De repente no futuro
2 De repente o futuro
Um cheiro estranho no ar a despertou, seu travesseiro estava mais firme, além de parecer subir e descer em movimentos ritmados, a cama estava mais macia, além de um pouco longe, parecia que sua cabeça estava acima de vários travesseiros fazendo seu tronco ficar bem abaixo do resto do corpo. Catarina começou a se mexer lentamente, suas mãos percorreram aquela montanha de travesseiros percebendo que tinha algumas ondulações, além de um cheiro, o cheiro que havia a despertado, o amontoado de travesseiros tinha um cheiro bem específico, entortou seu nariz tentando identificar o cheiro, ah sim! Era queijo… sim queijo, o cheiro era definitivamente de queijo. O cheiro do queijo se misturava com o que adentrava a janela, o ar tinha cheiro de mato, como quando chovia e o cheiro da grama se esvaia no ar. Barulho, a montanha de travesseiros também fazia barulhos, como um ressoar de respiração pesada quando se dormia, outro barulho que ouvia era de um… galo, tinha um galo cantando no fundo. Ela não se lembrava de ouvir um galo antes pela manhã tão perto de sua janela.
Voltou a se mexer na cama, parecia que o amontoado de travesseiros era viciante, não conseguia sair de cima dele, além disso tinha algo em cima de seu braço esquerdo a enlaçando, como se estivesse a abraçando, era algo reconfortante como um lar, algo para correr e se aconchegar sempre que se sentisse triste. Por isso não fez questão nenhuma de sair daquela espécie de abraço, voltaria definitivamente a dormir. Mas o galo cantava de forma irritante e constante, e Catarina percebeu uma luz em cima de si, ela tinha certeza que tinha fechado a janela e trancado bem a cortina para evitar que lhe acordasse antes do meio-dia, na certa foi Mimosa, aquela enxerida! Rugiu ainda de olhos fechados, não quis se desfazer de seu monte de travesseiros tão aconchegante, mas finalmente abriu os olhos. O amontoado de travesseiros parecia mais um corpo. Um corpo de um… homem! Foi com curiosidade que levantou seu pescoço e o viu.
Petruchio estava estirado na cama, dormindo um sono profundo, roncava. Ela estava deitada em cima de seu peito — o amontoado de travesseiros era ele. A mão dele o abraçava pelas costas acariciando seu braço esquerdo — o abraço aconchegante pertencia a ele, e tinha o cheiro de queijo que confirmava tudo. Catarina então percebeu que estava dormindo esse tempo todo abraçada a ele. A única reação que teve foi berrar:
— AHHHHHHHHHHHH! AHHHHHHHHHHH!
Petruchio levantou num salto tamanho o susto que levou devido aos gritos ardidos dela em seu ouvido.
— É fogo! A casa também tá pegando fogo!? — perguntou desorientado.
— O que está fazendo na minha cama?! — Ela berrou lhe jogando um travesseiro.
Petruchio então reparou que Catarina estava no mesmo cômodo que ele, não só no mesmo cômodo como que estava em sua cama.
— O que ocê tá fazendo aqui?!
Reparou nela, vestida somente com sua combinação, seus ombros à mostra, tinha meias até os joelhos e ele não conseguiu não reparar o quanto ela estava linda acordando.
— Não se faça de desentendido, eu estava até agora dormindo em meu quarto e de repente você apareceu aqui!
— Mas esse quarto é meu! — Petruchio respondeu finalmente reparando em volta.
Foi então que Catarina reparou no aposento, um banheiro sem privacidade nenhuma no canto, uma cômoda no seu lado esquerdo, um pequeno guarda-roupa perto da janela, estava sentada em uma cama de casal. Aquele definitivamente não era seu quarto.
— Que tipo de truque é esse que fez comigo?! Me envenenou depois que joguei fora a aliança do noivado?! Você não se conformou que tudo havia acabado e me arrastou para a fazenda enquanto eu dormia?! O que usou comigo?! Está tão desesperado para se casar comigo e ganhar o dote que me envenenou para dormir aqui e me difamar fazendo meu pai me obrigar a casar com você! Sinceramente! Nunca achei que fosse tão baixo!!!
