Catarina beijou Petruchio.

No meio do quarto, com apenas a luz do lampião acesa e num súbito desejo de sentir tudo o que a Catarina daquela realidade sentia. Catarina o beijou com vontade, ele retribuiu na mesma hora, segurando sua cabeça com medo dela fugir, como sempre fazia. Ela o beijou apaixonadamente, era a primeira vez que fazia isso, era a primeira vez que se entregava aos seus sentimentos. Catarina o beijou como se não houvesse o depois.

Então era assim que a outra Catarina se sentia? Ela não precisava pensar para o beijar, era só beijar, concluir o ato que estava sufocado em seu peito durante muito tempo, dar voz aos seus sentimentos que gritavam dentro de si naqueles dias todos que viveu naquela fazenda. Ela não precisava pensar para o beijar, era só o beijar, deixar suas mãos trabalharem o acariciando no rosto, passando sua unha em sua barba enquanto sentia ele segurar sua nuca com força pedindo por mais e sim ceder ao seu impulso de dar mais a ele. Mas ela precisava respirar e virou seu rosto soltando um suspiro e inspirando o ar fortemente em seguida.

Petruchio abriu seus olhos com medo. Medo dela sair correndo de seus braços, medo dela dizer que ele não devia beijá-la a força, medo dela pegar um vaso ao lado e jogar em sua cabeça dizendo que foi assédio, medo dela conseguir fugir como sempre conseguia. Mas os olhos de Catarina estavam cerrados, estava ainda mole em seus braços e sua boca estava vermelha. Vermelha por causa dele. Vermelha por causa do beijo desenfreado que ela lhe deu. Sem pestanejar ele deixou que ela recuperasse o fôlego e foi em direção a sua boca novamente afim de deixá-la mais vermelha e de fazê-la perder o fôlego novamente.

Petruchio sempre foi bom em conquistas, todas as mulheres que quis ficaram ao seus pés, não precisava se esforçar para um beijo sequer, até que Catarina mostrou ser seu grande desafio. Agora, diante dela segurando seu rosto, passando os dedos por seu pescoço pedindo por mais, ele se sentiu o homem mais completo do mundo. Tinha filhos saudáveis, uma casa sem dividas, um meio de vida que prosperava e agora ela, Catarina era sua. Sua por inteira!

Era como sonhar acordado, viver aquele romance bobo do conto de fadas que a filha havia pedido para contar há pouco. Era o combo de desejo, paixão e amor tudo de uma vez. Não queria acordar, por isso começou a passar suas mãos pelas costas dela a trazendo mais junto de si e fazendo ela suspirar cada vez mais. Ele cessou desta vez, precisava respirar, não conseguia parar de sorrir bobamente ao perceber ela lhe abraçar fortemente ao mesmo tempo que lhe beijava o rosto. Não resistiu, foi em direção a seu pescoço, beijou ali, sentindo o cheiro inebriante do perfume de Catarina misturado a pele dela. Um cheiro único e especial. Um cheiro que ele jamais iria esquecer, um cheiro viciante.

— Saia de perto de mim! — ela pareceu recuperar sua sanidade e se afastou dele de repente. Sentia sua pele se arrepiar toda vez que ele lhe sussurrava no ouvido, não conseguia controlar as reações de seu corpo quando ele justamente ia até seu pescoço para beijá-lo. Catarina estava conhecendo novas sensações e Petruchio só conseguia reparar na boca toda vermelha por causa dele.

— Não briga não Catarina! A gente tava se dando bem. — pediu tentando se aproximar dela novamente. Devagar, com medo dela se assustar.

— A gente nunca se deu bem e nunca daremos bem!

— Será? — ele perguntou ao mesmo tempo em que resgatava a mão dela para si a puxando para perto novamente. Catarina virou o rosto como reflexo e ele aproveitou para abraçá-la pelas costas. — A gente já provou que se deu bem nessa vida. Olha a fazenda e a nossa vida de casado, olha nossos filhos, olha outro que tá aqui na sua barriga. Olha o beijo que a gente acabou de dar, o beijo mais gostoso da minha vida.

O corpo inteiro de Catarina reagiu às suas palavras, ela sentiu suas pernas ficarem bambas e tentou disfarçar, mas seu coração saltava desesperado no peito, por fim, não conseguiu o contradizer.

