De aprendiz de Sacerdote a Sacerdote emAprendizado
7 Confrontação
Escondido entre as pedras, tive minha confirmação. Saindo com os primeiros raios de sol da manhã, lá estava ela, a Sra. Naga, com sua xícara de chá matinal, indo para uma varanda observar o resto do vale acordar. Depois voltava para dentro, só saindo novamente após o almoço para cuidar de uma horta pessoal – a maioria ervas para chá – e nada mais!
Nenhum sinal de interação com o resto da aldeia, pelo menos não no dia que fiquei de olho. Ou seja: se eu morresse, se fosse encontrado ou ainda estivesse lá fora na areia esperando ela voltar para me buscar, claramente, ela não se importaria.
Ficou claro que eu havia sido descartado!
Provavelmente, ela colocou essa travessia maluca no deserto como uma prova para ver se o infeliz poderia ser aceito como seu discípulo, e eu – na visão dessa esquizofrênica – não me qualifiquei...
Naquele momento, senti um certo alívio, pensando: "Ainda tenho chance de aprender, estou vivo e sobrevivi ao teste." Mas então bateu uma bad vibe! E se eu tivesse morrido? Quem era aquela mulher para me abandonar e não assumir responsabilidade por me levar até aquele lugar esquecido por todos? Já se tinha passado mais de uma semana, e ela sequer se importou? Para quê todo aquele planejamento, compra de suprimentos, e a promessa de resgatar a aldeia? Foi tudo mentira? Talvez ela estivesse tranquila porque sabia que eu morreria de qualquer forma; então, por que se preocupar com aquele mestiço?
Meu coração foi se enchendo de amargura e raiva pelas atitudes daquela mulher que – aparentemente – desde o início não me levou a sério. Como alguém pode envolver os outros numa situação assim, de forma tão irresponsável?
Mas enfim, só se passou uma semana, talvez ela ainda acredite que eu sobrevivi.
Respira! Inspira, expira, não pira!!!
O que essa mulher pensa de mim não me define! Ela não determina o meu valor! Eu sei quem sou, sei o meu valor para mim mesmo, sou valorizado pela minha trajetória e avaliado pelos meus valores e não pela opinião alheia.
E bora voltar para as obras; vai que a chuva chegue antes de eu terminar e eu seja pego desprevenido!!!
Isso não! Tenho meu orgulho como sacerdote Do Um e vou cumprir com minha palavra e salvar este vilarejo! Não importa se essazinha acredita em mim ou não.
Assim que voltei para a minha zona sem lâmias, retomei minha rotina de trabalho. Para ser mais organizado, decidi fazer as obras de controle e gestão da água em duas frentes: de cima para baixo e de baixo para cima.
Ou seja: três dias – digo, noites – da semana, trabalho na parte superior, alargando a passagem, fechando as fendas entre os picos, tornando a cratera circular e fechada; de quebra, instalando cisternas nas partes mais altas da cratera (onde as lâmias não conseguiriam alcançar).
E nas outras duas noites, descia para o vale e, partindo do ponto mais distante da aldeia, mas abaixo da faixa operacional (onde as lâmias podiam chegar), ia escavando barragens subterrâneas, como meu avô me ensinou. As noites restantes, dedicava-me a mapear o terreno, entendendo onde e como viviam as lâmias e o que faziam. Afinal, era necessário conhecer o inimigo, digo, alvo – digo, povo – seja lá o que fosse!!!
De forma geral, o que encontrei era uma vegetação composta por cactos (como a nossa Palma do Nordeste), Yucas (como o agave usado para fazer tequila), babosas, arbustos e algumas árvores típicas do cerrado – mirradas, retorcidas e com cascas grossas – além de ervas rasteiras que cresciam à sombra das outras espécies (como pepinos e abóboras).
O mais marcante na paisagem eram as moitas de capim bem fechadas, que abrigavam a base da fauna local: insetos! Sim, formigas, besouros e pulgões, em sua maioria. Estes últimos gostavam muito de ficar nos cactos, absorvendo a seiva em simbiose com as formigas, que cuidavam deles e "ordenhavam" o leite que exsudavam. Em alguns cactos nas áreas mais secas (mais acima no morro), havia colônias de cochonilhas (insetos).
Subindo na cadeia alimentar, vi predadores como lacraias, aranhas e centopeias, que eram as favoritas dos ratos do deserto, com suas longas orelhas e patas traseiras que lembravam minúsculos cangurus, com rabos peludos que ajudavam a dar equilíbrio nos saltos. No topo da cadeia, observei algumas famílias de raposas do deserto, morando em tocas nas camadas mais altas das paredes da cratera.
