De amor e de sangue. Primeira parte
11 Os trombadinhas
Notas iniciais
Quando os espíritos de Tiago e Fernanda alcançaram as alturas, não encontraram nenhum amigo conhecido. Miguel contou-lhe que lhes dera a todos 300 anos de descanso, e estavam perdidos pelo Universo. Rumaram então para “W”, pois esse planeta os havia conquistado em definitivo. Deitaram sobre a areia de uma praia quente e macia, e seus espíritos começaram a desfrutar as delícias do amor perfeito. Depois correram entre as ondas como guris, nadaram, mergulharam, cavalgaram sobre animais peludos, enquanto o tempo transcorria, tanto na vida, como na morte. E se amaram de todas as formas, até o dia em que uma voz os chamou a encarnar de novo.
Regressaram felizes, pois estavam com saudades dos amigos. Era a primeira vez que estiveram perdidos do grupo durante a morte.
Quando chegaram ao planeta, todos os amigos falavam sem trégua, atropeladamente, pois a futura insurreição estava se delineando nos mínimos detalhes.
Abelardo já havia encarnado, estava bilionário, pronto para ser o pai da Fernanda. Já Nina nasceria como sua prima, e filha do irmão de Abelardo. Eloísa e Simone seriam suas vizinhas, e Rosa seria filha de uma governanta, que servia a um homem muito rico e pagava educação para os filhos de seus empregados. As ex-professoras também viriam ao mundo como garotas elegantes e perfumadas. Agora todos os machos teriam vidas humildes como na vida anterior, e cuidariam uns dos outros.
Entre risadas e mimos, Mário olhou para Miguel e perguntou-lhe:
— Porque mais uma vez temos que nascer pobres, cara? Se nascêssemos ricos, teríamos todos nós mais poder...
— Poder de quê? Fama? O pior inimigo é a fama. Morreriam aos sete anos... Não passariam disso... Seriam sequestrados, e mortos em troca de resgates. Ou, seriam assaltados na rua, roubados e assassinados. Revolucionários têm que nascer na sarjeta. Dessa maneira, ele é invisível, e consegue chegar à velhice.
Mário levantou os braços, e falou:
— Fazer o quê? Tu como anjo deves ser mais inteligente do que todos nós...
Reginaldo completou:
— Eu tenho minhas dúvidas...
As gargalhadas dos homens irromperam em uníssono. Chatear Miguel havia virado hábito. Ele era apenas mais um amigo nas alturas. Só criancinhas o admiravam como um ser iluminado, ou rezavam para ele durante a vida.
Rindo desses gozadores, Miguel deu-lhes mais um abraço e viu-os partir.
E nasceram um a um, com a certeza que desta vez terminariam com a desigualdade social, pois apesar da ciência e da tecnologia terem evoluído muito, a conduta humana continuava comparável à Pré-história. A consciência dos homens era dominada pelos instintos da besta. E, o que era mais sinistro, os inimigos governavam com mão de ferro em cada canto conhecido desse imenso planeta.
No dia em que Fernanda veio ao mundo, Abelardo inaugurava um Banco, para guardar seu dinheiro, e o dos amigos, cobrando juros pequenos. Além de ser dono de um Banco, Abelardo era sócio do pai de Nina, em três Metalúrgicas. Desta maneira, elas cresceram mimadas, amadas, e só saíam de casa em limusine, cujo motor era movido com óleos combustíveis. Afinal, eram tempos modernos. A humanidade fabricava motores a diesel, e além dos carros existiam bondinhos sobre trilhos elétricos, e bicicletas. As carruagens puxadas por animais eram exclusivas dos colonos da roça.
E o luxo não tinha limites desta vez. Todas as cidades mostravam mansões deslumbrantes, com famílias abastadas e elegantes. As residências eram cheias de conforto. Em seu interior, havia camas macias, lareiras com lenha, mobílias enfeitadas com gosto, e tecidos coloridos, que caíam com graça e beleza em janelas admiráveis.
Todas as cidades eram enormes desta vez.
As havia na beira-mar, em muitas ilhas, e além da selva indo para o norte. Mas o reinado ficava onde sempre estivera. Na cidade mais antiga do planeta.
