De Outra Maneira
1 Capítulo I
Notas iniciais
Eu corria. Corria muito rápido. Era um bosque, eu acho. Haviam muitas árvores e barro no chão. Eu já estava ofegante, correndo muito rápido, mas ela estava me alcançando. Quem era ela? Não faço a mínima ideia. Era alta, com cabelos longos cacheados e ruivos, tinha algumas sardas e olhos verdes. Era muito linda. Carregava uma faca suja de sangue na mão, e eu era a sua próxima vítima. O sorriso em seu rosto era psicótico, e meu pânico aumentava cada vez mais. Eu já não aguentava mais correr, e por um descuido, tropecei em uma pedra que havia em meu caminho.
— Finalmente te alcancei, vadia! – a ruiva disse, colocando um dos pés em cima de minha barriga, para que eu não levantasse e fugisse. Eu estava com a roupa muito rasgada e suja de sangue. Não sabia o que estava acontecendo. Só estava com medo, muito medo.
— Por favor! – eu clamava, com lágrimas escorrendo por todo o meu rosto – Me deixe viver, eu te imploro!
A ruiva gargalhou tão alto que vários pássaros voaram das árvores em que estavam alojados, fazendo muito barulho.
— Se você vai morrer agora – ela disse – É porque você merece!
Infelizmente, era tarde demais. Com um único golpe, a garota misteriosa me tirou a vida, a ponta da faca acertando em cheio o meu coração...
Acordei suada e assustada. Droga, outro pesadelo daquele. Fazia algumas semanas que eu vinha tendo esse mesmo sonho, desse mesmo jeito. O pior era que meu coração doía de verdade quando eu acordava. Não sei se isso é normal, mas ultimamente a última coisa que a minha vida estava era normal.
Me sentei em minha cama, esfregando meus olhos. Pisquei algumas vezes para conseguir enxergar as horas no relógio que havia na parede branca do meu quarto. Eram 05h50 da manhã. Logo, minha mãe me acordaria, para ela e meu pai me levarem embora dessa casa. Sim, eu iria embora. O motivo? Uma coisa que eu não sei como aconteceu. Só sei que a culpa nunca foi minha.
Fazia dois meses desde o ocorrido, mas me lembro de tudo como se tivesse acabado de acontecer. Minha amiga Luíza e eu, Allana, estávamos juntas em um acampamento de verão, com uma turma do colégio, que queria comemorar o início do último ano escolar. Eu dividia a barraca com Luíza e Mayara, uma outra garota da nossa sala. Tudo parecia perfeito e feliz, todos assando os seus marshmallows nas fogueiras perto de suas barracas, mas uma grande traição aconteceu comigo naquele dia.
Eu estava apaixonada por Tobias, um garoto lindo, loiro de olhos azuis, da minha sala do colégio, e Luíza sabia disso. Tanto sabia que me encorajava todos os dias de falar com ele, mas meu medo da rejeição era tanto que eu nunca cheguei a concretizar esse ato. Eu estava tão feliz, rindo com Mayara na beira da fogueira, que quase não acreditei quando olhei para a minha frente e vi Luíza aos beijos com Tobias. E não era só um selinho, daquele que você dá em primos. Era O BEIJO, com direito a mão boba e tudo o que você pode imaginar.
Eu não sabia o que sentir naquele momento, nem como agir. Simplesmente levantei e deixei meu marshmallow assado cair dentro da fogueira. Quando o beijo finalmente acabou, Luíza estava sorrindo quando olhou para mim, porém, aquele sorriso se desfez imediatamente quando ela percebeu que eu estava olhando.
— Lanis, desculpa, foi mais forte que eu! – Ela disse enquanto se aproximava de mim, com lágrimas nos olhos – O Tobias e eu, a gente se ama muito!
— Desde quando, Luíza? – Eu perguntei, com a voz trêmula de tanta raiva. Todos no acampamento nos olhavam.
— A gente sempre se amou, Lanis! Por favor, me perdoa – ela tentou me abraçar, mas eu desviei, fazendo ela cair no chão, aos pés da barraca.
— Não me chama de Lanis, sua vaca – eu disse – Eu confiei em você, Luíza! Achei que você queria me ajudar, mas não! Você me apunhalou pelas costas! Nunca mais fale comigo novamente.
Luíza ainda estava no chão quando tudo aconteceu. Assim que eu pronunciei a última palavra, o fogo começou a se dispersar da fogueira, que estava há uma distância considerável de Luíza. Ele fez uma trilha reta no chão e um círculo em volta de Luíza. A barraca também começou a pegar fogo.
— Allana, o que você está fazendo? – Luíza disse em desespero, quando as labaredas começaram a ficar mais altas. Todo o acampamento começou a berrar e entrar em pânico, e eu só conseguia olhar para aquela cena, assustada.
— Eu... Eu não sei! – Disse, começando a entrar em pânico, sem saber como aquilo estava acontecendo.
— Ela vai morrer! – Tobias disse, me encarando como se eu fosse a culpada.
— Essa garota é uma bruxa! – Gritou Rafaela, uma garota baixa e magra demais.
— Bruxas não existem! – Eu rebati.
— Então como fez isso? – Gritou Jonas, um amigo de Tobias.
Eu estava prestes a dizer que não fazia ideia do que estava acontecendo, quando um grito de Luíza silenciou a todos. Ela havia começado a queimar, seu corpo inteiro em chamas. Não demorou muito para ela cair no chão, sem vida, e para a polícia chegar no local e me acusar de assassinato.
Desde então, meus pais vêm respondendo a alguns julgamentos, já que eu ainda sou menor de idade, e a sentença foi me mandar para um reformatório que tem aqui na cidade, para delinquentes infanto-juvenis. Por mais que a Luíza fosse uma filha da puta de uma traíra, eu nunca desejaria a morte dela e muito menos a mataria. Eu definitivamente não sei o que provocou aquilo tudo.
— Allana – Minha mãe disse quando abriu a porta do meu quarto – Que bom que já acordou. Suas malas estão prontas?
Eu somente assenti.
— Ótimo – Ela respondeu secamente – Se apresse, porque logo iremos partir.
Depois de tomar um longo banho e pensar na vida, eu desci para o andar de baixo da minha casa para tomar café da manhã. Porém, a mesa não estava feita e meus pais pareciam prontos para ir.
— Ué, não vão tomar café? – Eu perguntei, confusa. Eles sempre tomavam café.
— Já tomamos – Minha mãe respondeu.
— Porque não me esperaram? Eu estou com fome!
— Allana – Meu pai disse com uma cara muito séria – Não tem café para você aqui. Tome café com pessoas que sejam da sua laia. Agora vamos, estamos atrasados.
Aquilo doeu muito em mim. Nem meus pais acreditavam na minha inocência. Me apressei em entrar no carro, antes que eu levasse outra patada do meu pai. Encostei a cabeça na janela, enquanto meu pai dava partida no carro. Não sei o que me esperava naquele reformatório, mas coisa boa é que não podia ser.
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