O sistema como um todo estava bastante estressado, com poucas plantas disponíveis, levando a uma baixa oferta de insetos, e essa escassez criava pressão ao longo da cadeia alimentar.
Voltando para as áreas planas no fim da cratera: se estamos acostumados a ver barragens de rios, onde há água de um lado e nada do outro para formar uma represa, aqui, com solos onde a água escoa rapidamente (como areia), abre-se uma trincheira, uma vala, e coloca-se uma parede impermeável, ou que ao menos diminua a velocidade da água. Assim, a água que ali chega demora mais para escoar, permanecendo disponível por mais tempo para as plantas, favorecendo o desenvolvimento da vegetação.
Ou seja, escolhia um ponto mais alto, mas já no fundo da cratera e, olhando para o sentido onde a água iria escoar (morro abaixo), cavava uma vala que iria interceptar esse fluxo, indo até o mais fundo que conseguia, nesse caso até o leito rochoso.
E aí – usando as pedras que cortei para abrir a estrada ou mesmo abrindo uma galeria ou uma cisterna ali na parede da cratera onde quer que eu estivesse – fazia uma parede que iria atuar como uma barragem, para segurar ou somente diminuir a velocidade da água, fechando depois os dois lados com o solo e ou areia e com a grama (na maioria das vezes).
Assim, ia impedindo que a água fluísse morro abaixo tão rápido, dando início ao que teria sido conhecido no nosso mundo como algo como os Jardins da Babilônia, onde a cada 10 metros se erguia uma parede de pedra para segurar o solo e a água, permitindo que os vegetais tivessem mais água à disposição.
Se o declive do terreno era grande e a barreira saísse acima do solo (formando um terraço), já deixava uma rampa de um lado de 2 metros de largura, para as lâmias poderem subir, e um vertedouro no outro extremo, para o excesso de água extravasar, trocando os lados a cada terraço, ora rampa na direita, ora na esquerda (que era mais alta que a altura do vertedouro), assim a água teria que passar todo o terraço de cima antes de passar para o próximo terraço de baixo.
É a mesma técnica que os Incas usaram nas suas cidades nas montanhas, como Machu Picchu, para criar os terraços onde plantavam batata e milho. Brigadão, YouTube e Discovery Channel!!!
Com isso, esperava poder fortalecer a cadeia alimentar local, favorecendo a vegetação, e assim o crescimento dos insetos, e assim por diante.
A parte ruim desse processo era que, como as fontes de água morro abaixo dependiam dessa água que “desce o morro” para se abastecer, eventualmente, por causa dessas barragens, elas iriam acabar recebendo menos água e poderiam mesmo secar...
Mas isso fica para depois!
Eu já estava nessa rotina há algum tempo, quando aquela pequena voz no fundo da minha cabeça começou a ficar mesmo incômoda.
Será mesmo que aquela mulher realmente nunca me considerou uma real possibilidade de mudança de vida para as lâmias? Quem era ela para me desconsiderar tanto assim? Será que foi porque sou um mestiço? Será que foi porque não sou uma lâmia e ela não confia em ninguém que não seja como ela? Será que ela tentou me matar mesmo, daí ter dado tanta volta nessa viagem, e no final desistiu de tentar me matar de tanto andar de lá para cá no deserto e me abandonou mesmo? Ou será que só cansou de esperar que eu caísse morto, e ela poderia continuar seu caminho com a desculpa de: enfim, eu tentei, ele é que não aguentou... Quem era ela para me julgar e desprezar tanto assim?
Podia ser que tenha sido resultado do isolamento, pois estava trabalhando nessa toada de criar a infraestrutura sozinho já há algum tempo e “mente vazia é oficina do diabo”, como já dizia a minha velha mãe?
Sei que, ao final, já estava começando a imaginar coisas... Enfim, sei que comecei a precisar tirar aquilo a limpo. Parei tudo e fui dar uma conferida naquela sacerdotisa...
Nada parecia ter mudado: chazinho, horta, ainda isolada... Que merda era essa! O que estava acontecendo? Eu precisava saber!!!! EU PRECISAVA SABER!!!
Durante a noite, escolhi uma rocha próxima da varanda da Sra. Naga, usando magia de vento e areia, fiz um furo por onde passei as duas pontas de uma corda, deixando um laço para o lado de dentro do jardim. Me escondi nas sombras e esperei ela sair da sua toca para o momento do chá durante o nascer do sol...