Mas, a pobreza e a miséria continuavam a existir, em cada canto desse mundo. E foi entre essa gente marginalizada que nasceram Mário e Tiago. Mas, eles nunca passaram fome nem frio, pois a humanidade tinha pena dos miseráveis e levavam-lhes comidas quentes à noite, e roupas usadas. Cresceram sujos, fedorentos, mas com muitos amigos com os quais brincavam de bola num terreno baldio. Eram mais ou menos 200 guris farroupilhas, magros, que seguiam Mário e Tiago como líderes. À medida que cresciam, os meninos percorriam as ruas em bando, pediam esmolas, e também roubavam muita coisa.
Reginaldo era o maior ladrão de roupas, de todas as lojas.
Entrava sem ser visto e saía bem-vestido, assobiando com cara de inocente. Depois, tirava calças, blusas, cuecas, trajes escondidos que repartia com todos. Mário era ladrão de comidas. Penetrava nos restaurantes pelos fundos, e apanhava das cozinhas o que havia de melhor. Pratos fumegantes e gostosos, sanduíches suculentos, ou pizza, que os amigos devoravam com alegria. A turma se amarrava numa pizza de queijo derretendo na boca. Fabiano e Tiago eram os espiões, que vigiavam as redondezas, e assobiavam para sair correndo, quando apareciam as patrulhas de soldados.
Mas, a alegria acabou, quando os líderes do grupo foram presos, e encaminhados até o “Reformatório Estadual”.
E foi naquele lugar que eles encontraram, novamente, o inferno desta vida.
Havia nesse recinto imundo 5.000 crianças entre os 5 e os 18 anos, cujos garotos maiores já eram assassinos cruéis e sanguinários. Eles mandavam naquele lugar, e quem não se curvasse era severamente castigado. Como a fama de Tiago e Mário já era conhecida pelos marginais, assim que entraram no Reformatório, os dois foram marcados para morrer.
A primeira vítima foi Tiago.
Ele foi imobilizado enquanto dormia, sua boca foi tampada com um pano, e três guris caíram por cima dando pancadas, pontapés, enquanto um rapaz mais velho puxava uma faca. Mário acordou a tempo, o suficiente para evitar as facadas fatais sobre seu amigo. Enquanto Fabiano carregava Tiago para lugar seguro, Mário e Reginaldo caíram por cima dos agressores, com mais 20 amigos que acordaram aos berros. O que aconteceu depois foi uma pancadaria geral, com paus, facas, socos, pontapés, que acabou quando os soldados, chamados às pressas, chegaram para deter o arranca-rabo. Tiago foi encaminhado ao hospital, em estado grave, Mário e Reginaldo para a Enfermaria, Fabiano foi isolado numa cela, junto com seus primos Carlos e Augusto, e o resto foi castigado pelos soldados, com chicotadas nas costas, como era o costume nesse lugar.
O acontecimento ficou famoso, correu de boca em boca pela cidade, e foi publicado nas ruas com cartazes, e através de panfletagem. Quando Abelardo comentou o assunto com Fernanda e Nina, elas imediatamente choraram na frente da família, pedindo ajuda para esses pobres rapazes. E como não souberam dizer quem é que desejavam salvar, Abelardo, e seus amigos filantropos, pagaram matrícula na melhor escola da cidade para 80 moleques desse Reformatório.
A chegada dos “fedorentos” nessa Escola arrepiou tanto aos alunos quanto aos professores. Eles entraram “carecas” nos chuveiros, pois ninguém estava a fim de se contaminar com os piolhos dessas cabeças imundas. Também tomaram vacinas contra tuberculose, contra sarampo, contra Aids, xaropes para vermes, e uma raridade, todos tiveram que visitar o “dentista” para arrancar dentes podres e consertar os mais sadios.
Uma vez limpos e bem-vestidos, foram encaminhados à Primeira Série, pois eram todos analfabetos com idade média de 12 anos.
Depois desse primeiro susto da chegada, os docentes passaram a dar-lhes mais atenção, pois em pouco tempo descobriram que Mário, Tiago, Carlos, Fabiano, e mais 22 guris eram gênios natos. Eles aprendiam ligeiros e depois ensinavam para Reginaldo, Augusto, e os outros rapazes que chegaram junto com eles. Todos os sabichões liam grandes livros das estantes da Biblioteca, cujas pesquisas os induziram, em pouco tempo, à ciência mais avançada.
