De Todos Os Loucos No Mundo
2 Segredos semi-revelados
Notas iniciais
Algumas coisinhas foram esclarecidas nesse capítulo, mas tem muitas coisinhas por vir.
Boa leitura.
– Porque está tão feliz?
– Eu não estou feliz.
– Você sorri do nada e suas bochechas estão vermelhas.
Neguei com a cabeça, ficando mais corada ainda.
– Pura ilusão. É o livro.
Caio ergueu uma sobrancelha e deu de ombros, murmurando alguma coisa que eu não tive nenhuma vontade de prestar atenção. O professo começou a anotar alguma coisa no quadro, e eu me abaixei pra pegar o meu caderno. Quando ergui meu olhar, meus olhos castanhos se encontraram com os verdes mais apaixonantes. Marcos sorriu. Revirei os olhos e virei pra frente, mas ele continuou a olhar para mim, o que me fez sorrir de canto.
– O que eu vi agora? – Laura murmurou do meu lado.
– Viu o que?
– Você e ele.
– Eu e ele? Não, não. Não tem eu e ele.
– Claro qu...
O professor lançou um olhar irritado para nós duas, e eu não estava nem um pouco afim de ir para a diretoria pela segunda vez no dia. Na hora do recreio, sentamos no canto da quadra, conversando como adolescentes comuns. O papo de “o que você quer ser quando crescer” não era daqui a alguns anos. Era agora. Iriamos prestar vestibular para alguma coisa daqui a alguns meses. E eu não fazia a mínima ideia de seguir o que meus pais queriam, ou seguir o meu coração. Seja lá o que ele queria.
– Provavelmente o Caio vai descobrir que é gay e vai estudar moda – João disse.
– Ou eu vou descobrir que tenho super poderes e destruir você.
João riu, abrindo a latinha de refrigerante.
– Isso foi muito gay, Rick Martin.
– Pare com isso, João – Melissa resmungou – Nós todos sabemos que o Caio só é infantilizado.
– Ajudou muito – Caio murmurou. Laura deu um tapinha no ombro de João, que ficou mais do que corado. Vou explicar: Da última vez que viajamos para casa da Laura em Teresópolis, fizemos verdade ou desafio. Eu desafiei o João a beijar a Laura, e desde essa pequena brincadeira, ele ficava nervoso em qualquer contato entre os dois.
Melissa se levantou, perguntando se alguém queria alguma coisa da cantina. Todos negaram, e ela sumiu em meio ao aglomerado de pessoas.
João a seguiu com os olhos, depois fixou o olhar no refrigerante.
– Vocês ficaram? – perguntei.
João ficou tão vermelho quanto o logotipo da coca-cola.
– Hm... talvez.
– Ai meu Deus! – gritei. Caio cuspiu o suco de laranja – Quando?
– Eu não devia falar.
Caio deu um tapa nas costas dele.
– Seu viado, agora você conta!
“Na última semana de férias eu tive uma daquelas festas de família, que você vê tio de sei lá quantos graus e primos que acabaram de nascer. A Melissa foi com a mãe dela, que namora meu tio Carlos. A gente não aguentava mais crianças gritando etc. Então nós fomos para o casebre que tem lá no fundo da propriedade da minha avó. A gente ficou conversando até... Sei lá, pintou um clima. Nós nos beijamos... Hm, não só nos beijamos...”
– Pera, pera – Laura botou a mão na testa – Vocês transaram?
– Quem transou? – Melissa havia acabado de chegar com um salgadinho e um suco.
– Com certeza não foi a Gabriela – Laura despistou falsamente fascinada no próprio tênis.
– Essa aí fica virgem até casar – João continuou.
Melissa riu e sentou do lado do mesmo.
– É a única virgem do grupo.
– Obrigada por me lembrar disso – murmurei. – Eu só não tive a oportunidade ainda.
– Teve sim – Laura começou a contar – Teve o Juca, o Luis e o José.
– Você espera os caras dos livros que não existem. Curta a vida, Gabi! – João disse.
Nesse momento, eu olhei um pouco mais para cima da cabeça do mesmo, e lá estava Marcos Oliveira olhando diretamente para mim. Normalmente quando a pessoa que você está olhando olha pra você, você despista o olhar, certo? Certo. Mas ele não. Ele continuou olhando no fundo dos meus olhos. E sorriu. E mordeu o lábio. E me matou aos poucos. E, e, e... Ele botou as mãos nos bolsos e sorriu. Eu tive que despistar o olhar antes que retribuísse.
– O que aconteceu com você e o Oliveira para estarem agindo assim? – João perguntou. Todos olhavam para mim ou para ele, tentando juntar as peças.
– Ele só esbarrou em mim e quase quebrou meu celular.
– SÓ ISSO? Ele deve estar achando que você quer alguma coisa com ele!
– Ele que pense o que quiser. – disse, dando o assunto como encerrado. Depois de um tempo o assuntou voltou a ser sexo.
– Então Caio, perdeu com quantos anos?
– Dezesseis.
– Passivo ou ativo?
– Vai se fuder, João.
João sorriu.
– Laura?
– Dezesseis também. João?
– Quinze.
Melissa se mexeu desconfortável.