Catarina estava enfurecida e não parava de falar, mas Petruchio não estava entendendo nada, até onde se lembrava sua fazenda tinha pegado fogo e ele havia passado o resto da manhã chorando pelas percas, até que o cansaço o venceu e ele resolveu deitar o mínimo possível.
— …Te denuncio para a guarda! Te faço ser preso! Jamais deixarei meu pai acreditar nesse golpe! Como foi capaz de me colocar para dormir agarrada a você! — ela queria lhe bater, parecia prestes a fazer aquilo com seu dedo indicador apontado na face do homem.
Petruchio ainda tentava raciocinar como Catarina surgira de repente em sua cama quando um mini borrão passou correndo e subiu na cama começando a pular.
— É hoje! É hoje! É hoje!
Era impossível não reparar naquele mini borrão, tinha longos cabelos marrons quase pretos, um pouco enrolado nas pontas, um queixo fino e olhos grandes e castanhos.
— Papai é hoje! — a voz fina voltou a ressoar no cômodo.
Petruchio arregalou os olhos diante da fala do mini borrão ainda pulando alegremente em cima da cama. Catarina abriu a boca espantada. Petruchio tinha uma filha?
— É hoje que vamos no circo na cidade! — o mini borrão saltitante enfim respondeu o "é hoje" que insistia em comemorar.
— Você queria se casar comigo tendo uma filha?! Que tipo de pretendente é você?! — Catarina não foi nada discreta gritando diretamente para ele.
O mini borrão em forma de garotinha de cinco anos olhou para a mulher triste.
— Ah não! Vocês tão brigando, prometeram que não iam brigar num dia importante como hoje! Toda vez que a mamãe e papai brigam, mamãe insiste em dizer que eu só sou filha do papai. Não briguem! — a garotinha enrugou a testa brava, cruzou os braços na frente da cintura e rugiu. — Mamãe, não pode brigar com o papai e estragar nosso passeio!
Catarina sentiu sua espinha se arrepiar. Ela fora chamada de mãe? De fato, a menina parecia um pouco consigo quando enrugou a testa brava e rugiu ao mesmo tempo, mas seu rosto tinha vários traços do Petruchio, a pele mais morena e as sobrancelhas… as sobrancelhas definitivamente eram de Petruchio.
Catarina e Petruchio ainda estavam confusos tentando encontrar respostas incapazes de pronunciar uma palavra sequer, quando outro mini borrão adentrou o quarto.
— Clara! Ocê prometeu que não ia acordar o papai e a mamãe! Fez eles brigar! — o mini borrão desta vez era um garoto, parecia da mesma idade que o outro mini borrão menina, tinha cabelos mais lisos e escuros que a garota, olhos castanhos escuros sua pele era mais clara e usava chapéu e botas.
— Eu não fiz eles brigarem! Para de ser chato! Papai fala pro Júnior que vocês já tavam brigando! E que também já tavam acordados.
Petruchio sacudiu a cabeça ainda sem reação. Estava tentando assimilar tudo, aparentemente ele e Catarina tiveram filhos da noite para o dia. Mas como?!
— Nós não estávamos brigando. — respondeu Catarina calmamente. — Não briguem crianças.
Ela pediu sentindo-se tonta, não queria crianças discutindo na sua frente, ainda mais crianças que não sabia da onde tinham surgido, nem de quem eram. Apertou os dedos em suas têmporas tentando fazer sua cabeça parar de doer.
— Se papai e mamãe brigar a culpa vai ser sua que não vamos no circo! — a garota que se chamava Clara apontou o dedo para o garoto que permanecia no chão, de uma forma bizarramente idêntica, a que fizera com Petruchio segundos atrás.
— Eu nem quero ir memo. — o menino deu dê ombros ao mesmo tempo em que Clara rugia indo em direção a ele para lhe atacar, ia pular em cima dele e quem sabe o que faria a seguir. — Mamãe, ela vai jogar vaso em mim! — Júnior pediu socorro desesperado.
— Só não quer ir porque tem medo de palhaço!
— Eu não tenho medo de palhaço!
— Vai estragar o meu passeio!
— O passeio é meu! Eu quero ir tomar sorvete e não no circo!
— Ei, ei, ei! — Petruchio finalmente reagiu levantando da cama e segurando a garotinha que ia de encontro ao irmão para lhe dar tapas. — Não briguem, Clara e…
— Júnior. — Catarina interviu. — Clara e Júnior.
