De Kaer Morhen à Kaer Trolde
6 Tretogor II
O traje era incômodo. O veludo preto era apertado nas axilas, fazendo-o temer se mover demais, obrigando-o a manter uma pose engraçada com os braços um pouco levantados e a postura ereta nada natural. Geralt suspirou pesado e deu as costas para o espelho. Ao menos a calça tinha o tamanho certo e, apesar de justa, não o fazia sentir que ela rasgaria a qualquer momento. Ainda faltava calçar as botas de couro, e precisou sentar devagar sobre a cadeira ao lado do espelho. A sensação era tão incômoda que Geralt teve a impressão de que podia ouvir as linhas do casaquinho de veludo se rompendo quando se inclinou para pegar a primeira bota no chão. Ele murmurou um xingamento, e os pensamentos só conseguiam focar nas desculpas para não descer e tirar a roupa ridícula, mas ele não conseguiu concluir nenhum plano antes de Jaskier retornar para o quarto.
Os olhos do bardo se mostraram surpresos por um momento, e aos poucos os lábios se curvaram. A visão do contentamento de Jaskier foi breve, pois Geralt rapidamente se atentou a missão de terminar de colocar as botas. O peito se agitou com o breve olhar, e se sentiu tolo pela quentura que sentira sobre as bochechas. Aquela sensação era nova, e completamente desnecessária.
Ele ouviu Jaskier tagarelar sobre o que esperava do jantar enquanto deixava uma taça de vinho de lado para afinar o alaúde. Os cabelos claros foram penteados com paciência, e vez ou outra adicionava comentários sobre o estranho fanatismo dos Vellferdudic, que para Jaskier, era puro amor e admiração, dois sentimentos que ele se orgulhava até demais de causar em seus fãs.
Ainda sem conseguir olhar diretamente para o poeta, o espelho foi alvo do bruxo novamente. Os fios claros atrapalhavam sua visão, mas a fina tira de couro que passou pela testa o ajudou a mantê-los longe dos olhos, porém, isso não agradou tanto o bardo quanto o bruxo; na realidade, Jaskier não escondeu a desaprovação quando se colocou entre ele e o espelho, obrigando-o a encará-lo.
— Geralt, você não vai descer com esta testeira horrorosa!
O bruxo não gostou do que ouviu, porém, se sentiu aliviado. O rosto não esquentou como antes, ainda que o peito continuasse um pouco agitado.
— Por que não? — Ele deu de ombros. A face era neutra como sempre. — Eu sempre uso.
— Este não é um evento de "eu sempre" — Jaskier disse como se fosse óbvio. As mãos na cintura ficaram ali por pouco tempo, e ele logo se afastou, para arrastar a cadeira e colocá-la em frente ao espelho. — Vem, vou arrumar o seu cabelo.
Jaskier bateu levemente no assento, e abriu um fraco sorriso quando viu o bruxo dar um passo para trás.
— Você não vai tocar no meu cabelo.
Ele estava sério, decidido, e o poeta sequer deu um sinal de que pensou em entendê-lo.
— Por que não? — Ele riu contido. — No passado, até mesmo já te dei um banho.
Sem notá-lo revirando os olhos, Jaskier o segurou pelo casaquinho de veludo e o puxou, obrigando-o a sentar. Apesar dos protestos, Geralt não usou sua força para evitar se olhar no espelho novamente, desta vez sentado e com o bardo em pé, atrás de sua cabeça.
— Tente relaxar um pouco, Geralt.
O bruxo murmurou xingamentos quando a testeira foi tirada, e o olhou com seriedade através do reflexo.
— Se eu relaxar, a roupa vai rasgar.
Jaskier o olhou no reflexo por um momento e logo jogou a cabeça para trás e soltou uma alta gargalhada. E foi quando a estranha sensação na pele de Geralt retornou. Ele não conseguiu desviar o olhar desta vez, e junto da sensação acalorada que se espalhou não apenas pelo rosto, mas também no peito, houve um sentimento confortável que não quis espantar como os outros.
Jaskier estava animado e cantarolava enquanto os dedos acariciavam os fios brancos. A expressão no belo rosto trazia um sentimento aconchegante, e Geralt desejou poder vê-lo com mais clareza. O reflexo não era perfeito, e o sol já havia ido embora. Faltava apenas uma hora para o jantar, e tudo o que ele ansiava era poder ver mais daquele sorriso tranquilo e confortável. Os dedos se tornaram inquietos sobre as coxas; ele também gostaria de tocá-lo, mas não se moveu e aproveitou a simplicidade daquele momento.
As mãos de Jaskier eram habilidosas tocando as cordas do alaúde, mas não podia dizer o mesmo sobre o que fazia com os cabelos do bruxo, porém, o toque era delicado e cuidadoso, fazendo-o também sorrir com leveza sem notar.
