De aprendiz de Sacerdote a Sacerdote emAprendizado
6 Primeiro o mais importante
Estabelecer uma base operacional aqui nas montanhas foi a prioridade que escolhi. Trabalhando à noite, usei magia de vento e areia (elementos em abundância) para cortar a rocha e criar uma caverna onde pudesse me abrigar melhor do calor e ter um pouco mais de conforto: mesa, cadeiras, uma cama, tudo escavado na rocha.
Pelo que pude observar, os picos da cratera eram irregulares, muito provavelmente pela erosão ao longo dos milênios. Assim, dividi a altura da borda externa da cratera em quatro faixas:
A primeira faixa seria do topo até o ponto em que a cratera forma um círculo completo, fora a abertura externa que dava para o Mar de Areia. Esse nível ficava muito acima do que eu acreditava que as lâmias jamais conseguiriam escalar. Essa seria a parte do cume.
A segunda faixa ia desde essa circunferência completa até onde as rochas da cratera tinham mais de 20 metros de espessura (algo como a largura de um caminhão cegonha, aquele de transportar carros). Esse seria o meu domínio, a região sem lâmias!! Esta faixa se estendia até onde a cratera começava a ter um declive menos acentuado, ou seja, menos inclinado. Em outras palavras, até onde as lâmias meio que poderiam escalar, mas onde seria necessário ter uma rampa larga o suficiente para que pudessem ir serpenteando morro acima, caso algum dia quisessem ocupar essa zona. Eu chamaria esta a faixa operacional.
Da faixa operacional até onde as lâmias conseguiam acessar atualmente seria a faixa da aldeia, a faixa já ocupada, ou seja, onde seria certo encontrar as lâmias — a zona de livre circulação delas.
Agora, era hora de pôr em prática o plano que eu havia elaborado durante os muitos dias de idas e vindas, enquanto era arrastado pela Sra. Naga para perto e para longe do Mar de Areia.
Aliás, cadê aquela mulher?
Não importava! Não havia tempo para pensar nela naquele momento; eu tinha muito trabalho a fazer!
Para cada faixa, havia uma estratégia de ocupação diferente.
Mais uma vez, como na Tribo dos Chifres: primeiro, controlar a água, ainda mais naquele lugar! A partir da parte superior da faixa operacional (onde a cratera já tivesse uma espessura de 20 metros de rocha), comecei a escavar uma via de 2 metros de largura, mantendo-a nivelada (nem subindo nem descendo), com um leve declive em direção à parede interna da cratera. Isso permitia que toda a água que ali chegasse fosse retida, acumulando-se nesse nível antes de transbordar para a faixa seguinte.
Vista de baixo, essa via não era visível, pois tudo que se enxergava era a borda das rochas. As rochas retiradas eram usadas para preencher o espaço entre os picos na parte externa da cratera, criando uma espécie de barreira contínua. Assim, externamente, a cratera parecia circular, com uma parede vertical que confinava toda a água que caísse dentro dela.
Ou seja, qualquer chuva que caísse dentro da cratera ficaria retida ali, sem perder uma gota para o exterior.
Pelo que a Sra. Naga falou, assim como no nosso Nordeste, há chuvas, mas elas são esparsas e, como o solo é arenoso, não consegue reter a água, que se perde rapidamente, deixando o solo seco novamente.
Outro benefício foi fechar eventuais rotas de acesso à comunidade; as falhas de rocha foram sendo preenchidas de fora para dentro, de cima para baixo, de modo que a cratera – vista de fora – se tornasse cada vez mais circular e com uma parede lisa de cima a baixo, impenetrável.
Toda vez o preenchimento de uma dessas falhas – ou fendas – necessitava de mais pedras, eu iniciava a construção de uma cisterna, um buraco para acumular água quando a chuva chegasse, junto ao lado interno da via no topo da faixa operacional. Assim, evitava movimentar muitas pedras e já ia formando uma rede de armazenamento de água e alimentação do aquífero morro abaixo (afinal, a pedra pode ser bastante porosa).
Cuidei para que, em ao menos um dos lados da cisterna, houvesse degraus, para que a fauna local pudesse descer até a água, mesmo quando ela não estivesse cheia, tal como em poços na Índia.
Eu estava feliz nesse trabalho, especialmente à noite, quando era mais fresco, e já estava na segunda cisterna da via operacional quando comecei a me preocupar com o paradeiro da Sra. Naga.
Onde estaria aquela sacerdotisa?
Tive então de tomar uma decisão um tanto extemporânea, ou seja, de supetão e fora do meu tão querido cronograma de construção da via operacional – que na fase um tinha apenas 1 metro de largura – para poder fazer uma volta olímpica ao redor da comunidade e assim ter um maior controle e observação. Posteriormente, ela seria alargada para os 2 metros finais.
E, assim, fizemos tudo em velocidade supersônica e, em uma semana, consegui circundar a cratera, longe dos olhares de todos, operando apenas à noite. Ao longo do processo, acabei criando mais quatro refúgios para não ter de retornar todo o caminho e me esconder do sol durante o dia. Utilizando minha habilidade de enxergar aqueles que eram fiéis Ao Um, fiz uma varredura pelo vale e fui descobrindo a verdadeira dimensão da comunidade.
Descobri uma pequena chama em um ponto mais afastado, acima do círculo comum, mais próxima à borda da cratera, ou seja, numa posição mais alta que o resto da aldeia, sendo a primeira toca a ser aquecida pelos raios da manhã. Tinha que ser ali! Afinal, assim como na aldeia, a casa do Mestre também era longe de tudo e de todos...
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