De repente, férias
1 Intimação de Férias - Parte 1
Notas iniciais
1
Os primeiros raios de sol mal tinham surgido no céu quando seu celular tocou. Ele vibrava estridentemente em cima da cabeceira da cama, mas Clarice recusava-se a atendê-lo. Ela sabia muito bem quem era e não estava nenhum um pouco a fim de conversar ou de acordar uma hora daquelas.
Quando a pessoa finalmente desistiu, ela suspirou e se enrolou ainda mais nas cobertas. Nada a tiraria debaixo daquelas cobertas. Nada a não ser... O telefone da casa começou a tocar também fazendo barulho por todo o cômodo. A porta de seu quarto estava aberta de modo que o barulho irritante entrava lá também.
– Só pode ser brincadeira – resmungou ela. De maneira nenhum ela levantaria para atender ao telefone na sala.
Como que respondendo a sua vontade, mais uma vez seu celular voltou a vibrar. Clarice desistiu de ignorar a chamada e atendeu. Afinal já estava acordada mesmo.
– Finalmente! – exclamou uma Rachel irritada no outro lado da linha. – Achei que nunca fosse atender. Espero que esteja pronta!
– Ahn – Clarice bocejou e coçou a cabeça, seus cabelos deviam estar parecendo um ninho de passarinho naquele momento. – Sabe Rachel... Eu não acho uma boa ideia. Foi muito legal você ter me convidado, mas sabe, praia e eu, nós não somos uma boa combinação no momento. Talvez na próxima...
– Nem pense em me dar um bolo, Clarice Alves! – respondeu Rachel. Clarice ouviu um baque surdo de uma porta sendo fechada no outro lado da linha e então o som de salto-alto estalando no chão. – Irmã, você realmente precisa sair de casa um pouco e essa viagem, eu garanto que te fará bem.
Clarice começou a protestar, mas Rachel a interrompeu.
– Agora faça o favor de abrir a porta para sua queridíssima irmã.
Nesse momento ela ouviu a campainha tocar. Clarice suspirou e desligou o celular jogando-o na cama, não havia mais jeito, Rachel já estava lá. Ela se levantou espreguiçando-se e caminhou até a porta do apartamento.
– Por Deus, você está horrível! – exclamou Rachel assim que Clarice abriu a porta. Nada de "oi irmãzinha, como vai?". Onde foram parar as boas maneiras? Ah, espere, Rachel era assim mesmo, falava quase na velocidade do pensamento e nunca media as palavras antes de falar.
– Oi pra você também, maninha – resmungou Clarice abrindo passagem para ela entrar.
Rachel fez ainda mais careta para sua sala de estar. Sim, ela podia confessar, a sala estava uma bagunça há dias. Ela resolvera improvisar seu estúdio de pintura ali mesmo, por isso havia diversos quadros de diversos tamanhos, alguns novos, outros semipintados e borrados, assim como tintas, pincéis, papéis de rascunhos, entre outras coisas. Era impossível encontrar o sofá naquela bagunça, embora ela tivesse uma breve recordação de tê-lo encapado com plástico antes de começar a pintar. Naquele momento ele estava escondido sob pilhas de papéis, quadros e baldes de tintas.
– Eu passo algum tempo longe e você transforma esse lugar numa completa bagunça – reclamou Rachel fazendo um muxoxo de reprovação e então se virou para Clarice. – Ao menos está conseguindo pintar?
Clarice deu de ombros e sua irmã assentiu entendendo. Aquilo significava que não, ela não estava conseguindo pintar nada que prestasse. Já perdera a conta de quantos papéis e quadros ela jogou fora. Ela estava com bloqueio criativo, ou melhor, "bloqueio psicológico" de acordo com o psicólogo.
– Viu só? – disse Rachel cruzando os braços. – Você está precisando de inspiração. Aposto que passar as férias num resort maravilhoso na beira da praia vai servir de inspiração e tanto.
– Dispenso – retrucou Clarice caminhando até a pequena cozinha do apartamento que não era muito longe da sala. Ela abriu a geladeira e tirou leite e manteiga, pegou o pão no armário e a cafeteira para preparar o café.
– Ah, Clarice vamos, por favor? Por mim? – suplicou Rachel. – Por favor? Há quanto tempo não passamos um tempo juntas? Eu sinto a sua falta.
Clarice parou enquanto ligava a cafeteira na tomada e encarou a irmã. Ótimo, agora ela apelaria para os sentimentos? Droga! E Rachel tinha razão, fazia tempo que Clarice não a via, não mais que poucas vezes no mês, principalmente depois do falecimento de seu pai. Ambas ficaram praticamente incomunicáveis nesse período. A diferença era que Rachel estava retornando para sua rotina habitual, enquanto Clarice se trancava cada vez mais naquele apartamento minúsculo, sem muita comunicação com o mundo exterior, e principalmente sem conseguir pintar nem desenhar nada. Ela ainda não estava preparada para seguir em frente, mas ela sabia que Rachel não desistiria da ideia. Sua irmã conseguia ser bem persistente.
– Tudo bem – disse ela por fim, quase num grunhido. – Eu vou.
– Ótimo! – exclamou Rachel quase saltando de alegria e batendo palmas. – Bom, as passagens de ônibus foram compradas para hoje, então temos exatamente quatro horas para fazer sua mala.
Clarice olhou desanimada para o relógio de parede da cozinha. Onde eu fui me meter? Sua irmã sorriu do outro lado da mesa e Clarice percebeu que era tarde demais para voltar atrás.
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