— Sim! Clara e Júnior. Vamo primeiro tomar café da manhã e depois pensar no passeio para o…
— Circo. — Catarina voltou a intervir.
— Sim! Passeio para o circo.
— E tomar sorvete mamãe? — o garoto olhou choroso para Catarina.
— Circo e sorvete! É claro! — ela automaticamente concordou a fim de não escutar um choro que estava prestes a acontecer.
— Vou pedir para a Mimosa fazer leite com rapadura pra mim. — a garota saiu do quarto correndo.
— Ocê me espera! Quero leite com rapadura também! — o garoto correu atrás dela.
Catarina se viu novamente sozinha com Petruchio no quarto. Ele a encarou confuso.
— Eles chamaram a gente, eu mais ocê, de pai e mãe?
Catarina se limitou a concordar com a cabeça.
— E o menino parece muito com ocê.
— E a menina com você. — Catarina completou.
— Menos o jeito, o jeito dela é igualzinho o seu. — Petruchio completou. — Uma mini onça.
Catarina estreitou os olhos indignada a ele.
— Pelo menos ela não puxou o seu sangue ruim.
— Memo que a aparência tenha saído totalmente Petruchio, até no fio de cabelo que é enroladinho.
— Até onde vi, o menino não tem nenhum cacho.
Continuaram a discutir a aparência e personalidades dos supostos filhos, até que Catarina arregalou os olhos percebendo o que estava fazendo. Parou de discutir, quando Petruchio lhe perguntou:
— Como que a gente teve filho da noite pro dia?
Catarina negou com a cabeça sem entender nada.
— Eu não sei! Eu dormi na minha cama, depois que você tinha acabado com o noivado!
— E eu acabei de me deita depois que descobri que tinha pegado fogo em todo estoque da fazenda. — ele coçou a barba pensativo. — Eu inté conversei com o retrato de meus pais.
— Conversou com o retrato de seus pais? — Catarina questionou pensativa. Lembrou que por uma coincidência ridícula tinha conversado com o retrato da mãe.
— Eu tava triste, aliás, tô triste, perdi tudo. Quer dizer, não tô triste ao ponto de chorar, porque sou homem e homem não chora, mas eu tava no meio de tanto problema que só… Eu só lembro de pedir pro tempo passar rápido pra não ter que lidar com o problema no dia seguinte.
Catarina sentiu sua espinha arrepiar, ela também tinha pedido para o tempo passar logo para ela não ter que resolver o problema dela casar ou não casar nunca mais. Mas não disse isso a Petruchio.
— Eu vou dormir! Certeza que estou sonhando! Vou acordar na minha cama! — ela pegou a coberta, se cobriu e fechou seus olhos rudemente.
— Eu preciso ver se o galpão tá tomado de fogo. — Petruchio levantou e começou a se trocar.
Catarina resolveu ignorar a imagem dele de ceroulas e pijama que presenciou naquela manhã e ainda apertava seus olhos tentando dormir. A imagem das crianças e as sensações tão vívidas faziam ela se beliscar debaixo da coberta para acordar logo daquele sonho maluco. O que não acontecia.
Petruchio saiu do quarto, Catarina tirou o rosto debaixo da coberta e tentou se aconchegar naquela cama para dormir, mas o colchão era diferente e sem seu amontoado de travesseiros aconchegante não parecia fácil pegar no sono, na verdade a cama parecia vazia e gelada sem ele…
— AHHHHH! — gritou brava abrindo os olhos. O que ela estava pensando? Estava sentindo falta do Petruchio ao seu lado da cama? Era claro que não! Voltou a fechar os olhos rudemente e se virou tentando dormir.
Estava conseguindo, pensando insistentemente para que conseguisse voltar para sua cama num passe de mágica, ia dormir, estava quase conseguindo quando sentiu algo lhe cutucar no nariz. Era algo pontudo e afiado, completamente indelicado, insistia rudemente em lhe cutucar que ela achou que poderia lhe arrancar a pele uma hora. Abanou a mão na frente de seu nariz tirando o objeto e abriu os olhos desistindo de dormir. Foi quando viu um monstro em cima de si.
— AHHHHHHHHHHHH!
