De amor e de sangue. Primeira parte
9 Nasce a religião e o comércio
Notas iniciais
Depois de ver a partida dos amigos, Tiago e Mário perceberam que havia uns 300 Anjos recém-chegados para auxiliar Miguel e Francisca. Eram jovens sorridentes, alguns solteiros, recém-saídos da infância, e estavam em todo lugar. Consolando espíritos que choravam, ou com doentes deitados no chão, auxiliando-os nas dores físicas da morte.
Reginaldo, abraçado no seu grande amor Rosa riam por ali perto em eterna festa, e o Chefe Abelardo com Marlene se encontravam no maior chamego. Miguel e Francisca os haviam parabenizado pelo trabalho realizado, e a pedido dos quatro, os havia casado para a eternidade. Vida após vida se reencontrariam para casar de novo, e de novo, como faziam Tiago e Mário com suas esposas.
E pouco a pouco um grupo de espíritos foi se achegando ao lado deles, eram os foram professores na Escola, rodeados de seus alunos, e muitos amigos de infância de Mário e Tiago. Tiago e Mário então convidaram todos para um passeio intergaláctico. Formou-se uma corrente, um segurando a mão do outro, e voaram direto a “W”. O mundo dos homens peludos.
As antigas guerreiras que viviam nesse planeta estavam mais formosas desta vez, menos peludas e dava para observar a beleza do rosto. Seu corpo bem contornado atraía o olhar dos homens, e as que ainda estavam solteiras tinham uns 10 apaixonados, desejando-as.
Os homens já sabiam fabricar escova e sabão para lavar a boca e o corpo, e o “beijo” então era a última mania desse mundo. Os pais beijavam seus filhos, irmão beijava irmão, e os namorados grudavam as bocas a todo o momento. Os homens haviam multiplicado sua virilidade com o beijo, e as esposas eram carregadas para casa muito cedo, para um encontro amoroso que terminava ao raiar do Sol do dia seguinte. Tudo assinalava que o amor, naquele lugar, seria o eterno vício de todos os homens.
Nessa altura da evolução, havia-se organizado uma “Agricultura ecológica”.
Tiago e Mário olharam os vales admirados, pois nunca haviam visto nada igual. Sequer na civilização da montanha havia tamanha perfeição. Todas as planícies estavam demarcadas matematicamente, em quadrados perfeitos, e dentro deles as verduras, hortaliças e legumes cresciam embaixo de árvores centenárias que as protegiam do Sol, do vento, e atraíam nuvens e chuva. As araucárias, a canela, o cedro, e as madeiras mais nobres eram “intocáveis” naquele mundo. Agora, o pinho e o eucalipto, que cresciam rápido, eram arrancados do chão, junto com a raiz, para construção de casas, em sistema de palafitas, na beira dos lagos e dos rios. No buraco deixado pelos pinhos e eucaliptos, eram despejadas as folhas das colheitas, os galhos secos, e o estrume da bicharada, para receber em dias posteriores uma muda de uma árvore forte.
Pequeninhas latrinas se enfileiravam entre as casas, para uso coletivo. Cada vez que alguém defecava, sentado numa patente de madeira, jogava no final um punhado de folhas secas, para tampar o cocô e não feder. E esse estrume humano, com o passar do tempo, também era usado como vitamina para o solo. O “cheiro de merda” não existia em lugar nenhum.
A ferramenta principal do homem, para levantar casas e latrinas, era a força bruta. No máximo se ajudavam com cordas, que cortavam com pedras afiadas. O sistema de construção era de encaixe e amarração. Para auxiliar nas lavouras usavam cavalos, touros, e até leão, cujo lombo era montado pelos mais jovens.
Abelardo jurou que no seu próximo reinado instauraria uma agricultura ecológica como essa. Todos riram às gargalhadas.
Reginaldo perguntou-lhe:
— E como é que tu vais chegar ao poder desta vez?
— Se for necessário, fazemos a revolução, pronto...
Marlene falou-lhe:
— Amor, não esqueça que somos recém-casados. Eu vou querer uma dúzia de filhos na próxima encarnação. Nada de trabalhos.
— Tá bom, meu amor. Afinal, para que governar se o mundo foi transformado num paraíso?
Reginaldo completou:
— É isso ali! Graças aos professores, e a todos nós, a fome e a ignorância foram soterradas para sempre.
E com felicidade completaram esse passeio estelar. Havia um otimismo generalizado, com a certeza de ter mudado as tribos bárbaras.
Durante o regresso, os recém-casados se separaram, um a um, isolaram-se, pois era a primeira vez que fariam amor durante a vida espiritual.
