7.

Eu e Zoro nos tornamos grandes amigos e quando me dei conta, estávamos cursando o terceiro ano do ensino médio. Além de lidarmos com a pressão do vestibular ou de qual profissão seguir no futuro, também lidamos com as mudanças dos nossos corpos. Eu fiquei mais alto, mas ainda não tinha a massa muscular de Zoro, que por sinal tinha aquele corpo por conta do kendô.

As mãos calejadas de Zoro não eram assim porque trabalhava em alguma coisa braçal, como eu acreditava quando o conheci. Lembro-me que Zoro me disse que seu pai nunca permitiria que trabalhasse tão novo. Seu pai trabalhava como sensei numa escola de kenjutsu da comunidade de seu bairro e Zoro participava das aulas. Às vezes ele me carregava junto, tentando me convencer a praticar o esporte, mas eu sempre lembrava do meu pai me exigindo ficar forte e algo sobrenatural fazia com que eu nadasse contra a maré. De todas as pessoas, meu pai era a que menos queria ouvir e nem Zoro conseguiria mudar a minha cabeça.

Portanto, ficava na pequena arquibancada observando todos, com uma atenção maior no Zoro. De vez em quando, o idiota não usava as proteções e usava apenas a calça. Seu peito extenso ficava exposto e eu parava para observar aquele corpo suado. Eu sempre pensava que ele tinha um corpo muito desenvolvido para sua idade. Quando tomava banho, me observava no espelho e me comparava com ele, era tudo tão diferente...

Eu observei tanto aquele corpo moreno que compreendi que Zoro era atraente, isso era reforçado quando eu percebia que as garotas da escola eram interessadas nele.

Nesses momentos, sentia um frio na barriga. Caso Zoro começasse a namorar, ele poderia se distanciar de mim. Mas descartava essa hipótese ao me lembrar que Zoro era um idiota. Tinha uma péssima mania de me abraçar depois dos treinos, só para passar aquele corpo ensebado de suor na minha pele. Com certeza não pensava em garotas.

Bem diferente de mim...

Eu estava naquela idade, com os hormônios à flor da pele e não parava de pensar em garotas. Se eu tivesse o corpo e o carisma de Zoro, já estaria namorando há muito tempo. Precisava namorar urgentemente, senão esse marimo iria me deixar pra trás.

— Sobrancelha enrolada, quer ir na pedreira amanhã?

Estávamos no terraço comendo nossas marmitas. Aquele espaço era ainda de Zoro e ele sempre me dizia que não era permitido a entrada de ninguém além de nós dois. Aquele idiota via aquilo como um forte? Eu custava acreditar que Zoro faria 17 anos.

— Sim, por que não?

Ele riu e bagunçou o meu cabelo com a mão.

— Ei, para com isso!! Estou tentando comer, não está vendo?!

— Só tô notando que seu cabelo está mais volumoso.

— Sério?!

Tentei me lembrar da última vez que o cortei, enquanto passava a mão livre pelo cabelo.

— Parece uma menina.

— Para com isso, marimo!

Dei a língua furioso e ele riu. Enquanto ria, pensei que Zoro tinha uma péssima mania de me tocar em todo momento; jogava o braço sobre os meus ombros, me abraçava, puxava minha mão e me carregava como se fosse uma pipa querendo levantar vôo. Mas sempre entendi que essa era a forma dos ogros demonstrarem carinho. E eu ainda não estava acostumado com isso, olhava ao meu redor e achava todos tão frios... principalmente minha família.

Ainda assim, não era ruim o marimo ser desse jeito. Engraçado que quando o vi pela primeira vez, pensei que era mal humorado e antissocial. Até porque ele parecia um delinquente com seus cabelos tingidos e se eu continuasse o julgando pela capa, faria o mesmo que as outras crianças da escória fizeram. Ignoraria-o e nós dois poderíamos continuar sem amigos.

Ao chegarmos na pedreira, eu não pensei duas vezes e empurrei Zoro bem do topo. Ele sempre me surpreendia, mas naquele sábado o empurrei antes que me empurrasse. A altura era um pouco alta e lembro do susto que ele me deu quando me empurrou pela primeira vez.

Quando retornou pra superfície da água, me xingou de tudo que é tipo de nome.

— E agora? Tem coragem de mergulhar por conta própria?

— Sempre me subestimando, não é marimo?

Minhas pernas tremelicavam um pouco e Zoro me atiçava na água, me chamando de cagão, dei minha última olhada na profundidade e depois de prender a respiração, mergulhei. Quando voltei pra superfície estava surpreso por ter conseguido saltar.

— Idiota! Tu caiu quase em cima de mim!!

Zoro estava irritado e eu comecei a rir. Ele pensou que eu estivesse rindo dele, mas eu ria de felicidade por ter pulado. Mais tarde, quando me tornasse adulto, eu compreenderia que não era um garoto medroso e frágil como sempre disseram meus irmãos. Na verdade, eu tinha muito de Zoro dentro de mim. Porém, estava adormecido e com a ajuda dele, eu me despertava aos poucos.

Depois dos mergulhos, descansamos sob a sombra de uma árvore. Zoro tampava os olhos com o antebraço e dormia, eu passei a observá-lo. Estava de samba canção branco assim como eu, mas nossos corpos eram muito diferentes. Novamente me lembrei dos olhares das garotas sobre Zoro, quando andava pelos corredores ou até mesmo quando resolvia assistir as aulas. Como ele conseguia? Eu gostaria de ter pelo menos um desses olhares sobre mim.

8.

Estávamos mais uma vez no terraço comendo nossas marmitas.

— Marimo, será que hoje posso ir pro dojô?