Magia de fortalecimento de força, velocidade, respira e vamos à ação! E lá estava ela, parda caneca na mão! Laço rodando no ar, laço lançado, cara de espanto, puxo as pontas da corda que tinha passado no buraco da pedra. Cara de espanto ainda maior, caneca cai no chão, costas bate na pedra, corda dá voltas no tronco, lâmia presa! Agora eu a tenho!
— Olá, bom dia, tudo bem? Lembra de mim? Tem pensado em mim ultimamente? Ou para você eu já estou morto e esquecido?
Ainda que a língua estivesse ali, vibrando, entrando e saindo daquela boca numa velocidade frenética, a pessoa como um todo parecia que tinha entendido o que tinha acontecido. Acho que demorou uns 15 segundos para a ficha cair, ou seja, ela estava verdadeiramente aturdida em ter sido pega de surpresa; penso que ela nunca iria imaginar essa possibilidade, de ser atacada no seu refúgio...
Nesse processo todo, a ordem dos pensamentos que estavam correndo de um lado para outro na cabeça da Sra. Naga ficou bastante clara, de como a cara dela passou de espanto, para perplexidade, para raiva mesmo.
— Seu mestiço, me solte! Seu impuro! Quem você pensa que é?
E aí tive minha resposta...
Não precisava mais de nada para saber o que tinha – realmente – acontecido.
Como diz a música: “o homem roubado nunca se engana”. E racismo é sempre claro para quem sofre, e quase nunca para quem pratica. E para mim, não precisava de mais nada para saber o que aquela cobra estava pensando!
Como se diz lá na comunidade: ou você é meu amigo, ou meu inimigo. E a Sra. Naga já se posicionou com a devida eloquência e acima de qualquer dúvida!
Agora era o tempo de agir! A minha inimiga estava sob minha custódia, quem tentou me matar agora estava sob a minha mercê! Agora a coisa toda tinha mudado de figura!
Era a hora da onça beber água, hora da presa determinar o destino do predador! Bastava decidir o que eu faria, agora que estava com a faca, o queijo e a raiva na mão: matar a minha inimiga declarada? Deixar essa tentativa de assassinato passar batida? Viver pensando quando é que ela iria tentar novamente?
Como eu ainda não tinha respondido a nenhuma das suas ameaças, a lâmia continuava com o palavreado agressivo, alternando entre uma língua frenética e uma boca aberta cheia de dentes tentando me morder, dar o bote, gritando em gritos chiados de raiva:
— O que você está pensando? Eu sou uma sacerdotisa, seu caipira dos quintos dos infernos! Me desamarre antes que eu decida te mostrar o peso da minha ira! Seu mestiço peludo e fedido, aliás, fedido mesmo! Quanto tempo faz que não toma um banho decente? Você está mesmo mostrando o quanto impróprio você é para ser chamado de um sacerdote! Quem poderia confiar os ensinamentos Do Um a um ser tão insignificante como você?
A partir daí, penso que ela mesma não me deixou lá muita alternativa. Com a série de insultos que aquela cobra ia vomitando, a raiva foi só aumentando e aumentando e eu não pude segurar mais: explodi!
Ainda com a magia de fortalecimento e de velocidade bombando, diminui a distância entre nós! Segurando o queixo dela com força, empurrando para cima, para calar mesmo a boca daquela cobra. Pressionando a cabeça contra a pedra, cada vez com mais força, até que ela – finalmente – ficou quieta, nem mais a língua saia para me confrontar. E aí – finalmente – chegou a minha hora de falar!
— Um sacerdote é aquele que faz a vontade Do Um, que cuida dos seus filhos, de todos eles! E você claramente não se qualifica nesse quesito. Além do mais, eu tenho que decidir o que fazer com você, de forma que não necessite me preocupar se você vai – ou não – se colocar no meu caminho enquanto eu atendo à vontade Do Um e faço o meu trabalho aqui nessa aldeia. Agora eu vou soltar você, pense no que vai falar, pois isso pode afetar – e muito – a decisão que vou tomar, está claro?
E assim, num ato de fúria, quase inconsciente, sem nunca soltar aquela mandíbula, crispada de raiva, fui absorvendo toda a vitalidade, toda a magia daquela cobra, levando tudo a quase zero mesmo.
