Notas iniciais
Dessa maneira, então, Mário e Nina se amaram desde a meninice. Engatinhavam entre os adultos buscando restos de frutas, ou chupavam o caroço de uma manga para matar a fome. Quando o apetite era além do normal, fazendo o estômago roncar, eles chupavam ossos, sentados entre a imundície, pois os adultos eram carnívoros e assavam a carne entre brasas quentes, num buraco no chão. De preferência coelhos, cujas peles serviam como colchão para dormir durante as noites. E tinha vezes que eles também comiam baratas, formigas e minhocas.

A tribo das “cobras sapiens” havia mudado bastante durante esses 150.000 anos. Elas não rastejavam como antigamente, pelo contrário, caminhavam sobre duas pernas firmes e bem torneadas. Possuíam cabelos, rosto com nariz empinado, queixo proeminente, e uma boca sensual. Das mães cobras tinham herdado as manchas coloridas e escamas que as protegiam do frio, das chuvas, e principalmente das picadas de outros bichos. Com a inteligência herdada dos homens, havia-se inventado um dialeto de poucas palavras. Também já possuíam certa organização social. Quem mandava eram os homens, cuja proporção era de um macho para cada duas fêmeas, o que dera origem à bigamia. Como desta vez havia companheiras para todos os machos, as mortes pela disputa de uma consorte não existia mais. Eles se matavam por disputa de território, ou de comidas, ou de ciúmes. Fidelidade era inexistente, tanto no lado masculino como no lado feminino.

Tiago enfrentou essa reencarnação, resignado ao seu destino.

A promessa dos Anjos de fazê-lo sobreviver foi à última coisa que ouviu antes de sua alma ser sugada pelo ventre de uma fêmea. Imediatamente ele entrou na inconsciência, com uma sensação gostosa, como se flutuasse mais uma vez no espaço. Todo seu espírito ficou dentro desse útero como se estivesse rodeado de uma nuvem de gás.

Enquanto isso, bem distante dali, Fernanda nascia numa caverna bastante arejada de um desses raros casais que se amam de verdade. Ela saiu dessa barriga como uma bala, e caiu nos braços de uma parteira. Seus irmãos em redor gritaram um: — “Oiiii” muito longo, pois era a mais bela criança já nascida naquele lugar.

Nina, pela sua vez, nasceu de um casal briguento, cujos filhos morriam de desnutrição antes de atingirem a adolescência. Mamou dos seios com dificuldade, pois assim que sua mãe deteve o sangramento, engravidou de mais um filho.

Mário nasceu como seu primo, da mesma família, para cuidá-la desde a infância.

Dessa maneira, então, Mário e Nina se amaram desde a meninice.

Engatinhavam entre os adultos buscando restos de frutas, ou chupavam o caroço de uma manga para matar a fome. Quando o apetite era além do normal, fazendo o estômago roncar, eles chupavam ossos, sentados entre a imundície, pois os adultos eram carnívoros e assavam a carne entre brasas quentes, num buraco no chão. De preferência coelhos, cujas peles serviam como colchão para dormir durante as noites. E tinha vezes que eles também comiam baratas, formigas e minhocas.

Essa falta de cuidados com os menores matava crianças aos milhares, às vezes de fraqueza generalizada, envenenamentos, ou, infecções. Principalmente, a peste da urina do rato, e outras endemias tão terríveis quanto ela, os quais ocasionavam extermínios irreparáveis. Quem sobrevivia à infância, morria na adolescência através do assédiol. Como as famílias viviam amontoadas, irmão com irmão, pai com filhos, tios, primos, os adultos durante a noite defloravam quem estivesse mais perto. As meninas perdiam a inocência entre gritos, que ninguém prestava atenção. Eram indiferentes ao sofrimento, pois não existia adulto que não houvesse sido abusado quando menor. Quem sobrevivia aos sangramentos e infecções, geralmente fugia com amigos daquele inferno.

Quando Mário foi pego de surpresa por um tio, que o carregou fora da caverna com a boca tampada. Nina sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Depois, começou a ficar tonta, pois o medo começou a paralisá-la. Enrolou uma grossa pele de urso, de cor preta e branca, e foi carregando pedras enquanto saía da vila atrás de Mário. Caminhou na escuridão, escutando seus gritos entre as matas, pois ele estava sendo torturado sem pena. Na beira do rio, encontrou Mário desmaiado de dor. Nina fez um emplasto de lama negra, em seu amado, pois ele sangrava sem parar. Depois se abraçou a Mário chorando, enquanto se perguntava o que é que iriam fazer.

Longe dali, Fernanda era vigiada pelos pais de dia e de noite.

