De amor e de sangue. Primeira parte
1 A chegada a outro mundo
Notas iniciais
Nada perturbava a harmonia do planeta “Z” do Sistema Tetha, na “Oitava Dimensão Universal”. Um lugar do universo onde nascem às novas Galáxias com seus milhões de estrelas. Um espaço onde existem muitos planetas como a Terra, e em tal ambiente a vida selvagem se multiplica em todas suas formas.
Naquele mundo, “Z de Tetha”, os seres aquáticos conviviam com uma fauna terrestre exuberante, ferina e fascinante. Mas, porém, a espécie mais inteligente eram as cobras, em variados tamanhos, beleza e colorido. Nos lugares mais quentes e candentes, espalhavam-se as serpentes marrons, lado a lado às cobras verdes, e o ofídio multicolorido. Mas, as rainhas dos répteis eram as cobras gigantes de cem metros, que perambulavam, donas absolutas desse mundo, se alimentando da fauna das planícies, e dos rios.
As cobras coloridas, com 2 metros de cumprimento, pareciam ser uma casta diferenciada, pois seu sangue era morno, e não frio como às outras classes. Além do mais, emitiam uns 20 sons para se comunicarem entre si, e os machos em período de cio entoavam ruídos altos para atrair as fêmeas. Parecia que cantavam ao luar como lobos famintos. Depois da cópula, que duravam em média uns trinta dias, nasciam os filhotes. As mamas das fêmeas, cheias de leite, estavam prontas para alimentar a cria.
Depois da desmame, que se dava quando as criaturas tinham 300 dias de vida, o ciclo reprodutor atingia o clímax novamente, e o reboliço tomava conta da colônia. Os machos enlouqueciam com o cheiro delas. As fêmeas, assim que os machos as procuravam, levavam os filhotes para as planícies, para se alimentarem de pequenos animais, como ratos, lagartixas e insetos. Baratas, cupins, formigas também faziam parte do cardápio. E em seguida, voltavam ao encontro de um macho para acasalar.
Além das planícies, das selvas, e das cavernas das cobras, havia nesse mundo um grande deserto com altas montanhas no horizonte, e nos Oásis havia comida abundante, como cactos comestíveis, palmeiras com polpa grossa, e lagos cheios de peixes coloridos.
E foi nesse solitário deserto, que num dia de Sol abrasador, quatro naves espaciais desceram calmamente, sem fazer barulho. Essas naves haviam sido guiadas por 10 robôs, através do espaço infinito, durante 5.000 anos, carregando no seu interior 8.000 soldados de guerra, que dormiram um sono longo em estado de hibernação.
As últimas lembranças desses militares eram de uma equipe médica que os resgataram das frentes de combate, curaram suas feridas, alimentaram-nos e depois os fizeram dormir.
Depois que acordaram, obedeceram cegamente às ordens dos robôs. Saíram dessa nave à procura da sombra de uma árvore. Transportaram camas infláveis embaixo do braço, além de cobertores e tendas de campanha, sem questionar sobre nada. Também carregaram frutas da horta, verduras, e sacos com sementes trazidas de seu mundo. Até vasos com flores levaram consigo, os quais ficaram na sombra de arbustos pequeninos.
Quando as naves elevaram-se no ar, e sumiram como num passe de mágica, eles olharam-se uns aos outros e, pela primeira vez, perceberam que haviam chegado a outro planeta, exilados de seu mundo verdadeiro.
Passado o primeiro susto, os soldados sentaram à sombra das árvores, em grupos pequenos, para tentar entender o que é que havia acontecido com as outras pessoas de seu mundo. E as perguntas iniciaram: — “Será que somos nós os únicos sobreviventes da Terceira Guerra Mundial?”-, ou, — “Será que o povo morreu junto com toda a fauna ao ponto de ser impraticável a existência humana?”- E, finalmente, alguém questionou: — “Será que fomos castigados e evacuados, por realizar a última guerra?”.
E para chegar a um consenso, Tiago, com grau de tenente do exército, fez a primeira reunião coletiva na beira do lago, ao entardecer, com algumas fogueiras acesas.
Pela primeira vez, a milícia achava que essa última guerra havia sido uma coisa estúpida e desnecessária. Mas, alguns deles, culpavam os países do “terceiro mundo”, cujas brigas não tinham fim, como responsáveis. Alegavam que as grandes potências mundiais haviam se unido para ajudar nos conflitos desses encrenqueiros.