Levado pela raiva crescente dentro de mim, lembrando de tudo o que ela havia me feito passar, não conseguia mais parar. Fui absorvendo e absorvendo, absorvendo, até que a magia abandonasse totalmente aquele corpo. Eu quase não consegui me controlar, mas enfim, parei quando a vitalidade estava também bem pequena!
Tão logo soltei a mão da mandíbula dela, ela começou a recitar alguns encantamentos e claramente estava tentando usar a magia para se libertar das cordas. Agora era mesmo terminar de amarrar a corda, me sentar e esperar até acabar a pouca energia restante e deixar essa cobrinha perceber sozinha o quanto a situação havia mudado.
Já estava com o Sol iluminando tudo ao nosso redor quando fui até aquela pessoa já cansada e, novamente pegando pelo queixo, levantei a cabeça da Sra. Naga e perguntei:
— E aí, cansou? Já percebeu que a magia lhe abandonou, certo? Esse vai ser a sua punição. Como um sacerdote, eu me sinto desconfortável em matar um dos Seus filhos, então me agradeça pela minha consciência. Ainda mais nessa situação, em que estamos com uma diferença tão grande de forças.
Mesmo sem magia, amarrada, ela continuava tentando me morder, e dava para ver aqueles dentes caninos grandes e afiados tentando mesmo me abocanhar e enfiar o quanto de veneno pudesse. Ela realmente não se dava por vencida! Ela só parava de tentar me morder para continuar proferindo seus insultos: impuro, rejeitado, sem bênção, fedido (isso de novo?). E isso, é claro, reacendeu minha raiva! Tentando me controlar, eu retruquei da melhor maneira que pude:
— Eu espero que você continue tão isolada e distante de tudo e de todos como tem sido até agora. Reflita sobre seus atos e, quando eu achar relevante, talvez eu venha a ter uma nova conversa com você.
Mas ela continuou a me insultar e insultar:
— Você vai ver, se vou sair daqui, e quando eu sair, você vai se arrepender do dia em que eu coloquei meus olhos em você, seu impuro. Eu vou corrigir esse erro Do Um, farei de tudo para que você nunca mais seja visto ou lembrado!
Meio que para aplacar minha raiva, minha frustração e a indignação de ter ficado com essa coisa como professora (tão diferente do Mestre), com uma violência proporcional à minha raiva, peguei a cara daquela lâmia frustrada e cansada com as duas mãos, para evitar que pudesse me morder e, usando o copiar e colar, absorvi todo o conhecimento que ela tinha acumulado ao longo de toda a sua vida.
O resultado eu não poderia esperar! Pois a torrente de informação foi tão acachapante, tão grande, que eu fiquei completamente atordoado. Cambaleando, me afastei e, colocando a mão na minha testa, percebi que iria ter uma dor de cabeça daquelas...
A minha consciência começava a me abandonar e os conhecimentos iam ocupando a minha mente cada vez mais rápidos, fazendo com que eu começasse a ficar cada vez mais tonto, com o olhar ficando embaçado. Eu tinha certeza de que iria desmaiar, só não poderia ser ali...
Subindo como um bêbado pela tontura da absorção de tanto conhecimento, cambaleando, fui de volta para a região livre de lâmias, busquei um dos refúgios e me preparei para passar alguns dias tentando entender todo aquele conhecimento que inundava meu cérebro.
Quase rastejando, mal consegui chegar, e tão logo me deitei, desmaiei para um sono tumultuado e nada confortante. Não sei quanto tempo fiquei desacordado; já era dia, mas de que dia? Quanto tempo fiquei aqui deitado? Meu estômago roncava, minha boca estava seca, não fora pouco o tempo que fiquei apagado nesse estado deplorável. Por essa eu não esperava...
Será que aquela cobra tinha conseguido sair das cordas? Será que a deixei para morrer desidratada no sol escaldante, como ela fizera comigo? Bem, que se assim fosse, que assim tenha sido! Olho por olho, dente por dente, Talião não teria dito menos!
Agora, eu estava mesmo fedido; nisso, aquela cobra estava certa! Acho que me esforcei demais, além da conta. A partir de agora, teria um dia da semana para descanso e limpeza, das roupas e do corpo.
No meu caso, eu iria me permitir uma extravagância: um banho, sim, um banho em água! Mesmo de banheira, e depois de me lavar, usaria a água para lavar a roupa e, depois, liberaria a água para descer o paredão e ir alimentar as poucas ervas que cresciam aqui e ali.
E assim chegou o fim do meu primeiro mês na cratera onde ficava a comunidade das lâmias, a aldeia perdida da Tribo das Escamas Silenciosas.
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