Então era assim que a outra Catarina se sentia? Ser abraçada pelas costas, os sentimentos implodindo em seu corpo, as sensações antes tão secretas vindo a tona numa avalanche.

— Essa Catarina não sou eu! — recuperou sua voz e sentiu ele se afastar de si. Não foi ela que o empurrou dessa vez, era como sentir o calor sair de seu corpo e só lhe sobrar o frio e o vazio.

— Mas ocê me beijou. Não pode negar isso. — ele balançou a cabeça negativamente.

Catarina negou com a cabeça também, não conseguia o encarar, ainda permanecia de costas, tentava pensar em soluções para seu ato súbito.

— Te beijei para provar que não tenho medo de viver essa vida alternativa por completo. — sussurrou sua solução, virou seu rosto para ele decidida. — Te beijei para provar que não sinto nada por você e que essa Catarina não sou eu. Nada mudou.

— Nada mudou? — ele perguntou confuso. — Mas e o beijo que a gente deu agora e os nossos… A nossa vida Catarina, nada disso te comove!?

— Já disse a você! Nada mudou! NADA NUNCA MUDARÁ MINHA OPINIÃO! — quando ela berrou a última frase, um raio cortou o céu, um relâmpago anunciou uma chuva torrencial que começava a cair.

Petruchio mordeu seus lábios, foi buscar seu chapéu e o colocou na cabeça bravo.

— Certo! — ele confirmou com a cabeça indo atrás de um travesseiro e um lençol na cama.

— Aonde você vai?

— Dormi com as vacas, pelo menos elas muge e não ruge como ocê! E elas não mentem!

Catarina bufou nervosa vendo ele sair pisando alto do quarto. Rugiu raivosa. A energia acabou, deixando todos os corredores da casa no escuro.

— Eu posso ser tudo, menos mentirosa!

Pegou um vaso na escrivaninha ao lado e jogou com tudo no guarda-roupa. Quis chorar. Sentou-se na cadeira e começou a pensar em tudo.

— Essa não sou eu, essa não sou eu, essa não sou eu. — sentia ainda seu corpo quente, o gosto dele em sua boca, veio o súbito desejo de correr atrás dele e insistir para que voltasse para o quarto, que era uma besteira sem tamanho dormir no relento. No meio da chuva que caia, que estava escuro demais. Mas não fez nada. Ficou pensando em tudo, tantos acontecimentos e sentimentos num mesmo dia e ainda tinha aquela carta!

A carta! Não havia esquecido a tal carta.

Estava esperando ficar a sós com ele no quarto para lhe exigir a carta,mas acabou esquecendo. Olhou ao seu redor e resolveu procurar pelo quarto, abriu as gavetas da escrivaninha, procurou entre as roupas do baú no pé da cama, foi até o pequeno escritório e revirou mais gavetas, não achou nada endereçado no nome da tal Marcela. Então viu seu caderno de anotações. Ela havia escrito sobre a tal Marcela. Será que teria mais informações lá?

O pegou e começou a folhear, parou do lado do lampião que continuava acesso, seus olhos ligeiros procurando por Marcela, parou num dia que havia descoberto um arranhão.

"...Aquele arranhão no rosto foi feito com uma unha de mulher, Lindinha havia me confirmado! Como ele pôde me trair assim? Posso muito bem imaginar como ele se machucou! Mas há alguma coisa em seu olhar que me diz que ele fala a verdade. Ele me jurou que não me traiu, que havia ido vê-la para apagar o fogo crescente dentro de si que surge todas as vezes que dorme ao meu lado, mas que quando tentou beijá-la, lembrou de mim e do meu beijo, da minha mão segurando a dele para dormir. Eu não sei porque dou atenção às besteiras que ele tanto diz, ao mesmo tempo eu acreditei nele. Acreditei porque ele me olhava diferente, com os olhos baixos e arrependidos e com palavras doces. Tudo piorou quando fomos ao jantar na casa de papai que nem sabia que teria. Cheguei fazendo um escândalo pela infortúnio de não ser convidada para um jantar na casa de meu próprio pai. Mas aí senti o cheiro, aquele cheiro forte e enjoativo que senti nas vestes de Petruchio dias atrás. Descobri a dona do arranhão e a mulher que queria meu marido para si. Armei um escândalo e lhe taquei louças, papai ficou furioso e também cego, me expulsou de seu jantar e defendeu Marcela. Sim, Marcela. Esse é o nome dela. Só de pensar tenho vontade de repetir de forma debochada. Meu santo não bateu com o dela e já percebi que ela quer se aproximar de minha família. Não irei permitir! Pensando agora em tudo o que aconteceu no dia de hoje, o arranhão no rosto de Petruchio faz mais sentido ter acontecido como ele me narrou. Acho que ela fez por vingança sim quando ele a rejeitou. Petruchio me defendeu no jantar de papai, ficou ao meu lado o tempo todo, me apoiou como um marido apoiaria e defenderia sua esposa e… resolvi lhe dar um voto de confiança. O que não significa que não ficarei de olho na sirigaita que agora parece rondar minha família".