Mas havia ainda as perguntas: — Quem é que havia lançado o primeiro míssil?- A primeira bomba atômica?- E a segunda bomba, e a terceira, até acabar com o pouco oxigênio que existia naquele planeta?
Mário, tenente das forças especiais, ficou em pé e fez um discurso, pois ele entendia que o mundo havia enlouquecido com as tormentas, furacões e tempestades que assolaram a terra com o “aquecimento global”. A guerra havia apenas antecipado o fim da civilização. Afinal, morriam pessoas aos milhares em cada catástrofe terrestre, e não houve como mais deter o furor da natureza. Não podiam se esquecer de que a fúria do mar invadira ilhas e continentes arrasando cidades inteiras.
E como o único consenso era que haviam chegado naquele mundo para sobreviver, como um “milagre divino”, auxiliados por seres extraterrestres, todos prometeram mudar, e alguns deram início a um aperto de mãos, abraços, e improvisaram uma lista de deveres que haveriam de cumprir. Havia frutos maravilhosos naquele mundo, e um ar puro que doía o peito ao respirar. Para que não faltasse comida, alguém propôs a plantação das mudas e sementes, e fazer daquele Oásis um “paraíso natural”.
As dificuldades começaram a acontecer, alguns dias depois, quando os homens perceberam que havia UMA mulher para cada 100 homens, e nenhum macho era homossexual. E as perguntas entre os homens teve início: — Como é que iam perpetuar a espécie humana através do casamento monogâmico?-. Parecia impossível. Já outros falaram que a melhor coisa a se fazer era organizar um “harém de homens” para cada mulher. Já outros indagaram: — Mas, será que elas iam aguentar? Poderiam adoecer ou enfraquecer, morrer, e não sobraria nenhuma mulher para ninguém. Calcularam, então, matematicamente o número de maridos para cada mulher, namorando-as em tempos alternados, proibindo brutalidades.
Os homens novamente improvisaram reuniões cautelosas para sortear as esposas e seus maridos. Marcaram os dias em que cada um deles as visitaria na tenda, ou seja, se organizaram como bons soldados para uma guerra diferente. E sem explicar nada para mulher alguma, passaram a espioná-las para evitar o suicídio entre elas.
Depois disso, a bonança das guerreiras mudou do dia para a noite.
Elas eram abraçadas a qualquer hora do dia, por homens diferentes. Machos carinhosos, que as faziam dar beijos, sem reclamar por nada disso.
Mário e Tiago olharam tudo perplexos, pois a decisão masculina fora incontestável. Apenas alguns soldados, mais o menos setenta, além deles, preferiram o solteirismo e a abstenção.
Sentados ao lado de uma fogueira, ao anoitecer, olhando de longe os casais Tiago e Mário dialogaram secretamente:
— Acho que esta promiscuidade não vai levar a nada, cara...
— Também acho. Ninguém vai saber quem é o pai dos filhos. E depois, cara, vão repartir as meninas desde pequeninas... Vão prostituí-las desde crianças... Que horror!
— E quando nascer um menino? Será que os pais vão deixá-lo viver? Vão matá-lo, para não ter mais um concorrente...
— O que é que vamos fazer, cara?
— Raptemos nossas esposas, pronto.
— Boa ideia... Não podemos deixar marcas da fuga...
— Nisso eu sou especialista, cara... Temos que inventar uma bebida que os faça dormir a todos... Tens uma opinião?
— Hum... Vamos fazer uma pinga de batata doce... Ou de algum tubérculo similar...
— Vamos...
Dias depois, quando chegou a vez de Mário e Tiago fazer amor com suas respectivas consortes, em vez de beijá-las, lhes contaram o plano da fuga sussurrando-lhes tudo ao ouvido. Marcaram o dia da escapada e aguardaram esse momento com ânsia. Entupiram de bebida todos os soldados ao entardecer, e, no meio da noite, rumaram para o Leste em direção às montanhas. Mário, especialista em fugas, foi extinguindo os rastos, como fizera durante a guerra.
E a grande caminhada começou.
Cruzaram todo o deserto, alcançaram matas fechadas, e recolheram pelo caminho sementes e mudas da fruta do conde, de abacaxis suculentos, cocos, bananas, milho, pois nesse mundo havia uma incrível riqueza de flores, hortaliças e frutas.
Chegaram aos pés de altivas cordilheiras, com neve nos cumes, elevadas e majestosas. Com Mário na frente, abrindo as picadas, foram acompanhando as trilhas deixadas por animais peludos e enormes, amarrados os quatro numa corda feita de cipó.
