De almas sinceras

4 De almas sinceras, a união sincera


Notas iniciais
(Gostaria de dizer amém extensão do prazo) Finalmente, o último capítulo! Eu disse pra mim mesma que ia colocar o poema como algo bem subentendido, daí as coisas fugiram do meu controle e agora você têm esse negócio que envolve casamento, Tessa Gray salvando o dia de novo e o Will sendo shakespearean trash que nem eu e um romântico desesperado ao ponto do ridículo, que nem, sei lá, 90% dos homens Herondale. Espero que gostem! (Título do capítulo - e da fic - retirado do soneto 96, como sempre - ah vá)

Nova York, 2016

Jem Carstairs nunca passara muito tempo pensando sobre casamento. A ideia já lhe ocorrera algumas vezes, mas nunca fora uma prioridade. Afinal, ele já morava com o amor de sua vida e usava uma aliança de compromisso; em sua opinião, não tinha como ficar mais oficial do que isso.

Assim, quando Will, supracitado amor de sua vida, tocara no assunto, Jem não soubera muito bem como reagir. Os dois estavam sentados no sofá, assistindo ao jornal, em uma terça-feira à tarde como qualquer outra, quando o tema surgira. Era a semana seguinte à legalização do casamento homoafetivo nos Estados Unidos, e a reportagem que estava passando mostrava as passeatas e casamentos ocorrendo ao redor do país. Will dissera:

— A gente podia fazer isso.

Jem franzira a testa.

— Uma passeata?

— Um casamento, James.

Jem se virara para encará-lo, o coração subitamente acelerado. Não era que a ideia não o agradasse; ele apenas nunca a cogitara com seriedade. Ele soubera que estava ficando vermelho.

— William, você acabou de me pedir em casamento?

Will dera um sorriso angelical, que o deixara anos mais novo.

— Não. Mas, se eu tivesse pedido, você teria dito sim?

Jem cogitara a possibilidade de pedir um tempo para pensar, sob o pretexto de aquela ser uma decisão muito séria que não deveria ser tomada de forma leviana e tudo aquilo. Ao invés disso, dissera:

— Você sabe que sim.

Uma semana depois, a proposta fora feita, com direito a anel, trilha sonora de violinos e um Will sorridente de joelhos aos pés de um Jem bastante surpreso.

Todas essas cenas – e muitas outras – passavam pela mente de Jem três meses depois, enquanto, parado em frente ao espelho e encarando o próprio reflexo, ele tentava descobrir como um encontro às cegas aos dezessete anos de idade os havia levado àquele ponto.

Tessa Gray escolheu esse momento para irromper no quarto, radiante em seu vestido de madrinha. Fora ela quem sugerira o encontro às cegas entre Will e Jem, então não era de se surpreender que ela parecesse tão animada.

— Ah, aí está você – Ela parou ao lado dele no espelho, analisando-o. O terno de Jem era claro, combinando com seus cabelos e olhos. – Você está lindo. Ele não está lindo?

A última pergunta foi dirigida a Sophie Collins, uma das amigas mais próximas de Jem, que o ajudara com os últimos detalhes da roupa. Embora nenhum deles fosse particularmente supersticioso, Will insistira que os dois não vissem um ao outro nos momentos anteriores ao casamento. Ele estava se arrumando na casa de sua irmã mais nova, Cecily.

— Definitivamente – concordou Sophie. Ela abriu um sorriso. – Will vai ter um ataque.

A ideia pareceu agradar Tessa.

— Ele está louco de nervosismo – informou ela. – Acho que ele está com medo que você fuja.

Jem franziu a testa.

— Por que ele acharia isso?

— Todo mundo fica nervoso no dia do casamento – disse Sophie. – É normal. Gideon me disse que tinha certeza de que eu ia abandoná-lo no altar.

Jem decidiu não comentar que, como eles não iam se casar na igreja, não havia altar para abandonar ninguém. Ele ergueu uma sobrancelha.

— Isso quer dizer que eu sou a noiva? Porque eu não tenho medo dele me abandonar no altar.

Sophie e Tessa riram, e Jem não tentou esconder o sorriso.

— Você sabe como o Will é – disse Tessa. Ela deu um tapinha encorajador do ombro de Jem. – Não demore. Acho que um atraso seu poderia realmente matá-lo.