Fechou o diário, um embrulho em seu estômago a incomodou, mais do que nunca não queria ter brigado com Petruchio minutos atrás por causa de um beijo que ela quis sim lhe dar. Mas também não iria atrás dele lhe pedir desculpas. Ela não estava errada afinal! Emburrada sentou na cama, decidiu dormir. Segurou carijó em seus braços e colocou ela deitada no lado da cama que Petruchio dormia, começou a conversar com a amiga ave, mas algo dentro dela lhe cutucava para levantar e ir chamar o marido.

Ouviu um trovão, se levantou e olhou a janela, a chuva pareceu piorar e um vento frio entrou na janela fazendo ela se arrepiar. Petruchio estava lá fora! Estava lá fora tomando chuva! Correu para fora do quarto e foi em direção a sala, estava chegando na varanda quando parou pensando que não! Não iria o chamar, ele foi dormir com as vacas porque quis, não iria o chamar.

— Tomara que tome chuva! Tomara que fique bem constipado! — assim que gritou outro raio cortou o céu e o barulho do trovão a assustou.

As gotículas da chuva estavam chegando até si através do vento, estava frio. Pensou se não devia enfrentar a tempestade para ir o chamar e lhe pedir desculpas.

— Dona Catarina! Mas a senhora tá se molhando inteira!

— Neca? — Catarina olhou para trás e viu a emprega da fazenda preocupada a olhando com uma vela em mãos.

— A energia acabo, e eu ouvi gritos. Num vai dizê pra mim que a senhora mais o seu Petruchio…

— É claro que briguei com aquele casca grossa, só sabe fazer besteiras, só diz bobagens.

— Ara! Mas o tempo passa e nada muda memo! Num vai me dizê que ele foi dormi com as vacas.

— Sim! Justo com as vacas! Disse que elas pelo menos mugem e não rugem feito eu. Acredita nisso Neca?! — Catarina estava dizendo tudo com uma voz fina, perplexa e ao mesmo tempo preocupada, quase chorosa.

Outro raio cortou o céu e o barulho imediato do trovão fez Catarina dar um passo maior em direção a escadaria.

— E se ele pega pneumonia de novo? — Neca exclamou preocupada. — Minha mãe sempre dizia que doença ruim sempre volta, a gente não pode dar corda pra coisa ruim não.

Catarina sentiu um nó em sua garganta. Se aproximou da escada e começou a gritar:

— PETRUCHIO! PETRUCHIO!

— Dona Catarina, sai da chuva, a senhora tá grávida não pode pegar friagem.

— Mas e a pneumonia? E se a pneumonia voltar? Neca o que eu faço? — ela sentiu seus olhos marejaram, estava arrependida de ter soltado todas as abelhas de seu boca anteriormente em cima dele. Afinal ela quis o beijar, era tão difícil admitir isso a si mesma, era mais fácil fingir que ele estava maluco.

— Deixe ele lá! O teto já foi consertado. O estábulo é novinho em folha graças a senhora e o dinheiro que gostou nessa fazenda. Ele há de ficar seco. Vem! A senhora precisa tirar essa camisola molhada, vou preparar um chá…

Catarina deixou que Neca cuidasse de si, trocou de roupa, recebeu o chá e mais conselhos. Mas a ideia de Petruchio pegar uma pneumonia por causa de si lhe deixava triste e preocupada, não conseguia relaxar. Esperou Neca ir dormir e foi atrás de seu diário novamente. Era sua chave para entender o presente que vivia. Seu diário era sua resposta a Catarina que tentava ser em meio as duas Catarinas que existiam naquele espaço e tempo.

