sai para dar uma volta – finalmente, ele falou, depois se seguiu um breve silêncio, que pareceu interminável para eles. Até Elisa respirar fundo, enchendo-se de coragem.
— Olha, Dani, eu queria pedir desculpas pelo que falei na praia hoje à tarde, foi muita grosseria da minha parte, de graça – ela falou, decidida.
— Não, você foi sincera, simplesmente, falou o que sentia – a voz dele era uma incógnita, ela não conseguia decifrar os seus sentimentos, de alguma maneira, aquilo a incomodava.
— Mas, eu não tinha o direito de julgar você daquela maneira, sem o conhecer. Não foi legal da minha parte – Elisa continuou tentando se desculpar, porém ele não falou nada, só a encarava de um modo estranho, mas ela estava cheia de determinação para falar e se livrar da culpa que a consumia. – Eu sei que me precipitei, mas você é tão fechado, tem esse jeito... – calou-se, achando que já estava falando demais, outra vez.
— Que jeito, Elisa? – A voz dele era inquisidora e fria como uma faca afiada.
— Tão distante, como se quisesse que ninguém se aproximasse de você, tentando manter todos à distância.
— Não estou acostumado em me relacionar com pessoas, não sei me comporta muito bem em grupo, para mim é muito difícil – ele confessou.
— Dani, você é um excelente nadador e um bom surfista, não conseguiu isso de graça, deve ter treinado muito?
— Sim, eu treinei – Ele não entendeu, onde ela queria chegar.
— Por que não faz o mesmo com as pessoas? Por que não treina a convivência com elas, talvez, isso o torne uma pessoa mais sociável e não fique tão difícil para conviver com quem o cerca, e ajude a derrubar essa torre, onde se esconde – Elisa concluiu, firme, mas amável. Ele a encarou por alguns instantes, o que a deixou apreensiva, sem saber qual seria a reação dele a intromissão dela.
— Talvez, você esteja certa, Elisa. Boa noite – dizendo isso, Dani se virou e voltou na direção que tinha vindo, pois precisava se afastar, ficar junto a ela, sabendo que nunca gostaria dele, só o fazia sofrer mais.
Elisa permaneceu parada, no meio da rua, sem saber o que fazer, olhando a figura dele diminuindo dentro da noite, confusa com o que sentia, não queria que ele fosse embora assim tão rápido. Mas, por que desejava tanto a companhia dele?
— Boa noite, Dani! – Finalmente, ela falou baixinho para as costas dele.
Charles estacionou o carro na rua na frente da praia, em um lugar tranquilo e pouco iluminado, havia escolhido uma seleção de músicas românticas, que tinha certeza que agradaria a Joana. Seus beijos começaram suaves e românticos, mas se tornaram mais urgentes, fortes e intensos, com as línguas se tocando, as mãos de Charles mais atrevidas, testando os limites, Joana ficou nervosa, dividida, por sentimentos contraditórios, desejo e receio, entretanto, não queria decepcionar o namorado.
— Não! – Ela disse, finalmente, e o afastou, lenta e carinhosamente.
— O que houve, Joana? – ele perguntou, surpreso com a reação dela, e mesmo com a pouca luminosidade percebeu que o rosto dela ficou vermelho.
— Não foi assim que eu sonhei – Joana confessou, sem graça – Você pode me achar uma boba romântica, mas não quero que a minha primeira vez seja assim, apressada e de qualquer maneira dentro de carro.
— Sua primeira vez? – Charles perguntou, erguendo as sobrancelhas, perplexo com a revelação. Joana assentiu com a cabeça.
— Sim, seria a minha primeira vez. E eu queria que fosse um momento especial, para me lembrar para sempre, mesmo depois de bem velhinha. Não sei se você pode me entender, Charles?
— Claro que eu entendo, Joana – Charles sorriu com doçura, afastando o cabelo dela do rosto, delicadamente – E não acho que você seja uma boba, apenas uma linda romântica. Também, acho que você tem que realizar o seu sonho, Joana. Não se preocupe, porque eu prometo se depender de mim, você terá a mais bela lembrança para guardar até ficar bem velhinha – depois, pegou a mão de Joana, com carinho, levou até os lábios e beijou a palma, suavemente.
O sol reinava forte e intenso, anunciando mais um lindo e quente dia de verão, e que o melhor lugar para estar era na praia. Era exatamente isso, que Elisa e Joana achavam e se preparavam para sair.
— Como foi saída ontem? – Elisa perguntou, curiosa, pois já estava dormindo quando a irmã voltou para casa.
— Legal, saímos para jantar, depois fomos dar uma volta de carro perto da praia.
— Uma volta de carro na praia? Sei. E aí?
— E aí nada, Elisa. Você sabe o que eu quero – Joana replicou.
— Mas, e Charles sabe disso?
— Sabe, eu contei para ele. E ele entendeu tudo. Só isso. E você, o que fez ontem?
— Ontem foi uma noite muito estranha.
— Por quê? O que houve? – Joana parou de passar o protetor para escutar a irmã.
— Primeiro, fui tomar sorvete com Carla e Eduardo e, o esquisito, que parece estar rolando um clima entre aqueles dois.
— Carla e Eduardo! Eu nunca iria esperar por uma coisa dessa! – Joana exclamou, com um misto de surpresa e divertimento.
— Pois é. Então, eu voltei sozinha para casa, aí que aconteceu algo realmente bizarro!
— O quê? Conta logo! – Joana não conseguia mais segurar sua ansiedade.
— Encontrei com Dani andando sozinho no meio da rua.
— E ele tentou matá-la? Sugar seu sangue? Ou estava se transformando em lobisomem –Joana brincou, em um tom sarcástico.
— Não, mas eu pedi desculpa para ele – Elisa confessou, com um fio de voz.
— Boa menina! Assim foi bem melhor – Joana falou, orgulhosa.
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