Após um tempo considerável, os fios finalmente foram puxados para trás, sem deixar que caíssem no rosto de Geralt; a parte de cima foi amarrada um pouco torta e a de baixo continuou solta, tocando os ombros largos. Não houve reclamações, e o bardo ficou feliz com o trabalho feito. Ele olhou para o rosto do bruxo quando ficaram um de frente para o outro. Um elogio estava na ponta da língua, e teria saído em instantes, se aquele em frente dele não fosse Geralt e em um momento de sua vida em que tudo o que dissesse tivesse um peso maior do que no passado não teria. Não quero que pense que estou zombando como sempre faço, pensou Jaskier, atento nos olhos felinos à frente. Quero que me leve a sério, quero que... A mão tremeu levemente enquanto levantava devagar. Só mais um pouco e ele poderia tocar o peitoral coberto pelo veludo escuro, porém, uma súbita covardia o fez recuar e desviar o olhar de quem cultivara certa expectativa com seus movimentos, mas não fora notado a tempo.
Geralt o observou pigarrear, e por conta da luz escassa das poucas velas acesas, não pôde notar o rosto levemente avermelhado que se afastou. Porém, o olhar que vira foi claro e mais do que os próprios sentimentos, ele temeu os de Jaskier. O corpo alto estremeceu com intensidade, e virou rapidamente, a tempo de olhar as costas do bardo se afastando. A porta do quarto foi aberta, e ele reagiu novamente, quando o olhar envergonhado não demorou em sua direção. O chamado baixo, para que descessem para a sala onde aconteceria o jantar, foi feito às pressas, e Geralt não foi esperado. Jaskier rumou para as escadas sozinho, e por longos minutos o bruxo permaneceu parado, no centro do quarto vazio.
O coração estava agitado, definitivamente ele batia acelerado desta vez, completamente fora do comum para um bruxo. Ele tentou negar mais uma vez. Apenas impressão, Geralt insistiu, mas logo abandonou o pensamento. Aquele era Jaskier, ele era Geralt, e o pensamento naquele sentimento entre eles soava absurdo. Como ele poderia? Como Jaskier poderia? Desde há muito tempo, eles eram muito um para o outro, faltando apenas aquilo, para serem tudo. Ele jamais ousou pensar em chegar naquele ponto, pois “muito” já era demais para alguém como Geralt, que naquele momento ignorou a certeza de que na verdade eles eram tudo um para outro há bastante tempo.
Ele fechou os olhos e respirou fundo antes de abri-los novamente. O olhar de Jaskier ainda estava em sua mente, mas o afastou. Ele não queria. Era bom da forma em que estavam; eram bons amigos, leais e sinceros um com o outro. Mudar parecia errado e aquele rumo incerto soava como o fim do companheirismo que tinham. Os relacionamentos amorosos passados foram colocados em sua frente, e teve certeza de que não queria terminar com Jaskier da mesma forma.
Geralt se moveu finalmente. Havia vozes no andar de baixo, e precisou de uma lenta caminhada para se acalmar, mas não foi possível por completo. O som do alaúde era claro, assim como a doce voz que invadia os cômodos daquela mansão. O bruxo engoliu saliva e balançou a cabeça de um lado para o outro. Aquele não era o momento, nem nunca seria, e o trabalho deveria preocupá-lo mais do que os próprios sentimentos naquele momento, ainda que o contrato também envolvesse a sensação em seu interior. O bruxo sentira a desconfiança crescer naquela tarde, e não conseguiria esperar passar o jantar para tentar apaziguar o sentimento.
Os pés continuaram cautelosos quando evitou a sala principal, de onde vinha a música e os baixos elogios deslumbrados. Brastol não estaria ali, ele sabia, por isso se dirigiu diretamente para o escritório que visitara mais cedo. Aos poucos, sua mente clareou e a melodia foi deixada de lado. A postura já estava obrigatoriamente arrumada pelo traje justo demais, e o olhar sério focou na porta aberta no final do corredor.
Ele tinha muitas perguntas para o senhor Vellferdudic. Quando saiu da mansão naquela tarde, não fora apenas para evitar o olhar insistente do bardo. O trabalho realmente o intrigava, e sentia que deveria ser concluído rapidamente, para que pudessem ir embora em breve, então, seguiu para os estábulos, e o que encontrou fora nada do esperado. O retornou aconteceu poucas horas depois, mas a conversa que gostaria de ter com o dono da mansão não aconteceu. Os empregados estavam ocupados com arrumação, e os Vellferdudic, com eles próprios. Por insistência de Jaskier ele deixou o encontro para mais tarde, e agora que estava forçosamente limpo, vestido de maneira desconfortável e pronto para um evento que não gostaria de comparecer, ele enfim pôde ver Brastol, um pouco distante da entrada, sentado em sua cadeira e debruçado sobre a mesa. Havia apenas duas velas acesas ao lado de seu braço. A expressão era séria, os olhos estavam focados no pedaço de papel em que escrevia.