Folheou até encontrar a palavra pneumonia, e lá estava descrito tudo o que ela estava sentindo.

"... Pneumonia, aquele médico imprestável disse que Petruchio está com pneumonia! Sinto meu coração se desfazendo dentro de mim. Ele está ardendo em febre, a temperatura não se normaliza, sua tosse só piora e Calixto parece estar demorando uma eternidade para voltar com os remédios da cidade. Ele está dormindo agora e só consigo pensar em tudo o que aconteceu. Não me conformo dele ter desconfiado de mim, estávamos tão felizes, estava finalmente vivendo plenamente meu casamento, com todo o amor do mundo para dar a ele sem saber que poderia dar a alguém esse amor um dia. Eu nem conhecia esse amor todo que existia dentro de mim, sempre disse a Bianca que o amor entre um homem e uma mulher fora criado pelos contos de fadas para venderem os livros e normalizarem as mulheres como escravas do lar. Mas aqui estou eu, me desfazendo em dor de vê-lo com dor, descobrindo que não consigo me imaginar sem ele! Entendendo que agora somos sim como um só. Eu estava errada e os contos de fadas estavam certos!..."

Ouviu passos adentrarem o quarto. Um embrulho de coberta pulou em seu colo choroso:

— Mamãe to com medo! — Júnior choramingou em seu colo.

— Medo do que? — perguntou assustada, lembrou de Petruchio. Júnior também estava com medo de seu pai ficar doente por causa da chuva?

— Medo da chuva. — respondeu chorando. Catarina entendeu, o filho nem havia percebido que o pai não estava no quarto e não sabia que haviam brigado ao ponto do mesmo ir dormir no estábulo.

Catarina o abraçou e começou a acariciar seus cabelos.

— Oh meu amor, estamos protegidos aqui em casa, a chuva tá lá fora.

— Mas os barulhos! Tenho medo dos barulhos!

— Os barulhos significam que o perigo está longe, tá tudo bem!

Júnior voltou a se aninhar no colo da mãe, colocou seu rosto no pescoço dela e começou a cheirar seu cabelo. Segurou uma mecha e passou em seu nariz num vai e vem. Catarina ficou parada olhando a cena. Sentiu o coração do pequeno parar de bater rápido se normalizando e ele não chorava mais. Tinha se acalmado com seu simples afago de mãe.

— Mamãe quero dormir aqui.

— Pode dormir, mamãe está aqui. Não vou sair daqui.

Catarina acariciou o rosto dele e percebeu que o pequeno começava a fechar os olhos. Ela não entendia como sabia fazer aquilo: ser mãe. Mas estava lá, ninando o filho, sabendo as palavras exatas para lhe falar, cantarolava uma melodia enquanto acariciava sua testa fazendo-o fechar os olhos e dormir um sono profundo e tranquilo. Quando deu por si, estava o colocando em sua cama. Deitou-se ao lado e sentiu um peso na consciência, afinal não devia ter carregado aquele peso todo, estava grávida! Júnior agarrou o braço esquerdo da mãe e não deixou ela sair de perto de si, era a deixa para ela deitar junto e tentar dormir, quem sabe a companhia do filho lhe fizesse bem. Foi quando ouviu um choro e Clara entrou no quarto.

— Eu não quero ficar sozinha! — a menina choramingou para a mãe e subiu na cama.

— O meu amor, está com medo da chuva também?

— Cadê o papai? — Clara não era boba, diferente do irmão ela havia reparado que o pai não estava no quarto.

— Seu pai… seu pai está… — Catarina gaguejava, não sabia o que lhe responder. — …Seu pai está colocando as vacas para dormir.

Clara estreitou a testa, começou a pensar.

— As vacas têm medo de chuva? — Clara perguntou sem saber o que pensar.

— Ficam apavoradas! Seu pai tem que ir lá conversar com elas e as acalmarem toda vez que chove. Ele já vem. Deite aqui com a mamãe.