— Por que tá perguntando? Você sempre vai a hora que quiser.

Zoro piscava os olhos confuso enquanto tinha a boca cheia. Eu desviei o olhar um pouco constrangido.

— Bem... mas acho que hoje vou praticar também...

— Sério?!

O idiota me dava tapas quase deslocando meu ombro do lugar, mas eu sabia que ele só estava feliz por eu finalmente ter aceitado o convinte de praticar kendô na escola de seu pai. Na verdade, eu só queria ter mais massa corporal para conquistar alguma garota. Havia até mesmo ignorado minha relação com meu pai em prol de ter uma namoradinha.

Durante o treino, eu observava mais uma vez o corpo de Zoro e pensava que não via a hora para o meu ficar igual. Porém, fui um desastre, apanhei mais que tudo e nem no aquecimento consegui me sair bem. Zoro tentava me animar dizendo que aquela era a minha primeira vez e depois pediu para que eu dormisse na sua casa quando a aula acabasse.

Koushirou, como sempre, arrumou o colchão para eu dormir. Lembro que naquela noite meu corpo estava todo doído e eu ainda iria dormir num colchonete!

— Sobrancelha enrolada, por que não dorme na minha cama?

Zoro perguntou já na sua cama. O quarto estava escuro e eu tentava dormir naquele colchão horrível.

— Sério?!

O colchão de Zoro não era como o meu, mas com certeza era melhor do que aquele colchonete.

— Sim. Deita aqui do meu lado.

Quando ouvi isso, meus olhos se abriram muito. Achei a coisa mais estranha que já ouvi de Zoro. Eu esperava que ele trocasse comigo, mas ele queria que eu dormisse ao seu lado.

— Dormir com você? Você acha que ainda somos aquelas crianças?

— Que bobeira, anda, venha logo. Ninguém vai ficar sabendo.

Eu pensei mais uma vez e achei que era loucura da minha cabeça estranhar dois rapazes dormindo juntos. Não faríamos outra coisa, além de dormir. Com certeza.

Assim que me deitei ao lado dele, Zoro envolveu um braço em mim. Meu rosto esquentou com o toque, mas também me lembrei do tempo que dormíamos juntos. Não havia maldade. Só por que pensava em sexo toda hora, haveria maldade nesse momento?

— Gosto do seu corpo assim.

Sua voz rouca estava bem perto do meu ouvido. Senti meus pêlos arrepiarem e Zoro deslizava sua mão sobre meu abdômen.

— Tenho sofrido muito. Porque estou prestes de arruinar nossa amizade.

— O que está dizendo, marimo?

Ele tocou seus lábios nas minhas costas e sobre a minha camisa, mas senti uma umidez nesse ponto e voltei a me arrepiar.

— Eu te amo.

Instintivamente, levantei-me da cama de Zoro.

— Que brincadeira é essa, marimo?

Porém, só ouvi barulhos de choros. Zoro estava chorando pela primeira vez na minha frente, embora o quarto estivesse escuro. Eu ainda não o via, mas compreendia que nossa amizade havia acabado. Comecei a chorar quando entendi que um sentimento tão puro fora embora.

— Me perdoe, sobrancelha enrolada.

Eu me sentei no chão e continuei a chorar. Eu não queria deixar de ver Zoro de jeito nenhum. Ele era o meu melhor amigo.

9.

Bem, e como essa história termina?

Obviamente, depois de ouvir a confissão de Zoro, não nos vimos mais. Porém, ele permanecia em meus pensamentos. Eu refletia muito como a amizade é algo tão frágil e tão difícil de conseguir. Levei uma infância para encontrar um grande amigo feito Zoro, mas tive a impressão de que ela se foi muito rápido. Muito esforço e cuidado para ir embora em instantes. Muitos falam sobre amor e paixão a ponto de ser um status social estar num relacionamento ou transar com frequência, porque sabemos que quem não consegue achar sua cara metade sofre uma pressão muito grande da sociedade. E em meio a isso, eu vejo o quanto a amizade é subestimada perto dos outros relacionamentos. Por que não lutamos pela amizade como lutamos pelo amor?

Mas eu não estou contando uma história de amizade.

Eu estou contando uma história de amor.

Aquele marimo idiota não correu atrás de mim, ele esperou eu vir rastejando para dizer que sentia sua falta.

Para dizer que sentia ciúmes de suas novas amizades. Eu os imaginava se beijando e não de mãos dadas. Fazendo coisas que não cheguei a fazer com o meu marimo.

Foram três meses que fiquei refletindo se era amor ou amizade. Se eu queria ser aquele corpo ou se eu queria ter aquele corpo. E eu chorei muito quando descobri que era amor.

Queria aqueles tempos de volta, mas eu queria novos tempos. Tempos em que estaria o beijando. Tempos que não seria seu amigo e sim seu amante.

10.

Essa foi a história sobre o meu primeiro amigo e sobre o meu primeiro amor. Hoje eu e Zoro moramos juntos num apartamento. Divido o cabelo de outra forma, virei um fumante e ele um alcoolatra (brincadeira). Minha boca ficou mais suja e ele está mais inteligente, finalmente aprendeu a usar o GPS. Me tornei um grande cozinheiro e espero que minha mãe esteja orgulhosa de mim. Zoro é profissional em kendô e continua muito forte. Temos um filho, na verdade um gato, chamado Gato (é, não somos muito criativos).

Como o mundo está hoje? Acho válido comentar isso também, visto que comecei comentando sobre o mundo. Bem, atualmente está acontecendo o apocalipse. Mas tudo fica certo quando voltamos do trabalho e ficamos na companhia do outro.

Somos românticos quando queremos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!