– E você Melissa?
– Hm, bom...- ela gaguejou, e por fim disse – Não faz muito tempo.
Puta que pariu. João ficou tão branco quanto eu, sendo que ele é moreno. Se ela tivesse realmente perdido com o ele, o clima ficaria eternamente estranho, até porque desde o beijo da Laura com ele, João havia gostado cada vez mais da mesma.
Laura revirou os olhos e me puxou para fora da roda, me levando até a cantina.
– Que diabos...? – perguntei.
– Eu gosto do João, cara. A gente também tava ficando, escondido, mas tava. – minha cabeça não processava tudo de uma vez – E ele fez aquilo. Okay, a gente não tava namorando, mas tava ficando. A mais de um mês.
– E você não me contou?
– Era segredo.
– Somos amigas desde que estávamos na barriga das nossas mães, literalmente!
– Eu sei, mas...- Laura não olhava mas para mim. Sem entender, virei para olhar onde ela estava olhando. E lá estava Marcos Oliveira, olhando novamente para mim. Apontou pro seu próprio celular, e sorriu.
Olhei pra minha mão, aonde eu segurava meu celular. Bem embaixo da blusa do Rupert, aparecia:
Uma nova mensagem:
É melhor prestar atenção a sua volta, Gabriela – Número Desconhecido
Ergui meu olhar, e o mesmo estava bem na minha frente, com uma capa de celular na mão. Ele me entregou a capa, e olhou para a Laura, sorrindo sem mostrar os dentes.
– E aí, Cupolillo.
– Oi Oliveira – ela estava séria, com uma sobrancelha erguida. Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Marcos voltou a olhar para mim.
– A capa saiu quando seu celular voou. Só estou te entregando.
– Como você conseguiu meu celular? – perguntei.
– Um dia eu te conto – Ele sorriu e piscou, voltando pra perto dos amigos.
Laura revirou os olhos e eu fui forçada a contar o que aconteceu.
– Tenho que fazer um discurso de o quanto ele é ridículo e só vai acabar com seus sentimentos, destruir sua felicidade, pegar sua virgindade etc etc etc?
– Não – murmurei – Não vai rolar nada entre a gente, cara.
Então puxei Laura, pois era nossa vez na cantina. O resto da aula nós duas ignoramos nossa conversa na cantina, pois nenhuma das duas queria conversar sobre o assunto sobre o que falamos. A professora de português, Lucia, nos passou o dever bimestral logo, e falou que era para formar duplas. Normalmente ninguém gostava dela, mas todos comemoraram e agradeceram. Todos fizeram suas duplas, mas eu não quis me preocupar com isso.
– Então, você já tem uma dupla? – Caio perguntou.
– Não – respondi – e você?
– Tenho, se você aceitar.
Sorri e concordei com a cabeça. Caio era tão fofinho de vez em quando, que dava vontade de apertar ele até o colocar num potinho. Mas, antes de qualquer outra coisa, a professora falou em alto bom som, as palavras que nem eu, nem ninguém queríamos ouvir:
– Antes de sair, vou fazer um sorteio para as duplas.
“O QUE?” “INJUSTIÇA” “OLHA A FALTA DE ESCOLHA PRÓPRIA” “ISSO É UM ABSURDO” “PROTESTO”
– CALADOS! – Lucia gritou, batendo a mão na mesa – Vocês tem que aprender a trabalhar com qualquer pessoa. Seja seus amigos, ou inimigos.
Com isso, ela pegou um papel e escreveu todos os nomes, olhando na lista de chamada. Botou-os num pote que surgiu do nada, e tirou o primeiro nome. Todos olhavam tão sérios e calados que me senti na Colheita dos Jogos Vorazes: pronta para encarar meu amigo, inimigo ou desconhecido, num trabalho que não era nem um pouco legal. E podia acabar em briga, com certeza.
“Laura Cupolillo e Julia Borges”. As duas trocaram um olhar irritado, e reviraram os olhos. Sei lá porque, mas as duas não se davam muito bem. Até porque eram super diferentes, mas quem sabe assim ficavam amigas?
“João Carvalho e Melissa Abulquerque”. Opa opa, não ia dar certo, não ia dar certo. Ou eles transariam de novo, ou brigariam. Tudo menos fazer trabalho. E no final, sairiam machucados de algum jeito.
E os nomes foram passando, pessoas comemorando, pessoas reclamando, pessoas zoando. Todos menos meu nome. Todos menos o do Caio. Faltavam quatro pessoas a serem chamadas. Eu e Caio estávamos entre elas, e nós já estávamos positivos sobre isso. Seriamos nós dois, com certeza.
Tsc tsc, eu sempre me engano.
– Gabriela Viera e Marcos Oliveira.
Meus olhos percorreram a sala, até encontrar os verdes dele. Marcos sorriu e piscou, como se tivesse super animado e feliz por ter sido sorteado comigo. O pior de tudo é que, mesmo em frente a uma sala de cinquenta pessoas + meus amigos e minha professora, eu tive a infelicidade de sorrir de volta e corar.
Notas finais
r e v i e w s.
reviews.
bons.
ruins.
sei lá.
mas: reviews.
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