Tiago encontrou Fernanda na Biblioteca, com os longos cabelos presos na nuca, lendo com dificuldade um livro antigo de Paleontologia. Tiago sentou ao seu lado, e começou a esclarecer para ela que as ossadas das cobras gigantes, cujo desaparecimento ocorrera com uma peste curiosa, tinham mais de 175.000 anos de antiguidade. Fernanda corou de emoção, e depois saiu correndo sem falar nenhuma palavra.
Mário, Carlos e Fabiano encontraram Nina, Simone e Eloísa no Laboratório de Química, misturando sais minerais numa cumbuca de vidro. Elas enviaram-lhes um beijo no ar, e depois continuaram de cabeça baixa, pois nessa Escola as mulheres não falavam com os homens.
O pior momento foi vivido por Reginaldo.
Assim que viu Rosa na sua frente, avançou, abraçou, e deu-lhe seu melhor beijo de todas as vidas. Foi levado para o “Templo de Guilherme”, onde teve que dar chibatadas, nele mesmo, frente a 5 sacerdotes, por cometer o pecado da “Luxúria”. Rosa apenas foi forçada a lavar a boca com sabão, e rezar 200 orações pedindo clemência para a “Deusa Ana”.
Finalmente, os amigos entenderam sobre o acontecido nas aulas de “Religião”, cujo catedrático falava que o namoro era o culpado de todas as dores do mundo. As enfermidades venéreas como a sífilis, gonorreia e Aids eram doenças mortais, pois os Deuses queriam ensinar aos homens que a “Luxúria” era a maior das perversidades. A volúpia seria permitida apenas após o casamento, e depois de exames médicos, cujo teste demonstrasse que não transportavam nenhuma doença venérea.
No dia em que Tiago perguntou para o professor de Religião o motivo pelo qual nenhum miserável fazia exame médico para casar, e depois se multiplicava como ratos, gerando bebês com Aids, ou com tuberculose, ou, os matando de fome, ele foi levado para a Direção da Escola, e foi punido por insolência. Durante uma semana, ficou trancado no “Templo de Alberta” rezando, dormindo no chão, bebendo água e comendo pão.
Fabiano recebeu seu castigo, no dia em que os professores falavam sobre a evolução das espécies. Os animais evoluíam, mas o homem era um ser superior, gerado pelos Deuses. O “Deus Olaf” havia misturado terra com água, modelado um homem, e com um sopro divino dera-lhe a existência. A “Deusa Ana” então puxara uma costela desse ser, para dar vida a uma mulher. E eles haviam sido castos, até a idade em que decidiram cometer o pecado da luxúria. O “Deus Guilherme”, então, o mais poderoso de todos os Deuses, os condenara a viver no deserto como castigo. E era dessa maneira que nascera a perversidade, a dor, e a angústia humana.
Fabiano rebateu que as manchas na pele de todos os homens, eram sinais evidentes de que o homem descendia diretamente das cobras, e, portanto, todos eles nessa sala eram também seres animalescos, em mutação. E que essa história dos “Deuses” era a coisa mais absurda que se ensinava naquele lugar. Ele teve que praticar as rezas, dar seus próprios açoites, além de lavar a boca com sabão por falar “heresias”.
Depois disso, eles entraram na linha, pois combater a religião era impossível. Os sacerdotes eram os donos da maioria dos educandários desse planeta, e dominavam o povo muito mais do que os governantes. Aliás, todo Rei era coroado pelos clérigos. E depois da coroação, o Rei nominava dois eclesiásticos para se aconselhar.
Gênios inteligentes nada podiam fazer contra a doutrina. Os vigários determinavam de que maneira os homens deviam se vestir ou, o que deveriam comer, e quantas vezes ao dia deviam rezar. E, o que era mais importante ainda, deviam entregar 20% de seu ordenado para as igrejas. Quem não pagava, era açoitado nas prisões desse mundo. Mulher que não obedeciam às leis da igreja era castigada de forma ainda pior. Tinha as que morriam se chegassem a ter relações amorosas antes de casar.