Começou a berrar e a berrar, se levantou da cama, pegou alguns travesseiros e tentou se proteger do monstro que a encarava parecendo confuso.
— Dona Catarina, o que havera de tá acontecendo? — uma senhora abriu a porta do quarto assustada.
— Um monstro! Tire aquele monstro da cama! — apontou o bicho e a senhora começou a rir.
— Mas é só Carijó. Ela bicou a senhora forte? — a senhora foi até a cama e pegou a galinha colocando-a no beiral da janela. — Pronto, na certa ela tá com ciúme. Sabe que Carijó é meio enciumada desde o nascimento dos gêmeos.
Catarina estava aliviada, colocou a mão em seu coração e percebeu ele disparado.
— Muito obrigada. Agora pode se retirar que vou voltar a dormir.
— Mas o sol já vai alto, a senhora nunca que fica até tarde dormindo.
— Acontece que hoje estou com muito sono… um sono terrivelmente incontrolável.
— Ara dona Catarina, da última vez que a senhora tivera esse sono tava grávida dos menino sem saber. — a senhora deu uma risada ao mesmo tempo arregalando os olhos entendendo tudo. — A senhora conseguiu engravidar!
— O que?! — Catarina perguntou com uma voz fina e perplexa.
— A senhora me disse que ia parar de evitar ter filho, seu Petruchio queria tanto! Ele vai se encher de alegria.
— Está maluca?! Nunca estive grávida e nunca pretendo ficar!
A senhora enrugou a testa não entendendo nada.
— Neca! Neca! — uma voz muito parecida com a de Mimosa começou a chamar ao longe. — Neca venha aqui!
— Mas aquela velha assanhada não consegue fazer um nada naquela cozinha sem eu!
A senhora ia permanecer no quarto mais uns minutos para tentar entender o que estava acontecendo com a patroa. Mas Mimosa a chamava insistentemente.
— Eu já vou! — a tal Neca berrou. — Dona Catarina, a senhora fique despreocupada que vou guardar o segredo, não vou dizer a ninguém que tá grávida.
— Eu não estou grávida!
— Até mais tarde. — Neca se despediu saindo do quarto.
Catarina sentou-se na cama tentando se localizar diante dos recentes acontecimentos. O que estava acontecendo?
xx
Petruchio em seu reconhecimento local, começou a reparar no quanto a fazenda estava mudada. Alguns móveis velhos que existiam tinham sido substituídos por outros modernos, as paredes estavam pintadas, tinham mesas novas na sala de jantar e uma cristaleira lotada dos mais finos cristais. Reparou que as galinhas permaneciam ciscando no sofá novo e moderno.
— Seu Petruchio, achei que não ia acordar. O seu Armindo tá esperando para carregar de queijo sua carroça para levar pra feira, mas já avisei ele que essa remessa já tava reservada pra outro cliente. O que vamo fazer? — Calixto o informou falando tudo muito rápido.
— Quem tá aí fora? — ele saiu andando e abriu a porta de entrada.
— Bom dia seu Petruchio! — o tal senhor Armindo o cumprimentou. Petruchio desceu as escadas do hall de entrada e olhou o senhor a sua frente. — O Calixto tá me dizendo que esses queijos não são meus, mas o senhor me prometeu a nova remessa hoje! Meus clientes só querem seu queijo. Aliás, queria levar as manteigas também.
Petruchio não ouvia o velho senhor, reparou na fachada da casa, toda pintada e reformada, nada parecia fora do lugar, tudo estava organizado e bonito.
— Mas vai querer mais o que? O senhor sabe que não dá pra fazer queijo da noite pro dia, as vacas elas precisam de dormir! As tetas precisam se encher de leite de novo, não dá pra tirar leite dia e noite só porque o senhor quer mais queijo! — Calixto voltou a discutir com o velho cliente enquanto Petruchio andava fazendo reconhecimento local.
Tudo estava mudado e igual ao mesmo tempo. Ainda existia o galpão de queijo no canto esquerdo, mas ele estava o dobro do tamanho com várias pessoas que nunca tinha visto trabalhando lá. Percebeu que o galinheiro tinha mudado de aparência e estava grande o suficiente para terem o dobro de galinhas. Os porcos estavam perto do galinheiro e ele percebeu que tinha pelo menos três leitoas amamentando os leitões. Fora os cavalos que tinham quadruplicado. Três carroças estavam sendo abastecidas de produtos que saiam do galpão e outro cavalo, um branco, estava ao lado esperando. Um carro luxuoso estava estacionado ao lado e ele se perguntou da onde havia surgido aquele modelo diferente dos que via na cidade.
