De repente, férias
4 Bem-vindas ao paraíso
Notas iniciais
4
O ônibus fez uma parada próxima a uma lanchonete e alguns passageiros aproveitaram para dar uma volta e usar o banheiro. Clarice preferiu ficar no ônibus ouvindo música em seu MP4 enquanto desenhava aleatoriamente no caderno de desenhos.
Rachel se retirou e voltou alguns minutos depois com Coca-Cola e salgadinhos, que Clarice aceitou de bom grado. Faltava apenas duas horas para chegar a Viladouro e pela primeira vez desde que partira naquela viagem ela estava ansiosa para chegar logo. Talvez porque não aguentasse mais ficar observando tudo apenas pela janela.
Quando o ônibus deu partida novamente, Clarice trocou de lugar com a irmã apoiando-se na janela. Já dava para sentir o cheiro de ar puro dos campos e florestas que passavam e conforme o ônibus se aproximava da cidade, ela conseguia sentir também o cheiro de maresia. Uma das praias estava próxima em algum lugar por ali.
Clarice nunca gostou de ir à praia, embora morasse no Rio de Janeiro, cidade cuja a maior atração turística eram justamente as praias. Ela sempre achou a água gelada demais e a areia quente e grudenta demais. Fala sério, qual é a graça de ficar torrando embaixo do sol ou mergulhar naquela água gelada e salgada que sempre deixava seu cabelo cheio de areia? Definitivamente, ela não curtia praias, mas ficou aliviada e até um pouco animada em saber que Viladouro era cercada por uma floresta na qual havia belíssimas lagoas e cachoeiras – ei, a água também é gelada, mas não é salgado, OK? Isso faz toda a diferença. Sem falar que havia piscinas no resort e até mesmo um parque aquático.
Sua irmã pelo contrário estava muito animada com a perspectiva de passar aqueles dias na praia. Sim, Rachel adorava praias, quando não estava dando aulas ela costumava passar os fins de semana em Copacabana ou Ipanema. Ela estava cursando o último ano de Direito na UFRJ e trabalhava de segunda à sexta num escritório particular no Centro da Cidade. Rachel falava inglês fluente e aproveitava alguns sábados e domingos para dar aulas particulares e assim ganhar um dinheiro extra. Sua irmã tinha uma vida movimentada, mas apesar do trabalho dobrado e dos estudos, ela sempre arranjava tempo para ter uma "vida social”, Rachel conhecia todo o tipo de gente que você possa imaginar, ia à praia, baladas, festas e fazia aquelas viagens inusitadas.
O ônibus finalmente parou no ponto final na rodoviária de Viladouro. Clarice se levantou esticando-se e espreguiçando-se. Observou pela janela as pessoas se retirando do ônibus e caminhando até o bagageiro para pegar as malas. Havia uma porção de outros ônibus de viagem por ali e uma porção de outras pessoas – a maioria em grupo de amigos ou em família.
Ela pegou sua mochila verde e seguiu para fora do ônibus atrás de Rachel, que digitava velozmente no celular.
– O resort fica na beira da Praia de Santana – disse ela assim que as duas pegaram as malas no bagageiro. – Então, só temos que pegar um táxi e pedir para nos deixar lá. Não deve ser difícil de encontrar. Ah! Aqui, achei – disse ela estendendo o celular para Clarice. – O nome do resort é Sol e Estrelas. Vamos nessa.
– É claro, "lua de minha vida" – respondeu Clarice sorrindo de lado. Rachel revirou os olhos e as duas seguiram para a fila do táxi.
***
Rachel estava certa, não foi muito difícil encontrar o Resort Sol e Estrelas, pois era bastante conhecido na região por hospedar pessoas famosas. O resort ocupava boa parte da calçada de frente para a praia e ficava a poucos quilômetros do píer – uma das atrações turísticas da cidade, o píer era bastante visitado, principalmente por casais que achavam o lugar romântico à noite e que por esse motivo chamavam de Píer do Amor. Eca.
Ela ficou simplesmente embasbacada com a luxúria e sofisticação do resort e imediatamente preocupada com as despesas que teria, ela sem dúvida não tinha dinheiro para bancar aquilo.
– Ah, não se preocupe, eu ganhei os cupons de desconto, lembra? – disse Rachel tranquilizando-a. – Temos exatamente vinte e cinco dias nesse paraíso, vinte e cinco dias praticamente grátis, então aproveite, tá legal? Nada de se trancar no quarto e se isolar do mundo pelo resto dos dias.
Clarice não discordou. Bem, se você ganha desconto para passar alguns dias num resort chique como aquele, é mais do que sua obrigação aproveitar cada momento.
Quando elas entraram no quarto ficaram ainda mais encantadas. Clarice deixou as malas caírem no chão olhando ao redor, impressionada. Era uma suíte enorme com duas camas de solteiro. Lençóis e travesseiros branquíssimos cobriam a cama, abajures beges e luxuosos dividiam espaço na mesa de cabeceira ao lado das camas. Uma Smart TV ocupava grande parte da parede de frente para as camas – por um momento, Clarice se imaginou deitada ali para sempre assistindo Netflix naquela TV, seria duplamente emocionante assistir Grey’s Anathomy ali. Sério, se ela tivesse uma TV e uma cama assim, ela nunca mais sairia de casa mesmo.
Sua irmã correu para o armário enorme que se camuflava na parede branca, o armário de alguma forma ficava por dentro da parede como um closet, com quatro portas de correr no lado de fora – Rachel adorava armários e principalmente, adorava enchê-los de roupas e sapatos.
Clarice foi até o banheiro e nem um pouco surpresa constatou que parecia mais branco e limpo que todo o quarto em si. E incrivelmente enorme. Havia uma banheira branca com torneiras douras de um lado e um Box com chuveiro do outro. O vaso sanitário era tão branco que reluzia assim como a pia de mármore branco.
– Nossa, eles realmente gostam de branco – Ela comentou saindo do banheiro, ligeiramente incomodada, acabara de chegar e já estava enjoada daquela cor. Ou talvez fosse porque o branco lembrava a tela em branco que há semanas ela não conseguia preencher.
Ela se repreendeu mentalmente. Nada de pensar sobre isso agora, Clarice.
Sua irmã estava com metade do corpo enfiado no guardarroupa desfazendo as malas. Clarice se jogou na cama próxima a janela, como havia imaginado a cama era macia e extremamente confortável, os lençóis cheiravam a lavanda.
– Vou terminar isso aqui e vamos conhecer o lugar, tá OK? – disse Rachel, a voz saindo abafada porque ainda estava enfiada no guardarroupa arrumando tudo.
– Tudo bem – respondeu Clarice suspirando. Tinha que admitir, mesmo com apenas alguns minutos ali, ela começava a se sentir bem, como não se sentia há semanas. – Obrigada.
Rachel saiu do guardarroupa.
– O que disse?
Clarice se sentou na cama e deu um meio sorriso contrariado para a irmã.
– Obrigada por me trazer.
Rachel retribuiu o sorriso.
– Sabia que ia gostar, Clari – disse ela. – Mas não me agradeça ainda. Nós temos muito que ver e fazer aqui. Você vai ver como eu sou uma irmã maravilhosa.
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