De Repente, Pais!
3 A Tempestade
Notas iniciais
Capítulo 3: A Tempestade
O relógio do painel do meu carro marcava exatamente oito horas da noite quando dobrei a esquina e encostei na entrada da casa de Alice e Jasper. O céu de Forks já estava completamente escuro, coberto por nuvens densas e chumbo que começavam a derramar uma chuva fina e persistente contra o para-brisa.
Com certa dificuldade, puxei minha mala do banco traseiro e me abriguei sob o alpendre da entrada, batendo na porta de madeira com a ponta dos dedos. Foi o próprio Jasper quem abriu, com uma expressão atarefada e um sorriso caloroso no rosto.
— Bella! Que bom que você chegou. Entra rápido antes que essa chuva piore — ele disse, pegando a minha mala com uma facilidade invejável e abrindo espaço para mim.
Assim que pisei no hall de entrada, o som de risadas infantis e passos descalços preencheu o ambiente. Me dirigi até a sala de estar e parei no meio do caminho, paralisada pela cena que encontrei.
Acomodado no centro do tapete peludo, usando uma camiseta cinza confortável e calça jeans, estava Edward Cullen. Ele estava sentado de pernas cruzadas, construindo uma torre instável com blocos de montar coloridos para a pequena Liv. Quando a bebê esticava a mãozinha gordinha e derrubava tudo, Edward soltava uma gargalhada alta e teatral, jogando as mãos para o alto e fazendo uma careta engraçada que fazia a menina gargalhar até ficar vermelha.
Ver aquele homem alto, de ombros largos e mãos cirúrgicas tão acostumadas à precisão, completamente entregue à bagunça de uma bebê de um ano, fez meu coração dar uma cambalhota estranha no peito.
— Olá, Swan — Edward ergueu os olhos verdes para mim, abrindo aquele sorriso torto e irritante que ele sabia exatamente como usar. Ele deu uma olhada rápida para a minha mala grande no corredor e ergueu uma sobrancelha. — Trouxe a casa toda nas costas ou planeja se mudar em definitivo?
— É prevenção, Cullen — respondi, cruzando os braços e tentando ignorar a forma como o sorriso dele deixava a sala subitamente mais quente. — Diferente de você, eu gosto de estar preparada para qualquer tipo de emergência.
— Emergência? Você trouxe roupas para um ano! — ele debochou, voltando a empilhar os blocos para a Liv, que agora engatinhava até o meu pé e puxava a barra da minha calça jeans.
— Dindinhaaaa! — Liv balbuciou com a sua vozinha fina, me encarando com os olhos grandes e castanhos idênticos aos de Jasper.
Ajoelhei no chão no mesmo instante, esquecendo a mala e o Edward, e puxei minha afilhada para um abraço apertado, enchendo suas bochechas rosadas de beijos até ela soltar uma risadinha gostosa.
— Oi, meu amor! A dindinha chegou para cuidar de você — murmurei, sentindo o cheiro delicioso de sabonete infantil do cabelo dela.
— Não dê muita corda para ela, Bella — Alice apareceu na sala, ajustando um casaco elegante de lã sobre os ombros e carregando duas bolsas de mão. — Se você mimar muito, ela não vai querer dormir cedo.
Lá fora, um trovão abafado ressoou pela escuridão, e a chuva fina rapidamente se transformou em um temporal torrencial, batendo com força contra as janelas de vidro. Jasper voltou do lado de fora encharcado, tendo acabado de colocar as malas grandes no porta-malas do carro.
— O tempo está ficando péssimo — Jasper comentou, limpando os pingos de chuva do rosto. — É melhor a gente ir agora para não pegar a estrada muito ruim até o aeroporto.
A atmosfera na sala mudou em um segundo. O clima de brincadeira deu lugar àquela ansiedade inevitável de primeira grande viagem dos pais longe da filha. Alice foi até o berço temporário na sala onde Liv brincava, pegou a bebê no colo e a apertou contra o peito com uma força quase desesperada, enterrando o rosto no pescoço da filha.
— Mamãe já volta, meu amor... Prometo que passa rápido — Alice sussurrou, a voz embargada enquanto dava dezenas de beijinhos no rosto de Liv. — Fique boazinha com a dindinha e o dindou. A mamãe te ama tanto, tanto...
Jasper se aproximou, abraçando as duas por trás e beijando o topo da cabeça de Alice e depois a testa da bebê. Era uma cena tão pura, tão cheia de amor, que senti um nó apertado se formar na minha própria garganta.