Rosa e Reginaldo tiveram uma lua de mel incrível, que durou 500 anos ininterruptos. Como os espíritos não necessitam dormir nem respirar, eles desgrudaram seus espíritos apenas para frequentar outros lugares.
Marlene e Abelardo, escondidos numa caverna de um asteroide, riam e gargalhavam, pois isso parecia um delicioso sonho. Iniciaram o chamego se beijando, como um cão lambe seu dono. Abelardo a mordia de vez em quando para fazê-la rir, e em seguida se abraçava nela com ardor, em meio da escuridão.
Mário, que nunca desgrudava de Nina durante a espiritualidade, nem para caminhar, sempre abraçados, desta vez eles davam cambalhotas girando no chão de uma Lua empoeirada, rindo sem parar, pois podiam brincar e namorar ao mesmo tempo, e isso era bom. Nina gritava em cada tombo e ria às gargalhadas.
Longe deles, num planeta deserto, Tiago e Fernanda rumaram para as profundezas abissais de um mar turbulento. Tiago e Fernanda giraram num rodopio lento, muito lento, seguindo o ritmo das correntezas do mar, se deixando levar pelos rios submersos, unidos no mais longo abraço de todas as mortes. Ficava difícil se desgrudar. Definitivamente, eles eram um corpo só.
Quando Miguel chamou-os a nascer de novo, todos voltaram para se reunir numa Lua desabitada. Tiago e Fernanda chegaram primeiro. Em seguida apareceram Abelardo e Reginaldo com as esposas, e depois se juntaram a eles antigos professores da Escola. Os recém-casados estavam brilhando de felicidade, rindo, pois essa lua de mel havia sido bárbara. E por último, unidos num abraço, desceram para a terra firme, para examinar como estava a civilização das planícies, e para examinar todas as mudanças que haviam acontecido durante esses 500 longos anos de ausência.
E o mundo “primoroso” que eles deixaram um dia, não existia mais.
A sociedade dessas planícies havia inventado as moedas, dando início ao comércio, ao acúmulo de riqueza, e a divisão da humanidade em dois grupos, os endinheirados, e os miseráveis. Os homens pobres trabalhavam e morriam jovens, e os ricos viviam no luxo e morriam velhos.
A fabricação do metal havia se expandido, e agora eles fundiam ferro, bronze, ouro e prata, em fundições enormes. E o que mais havia nelas eram armas de tortura e de morte, como capacetes, escudos, lanças e bestas, que enfileiravam nos depósitos dessas oficinas. O último achado era um canhão que lançava uma bola de pólvora.
Nas minas, a existência das pessoas era ainda muito mais miserável, pois os indivíduos eram acorrentados para evitar fugas, com guardas armados com látego, batendo neles de dia e de noite. Em redor das minas, as famílias dos mineradores morriam de fome e doenças, abandonadas pelo governo, vivendo na forma mais primitiva possível. Casebres de lama, ou de pedras, sem saneamento nenhum, em ruas empoeiradas, mostravam crianças desnutridas estendidas nas ruas, sem forças sequer para caminhar. Ou seja, a morte pairava sobre esses pobres de dia e de noite. Já não se falecia tanto assim por causa de abuso e assassinato. Morria-se por causa da miséria instalada, para dar lucros aos mais favorecidos, que viviam em palácios deslumbrantes.
Porém, o mais extravagante que inventaram, durante esse tempo, fora a “Religião”.
Existiam templos enormes, com vidraças coloridas, lotados de gente rezando. O templo mais importante fora levantado no sítio da antiga Escola, onde a única coisa que sobrevivia era o muro externo, cujas paredes de mosaicos vitrificados eram um “lugar consagrado”, e o marco mais importante da humanidade. Em frente dessa muralha, o povo rezava para os “Deuses”, acendia velas, pedia favores, e deixava flores todos os dias. Dentro do santuário, a imagem de bronze dos Deuses era imponente. Em cada pilastra, havia a estátua de um Deus, cinquenta ao todo, e no centro da igreja tinha as quatro imagens mais grandiosas, com os quatro Deuses mais importantes.
O Deus principal era “Guilherme, Deus protetor do exército”. Os outros eram “Olaf, Deus da Sabedoria”, “Alberta, protetora do lar e do amor”, e “Ana, a Deusa dos doentes e dos desvalidos”. Em outros lugares, existiam os Templos para cada um deles. Havia o “Templo de Olaf”, o “Templo de Guilherme”, o “Templo de Alberta” e o “Templo de Ana”. Tanto nas Igrejas quanto nas Escolas, se ensinava que esses Deuses haviam descido a montanha, e ensinado aos homens todas as Ciências, e que agora eram os pais celestiais de toda a humanidade.
