Queria viver numa era de menos.

Menos virtualidade, artificialidade, menos beleza;

Menos dígitos, menos seres frígidos, menos ar de realeza;

Onde a candura humana tornasse-nos todos mais amenos.

Queria viver numa era aonde ética não fosse teatral

E que a consciência do valor de cada vida fosse o maior bem

Comum à todos e indivisível — sagrado mas longe do além,

Fazendo-nos grandiosos na humildade de nosso ser natural.

Queria viver numa era de menos títulos, rótulos e padrões,

Pois assim talvez meu pensamento não se perdesse tanto

E a vida tão misteriosa ainda fascinaria-nos com seu encanto,

Longe da verborragia racional e seus clichês e bordões.

Queria viver numa era de menos exibicionismo e aparição,

Onde viver não fosse tão virtual,

E o significado de ser real

Não estivesse condicionado à tolices sem razão.

Talvez a minha vida fosse melhor se eu quisesse menos,

Pois querer é sofrer, já que nunca se há de satisfazer

A fantasia de querer mudar o mundo onde fazemos o nosso viver,

Logo contento-me com menos,

Menos desejos que não posso realizar

Para que a vida possa continuar

E nunca esqueçamo-nos de como somos: pequenos.