De Volta
1 Uma carta para mim
Notas iniciais
Eu fiz essa história buscando algumas imagens da minha infância, mas sei que em algum momento se lembrarão de vocês mesmos. Boa leitura.
-Ô de casa! Zía, cheguei!
-Menina de Deus! Esse apartamento tá um deserto de tanta poeira!
-O deserto não tem poeira, é areia, sabidona...
-Não tem poeira porque veio toda pra cá!
Era sempre assim, ás sextas-feiras quando eu chegava em casa para almoçar. Reclamação desde o momento em que eu abria a porta. Lá estava ela, de vassoura na mão e flanela no ombro; minha Zía.
Zía cuidava de mim e do meu apartamento desde que ingressei na universidade. Claro, quem contratou foi minha mãe, Dona Leda, para não ter que se preocupar comigo. Aliás, desde os meus 17 anos ela me disse que se dedicaria a ser fútil!
Isso mesmo, falava bem assim:
-Cansei Isa! De hoje em diante quero viver apenas para as minhas futilidades!- falou com o mesmo orgulho e satisfação de quem diz que vai ser voluntário em algum trabalho social.
-Zía, eu trouxe o almoço.
-É, mas tem que comer na sala, porque essa sua mesa de japonês já viu né... Não limpei ainda.
-Pega os pratos Zía. Olha que delícia, ‘’marmitex’’.
Fizemos como de costume: eu me sentava no chão e ela no sofá, com o prato na mão.
-Já ia esquecendo Isa, tua mãe ligou... Tá toda metidona, disse que ta num navio...
-É to sabendo. Hum... Daqui a pouco só me falta aparecer com um piercing.
-Que é isso Isa?
-Piercing? Um brinco de pôr no nariz, no umbigo, na sobrancelha...
-Ah sei. Já vi. Tem até para língua né?
Rimos, era sempre assim entre uma garfada e outra.
-Ô Isa, trocaram o porteiro?
-Trocaram, parece que o seu Elias ia se aposentar. Ficamos uns três dias sem porteiro aí...
Eu gostava muito de conversar com a Zía, sempre gostei. Ela me conhecia, eu não precisava escolher palavras e sem falar na minha carência de família. A campainha tocou e eu fui atender. Era o novo porteiro me trazendo as correspondências atrasadas. Coloquei indiferente na mesinha de centro e fui ao banheiro.
_Ó Isa, tem carta escrita á mão! Nunca vi isso aqui...
_Ei! Curiosa... E de quem é?
_Tal de Rosa. Não é sua avó?
Naquele momento senti um arrepio, um nó na garganta. Tomei da mão de Zía e fui abrindo, quase rasgando.
“Isabela,
Espero que esta carta chegue nas suas mãos antes que seja tarde.
Tua avó se encontra hospitalizada e nos últimos três dias, com significativa piora. Tem perguntado por você constantemente.
Se for possível, dê a ela a grande alegria de revê-la. Obrigado,
Otávio.”
Li em voz alta para Zía saber.
_Isa do céu... Vamos avisar a Leda?
Procurei o sofá e fui me recostando para digerir a notícia. Fechei os olhos e levei a mão à testa.
_Será que a Leda não sabe Zía? Não me deixaria surpresa descobrir que já sabia e não me avisou.
_Olha Isa, eu não tenho nada com isso, mas por pior que sua avó seja, pedido de um doente é coisa séria viu?
_O pior é que minha avó é maravilhosa...
Zía coçou a cabeça e pôs as mãos na cintura me olhando. Já ia se retirando, mas deu meia volta e soltou:
_Aí eu não estou entendo mais nada! Sua mãe sempre que fala dela, falta se benzer, você nunca fala dela, o Ivo então... E ela é boa gente?
Meu coração se apertava e eu mal entendia o que Zía falava:
_Zía, me faz um cafezinho, por favor?
Me estiquei na poltrona esperando o café. Quando fechei meus olhos, minha mente viajou; lembrei-me perfeitamente da fachada da casa de minha avó: muros baixos adornados com elementos vazados, pés de jasmim e arvorezinhas de azaleias no jardim.
_Isa, teu café está pronto; bebe vai...
_O que você acha Zía? Eu vou? Não vou?
_O que sua avó representa na tua vida?
Acho que eu sempre fugi desta pergunta, que não se calava dentro de mim.
_É uma longa história... Mas ela mora no meu coração mesmo depois de tantos anos. Senta aí, vou te explicar mais ou menos o que houve.
Ficamos ali papeando, por algumas horas, e no fim da conversa ela me aconselhou:
_Se eu estivesse no seu lugar, eu iria correndo! O tempo que a gente perde na vida não se recupera nunca, mais a gente às vezes consegue remediar, sabe... O problema é quando não existe mais aquilo que a gente queria recuperar, aí é problema...
_Você está certa Zía! Amanhã bem cedo saio daqui. Não sei o que vou encontrar, mas preciso sentir mais uma vez...
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