— Nós vamos ligar assim que o avião pousar na Itália, tá bom? — Alice disse, entregando a bebê com cuidado para os braços de Edward, que a segurou com um carinho protetor absoluto. Alice passou a mão pelo rosto para enxugar uma lágrima teimosa. — A lista de remédios está na geladeira. O número do pediatra no painel da cozinha. E se qualquer coisa acontecer...
— Alie... — chamei baixinho, dando um passo à frente antes que ela surtasse de preocupação.
Alice se virou para mim com os olhos brilhando de emoção.
— Eu amo vocês — dei um abraço apertado nela e depois em Jasper. — Se divirtam por nós. E não faça nada que eu não faria!
Alice soltou uma risada fraca, fungando o nariz, e me deu um tapinha brincalhão no braço.
— Vocês dois também — ela piscou, olhando de mim para Edward com aquele seu brilho maroto característico. — Só não transem na minha cama!
— Alice! — protestei no mesmo segundo, sentindo meu rosto arder em um tom profundo de vermelho, enquanto Edward soltava uma gargalhada alta atrás de mim.
— Tchau! Amo vocês! — Alice acenou uma última vez, pegando na mão de Jasper.
Eles saíram pela porta da frente, abrindo os guarda-chuvas que mal davam conta do vento forte. Vimos as luzes traseiras do carro de Jasper cortarem a escuridão da tempestade, iniciando a longa e perigosa viagem de três horas de estrada que os levava de Forks até o aeroporto de Seattle.
A noite que se seguiu foi uma verdadeira odisseia.
Cuidar de uma bebê de um ano com Edward Cullen era uma mistura caótica de comédia e pura provocação. Na hora do jantar, Liv decidiu que a papinha de legumes ficava muito mais bonita espalhada na cara do Edward do que na própria boca. Eu quase caí no chão de tanto rir quando uma colherada inteira voou direto no queixo dele.
— Você está rindo da minha desgraça, Swan? — ele perguntou, limpando o queixo com um pano de prato enquanto me encarava com uma carranca falsa.
— É a sua punição divina por ser tão irritante — respondi, pegando a colher da mão dele. — Deixa que eu dou. Você nem sabe conversar com uma criança de um ano sem parecer um professor de anatomia.
No banho, a confusão continuou. Nos esbarramos várias vezes no espaço pequeno do banheiro, com água espirrando para todos os lados. Em um determinado momento, quando ele se abaixou para segurar a chave do chuveiro ao mesmo tempo em que eu me inclinei para pegar o xampu infantil, nossos ombros se chocaram. Edward parou por um segundo, a centímetros de distância do meu rosto, e seus olhos verdes passearam pelos meus lábios antes que ele desse um sorriso de canto e se afastasse devagar.
Por volta da meia-noite, depois de três historinhas contadas por mim e uma canção de ninar que Edward cantarolou com uma voz surpreendentemente afinada e suave, Liv finalmente adormeceu profundamente em seu berço.
Exausta, arrumei minhas coisas no quarto de hóspedes do corredor, enquanto Edward ocupou o quarto no final do corredor. A tempestade lá fora só piorava; os trovões faziam as janelas de vidro tremerem e a chuva caía em rajadas violentas contra o telhado.
Deitei na cama e puxei o edredom até o queixo, ouvindo o som constante da tempestade. Apesar do cansaço, levei um longo tempo para pegar no sono, com a mente insistindo em repassar a imagem de Edward segurando Liv e o calor da bochecha dele onde seus lábios haviam encostado na noite anterior.
03:00 AM.
O som agudo e estridente do toque do meu celular me arrancou de um sono leve de forma brutal.
Sobressaltada, sentei na cama com o coração disparado no peito. A tela do aparelho iluminava a escuridão do quarto com o nome que eu menos esperava ver àquela hora da madrugada: PAI.
Com os dedos trêmulos, deslizei a tela para atender.
— Pai? — murmurei, com a voz rouca de sono. — Aconteceu alguma coisa? O que foi?
— Filha... — a voz de Charlie do outro lado da linha não parecia a voz firme do chefe de polícia que eu conhecia. Era um som embargado, entrecortado, pesado de pânico. — Filha, você precisa manter a calma.
— Pai, você está me assustando. O que houve? — me levantei da cama num pulo, o ar sumindo dos meus pulmões instantaneamente.
— Houve um acidente grave na estrada para Seattle... por causa da pista molhada e da tempestade — a voz de Charlie falhou por um segundo, e ouvi o som de serras e sirenes ao fundo da ligação. — É o carro do Jasper, Bella. Eles estão sendo socorridos para o hospital agora.
O mundo ao meu redor pareceu girar ao contrário. Um frio gélido correu pelas minhas veias, congelando cada célula do meu corpo.
