De Outra Maneira
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Não estava acreditando no que estava acontecendo. Lívia tinha dito mesmo aquilo? Eu, uma bruxa? Será que eu estava sonhando? Se estava, não acordei em nenhum momento.
– O quê? – Foi o que eu consegui dizer, depois de alguns minutos de silêncio. – Lívia, você está bem?
– Eu disse que era melhor não contar! – Melissa disse, prestes a chorar.
– Xiiiiu, Melissa! – Jacqueline disse impaciente. Depois se dirigiu a mim. – Lana, vamos te contar tudo. Desde o começo.
Lana? Desde quando ela me chama assim?
– Então que tal vocês começarem me contando a parte do porquê vocês acharem que eu sou uma bruxa? – Cruzei os braços e arqueei uma das sobrancelhas, desconfiada.
– Allana, só tivemos certeza de que era você quando Cauê nos contou porque está aqui. – Lívia explicou. Então Cauê tinha contado? Mas eu confiei nele! Me senti traída naquele momento. – Aquele fogo se dispersando da fogueira, não estou dizendo que foi você, mas devido a sua fúria do momento, seus poderes se manifestaram de uma forma negativa, e você não sabe controla-los, nem sabia da existência.
– Eu nunca quis machucar a garota naquele dia! – Eu disse, um pouco irritada. Me sentei na minha cama, para tentar absorver as informações.
– Não estamos dizendo isso! – Jacque rebateu. – Precisamos te contar tudo.
– Deixem que eu conto, meninas. – Disse Melissa. Ela se sentou do meu lado. Era tão fofa que me dava vontade de morder. – Allana, a questão é que você morreu e nasceu de novo, literalmente.
Olhei para Melissa, confusa. Como assim eu morri e nasci de novo?
– Melissa! – Lívia a repreendeu.
– Deixe ela continuar! – Eu disse antes que Lívia pudesse dizer qualquer coisa.
– Todos aqui somos bruxos. Inclusive os garotos. – Melissa continuou. – Mas não nos tornamos bruxos de uma hora para outra, nós nascemos assim. E há muito tempo.
“Os bruxos vivem em uma outra dimensão. É um mundo mágico, nosso, habitado por criaturas fantásticas, como fadas, duendes, vampiros, gnomos...Mas nenhum humano. E como todo lugar tem o seu governante, tínhamos um rei. Esse rei era casado e teve uma filha. Essa filha era você, Allana. Temos essa certeza também porque você tem a sua mesma aparência da outra vida. O seu pai tinha uma irmã, que tinha duas filhas. A Jacque e eu. Isso faz cerca de uns 300 anos. Bruxos não envelhecem como os seres humanos, demoram muitos e muitos anos para finalmente envelhecer e morrer.
“Sua mãe era uma linda bruxa. Mas infelizmente ele sofreu uma queda da escada da casa onde você morava, e ela morreu. Todos ficamos muito tristes, e o seu pai muito abalado. Em uma viagem de negócios que ele fez aqui para o mundo dos humanos, ele conheceu uma mulher e se apaixonou. Se casaram e tiveram uma outra filha. Sua meia irmã, Sabrina.
“A garota nasceu humana, sem nenhum poder, mas seu pai a enfeitiçou para que ela envelhecesse como se fosse uma bruxa, e o feitiço não pode ser removido. Com o passar do tempo, fomos crescendo e a mãe de Sabrina faleceu. Éramos todas amigas, Jacque e eu como suas primas e Sabrina como sua meia-irmã, mas a inveja nasceu dentro dela, por não possuir nenhum poder e por você sempre ter mais atenção do seu pai.
“Quando completamos 112 anos, ou 18 anos humanos, ficamos noivas. Jacque de Lívia, eu de Henry e você de Cauê. A sua irmã não tinha conseguido um amor por causa de sua condição de humana. Isso fez a raiva dela aumentar.
“No dia do seu casamento, ela atacou. Antes de você fizer sua entrada triunfal na tradição bruxa de casamento, Sabrina tentou te matar. Ela te golpeou várias vezes com uma faca, mas só fez alguns arranhões. Tentamos impedir, mas Sabrina é esperta, ela sabe se esconder quando quer. Você fugiu, mas ela foi atrás. Provavelmente você fugiu para o bosque, porque foi lá que encontramos o seu corpo.
“Seu pai prendeu Sabrina em uma torre bem alta, e ele sabia que você voltaria. Disse que daqui há algum tempo, reencarnaria como uma humana. Se você morresse antes dos 18 anos, que foi a idade em que você foi morta, você reencarnaria novamente. Se não, você morreria para sempre. Sabrina de alguma forma sabia disso, e planejou te matar para sempre. Seu pai confiou a nós a missão de te encontrar e te levar segura para perto dele.
“Mas Sabrina conseguiu fugir de sua prisão, e também veio atrás de você. Ela quer vingança, e nós vamos impedir. Eu só não a matei ainda porque seu pai não quer ver mais nenhuma gota de sangue derramado.
Quando Melissa acabou de falar eu não sabia o que fazer, o que pensar, não sabia nada. Entre tantas perguntas, eu acabei fazendo a mais idiota:
– Eu ainda tenho poderes?
– Sim, só precisa desenvolvê-los melhor. – Ela respondeu. – Podemos fazer isso no mundo dos bruxos.
– E como vamos para lá?
Elas se entreolharam por causa da minha pergunta.
– Temos que encontrar os meninos. – Jacque disse, mexendo em sua mala e pegando uma caixinha preta. – Lana, coloque uma roupa, está quase na hora do jantar. Vamos falar com eles lá.
***
Quando entramos no refeitório, os garotos já estavam nos esperando.
– Que bom que chegaram! – Disse Henry. – Eu estou morrendo de fome!
– E vai continuar! – Melissa rosnou. – Venham vocês dois, a Allana já sabe de tudo.
Cauê e Henry ficaram brancos e me observaram por um instante antes de se levantarem e nos seguirem em direção a parte de trás do terreno do reformatório.
– Se ela já sabe, temos que partir! – Disse Cauê.
– É isso que viemos fazer aqui atrás. – Respondeu Lívia.
Imediatamente, Jacque pegou a caixinha preta e a abriu. Uma luz vermelha saiu de dentro dela, iluminando todo o local. Todos deram as mãos e formaram um círculo, e eu fiz a mesma coisa. Dei as mãos para Cauê e Melissa, quando ele falou:
– No 3 a gente pula! 1, 2... 3!
Todos pularam dentro daquela luz vermelha que saía da caixa, e imediatamente fomos sugados por ela. Parecia que estávamos em outra dimensão, tudo era vermelho, e estávamos caindo. Eu estava sentindo um enjoo muito grande e soltei da mão de Cauê e Melissa. Aliás, todos se soltaram. Eu não sabia onde estava indo parar.
Fale com o autor