Entrou enfim onde devia ser o curral de vacas. Quando adentrou o local seu queixo caiu. O curral era enorme. As vacas estavam separadas com cercas, cada uma num cercado, quatro pessoas trabalhavam tirando leite enquanto outras duas carregavam baldes e mais baldes e levavam ao galpão de fabricação de queijo. Eram tantos detalhes que ele não conseguia permanecer com seus olhos grudados em um só lugar. Então se lembrou! Correu porta a fora e fixou seu olhar no horizonte à frente.
Onde até poucas horas atrás tinha um emaranhado de restos de madeira cheios de fumaça, surgira um novo depósito, quatro vezes maior que o anterior.
— Que tipo de magia é essa?! — ele começou a esfregar seus olhos tentando enxergar a realidade passada, mas nada o que fazia tirava as imagens do que tinha visto de sua frente.
xx
Catarina resolveu explorar o quarto. Procurou um espelho. Precisava se ver. Encontrou um de corpo inteiro no banheiro. Começou a reparar em seu corpo. Tudo aparentemente estava igual, a não ser seu cabelo. Ainda era curto e preto, mas estava na altura do ombro e também tinha umas rugas na testa que não se lembrava de ter, fora uns pés de galinha nos cantos dos olhos. Parecia que alguns anos tinham passado. Foi correndo até o guarda-roupa e achou roupas de mulher que ela não se lembrava de ter. Encontrou uma camisa xadrez com uma saia preta e encontrou botas e chapéu. Todas as outras variações de roupas eram parecidas, fora alguns vestidos de festas luxuosos.
— Eu me transformei numa jeca?! — se questionou se vestindo com uma camisa vinho e uma saia marrom com botas combinando com o chapéu, não tinha como fugir daquilo, estava sem mais opções de roupas.
Começou a reparar mais no quarto enquanto calçava as botas. No canto perto da porta tinha uma mesa com vários pertences de escritório, talvez lá obtivesse respostas. Andou até o lugar e reparou nos detalhes. Havia um caderno no canto, várias anotações de números, contas e mais contas. Reconheceu sua letra, ela dizia: "Dinheiro em caixa em crescimento, aumentar a produção de queijo, comprar mais vacas leiteiras ou finalmente investir numa loja da fazenda no centro da cidade. 31/01/1934". Na parece fixado tinha um calendário, arregalou os olhos quando leu "Fevereiro de 1934". Voltou correndo a se sentar na cama, estava tonta. Na parede em cima da cama havia uma foto pendurada com ela e Petruchio no casamento. Ambos com rostos bravos e nada simpáticos. Ela com um vestido lindo e ele completamente desarrumado.
— Até no sonho o Petruchio consegue se mostrar um mondrongo! — ela sacudiu a cabeça. — Sonho não! Pesadelo!
Reparou na cômoda ao seu lado. Vários porta-retratos. Ela com Petruchio, abraçada e sorrindo para a foto. Catarina grávida num canto. Outra com os bebês recém nascidos, ambos segurando-os sorrindo, ela com o menino no colo com um vestido de festa e Petruchio com a menina também sorrindo com um terno. Outras fotos das crianças pequenas vestidas com roupas de festa. Parecia ter de todas as fases, eles bebês, eles com um ano e assim sucessivamente até chegarem na idade atual.
— Realmente! Minha imaginação está fértil nesse pesadelo!
Então ela se lembrou! Se estava casada teria que ter uma aliança! Olhou sua mão onde até poucas horas atrás o anel de noivado ficava, sorriu percebendo que não estava, afinal ela o havia jogado no jardim, olhou para a mão esquerda e para sua surpresa viu uma aliança. Tirou ela de seu dedo, reparou se tinha algo gravado: Julião Petruchio 1927.
— O que?! Eu realmente casei com esse homem das cavernas?!