Catarina esticou o braço direito e esperou que a pequena se aconchegasse nela. Clara deitou, ainda desconfiada. Virou o rosto pra mãe e perguntou:

— Mamãe…

— Hum? — Catarina estava toda desajeitada na cama, mas seu braço conseguia fazer carinho no rosto de ambos filhos enquanto conversava com a menina.

— Sabe quando briga com o papai e fala que vai ir embora pra Europa com a gente e deixar o papai pra trás sozinho?

— Hum? — Catarina pensou, será que era uma constante sua fala de pegar os filhos e ir embora do Brasil?

— Se a mamãe for morar em Paris, eu não quero deixar o papai não.

— Por que? — Catarina perguntou reparando na filha, que estava com a testa franzida, de fato preocupada. — Um filho nunca se separa da mãe.

— É por isso que eu choro então? — Clara virou o rosto para encarar a mãe já com lágrimas. — Eu não quero ficar longe do papai e nem longe de você! Eu odeio a Europa!

Catarina colocou o rosto da filha em seu peito, acariciou seus cabelos meio desengonçada e pensou… Sim! Era uma constante sua fala de levar os filhos para morar consigo fora do país. Era tão comum essa fala que Clara já estava traumatizada.

— Esqueça tudo isso, eu e seu pai estamos bem, lembra das mãos dadas? Do beijo que demos agora a pouco no seu quarto? Está tudo bem.

— Ele não tá aqui!

— Mas já está vindo, ele vai voltar daqui a pouco. Eu e seu pai brigamos muito, mas sabe que jamais abandonaremos nossa família. Somos cinco agora, lembra que a mamãe está grávida? Seu pai jamais deixaria eu fugir com vocês dois pra europa grávida. Ele me arrasta pelos cabelos de volta pra essa fazenda e não me deixa nunca mais escapar.

Clara resmungou ainda chorosa, ainda estava preocupada. Catarina prosseguiu.

— Se acalme minha filha, está tudo bem entre mim e seu pai. Prometo a você.

Catarina sentiu um bolo em sua garganta, a chuva não cessava e ela só pensava na ideia dele pegar uma pneumonia por sua causa, e agora tinha os filhos em volta de si, que a preocupava mais.

— Me conta a história de como você e papai se conheceram? — Clara pediu. Catarina estreitou os olhos pensando, qual história a filha estava pedindo? — Aquela da melancia na barriga.

Catarina sorriu se lembrando. Sim, a história de como eles haviam se conhecido. Como será que a Catarina daquela realidade contava essa história aos filhos? Começou a narrar de seu jeito. Clara a interrompia de vez em quando para lhe corrigir algumas narrações. A Catarina daquela realidade parece que havia aliviado um pouco certas falas e ações.

— …é o papai que fala que se apaixonou pela mamãe por causa da melancia na barriga e que sabia que a mamãe seria mãe mais maravilhosa do mundo… — Clara comentou sonolenta se aconchegando mais em seu abraço e acariciando sua barriga.

Catarina sentiu um nó em sua garganta e se lembrou das falas de Petruchio naquela ocasião, de que queria ter muitos filhos com ela. Naquele tempo achava que tinha sido de fato só por causa de sua herança e que toda encenação com as flores e não ter medo dela com toda sua fúria era parte do pacote de tentar a conquistar. Mas agora lá, seis anos na frente do tempo, ela sentia que todo aquele primeiro encontro, havia sido de certa forma, verdadeiro.

Não conseguiu mais continuar sua história, percebeu que a filha tinha dormido, começou a chorar. Chorou baixinho pensando nos dois agarrados a si com medo da chuva ou de perder a família que tinham, pensou no bebê que carregava em seu ventre, pensou em Petruchio dormindo no frio, pediu a mãe para lhe ajudar. Pediu para sua mãe lhe guiar para qual melhor caminho percorrer. Estava com medo, sozinha e no momento ela precisava ser a fortaleza, ela não poderia sentir medo e não estava sozinha.

Dormiu pensando em tudo. Sonhou. Um sonho estranho e muito significativo. Sonhou com sua mãe. Mas não nela fisicamente, era uma voz, que parecia ter a voz de sua mãe, mas que não sabia se era de fato a voz de sua mãe porque não se lembrava direito da voz dela. A voz a observava dormir em uma cama e lhe dizia: "Seja forte minha filha, siga seu coração. O caminho certo é aquele que aquece seu coração, nunca se esqueça disso. Seja forte!"