Sua casa era de barro, com telhados de folhas, e nessa comunidade as havia uma ao lado da outra. Seu pai mantinha uma fogueira acesa durante a noite para espantar bichos e bandidos. O destino de Fernanda nessa vida seria casar durante a infância, para ter um varão que cuidasse dela. Ela viu suas irmãs formando uma família e ela ficou na espera, solitária, sem sequer saber quem é que ela estava aguardando.

No dia em que um casal de adolescentes fugitivos entrou na sua casa, ela imediatamente teve um pressentimento sobre seu destino. Viu a guria de cabelos vermelhos arrepiados, acompanhada de um rapaz de cabelos tão arrepiados quanto os dela, e teve uma sensação estranha. Era como se os conhecesse a vida toda. E Fernanda, cujo coração estava apertado de excitação, escutou-os contar sua história enquanto a família lhes providenciava um lugar para dormir. E tarde da noite, iniciaram uma longa conversa. Nina contou-lhe que iam a caminho do desconhecido. E Fernanda falou interrompendo-a:

— Eu quero ir com vocês... Meu tio diz que indo para o Leste há um deserto cheio de frutas, completamente desabitado. Ele tenta organizar uma fuga em vão. Todos os adultos têm medo dos bichos gigantes... Dizem que há ursos cujo tamanho é o de três homens...

Mário lhe respondeu:

— Mas tu não podes ir conosco sem um companheiro...

— Eu sei... Mas neste lugar não existe nenhum marido para mim... Não tens um amigo lindo, como tu, para me apaixonar?

— Não, eu acho que sou o único...

Nina interrompeu-a com uma pontada de ciúmes:

— Hum, não dá atenção, tem muito homem lindo sim, e eu posso te acompanhar e procurar em todos os lugares que desejares.

Mário quase gritou:

— Vocês sozinhas não vão a lugar algum... Saímos nós três de madrugada, quando todos os homens estiverem dormindo. Vamos fazer um mapa e percorreremos todas as vilas. Uma por uma... Estás em busca de quem?

— Não sei! Mas sonho sempre com ele, é lindo, alto, e o homem mais doce da terra...

Nina falou de novo:

— Nossa, minha amiga! E se estás sonhando com um fantasma que já morreu?

— Então estou ferrada...

E gargalharam com gosto, pela primeira vez.

Depois de 15 dias, encontraram Tiago estendido entre uns rochedos perto do rio, à beira da morte. Fernanda sentiu seu peito apertado, pois aquele rapaz era com quem sonhara toda sua vida. Rosto perfeito, mais parecia rosto de mulher. Boca sensual, que assim que a viu chegando perto dele, falou olhando para o céu: — Obrigado! Em seguida, olhou para Mário e desmaiou como morto.

Imediatamente, os três fizeram uma cama de peles com dois paus firmes e o carregaram, Mário na frente e as duas na parte de atrás. Beirando o rio, se esconderam nuns rochedos altos, para cuidar do ferido. Fernanda abriu sua sacola com ervas para fazer sua primeira cura, como aprendera com sua mãe. Amassou folhas, fez uma bebida, enquanto Mário descia ao rio em busca de lama negra para abaixar a febre, e de água fresca para beber.

E, durante um mês, Tiago lutou contra a morte.

Ele estava com gastrite, anemia, por causa dos sangramentos das feridas, e respirava com dificuldades. Para tirá-lo da morte, Mário percorria o mato em busca de leite de cabras, ovos frescos e frutas, que carregava dentro de cestos cujas fibras eram untadas com cera de abelhas. Nina preparava frutas amassadas sobre pedras e as colocava por cima de folhas grossas. Fernanda lhe dava na boca, quando ele acordava, gemendo de dor. Quando Tiago pedia para evacuar, Mário o carregava para longe, e depois o limpava com folhas de bananeira, pois esse era o costume. Em seguida, o carregava ao rio para se lavar. O dia em que Tiago falou que podia se limpar sozinho, Mario soube que finalmente ele estava curado.

E, pouco a pouco, ele foi ficando cada vez mais forte, e apaixonado.

Fernanda era tão linda, que um dia a tocou como se fosse um anjo. Acariciou lhe o rosto e a seguir deu-lhe o primeiro beijo. Fernando colocou os braços ao redor da cabeça, para acaricia-lo com doçura, e se amaram com ânsia até o amanhecer.

Numa noite de lua cheia, comendo as delícias do rio, os quatro amigos desenharam no chão um mapa, e planejaram com calma a longa caminhada de fuga.