Quando Miguel apareceu para dar as boas vindas ao grupo, todos se olharam entre sim e caíram na gargalhada mais estrondosa, de todas as vidas, vividas e morridas, pois não havia em nenhum lugar do mundo, um templo dedicado ao Anjo Miguel, ou a Francisca. E ele começou a rir junto.
Depois falou:
— Riam, seus ingratos, riam de mim, que eu mereço... É sempre a mesma coisa, é o homem que é convertido em “Deus”, ou, em “Filhos de Deus”, ou em homens divinos, milagreiros, e o pior de todos: — “Profetas que escutam a voz divina”... Dá vontade de chorar!
O professor Fabiano, agora convertido em Deus, perguntou-lhe:
— Não estará com dor-de-cotovelo de nós, ou, está?
— Claro que não, a quinta lei cármica diz: — “Seja feliz com o sucesso de seu irmão”...
E deu-lhe a Fabiano um forte abraço, depois a seu irmão Carlos, enquanto Francisca abraçava Eloísa, esposa de Fabiano, e a Simone, esposa de Carlos. Em seguida, foi uma bagunça geral. Outros Anjos curiosos chegaram juntos, deram os parabéns para os homens, algumas mulheres se emocionaram, derramaram algumas lágrimas, e depois do sentimento passar, sentaram no chão numa roda gigante para trocar ideias, e fazer planos para a próxima reencarnação.
Miguel e Francisca pediram para Tiago e Fernanda nascer na cordilheira e inaugurar as viagens intergalácticas, enquanto Mário, junto a Reginaldo, Abelardo e todos os “Deuses” nasceriam com suas esposas a proteger os desvalidos na cidade baixa. Em seguida, Francisca colocou a mão no ventre das mulheres, para não gerarem filhos nem dos maridos nem dos amantes ocasionais. Avisou para elas que os homens iam revidar com brutalidade a qualquer levante que fizessem, então, se preparar para o abuso e a tortura era mais do que necessário. Essa vida não ia ser fácil.
Fernanda se abraçou a Nina, chorando. Seria a primeira vez que nunca se encontrariam, e Nina poderia vir a ser atacada por uma dúzia de degenerados desta vez. E lhe falou entre lágrimas:
— Fica quieta. Não grita. Eles só batem quando a gente berra alto, ou se defende.
— Fica fria! Antes de ser abusada vou matar alguém... Sei lá como...
Fernanda acabou rindo. Nina sempre diminuía o drama do sofrimento. Jamais se deixava derrotar. No fundo, Fernanda a admirava demais.
Mário e Tiago evitaram as lágrimas. Deram um abraço curto, entre poucas palavras.
Tiago falou:
— Te cuida, cara... Lembras-te da telepatia?
— Lembro, será que conseguimos falar contigo de tão longe assim?
— Sei lá, mas eu te prometo que vou te ajudar no que quiseres, assim que tentes um contato...
— Lembras-te do código Morse? Poderíamos nos comunicar com sinais de luzes...
— Fechado... Vou te espionar à distância. Vamos trabalhar em equipe de uma forma ou de outra...
E foi assim que a primeira “Gangue organizada de trombadinhas”, de um mundo díspar, nasceu. Todos nasceram perto uns dos outros, e passaram a viver nas ruas desde pequeninos, depois que seus pais morreram nas favelas da sua cidade. Os banquetes com pratos de comida deliciosa eram corriqueiros nas casas dos mais abastados, enquanto nas favelas muitas pessoas procuravam sobras nos lixões da periferia.
Mário, Nina, e vários amigos começaram a se juntar embaixo de pontes que cruzavam o rio, de aquedutos, becos de igrejas, a compartilhar comidas. Em pouco tempo, os meninos eram os ladrões mais rápidos da cidade e fugiam de todos os soldados que cuidavam da ordem. Furtavam frutas nas feiras, escondiam entre os farrapos imundos, e depois levavam para as meninas. Todas elas com cabelos curtíssimos, e roupas iguais aos homens.
Os soldados começaram a caçá-los que nem ratos. E pouco a pouco, o bando de guris foi sendo cercado. Um a um, eles foram sendo enviados para a cadeia. Eram os presos mais jovens de todos os delinquentes daquela cidade. Meninos com os quais ninguém sabia o que fazer. Se matá-los, ou condená-los a trabalhos nas Minas, ou, devolvê-los novamente às ruas, pois não passavam de criancinhas, e seu pecado era apenas roubar comidas para subsistência.