Petruchio entrou no quarto de manhã, viu a cena mais linda do mundo em sua cama. Catarina dormindo abraçada aos filhos. Ficou parado observando todos os detalhes. O fato do filho não se desgrudar de uma mecha de cabelo dela e ela estar sob seu nariz, o fato da filha estar com uma mão na barriga da mãe e no fato de Catarina não se desfazer do abraço de mãe que dava neles, ela era uma mãe por completo, só não percebia isso.

— Petruchio? — Catarina sussurrou quando abriu os olhos e viu o marido no quarto. Petruchio virou as costas e começou a trocar de roupa. Catarina saiu da cama devagar, tentando não acordar os filhos e foi para perto do marido. Relou sua mão em sua testa, tentou o abraçar.

— O que ocê tá fazeno? — Petruchio reclamou vendo ela lhe abraçar tremendo. Catarina estava estranha.

— Uma pneumonia, achei que tivesse pego uma pneumonia… — respirava aliviada enquanto o abraçava. Petruchio estava estranhando tudo, até então estavam brigados, o que aconteceu em uma noite para Catarina acordar daquela maneira? Nunca a viu assim.

— Graças a Deus não está com febre, nem tossindo. — o apertava tanto no abraço que Petruchio não sabia o que fazer. — Seu filho chorou a noite com medo da chuva e eu estava aqui sozinha sem saber como aliviar seu medo e depois veio a sua filha que não é boba e começou a me perguntar onde você estava, tive que mentir. Eu odeio mentir! Eu nunca minto! Tudo porque você quis dormir com as vacas!

Pronto, lá estava sua Catarina de volta, lhe culpando! Petruchio tirou seus braços envolta de seu corpo e afastou ela de si.

— Lá vem ocê me culpar, tava é demorando.

Catarina negou com a cabeça cansada, quase chorava novamente.

— Papai! — Clara acordou e viu o pai no quarto. Comemorou indo até ele o abraçando. — Você colocou as vacas pra dormir?

— Coloquei meu anjo, coloquei. — Petruchio acariciou o rosto dela tentando entender qual a desculpa Catarina deu para não ter dormido na cama.

Logo Júnior acordou e foi abraçar o pai.

— …tava com medo de trovão.

— Arriégua! Homem não tem medo de trovão não!

Catarina lhe fuzilou com o olhar e foi logo defendendo o filho.

— Homem pode ter medo sim! Seu pai morre de medo de perder vocês, o medo não te torna menos homem e nem o fato de chorar.

Petruchio não teve argumentos contra aquilo, afinal, tinha mesmo medo de perder os filhos, mesmo só passando alguns dias na nova realidade.

— Ara! Logo vi que os dois tavam era aqui, nem me acordaro hoje pra fazer café. — Neca apareceu na porta chamando os gêmeos.

— Vovó Neca, tô morreno de fome! — Júnior reclamou.

— Quero broa de fubá com manteiga… — Clara pediu.

— E leite quente com rapadura. — Júnior completou.

Ambos se encaminharam para fora do quarto, Petruchio tentou segui-los. Foi parado na porta com uma fala de Catarina.

— Me perdoa.

Ele virou transtornado, não acreditou no que ouviu.

— Ocê, a onça braba, me pedindo perdão?

Ela abaixou os ombros, mas levantou o nariz, ia pedir perdão, mas não queria dar razão a ele por completo.

— Peço perdão por causa de seus filhos, que ficaram preocupados ontem a noite e que não merecem o pai que tem.

Petruchio deu um sorriso de lado, não resistiu. Era a primeira vez que vencia de certa maneira uma batalha contra ela. Chegou perto da mulher novamente, Catarina virou suas costas. Sentiu o marido segurar seus ombros delicadamente e sussurrar em seu ouvido.

— Percebeu que é a primeira vez que ocê conversa em paz com eu?

Era horrível sentir-se completamente indefesa com esse gesto dele. Mas Catarina tinha uma dúvida em sua cabeça e ia aproveitar que ele não estava mais na defensiva para lhe responder.

— Eu quero ficar em paz com você Petruchio. Mas para isso eu preciso que seja sincero comigo. — virou-se de frente para ele o encarando sem medo. — Quem é Marcela? Me conte tudo sobre ela!