"De Volta" ao Reino de Oz
2 Capítulo 2 - Trancas
Notas iniciais
Dorothy abriu os olhos, só consegui ver o teto estranhamente semelhante ao da fazenda de tio Henry. De certa forma, aquilo a confortou até perceber que, decerto, não estava onde adormecera. Levantou.
Olhou ao redor, tratava-se de uma cabana de madeira um tanto precária. Não havia paredes, mas pedaços de madeira separavam um “cômodo” do outro. O vento caminhava livremente por toda parte. A cama em que a garota estava era rustica e o colchão não passava de um monte de palha coberto por um pano branco, “pelo menos tem um travesseiro”, pensou. Havia também um armarinho, atrás de um banquinho de madeira. Dorothy dirigiu-se até ele e abriu suas portas deparando-se com um vestido xadrez azul e branco do mesmo modelo do azul celeste que estava usando.
Dirigiu-se a próxima parte da casa fazendo o mínimo som possível. Havia um banheiro um pouco melhor do que ela se lembrava na fazenda, o restante parecia-se muito com uma cozinha. A pia grande, um familiar fogão a lenha e armários; tudo muito cinzento para um lugar tão iluminado. Na outra “parede”, havia uma coleção de machados de ferro dos mais variados.
Admirava a decoração quando percebeu ouvir vozes, olhou para o outro canto do cômodo pela primeira vez e se deparou com três homens sentados numa mesa. Não conseguia vê-los, pareciam embaçados. Estavam concentrados em algum assunto, aparentemente sério, inaudível para a garota. O maior deles, estava encostado na parede de machados; à sua frente, estava o mais magro, vestindo um chapéu e; de costas para Dorothy, o outro usava uma jaqueta com a gola levantada, parecia estar olhando para baixo.
Num estalo, Dorothy viu a porta que dava para uma floresta aberta a sua frente. Independente do porquê estava ali, e mesmo não tendo acordado completamente amarrada, não parecia confiável se aproximar de seus supostos sequestradores. De fato, a fuga parecia fácil demais, porém poderia ser sua única oportunidade.
Olhou novamente para os rapazes e, ainda não os enxergando claramente, pode notar que o maior havia virado a cabeça para onde ela estava. O coração de Dorothy bateu mais rápido, suas pernas correram automaticamente em direção a saída. Eram apenas cinco passadas, mas lhe pareceram uma eternidade.
Alcançou a porta desesperada, podia ouvir os passos em sua direção, foi quando um vento súbito fez com que a porta bate-se e, magicamente, a tranca antiga fechou-se sozinha.
O impacto levou a menina ao chão. Num grito, ela deixou seu pânico se espalhar por todos os cantos da casa. Os três já a haviam alcançado, mas mesmo tão perto, seus rostos não passavam de borrões.
Acordou!
***
Os olhos amendoados não estavam tendo sucesso com os livros de álgebra quando Dorothy inspirou para um suspiro e sentiu aquele cheio metálico novamente. Vagou os olhos pelas estantes da biblioteca, mas não viu nada.
Houve um som acompanhado de um vulto em direção a outra sessão. A menina se levantou e pôs-se em direção a sombra. Ela precisava admitir, fosse o que fosse, caminhava rápido demais.
Descobriu a sessão vazia e logo pode ouvir passadas atrás de si indo em outra direção. Na parada seguinte, convenceu-se que seus ouvidos a haviam enganado quando notou uma sombra ao final da estante. Evitando até mesmo o som da sua respiração, caminhou lentamente, mais para controlar seu nervosismo do que para surpreender seja lá o que a esperava.
Dois passos para o fim e a sombra se movimentou para o outro corredor. Os pés da menina aceleram e, novamente, ela se viu cercada apenas por livros, numa sessão que particularmente desconhecia.
Pensou em voltar para a mesa e pode ver uma silhueta entrando em uma das salas ao fundo do prédio. Seu coração disparou de modo que não pode controlar seus passos quando correu até dar, literalmente, de cara com a parede do cubículo onde se metera.
Virou-se para se retirar da cilada quando a porta fechou-se de modo que batesse com força em sua cabeça. Sem reação alguma, tudo que a morena pode fazer antes de desmaiar foi ouvir o som da tranca.
***
A garota levantou-se com a cabeça ainda latejando. Quanto tempo apagara? Não importava se não pudesse sair dali. Colocou-se desesperadamente a esmurrar a grossa porta enquanto gritava por Fred. Sentiu sua voz começando a falhar quando ouviu a tranca destravar e a porta se abrir.
Olhou aos arredores e deparou-se com o nada. Correu até a secretaria da biblioteca, não havia ninguém pelo caminho, não havia Fred. Chegou a saída e descobriu-se fechada naquele lugar. Não que ficar presa aos livros fosse incomodo, mas o modo como parara ali lhe causava calafrios.
Suspirou e começou a imaginar como passaria a noite naquele lugar, se é que a intenção de seja-lá-quem-for era essa. Voltou a sua mesa e deparou-se com ela vazia, Fred acreditara que ela havia ido embora? Tropeçou em uma das cadeiras e, ao ir para o chão, notou um livro embaixo da mesa, O Mágico de Oz. De novo? Quanto tempo deveria suportar para entender estes fatos?
Ouviu-se um ranger de uma das portas. Dorothy olhou para os fundos e pode ver novamente aquele vulto. Agarrou-se ao livro como se fosse uma arma, e seguiu naquela direção.
Diferente do pequeno aposento onde ficara presa, a outra porta dava para uma escada que levava ao porão pouco iluminado. Sentiu o corpo estremecer. Por que estava se deixando guiar por algo que a enlouquecia nos últimos tempos? De onde surgia essa coragem insana de buscar por algo que não sabia se haveria volta?
O local cheirava a poeira e estava repleto de velhas estantes amontoadas por toda parte. Um pequeno vestígio de luz podia ser visto, foi a direção que a pequena resolveu continuar.
Chegada certa distância, podia-se perceber o clarão que aquele canto emanava. Os olhos da menina se arregalaram ao deparar-se com a enorme luz suspensa ao nada, parecia-se muito com os portais com os quais "via" nos livros de quando criança.
Não acreditando no que seus olhos viam, Dorothy deu mais alguns passos em direção a luz. Foi quando formou-se uma linda imagem de um local que parecia sair dos contos de fadas. Havia uma imensa área verde entrecortada por uma estrada dourada e, ao fundo, imensas torres esmeraldas. Vozes cantavam e dançavam, mas uma evidenciava-se:
– Venha para nós! — repetia uma majestosa voz feminina, acolhedora como uma mãe — Venha para nós!
Dorothy deu mais um passo em direção ao portal completamente hipnotizada. De repente, a imagem enegreceu-se e uma risada amedrontadora percorreu todo o corpo da garota. O medo fez com que sua consciência voltasse. Preparava-se para correr quando sentiu algo tocar sua cintura e a jogar para dentro da luz.
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