— Não... não, não, não... — balbuciei, correndo para fora do quarto com o celular colado ao ouvido.
Ao mesmo tempo, a porta do quarto no final do corredor se abriu com uma violência assustadora. Edward apareceu no corredor escuro, vestindo apenas uma calça de moletom, com o rosto completamente pálido, os olhos arregalados de horror e seu próprio celular apertado na mão.
Nos chocamos no meio do corredor. Olhando nos olhos um do outro, tomada pelo pânico absoluto, a minha voz e a dele ecoaram ao mesmo tempo, em um coro desesperado:
— Alice e Jasper sofreram um acidente.
— O Carlisle me ligou do hospital... ele está na sala de trauma aguardando a ambulância chegar — Edward disse, a voz vacilando como eu jamais havia escutado em toda a minha vida. O pavor estampado no rosto dele era o espelho exato do meu.
— O meu pai tá na estrada... ele disse que foi grave, Edward! Ele disse que foi muito grave! — segurei o braço dele, sentindo minhas mãos tremerem incontrolavelmente enquanto as lágrimas começavam a embaçar minha visão. — A gente precisa ir lá! A gente tem que ir agora!
Edward segurou meus ombros com firmeza, tentando manter a postura fria e racional de médico, embora a dor em seus olhos entregasse que ele estava tão despedaçado por dentro quanto eu.
— Nós não podemos, Bella — ele disse, com a voz embargada. — A Liv tá dormindo no quarto. Nós não podemos deixar uma bebê de um ano sozinha na casa no meio da madrugada.
— Eu não consigo ficar aqui sem saber! — solucei, cobrindo a boca com a mão.
— Eu vou — Edward determinou, apertando meus ombros com carinho desesperado. — O meu pai tá no plantão e eu sou médico daquele hospital, eu consigo entrar na sala de emergência com ele. Eu vou para lá agora mesmo. Você fica aqui com a Liv. Promete que vai cuidar dela?
Engoli em seco, sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto. Olhei para a porta do quarto da bebê e depois para ele.
— Prometo — sussurrei. — Por favor, Edward... me liga. Me liga no segundo em que souber de qualquer coisa. Por favor.
— Eu ligo — ele prometeu.
Edward pegou as chaves do carro na mesa de entrada, vestiu uma jaqueta rapidamente e saiu pela porta da frente, sumindo no meio da tempestade implacável que castigava a cidade.
A porta se fechou com um baque pesado, e o silêncio congelante da casa caiu sobre mim como uma sentença. Caminhei até a sala de estar, trêmula, e me sentei no sofá iluminado apenas pelas luzes fracas do corredor. Do monitor da babá eletrônica sobre a mesa de centro, o som suave e ritmado da respiração de Liv continuava ecoando, alheio a tudo.
Apertei o celular contra o peito, ouvindo os trovões estourarem no céu e a chuva bater com força nas janelas. Sozinha na escuridão daquela sala, comecei a rezar desesperadamente contra o tempo, esperando por um telefonema que mudaria as nossas vidas para sempre.
A agonia de esperar no silêncio de uma casa estranha é mil vezes pior do que qualquer dor física.
Eu andava de um lado para o outro na sala de estar, meus passos rápidos desgastando o tapete felpudo onde, poucas horas antes, estávamos todos rindo. O relógio na parede parecia caminhar em câmera lenta, enquanto lá fora o mundo parecia estar desabando. A chuva, que já era forte, transformou-se em um temporal assustador. Raios cortavam o céu escuro de Forks, iluminando a sala em flashes gélidos e violentos, seguidos por trovões tão altos que faziam a estrutura da casa tremer.
A cada estrondo, meu coração dava um salto na garganta. Olhava para a tela do celular a cada cinco segundos, rezando por qualquer notificação, qualquer sinal de vida.
Foi quando um trovão estrondoso, quase diretamente sobre a casa, fez todas as janelas vibrarem. Poucos segundos depois, o choro alto e assustado de Liv ecoou pela babá eletrônica.
Esqueci o meu próprio pânico por um segundo e corri escada acima. Entrei no quarto temático de nuvens e encontrei a bebê sentada no berço, com os bracinhos estendidos para o alto, o rostinho vermelho e banhado em lágrimas, aterrorizada pelo som da tempestade.
— Psiu... Calma, meu amor. A dindinha tá aqui — murmurei, com a voz embargada, pegando-a imediatamente no colo.
Apertei a menininha contra o meu peito, ninando-a e balançando o corpo de um lado para o outro. Ela escondeu o rosto no meu pescoço, agarrando a minha camiseta com suas mãozinhas gordinhas enquanto soluçava. Passei a mão pelos cabelinhos macios dela, beijando o topo de sua cabeça repetidamente.