A notícia ganhou fama, e alguns homens ricos ficaram com pena dos primeiros ladrões mirins dessa cidade, e pagaram uma bolsa de estudo para todos eles.
E amarrados nas mãos, os “Deuses encarnados”, fedorentos e maltrapilhos, chegaram numa Escola com sistema de internato, onde os professores descobriram com surpresa que metade deles era mulher. Ganharam uma cama limpa, uma comida decente, e conhecimento, que nessa altura era destinado apenas para os filhos dos mais ricos.
Como todos aprenderam com facilidade a escrita e as contas matemáticas, eles foram sendo promovidos para cursos mais avançados, onde novamente aprenderam com rapidez.
No fim do primeiro ano, enquanto os alunos regressavam para casa, eles ficaram aos cuidados do Educandário pintando paredes, limpando os vidros, polindo as panelas, fazendo a horta, vigiando os jardins, lavando roupas, sem reclamar, pois a vida lá dentro era a melhor proteção que um jovem podia ter.
E os anos começaram a passar na doce rotina.
Pouco a pouco, as garotas se transformaram em belas donzelas de cabelos luminosos, e os rapazes em jovens de corpo atlético. Nina com os cabelos vermelhos encaracolados era a mais linda menina nesse educandário, mas ninguém tinha coragem de olhar, pois Mário caminhava ao seu lado que nem cão ciumento.
Como namorar entre colegas dentro dessa Escola era proibido, Rosa e Reginaldo, durante umas férias escolares, entraram num armário, escondidos dos empregados num final de tarde. Nos dias subsequentes, encontraram outras formas de burlar a vigilância cerrada sobre eles. Escondidos nos banheiros durante noites escuras, vivenciavam os melhores de todos os momentos juntos.
Mas, infelizmente, um empregado achou-os, e como castigo e exemplo, Reginaldo foi enviado a trabalhar numa fundição de ferro, enquanto Rosa era levada a fazer faxina num palácio da cidade.
Depois da expulsão deles, namorar às escondidas tornou-se um desafio para o grupo de amigos.
Nina e suas amigas saíam pela janela durante a noite, e subiam ao telhado agarradas nos buracos das pedras e as esculturas em alto relevo, com uma corda na cintura, que os rapazes deixavam cair quando as luzes apagavam. Engatinhavam pelo telhado que nem gatos noturnos, e namoravam até o dia começar a clarear no horizonte. Quando os seguranças dessa Escola entravam nos dormitórios, fingiam dormir como bebezinhos. Para felicidade geral, podiam dormir a “sesta”, onde se recompunham da noite de amor.
Quando o ensino básico terminou, eles já estavam com uma vaga garantida nas Universidades, por causa de seu alto rendimento escolar. Todos eram gênios natos, e encontrar padrinhos que pagassem os estudos foi tarefa fácil. As meninas foram encaminhadas para uma “Casa de caridade” a viverem aos cuidados de vigários de igrejas. Os rapazes foram enviados para uma comunidade dentro da própria Universidade, onde ganharam um dormitório jeitoso.
Foi a primeira vez que os homens ficaram longe das amadas.
Mal dava para encontros curtos nos parques da cidade, nos fins de semana. Enquanto as pessoas caminhavam pelas ruas de pedras, iluminadas com lâmpadas a querosene, as meninas se escondiam entre os arbustos fechados com seus homens. Principalmente nos parques ecológicos com plantações de bananeiras, mandioca, onde o mato era alto e entupido. Colocavam uma manta no chão para fazer piquenique, como todo casalzinho dessa cidade, e se beijam com ardor.
Aos 18 anos, Nina recebeu seu diploma de Medicina, Mário, Marlene e Abelardo de Arquiteto, e os demais amigos de Biologia, Botânica, e de Professores. A maioria escolheu ser professor, para ensinar “de graça” aos filhos do povo. Reginaldo nessa altura dos acontecimentos já havia convencido Carlos, seu patrão na metalúrgica, a construir uma grande “Escola de Caridade” para os pobres.
E com um salário garantido, um a um foram casando.
Escolheram para viver moradias simples, em bairros populares, se juntando aos fins de semana em encontro de amigos.
Reginaldo estava eufórico.
Sua casa era a mais humilde, pois seu salário dava apenas para o básico, comer, mal se vestir, e mais nada. Mas, rodeado de amigos com diploma universitário, ele passou a ganhar presentes. Rosa recebeu vestidos lindos das amigas, e Reginaldo sapatos, camisas, que colocava dando gargalhadas.
E uma vida diferente se iniciou. Mário, Abelardo e Marlene terminaram de erguer essa “Escola de Caridade” depois de 3 anos de trabalho. E um dia, as portas abriram para um exército de maltrapilhos.