À medida que subiam as encostas, coisas agradáveis lhes cruzavam o caminho, leões que não agrediam ninguém, lindos ursos de duas cores, preto e branco como os ursos pandas de seu mundo, e milhares de pássaros de rapina. As aves eram ainda maiores do que os ursos, e desciam num voo rasante comendo as cobras. Os ovos dessas aves os havia em muitos ninhos entocados nas rochas. Tiago teve anseios de comer um ovo cru, mas os olhos úmidos de lágrimas de Fernanda, sua companheira e mulher, cortara sua vontade. Deu-lhe então o primeiro beijo de suas vidas, e sentaram num canto a descascar bananas, pois as havia em toda esquina.
Quando atingiram o cume da montanha, um vale gigantesco que se perdia a vista no horizonte, os recebeu como quem acolhe um filho. Imaginaram arranha-céus futuros, aviões voando, carros cruzando, e sorriram. Era naquele lugar que eles deixariam sua descendência, pois instruiriam seus filhos com tudo que sabiam.
E a vida dos quatro recomeçou, mais uma vez.
Na profundeza de uma gruta gigante, com um lago interno de águas límpidas e quentes, estenderam uma manta para comer, conversar e fazer planos para o futuro.
Tomaram o primeiro banho, e depois deitaram abraçados num colchão inflável, bem distante, para uma intimidade gostosa.
Mário então perguntou para sua mulher:
— Quer ser minha até que a morte nos separe?
— Palhaço! Não tem mais ninguém aqui... Mas a resposta é SIM!
Imediatamente, ele beijou seu pescoço, rindo, enquanto Nina gargalhava estrondosamente.
Mário abraçou-se a ela fazendo uma conchinha para dormir, boca no seu cangote, e se apagou com um sorriso na boca. O futuro na frente lhe parecia radiante.
Longe deles, Fernanda era feliz pelos mesmos motivos. Tiago fez amor com ela tão docemente, foi tão delicado e apaixonado, que ela o amou desde aquele dia com ardor e para sempre.
Nos dias subsequentes, se organizaram para o trabalho.
Semearam milho, fizeram a horta de verduras, cultivaram mudas para um pomar e continuaram a percorrer as encostas em busca de outras frutas nativas, para tirar-lhes as sementes e acrescer à produção. Também passaram a coletar ovos de algumas aves, e tiraram leite de cabras para fazer queijo.
No fim da tarde, juntavam o banquete, e os quatro amigos comiam olhando para o Sol se pôr no horizonte, com cores brilhantes. Tudo isso entremeado de intermináveis conversas. Antes do escurecer, iam para o aconchego das camas macias, onde dormiam pouco, pois a noite era para desfrutar o prazer do amor.
Fernanda e Nina também estudaram as fibras dos arbustos para tecer tapetes, mantas, iniciando uma amizade que seria eterna. Falavam da cidade onde nasceram, contavam piadas, e com o tempo se amavam como duas irmãs que eram casadas com 2 homens perfeitos, lindos, apaixonados, valentes e muito inteligentes.
Desta maneira, os quatro foram felizes.
Os homens se amaram como irmãos, e entre os quatro foi compartilhado tudo o que chegaram a possuir. Dividiram os sonhos e as frustrações, pois não tiveram filhos. Não deixaram nenhuma descendência e tudo que sabiam morreu junto com eles. Afinal, nunca imaginaram que os médicos que os desterraram nesse planeta, haviam retirado de cada homem a capacidade de serem pais.
Tiago foi o primeiro a partir, de parada cardíaca fulminante, entre os braços de Fernanda, aos 45 anos. Fernanda morreu meses depois de tristeza e melancolia. Parou de comer, enfraqueceu e se apagou como uma vela.
Anos mais tarde, Mário foi mordido por uma cobra venenosa durante uma caminhada nas encostas da montanha. Nina, depois de vê-lo morrer em seu colo, desesperada, sozinha nesse fim de mundo, se lançou no vazio gritando o nome do único homem que lhe mostrou o que era a felicidade.
Notas finais
Anos mais tarde, Mário foi mordido por uma cobra venenosa durante uma caminhada nas encostas da montanha. Nina, depois de vê-lo morrer em seu colo, desesperada, sozinha nesse fim de mundo, se lançou no vazio gritando o nome do único homem que lhe mostrou o que era a felicidade.
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