De repente, férias

3 Uma mala no caminho


Notas iniciais
"O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação." - Carl Gustav Jung

3

Rafael aumentou o volume de seu iPhone, trocou de música escolhendo alguma bem barulhenta. A música Papo Reto do Charlie Brown Jr começou a tocar no último volume, mas ainda assim ele conseguia ouvir o zumbido da conversa das meninas ao seu lado. Amanda e Camila tagarelavam sem parar enquanto Renato e Raul foram conferir os horários e buscar as passagens do ônibus.

Fazia apenas alguns minutos que eles saíram do aeroporto e pegaram um táxi até a rodoviária do Rio de Janeiro. Ele passara a viagem toda de avião e de táxi até ali ouvindo música por isso seu celular estava perigosamente descarregando. Resolveu poupar bateria para a viagem de ônibus e desligou o celular enquanto esperava o ônibus.

Renato e Raul surgiram poucos segundos depois com as passagens em mãos.

– O ônibus sairá daqui a alguns minutos – disse Renato sentando-se ao seu lado. Ele suspirou sonhador. – Ah, vocês vão adorar o lugar, é sério.

– Você já esteve nesse resort antes Renato? – perguntou Camila com curiosidade, aproximando-se de Raul e afagando seus cabelos distraidamente.

– Pra falar a verdade não – Ele respondeu cauteloso. – Nunca estive lá. Mas eu vi em fotos...

– Em fotos? – repetiu Amanda alterando a voz. – Em fotos! Você viu o hotel em fotos? Fala sério, Renato!

– Qual é o problema? – Ele perguntou arregalando os olhos.

– E se o hotel não for nada disso, hein? E se for um daqueles hotéis baratos de segunda classe?

– Ah, é claro que não é – Ele garantiu, sorrindo. – O site era confiável, e além do mais, você acha que eu arranjaria um hotel barato para nós nos hospedarmos, sabendo que o Rafael estará com a gente? Ele me mataria se fosse assim, e você também pelo que estou vendo.

– Assim espero Renato, assim espero – murmurou Amanda virando-se para frente e cruzando os braços.

Rafael bufou. Ele não poderia ouvir música, mas também não queria ouvir aquele papo. Resolveu esticar as pernas, comprar alguma besteira pra comer no caminho – biscoito, balas.

– Aonde você vai? – perguntou Renato depressa. – O ônibus já...

– Vou comprar algo pra comer, Renato – Ele o interrompeu secamente e saiu antes que seu irmão perguntasse o que ele iria comprar. Ele caminhou resmungando consigo mesmo o quanto estava detestando tudo aquilo, estava andando tão distraído e apressado que acabou tropeçando numa mala que estava em seu caminho.

– Ei! – protestou alguém se levantando.

Rafael olhou da mala preta no chão para a garota ruiva de olhos incrivelmente verdes a sua frente. Ela o encarou com as mãos na cintura.

– Não vai pegar?

Ele analisou mais uma vez a mala no chão e a menina a sua frente que continuava com as mãos na cintura. Quase dava para imaginá-la batendo o pé como uma criançinha de seis anos fazendo birra. Ele poderia ter achado engraçado, mas o olhar dela era cortante e isso anulava qualquer graça.

Ele respondeu a pergunta dando seu melhor sorriso desdenhoso e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Ignorou os protestos e xingamentos da menina e seguiu até a lanchonete mais próxima.

***

Clarice pegou sua mala no chão praguejando todas as palavras feias em que conseguiu pensar. Observou, indignada, o menino que derrubara sua mala continuar andando como se nada tivesse acontecido.

– Imbecil – resmungou ela, sentando-se de volta ao lado de Rachel. – Chuta minha mala e age como se nada tivesse acontecido, nem pede desculpas.

– Não ligue para isso – disse Rachel tranquilamente enquanto se empanturrava de M&Ms. – Deve ser um idiota qualquer... O ônibus está demorando, não é?

– Está mesmo – concordou Clarice soltando um suspiro longo e pesado. – Não vejo a hora de dar o fora daqui.

Na verdade, ela não via a hora de voltar para casa e se trancar em seu apartamento minúsculo que tinha o familiar e permanente cheiro de tinta seca e café. Naquele horário ela estaria sentada de frente para uma nova tela em branco tentando pintar alguma coisa interessante enquanto bebia a quarta xícara de café. E é claro, não conseguiria pintar nada como sempre.

Ela suspirou resignada, talvez Rachel estivesse certa, talvez aproveitar aquelas férias longe de casa, longe da gráfica onde trabalhava, e até mesmo longe de suas pinturas, fosse a melhor coisa naquele momento. Ela precisava descansar e buscar inspiração em lugares novos e principalmente não ficar pensando nas coisas tristes que aconteceram no último ano. Talvez assim seu "bloqueio psicológico" finalmente acabasse.

Estava perdida em pensamentos quando viu o menino que derrubara sua mala passar por ali novamente. Ela o fuzilou com os olhos observando-o se sentar a algumas cadeiras de distância de onde elas estavam.

Ele estava com mais quatro pessoas. Um menino alto de cabelos castanhos, que parecia ser o mais velho dali e o mais animado também, gesticulava bastante enquanto falava. Ele se parecia com o garoto que derrubara sua mala, de forma que ela só pôde constatar que eram parentes, assim como o outro menino ao lado deles, esse parecia ser o mais jovem. Uma das meninas estava de mãos dadas com ele e a outra menina estava sentada ao lado do idiota que derrubara sua mala olhando para ele com os olhos brilhando num fascínio exagerado enquanto ele parecia ignorar a tudo e todos comendo um saco de batata Ruffles e encarando o teto.

– O que você está olhando, Clarice? – perguntou Rachel seguindo o olhar dela.

– Observando as pessoas para matar o tempo – disse Clarice desviando o olhar. – Aquele idiota que chutou a minha mala com os amigos dele.

Antes que Rachel comentasse algo sobre isso, finalmente a voz que todos esperavam anunciou que o ônibus para Viladouro sairia naquele momento. Elas se levantaram animadas e arrastaram as malas de rodinhas até o respectivo ônibus. Guardaram as malas grandes no bagageiro e Clarice ficou com sua mochila preta cheia de bottons no colo, onde seu caderno de desenhos, lápis, caneta e borracha estavam.

Ela entrou e se sentou numa das últimas fileiras do ônibus. Deixou que Rachel ficasse na poltrona da janela. Alguns minutos depois, quando todos os passageiros já estavam em seus devidos lugares, o ônibus deu partida.