Se recusava a acreditar em todas as provas, mas a aliança estava lá, toda gasta, seu dedo tinha a marca dela, como se anos estivessem passado e o sol tivesse escurecido a pele ao redor deixando a marca da aliança no dedo. Quis gritar! Pegou um copo ao lado e jogou com toda sua força no guarda-roupa. Ele se espatifou tão vivamente que ela começou a se beliscar drasticamente para ver se enfim acordava. Foi até o banheiro e começou a jogar água em seu rosto tentando se fazer acordar. Tudo era inútil. Nada o que fazia cessava aquele sonho/pesadelo. Precisava falar com Petruchio.
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Petruchio voltou ao hall de entrada da casa ainda ouvindo Calixto discutir com o cliente, subiu as escadas e se escorou no beiral admirando a nova fazenda Santa Clara que se formava a sua frente. Era tão bonita de se ver, um sonho tão lindo.
— Seu Petruchio, o senhor ainda não me disse o que havemo de fazer com o seu Armindo, ele tá esperando resposta.
Até a grama parecia mais bonita, todo gramado verde sem nenhuma falha, não conseguiu deixar de sorrir aliviado e um pouco emocionado diante daquele cenário. Será que vivia realmente tudo aquilo? Se não estivesse vivendo era um sonho realmente lindo.
— Dona Catarina! Deixei o Faísca pronto para a senhora. — Calixto disse novamente ao lado do patrão.
Petruchio percebeu a suposta esposa aparecendo ao seu lado, estava vestida como nunca a vira na vida.
— Que roupa é essa? — ele estava admirando o quanto ela ficava mais linda com aquelas botas e seu chapéu fazendo par com a camisa.
— As únicas opções que achei naquele guarda-roupa.
— Dona Catarina! A senhora não vai contar as vacas hoje? — Calixto voltou a chamar a atenção dos supostos patrões.
— Que vacas?! Que vacas eu tenho que contar?!
— A senhora sempre galopa pela fazenda com o Faísca contando as vacas e os bois. Sempre! Não vai dizer que tá esquecida. Andaram brigando! Ah mas depois reclamam que as crianças tão igual a oceis! Onde já se viu dá exemplo de briga pros pequenos que mal completaram cinco anos. Eu sou da opinião que as caveiras do pai e da mãe do seu Petruchio não iam de gostar de um ambiente tão briguento pros netos conviverem.
— Para de falar dos esqueletos do meu pai e da minha mãe que sabe que não gosto.
— Mas eu falo porque oceis nunca que escutam! As caveiras tão sim! Se chacoalhando na cova até virar pó de desgosto por uma casa tão briguenta.
— Pare de zurrar! — Catarina berrou fazendo Calixto arregalar os olhos. — Pare de falar de caveiras e saia daqui, quero falar com Petruchio!
— Ingratidão atrás de ingratidão! Eu só faço o meu serviço e só levo pedrada… — Calixto saiu resmungando de perto de ambos.
Catarina olhou Petruchio preocupada.
— O que está acontecendo?! Já fiz de tudo e não consigo acordar desse pesadelo, ele é riquíssimo em detalhes! Olhe minha aliança. — ela esticou o dedo anelar esquerdo para que Petruchio reparasse.
Petruchio reparou em sua própria mão e lá estava sua própria aliança.
— Olhe em volta Catarina, a fazenda tá completamente mudada. E lá! Bem lá no fundo. Tá vendo? — Catarina estreitou os olhos reparando onde o homem apontava. — É o depósito da fazenda, ontem tava tudo ruído em fogo. Hoje tá aí, levantado. Parece inté magia.
Catarina suspirou preocupada.
— Petruchio! Eu não consigo acordar desse sonho, por mais que eu tente, parece que tudo se prova verdadeiro em minha frente, como se mais de cinco anos tivessem se passado numa noite.
Ele concordou com a cabeça sentindo a mesma coisa que ela.
— E parece que só eu e ocê não recorda de nada.
Catarina se lembrou, diante da fala dele, que a senhora que adentrou seu quarto se recordava do passado, pensou nas crianças vívidas conversando sobre o presente prometido num passado que elas haviam vivido e tinha também Calixto, ele sabia exatamente o que aconteceu antes.
— O que vamos fazer?!
Catarina perguntou a Petruchio tentando imaginar os passos que seguiriam. Sem saberem que aquela aventura do tempo só estava começando.
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