***

Quando viu Jem entrando na cerimônia, Will achou que seu coração tinha parado de bater. Suas pernas pararam de obedecer a comandos por um instante, o que era alarmante – eles haviam decidido entrar ao mesmo tempo, vindo de lados opostos, visto que não era uma cerimônia tradicional ou religiosa.

Dessa forma, Will chegou à mesa do juiz alguns segundos atrasado, mas ele mal teve tempo para se preocupar com esse fato. Ao vê-lo, Jem abriu o sorriso mais radiante que ele já tinha visto, e Will não conseguiu focar em nada além disso.

Finalmente, pensou ele. Os dois estavam juntos havia quase dez anos, mas parecia muito mais do que isso. Will tinha certeza de que ele e Jem se conheciam de uma vida passada.

Quando os dois assinaram os papéis, Will achou que sabia o que significava plenitude.

***

Naquela noite, depois de uma breve comemoração e um início de lua de mel local – eles não podiam viajar, por causa do trabalho –, Will e Jem passaram um longo tempo abraçados na cama, em silêncio. Como de costume, foi Jem quem falou primeiro:

— Em que você está pensando?

Ele era a única pessoa que podia fazer aquela pergunta a Will e receber uma resposta sincera e objetiva.

— Em um poema – disse Will. O cenho de Jem se franziu, mas sua voz era bem-humorada:

— É a nossa primeira noite de casados, e você está pensando em um poema?

Will riu. Uma de suas mãos estava entrelaçada à de Jem, enquanto a outra acariciava o cabelo deste suavemente.

— Ah, você sabe. Um poema para cada ocasião especial. As vantagens de namorar um professor de literatura – Ele fez uma pausa. – Ou de casar com um, no caso.

Os dois ficaram calados por mais algum tempo, saboreando as palavras. Por fim, Jem disse, com um sorriso:

— Você vai recitar esse poema para mim ou vai me deixar na curiosidade mesmo?

— Eu não sei a coisa toda de memória – admitiu Will, rindo. – Hum. Eu deveria ter usado esse poema nos meus votos de casamento, agora que eu parei para pensar no assunto. Droga.

— William. O poema.

Will sacudiu a cabeça.

— “De almas sinceras, a união sincera”... Esse é o começo, e o motivo pelo qual eu estava pensando nele agora.

Hesitante, Jem perguntou:

— Você acredita nisso? Que o casamento é realmente uma... união de almas?

— Não se trata de casamento, James – Will cutucou a pontinha do nariz dele com o dedo. – Se trata de nós.

— Hm – Jem suspirou e se aninhou mais contra o peito de Will, sonolento. – Acho que eu gostaria de ouvir você elaborar mais essa resposta.

Will ergueu uma sobrancelha, mesmo sabendo que ele não podia ver.

— Você realmente não se cansa das minhas baboseiras românticas, não é?

— Não. Continue.

Demorou um minuto para Will conseguir organizar os pensamentos. Ele queria muito lembrar o poema por inteiro; ele fez uma nota mental para memorizá-lo e recitá-lo para Jem um dia.

— É só que... Eu tenho a impressão de que te conheço há séculos – começou. – O que é ridículo, porque nós não temos nem trinta anos.

— Estamos chegando lá – murmurou Jem. Will não pôde conter o riso.

— É. Enfim, eu sei que te conheço desde os dezessete anos de idade – Ele fez uma pausa, ponderando. – O que é bastante tempo, quando você para pra pensar. Mas... Você já ouviu dizer que intimidade não é uma questão de tempo? Então. Acho que não importaria se eu tivesse te conhecido ontem. Eu teria te pedido em casamento esta manhã.

Foi a vez de Jem rir.

— Eu consigo imaginar isso. Se você estivesse bêbado.

— Em minha defesa, o romantismo desesperado é um traço da família Herondale – disse Will. – Enfim, de volta ao poema. O resto é basicamente sobre amor, e como ele supera as maiores dificuldades e resiste através do tempo. Bem clichê, eu sei, mas deixe eu terminar.

Devia haver algo defensivo em sua vez, porque Jem levantou um pouco a cabeça para fitá-lo, um sorriso tolerante nos lábios.

— William, você me chamou pra sair através de um bilhete tipo “circule sim ou não”, me pediu em casamento ao som de violinos e mandou um buquê de rosas para o meu trabalho no dia do nosso aniversário ano passado. Se eu tivesse algo contra clichês, teria me casado com outra pessoa.