Viajariam ao amanhecer, se esconderiam ao entardecer, e fariam tendas cobertas com folhas. Costurariam quatro mochilas de peles de coelho, e as carregariam nas costas. Levariam junto duas mantas de peles grossas, uma panela de pedra sabão pequena, os cestos, e lanças com ponta de pedra para enfrentar assassinos. Amar-se-iam onde fosse possível.

Foi assim que um dia os homens colocaram cuecas de couro, costurada pelas mulheres, prático para caminhar e que os protegeria do frio. Elas vestiram uma calcinha até a cintura, um sutiã, e uns chapéus de palhas. Sem sapatos, pois os pés já eram duros e calejados.

E os quatro caminharam em busca do Paraíso. Tiago de mãos dadas com Fernanda, enquanto Mário e Nina apagavam os rastos no chão. Cruzaram o deserto e chegaram às montanhas. Subiram pelas trilhas de terra deixada pelos animais. Em momento algum, enquanto os quatro subiam às encostas, qualquer bicho os atacou. Os enormes ursos de cor preta e branca eram tão pacíficos, que podiam dar-lhes folhas na boca sem medo. As cabras por sua vez os deixavam tirar seu leite, e podiam pegar todos os ovos que encontravam, sem serem atacados por ave alguma.

E lá em cima, no topo das nuvens, acharam uma comunidade belíssima, que vivia pacificamente nos altos cumes dessas elevações. Eles possuíam casas de madeira, vestiam roupas de linho e algodão, sapatilhas amarradas nos tornozelos, e os cabelos eram penteados com graça. Homens que quando os viram chegar levaram um susto, pois ninguém sabia da existência dos outros povos. E como nessa aldeia se falava um dialeto diferente, com muitas palavras, levou muito tempo poder contar a todos sobre as características selvagens da civilização das planícies.

A descrição detalhada da existência dos povos assassinos tirou a paz dos velhos e dos adultos de toda essa comunidade. Mário e Tiago desenharam um mapa no chão com a exata localização, pois os homens desse povo só haviam chegado até as areias do grande deserto. Nunca haviam se aventurado além dele com medo da morte. E tudo foi escutado por esse povo com a máxima atenção, pois o mundo de repente havia ficado diferente. E o que era pior, perigoso de se explorar.

Com medo da descendência assassina, Tiago e Mário foram levados até o curandeiro, que lhes fez uma pequena incisão nos testículos para não terem filhos. Como recompensa lhes foi construída uma casa para cada casal no centro do povo, e lhes pediram para nunca regressar. Afinal, havia duas civilizações, que nunca poderiam se conhecer.

Nos anos seguintes, a história de vida dos quatro amigos era contada noite após noite, em reuniões e festas. Como essa era uma comunidade alegre, nos fins de tarde os mais velhos reuniam os mais jovens para lhes contar lendas e fábulas. Histórias que eram narradas de boca em boca, de geração a geração. Contavam-se historietas de cobras que raciocinavam, e de peixes que caminhavam sobre a lagoa em noite de lua cheia, e também sobre a “origem dos homens”. Eles relatavam que todos os humanos haviam saído do ventre de uma cobra gigante, e era por essa razão que todos os homens tinham a pele manchada como elas.

E uma vida diferente, mais uma vez recomeçou.

Tiago e Fernanda casaram frente a um “pajé”, cuja vestimenta se compunha de um manto de peles de urso nas costas, que os fez declarar que seriam fiéis um ao outro, e que compartiriam juntos a dor e a felicidade. Depois, foi a vez de Nina e Mário prometerem as mesmas coisas, num casamento duplo que agitou esse dia. Bailaram ao ar livre com música de cordas, flautas e batuques.

Depois das bodas, eles ficaram isolados, para uma lua de mel sem fim, dentro de sua própria casa. Afinal, eles possuíam desta vez um colchão de penas de galinhas, quentes, macias, e se cobriam com um cobertor de lã grosso que os fazia suar. Uma delícia para quem dormira sempre no chão, e tampado com uma pele fedorenta.

E só a fome os tirava dessa cama, pois fazer amor, mais uma vez, virou o único vício de suas vidas. Vestiam roupas quentes, saíam de casa, e recolhiam cogumelos, batatas, ervilhas, tomates, cebolas, para fazer um ensopado, pois ninguém comia peixe nem camarão nesse povoado. Todos eram absolutamente vegetarianos.

Notas finais
Com medo da descendência assassina, Tiago e Mário foram levados até o curandeiro, que lhes fez uma pequena incisão nos testículos para não terem filhos. Como recompensa lhes foi construída uma casa para cada casal no centro do povo, e lhes pediram para nunca regressar. Afinal, havia duas civilizações, que nunca poderiam se conhecer.