Ela foi inaugurada por Carlos e sua esposa Simone, que cortou uma fita cor de rosa na entrada. Em seguida, os mestres abriram as portas para os convidados conhecer os alunos, as salas, as cozinhas, mesas e cadeiras, enfim. Nada faltava ali dentro para que essas crianças estudassem e vivessem com conforto. Como os professores já eram pagos pelo reinado, amigos de Carlos chegaram nessa inauguração para dar uma força. Todos deixaram grossos pacotes com cédulas bancárias. Os professores agradeceram e respiraram aliviados. Haviam encontrado os melhores aliados, no meio da riqueza.
E os antigos professores retomaram um trabalho interrompido.
Ensinaram novamente a replantar, e recuperar áreas desmatadas pela ganância dos madeireiros, a fazer avenidas nas ruas com pomares sem fim, só que desta vez tudo foi supervisionado pelo poder estabelecido. Existia uma Secretaria de Educação, que reagia com reticência à ideia de colocar novas matérias de estudo.
Enquanto os mestres inauguravam um novo tempo, Nina era convocada pelo governo a trabalhar no hospital público, cujo edifício era imponente por fora, mas miserável por dentro. Havia camas limpas, jardins internos para repouso, mas as cirurgias eram feitas a sangue frio, com anestésicos que matavam mais do que as doenças, e os berros que se escutavam ali dentro eram a viva representação do inferno. A acupuntura, aprendida na Escola, ninguém a praticava realmente, os medicamentos naturais eram insuficientes, e os médicos discutiam sobre tudo, pois os diagnósticos das doenças eram confusos. Não se conhecia a penicilina, e as vacinas ainda não tinham sido inventadas. Nunca a humanidade havia sofrido com pestes tão cruéis, que matavam tanto os mais pobres quanto os mais ricos. Desesperada, Nina pediu licença ao Diretor desse hospital para uma viagem ao mato fechado, em busca de ervas para fazer infusões.
E foi assim que aconteceu um encontro com a civilização das montanhas, uma única vez.
Antes dessa viagem, Mário teve que solicitar permissão aos governantes, autorização ao exército, e convidou para ir nessa aventura a Fabiano e Eloísa, ótimos lutadores. Reginaldo conseguiu férias adiantadas com seu patrão, para ir junto, e Rosa saiu do emprego alegando que estava com febre. E febre nesse mundo era motivo de pânico. Febre era o sinal de alguma doença contagiosa, e o doente era obrigado a ficar em casa pelo período de 40 dias para não contaminar ninguém.
Mário e seus amigos subiram numa carreta aberta puxada por animais fortes, e rumaram para o desconhecido. Atravessaram 5 vilarejos, sujos e malcheirosos, pois dava vontade de vomitar com o odor podre. No terceiro dia de viagem, viraram para o Leste, e adentraram na mata fechada, onde algumas vilas isoladas sobreviviam da roça e da extração de frutas do mato. A selva continuava rica em frutos. Havia tantas maçãs, que se podia recolher e encher a carreta só com elas.
Quando pensaram atingir o deserto, receberam uma grande surpresa, pois ele não existia mais. O lugar estava convertido na mais linda selva tropical do planeta, cujas árvores altas eram totalmente desconhecidas, nunca antes vistas, com caminhos tortuosos que não levavam a lugar algum.
Guiados pela Estrela Polar, ao norte, às Estrelas Verdes do Sul, e à Constelação Amarela do Leste, desceram da carruagem, soltaram as bestas, e fizeram o caminho em direção às montanhas a pé, como em vidas anteriores. De tempos em tempos, subiam nas árvores a bisbilhotar as cordilheiras, pois desta vez o antigo muro se perdia entre as árvores. Era como se ele não existisse. Mesmo assim, Fabiano e Mário, através das luzes de um lampião, solicitavam “socorro” em código Morse. Uma palavra bem curta, e fácil de interpretar.
Quando um pássaro metálico parou por cima de sua cabeça, Fabiano, sentado no mais alto galho de uma árvore centenária, quase caiu no vazio com o susto. Para mais surpresa ainda, Tiago e Fernanda se deixaram cair por uma corda, para abraçar Mário e Nina, arrasados com o prodígio, enquanto Eloísa e Rosa se uniam às lágrimas, emocionados com a chagada deles. Mais calmos, sentaram em círculo, tomaram café, trazido pela Fernanda numa garrafa térmica, acompanhado de bolachas recheadas com doce de leite.
E Tiago, abraçado a Mário, perguntou: — Bem, vamos ao que interessa. O que é que necessitam?
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