Foi por tudo isso que Tiago convenceu os amigos a não colocar em perigo as amadas. Olhavam-nas de longe, aguardando com paciência elas crescerem para poder pedi-las em casamento. Estudaram bastante, e registraram muita coisa que descobriram nas suas pesquisas.
E um dia, finalmente, receberam o diploma universitário numa cerimônia solene.
Tiago e Mário formaram-se Engenheiros, Fernanda e Nina Médicas, Fabiano e Eloísa Biólogos, Simone, Reginaldo, Augusto e Rosa Professores, Simone e Carlos Arquiteto, e o resto dos amigos do Reformatório, nas mesmas profissões.
Ainda vestindo a toga da formatura, Tiago pediu para Abelardo a mão de Fernanda em casamento, alegando que um dia a mais sem beijá-la o faria morrer do coração. Abelardo o abraçou sorrindo, e prometeu comprar-lhe uma casa como presente de casamento, pois não queria sua filha passando necessidades. Fabiano, Carlos e Mário repetiram a receita, e uma semana depois, os 8 estavam casando no “Templo de Alberta”, numa cerimônia múltipla, com uma baita festa, pois os pais das meninas convidaram a nata da sociedade para o evento.
Reginaldo e Rosa casaram quando Reginaldo conseguiu emprego como professor no ensino básico, e como treinador em futebol na Universidade. Ambos fizeram um “Curso para noivos” junto aos sacerdotes. Foi quando o vigário lhes ensinou que a relação amorosa era só para procriar. Reginaldo deveria deflorar a esposa a partir do décimo dia, após a menstruação. No máximo 7 vezes, uma vez em cada noite. Se ela não engravidasse, deveria esperar até a próxima menstruação, para repetir tudo mais uma vez. E se ela nunca mais sangrasse, era porque estava prenhe. Nesse caso então, ele teria que esperar até depois desse filho nascer.
Tiago e Fernanda, que também completaram o “Curso para noivos” além de uma bateria de exames médicos, subiram num barco a vapor para percorrer as Ilhas, numa longa viagem de lua de mel, e onde pudessem cometer todos os pecados da luxúria.
No interior de um dormitório de luxo, se deram o primeiro beijo desta vida. Depois não conseguiram ter relações amorosas, pois por um estranho motivo todas as recém-casadas demoravam me média um mês para engrevidar.
Mário e Nina, que passavam pelo mesmo sufoco, falou para Nina:
— Existe algo errado, meu amor. Você foi operada quando criança?
— Fui! Minha mãe me levou até uma médica que me fez alguma coisa entre as pernas. Nunca soube o quê. Ela é muito crente. Obedece aos sacerdotes cegamente.
— Devem ter costurado.
— Não acredito! Agora me explico porque as mulheres sangram tanto quando dão à luz. Todas se rompem. Tem as que recebem 10 pontos de sutura. Como é possível?
— Mas, e o povão? As mulheres das favelas?
— Nenhuma. Essas parem que nem coelhos... Mas ainda não acredito, para que fazer isso?
— Para evitar a felicidade. Povo que sofre vai rezar na igreja a se consolar com os Deuses.
— E entrega a grana para os vigários! Mas, que safados! O que vamos fazer?
— Chame Fernanda e aja. Depois vamos operar a todas as mulheres ricas.
— Isso! Vou refazer a todas minhas amigas. E a nossa viagem de lua de mel começa quando?
— Partimos ao amanhecer. As mochilas já estão no jipe junto com a barraca de lona. E não se esqueça de que deve me fazer feliz o tempo todo. Quero beijos e chamegos tempo todos.
Quando vestiram roupas novamente, escolheram uniforme de cavalaria, pois era a única vez que uma mulher usava calças. Quando se vestia para cavalgar. Os homens haviam adestrado cavalos, trazidos de ilhas além do mar, e corriam sobre as bestas em esportes empolgantes. O mais belo era o jóquei, que Mário começou a jogar na Universidade.
E foi assim que uma viagem de jipe para as cordilheiras começou, sem avisar nada para ninguém, pois a “Morada dos Deuses” havia virado mito santificado.
Lugar imaginário na cabeça de todos os homens.
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