Aquele foi o incentivo do qual Will precisava para concluir sua linha de raciocínio.

— É. Clichê ou não, o que me chama a atenção é o final do poema – Ele fez esforço para se lembrar, as sobrancelhas franzidas em concentração. – “Se isto é falso, e o que é falso alguém provou/eu não sou poeta, e ninguém nunca amou”.

Novamente, foi preciso que Jem o incentivasse a explicar mais a fundo; Will tendia a se perder em pensamentos quando o assunto era poesia e referências obscuras a sonetos antigos.

— Então? Por que essa é a sua parte preferida?

— Ah, claro, desculpa. Bem, dizer isso põe bastante coisa em risco, não põe? Shakespeare... É um soneto de Shakespeare, aliás, soneto 96... está disposto a apostar seu título de poeta, porque está tão certo de que o amor pode vencer tudo – Will fez uma pausa, apreciando quão interessada era a expressão de Jem. – Eu acho isso incrível.

Jem refletiu sobre as palavras por alguns instantes, então disse:

— Ou ele está tão convencido de que está certo que está apostando o amor de todo mundo. Tipo, “se eu estiver errado, ninguém nunca amou ninguém, foi tudo uma farsa”.

Will deixou escapar um grunhido frustrado.

— Droga, James, por que você precisa acabar com o Bill desse jeito?

Jem riu. Era difícil parecer chateado quando Jem ria; aquele era um dos sons preferidos de Will no mundo inteiro.

— Primeiro de tudo – disse ele. – Não se refira a autores clássicos por apelidos aos quais eles muito provavelmente não atendiam.

— Já tivemos essa conversa antes, blá blá blá – murmurou Will.

— Exatamente. Segundo – Ele se ergueu nos cotovelos para poder alcançar os lábios de Will, mesmo que com certa dificuldade devido à posição. – Eu acredito no Shakespeare.

— Ah, é?

— Uhum – Jem abriu um sorriso angelical, e Will pensou que nunca mais precisaria olhar para o sol de novo. – Quer dizer, é uma ideia bonita, mas não é só isso.

Will ergueu uma sobrancelha.

— Dá pra explicar com mais detalhes?

O sorriso de Jem ganhou um quê de malícia, e Will teve certeza de que aquilo era vingança pela enrolação de antes.

— Bem, ele diz que, se o poema não for verdade, ninguém nunca amou. E isso não pode ser verdade.

O coração de Will não acelerou, como costumava fazer quando os dois eram adolescentes e Jem aparecia em seu campo de visão. Era mais como se ele estivesse inchando, um órgão muito pequeno para conter um sentimento muito grande.

— Ah, é? E por que seria isso?

— Porque eu amo você – disse Jem, como se fosse a coisa mais simples do mundo. – E não tem absolutamente nenhum jeito de isso ser falso.

Dessa vez, foi Will quem se inclinou para beijá-lo.

— Eu amo você – murmurou contra os lábios dele.

Os dois ficaram em silêncio por mais um longo momento. Will estava quase caindo no sono quando se lembrou de uma coisa:

— E o Shakespeare era poeta. Não tem como negar isso, também.

Foi a vez de Jem de soltar um ruído de frustração.

— Você tem que estragar tudo, não tem? Eu quero o divórcio.

— Pode pedir – retrucou Will, meio grogue. – Eu te peço em casamento de novo amanhã de manhã.

Jem tentou atingi-lo com o travesseiro, mas estava muito sonolento para acertar. Os dois adormeceram antes de poder provocar mais um ao outro.

Foi só na manhã seguinte que Will teve a oportunidade de dizer a Jem que, apesar das provocações, ele estava certo: não havia nada mais verdadeiro do que o sentimento entre eles. Jem lhe ofereceu uma piscadela cúmplice.

— De almas sinceras, a união sincera, lembra?

— Hum. Você vai ter que decorar o poema todo agora.

Jem riu, jogando a cabeça para trás.

— Isso pode levar um tempo – alertou ele.

— Não tem problema – disse Will. – Nós temos todo o tempo do mundo só para nós.

E, pela primeira vez, as palavras pareciam verdadeiras.

Notas finais
Então, é isso! Confesso que minha única experiência com casamentos foram casamentos na igreja, então eu tava meio que perdida hehe Não revisei nem nada, então, qualquer errinho podem deixar aqui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!