De Lysander. De Lorcan.
1 De Lysander. De Lorcan
Lorcan via-se no fundo dos olhos de Lysander.
Assim tão iguais os gêmeos Scamander se pareciam: o mesmo loiro sujo nos cabelos, herdado da mãe, os olhos longínquos e grandiosos, de um negro profundo e misterioso, como os do pai. Os joelhos ossudos e a magreza vinham de um parente qualquer, ninguém da família sabia dizer de quem, mas também era herança. Herança tal qual o silêncio que ambos compartilhavam quando viviam em seus próprios universos, brincando de dobrar o mundo à sua maneira.
Mas por aí terminavam as semelhanças.
Lysander era dois minutos mais velho, não mais do que isso. Acompanhava os pais para onde eles fossem, com seu casal de pufosos a tira colo, rabiscando em suas folhas amareladas esboços daqueles animais fantásticos e onde habitavam. Não sabia se queria ser um magizoologista ou um ilustrador: talvez um pouco dos dois — mas certamente queria ser algo, queria ser grandioso como o próprio Newt, seu avô, inflar seu peito com orgulho do que criava e descobria.
E assim, Lysander passava noites revisando enciclopédias antigas, catalogando os traços dos desenhistas e aperfeiçoa-los. "O bico dessa fênix não está proporcional", cochichava vislumbrando suas próprias criações ao vê-las que no fundo elas não eram cópias fiéis dos livros empoeirados do pai e do avô: Lysander criava com a pena sobre pergaminho amarelado, tal qual sua mãe.
Quando descobriu que podia criar tal qual sua vontade ordenava esqueceu a magizoolgia e debruçou-se no colo de uma Luna cansada e pôs-se a criar as criaturas que a mãe o relatava, desrespeitando a proporção, cores e contextos: os animais fantásticos habitavam-no, no final.
Lorcan, que observava-se no fundo dos olhos do irmão, não conseguia entender o porque daqueles desenhos disformes. "É um pouco de Francis Bacon com magizoolgia", afirmava Lysander, sem ter a certeza se o irmão compreendia das artes do mundo trouxa. E sem se importar Lorcan passou a ver beleza daqueles seres que Lysander criava, mesmo que não entendesse bem. E mesmo sem entender Lorcan também quis criar! Ele não era um aspirante a magizoologista, nunca quis ser, mas sempre teve apreço pela revista que a mãe coordenava, com suas pinturas e textos de amigos, dando uma nova guinada n'O Pasquim.
E sem perceber Lorcan começou a encher rolos de pergaminho a perversidade de suas narrativas. Vez ou outra sacrificava as criações dos irmãos em seu escritos por pura teimosia: fazia dos seus bruxos personagens dúbios e decadentes, mascando tabaco e escorando-se em ruas como Spiner's End. Criava para destruir — gostava de destruir sem por nada no lugar, tal qual um pensador trouxa que afirmava em alto e bom som que Deus estava morto.
E os meninos de dezesseis, de tradicional família de cientistas tornaram-se artistas. Um criando animais surrealistas; o outro destruindo humanos bons demais.
E há quem diga que os Lovegood Scamander foram traídos na seleção pelo chapéu seletor, mas você, caro leitor, há de convir que artistas fadados a nobreza e as grandes criações tinham de compartilhar mais um pequeno incomodo na sua vida: Lorcan e Lysander eram, irrevogavelmente, nobres (ou quase) sonserinos.
Fale com o autor