— Vai ficar tudo bem... Vai ficar tudo bem, meu anjo... — eu repetia em um sussurro, tentando desesperadamente convencer a mim mesma enquanto ninava a bebê no escuro do quarto.
Foi nesse exato momento que o celular no meu bolso traseiro começou a vibrar e tocar.
Um gelo instantâneo correu pelas minhas veias. Com a mão trêmula, segurando Liv firmemente com o outro braço, puxei o aparelho. O nome EDWARD brilhava na tela.
Atendi no primeiro toque, levando o telefone ao ouvido com o coração martelando contra as costelas.
— Edward?! — minha voz saiu como um sopro estrangulado. — Edward, pelo amor de Deus, me diz alguma coisa!
O som que veio do outro lado da linha não parecia em nada com o homem arrogante e controlado que eu conhecia. Era o som de um choro descontrolado, uma respiração entrecortada e hiperventilada que me cortou ao meio antes mesmo de ele articular uma única palavra.
— Bells... — a voz dele veio rasgada, sufocada pelo desespero mais puro. — Bells... o... o Jas...
— Edward, fala comigo! O que aconteceu com o Jasper?! — tentei manter a voz firme, segurando as lágrimas que queimavam meus olhos, sentindo o terror absoluto tomar conta do meu peito.
— Ele tá morto, Bella! — Edward soltou em um grito abafado, desmoronando em um soluço violento do outro lado. — O Jasper... ele... ele morreu na hora! Não deu tempo de fazer nada... Ele não resistiu ao impacto!
O mundo parou. O som da chuva lá fora, o choro fraco de Liv no meu colo, o bater do meu próprio coração... tudo desapareceu, substituído por um zumbido ensurdecedor nos meus ouvidos. Senti minhas pernas fraquejarem e me encostei na parede do quarto para não cair no chão com a bebê.
Jasper. O Jasper brincalhão, que poucas horas atrás estava me abraçando e rindo do vinho. Morto.
— Não... Não, Edward, não pode ser... Por favor, diz que isso é mentira! — gaguejei, sentindo as primeiras lágrimas quentes e grossas transbordarem pelos meus olhos e escorrerem sem controle. Eu precisava ser forte, precisava conter o pânico por causa da Liv, mas o meu peito parecia estar sendo esmagado por uma tonelada de ferro. — E a Alice?! Edward, cadê a Alice?!
Ouvi o som confuso de passos rápidos e vozes alteradas ao fundo da ligação, o caos do pronto-socorro invadindo a chamada, seguido por uma respiração mais adulta e pausada assumindo o telefone.
— Bella? É o Carlisle.
A voz do pai de Edward era profunda, mas carregava um peso devastador.
— Carlisle... — murmurei, soluçando abertamente agora, apertando Liv contra o peito enquanto a bebê começava a se acalmar no meu colo, totalmente alheia ao pesadelo que se desenrolava. — Me diz que a Alice tá bem... Por favor, Carlisle...
— A Alice deu entrada em estado extremamente grave, Bella — Carlisle explicou, tentando manter o tom profissional, embora sua voz vacilasse na última palavra. — Ela teve um traumatismo craniano sério e hemorragia interna. A equipe médica acabou de levá-la para o centro cirúrgico de emergência. Nós estamos fazendo absolutamente tudo o que está ao nosso alcance, mas... as próximas horas serão cruciais.
— Meu Deus... Meu Deus... — cobri a boca com a mão livre, abaixando a cabeça enquanto o choro me dominava por completo.
— O Edward não tem condições de falar agora, Bella. Ele está em choque na sala de espera — Carlisle continuou, a voz transbordando compaixão. — Fique aí com a Liv. Ela precisa de você inteira agora. Eu vou te mantendo informada de qualquer novidade da cirurgia.
— Tá... Tá bom... Obrigada, Carlisle... — sussurrei antes que a ligação fosse encerrada.
O telefone escorregou da minha mão e caiu no tapete macio do quarto.
Desabei sentada no chão, encostada no berço, abraçando Liv com toda a força que me restava na alma. O choro alto e doloroso finalmente rasgou a minha garganta. Eu chorava pela perda trágica e inacreditável do Jasper. Chorava em pânico pela vida da minha melhor amiga, que lutava para sobreviver em uma mesa de cirurgia a poucos quilômetros dali. E, acima de tudo, chorava ao olhar para o rostinho sereno de Liv, que agora descansava a bochecha no meu ombro, chupando o dedinho, dormindo suavemente, completamente alheia ao fato de que o seu mundo inteiro havia sido destruído em uma única curva de estrada.
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