Por um momento, Geralt pensou em esperar que ele terminasse com a escrita, mas passados apenas alguns segundos, sentiu como se estivesse fazendo algo errado, espionando o dono da mansão com intenções vis. Ele rapidamente se desprendeu do sentimento, e deu um passo para a frente. O punho bateu levemente na porta aberta, e no mesmo instante, Brastol se alterou. O susto o fez levantar da cadeira, e o olhar foi rápido, quase como se não tivesse visto quem era antes de pegar o papel sobre a mesa e jogá-lo na lareira ao lado.
— Mestre bruxo, oh, é o senhor — ele tocou o peito e soltou um suspiro aliviado quando enfim o encarou. — O senhor me deu um susto.
Geralt juntou as sobrancelhas; Brastol soltou uma risada curta e nervosa.
— Eu preciso falar com você — ele não esperou ser convidado e entrou no escritório. — Sobre o estábulo.
O bruxo ficou atento na expressão de Brastol, porém, o homem foi rápido para mover o corpo. Por um momento, ele ficou de costas enquanto saía detrás da mesa, e Geralt só pôde encará-lo de frente quando seu rosto estava neutro.
— Diga o que precisa e o ajudarei — mais uma vez ele se mostrou prestativo, mas a expressão vacilou e o sorriso que pensara em abrir recuou.
A aura do bruxo era intimidadora e ele sabia muito bem que seu olhar era o causador do desconforto de Vellferdudic, mas não conseguiu recuar; os lábios continuaram duros e os pés não se moveram para se afastar.
— Eu visitei o estábulo durante a tarde — ele se lembrou dos olhares atentos quando pisou no local. Pareciam receosos e ninguém se aproximou, mas não largaram seus afazeres, nem mesmo deram sinais de que queriam. — Não há nenhum local vazio e os veterinários estavam trabalhando normalmente.
A expressão de Brastol mudou devagar. As sobrancelhas se juntaram levemente para então, voltarem a relaxar.
— O que quer dizer com isso?
Geralt se tornou impaciente. Ele não gostava de enrolações, principalmente quando se tratava de trabalho.
— Suas éguas morreram recentemente e não há sequer espaço no estábulo. E os veterinários... não parecem com medo de estarem ali. Não parece em nada com a sua história.
— Oh — Brastol abriu os lábios, depois de alguns minutos sem nem mesmo piscar. Seu fraco sorriso retornou, e irritou o bruxo com isso. — Você precisa entender, Geralt, no mundo dos negócios, tempo é dinheiro.
— Eu entendo — foi ríspido em seu tom, conseguindo uma careta de Vellferdudic. — Por isso espero que seja claro o mais rápido possível.
Brastol riu em tom baixo. O olhar desviou para baixo e ele assentiu devagar, como se apreciasse a objetividade do bruxo.
— Claro, claro — ele se afastou enquanto colocava as mãos para trás. — Por mais doloroso que seja, minhas éguas além de serem parte da família, são negócios. Não posso ter tempo para o luto. Elas foram substituídas rapidamente — Brastol parou em frente a lareira. O olhar se prendeu no fogo, e então, voltou para Geralt com uma breve seriedade, seguida de mais um sorriso. — Quanto aos veterinários... eu não posso falar por eles. Se quiser, posso chamá-los para que conversem direito amanhã. Mas, eu lhe adianto que isso possa ser minha culpa — ele riu sem jeito e ajeitou as vestes caras. — Eu procuro não assustar ninguém, e como sabe, quero manter tudo em segredo. Dei ordens para que não incomodem os convidados, para que ajam normalmente. Pensando bem, talvez tenha sido um pouco insensível de minha parte.
Geralt apenas o encarou enquanto se lembrava dos olhares nos estábulos, da empregada que achava mais interessante os próprios sapatos do que os rostos dele e de Jaskier. Ela tremia levemente. O medo podia ser pela presença de um bruxo ou pela criatura que brutalizava as éguas adoradas por eles. Por um momento, Geralt quis suspirar, mas as vestes apertadas o alertaram para não fazê-lo ainda.
Vendo que o bruxo não pretendia falar, Brastol se agitou e voltou a se aproximar.
— Não pense mal de mim, eu...
— Eu não penso — Geralt o cortou novamente, porém, não havia a rispidez, nem mesmo a estranha irritação de antes. Era apenas frio e sério, o mesmo Lobo Branco de sempre. — Não é da minha conta como trata os seus empregados, mas esperava que estivesse claro para eles que também estou aqui para servir.
— Claro — Brastol voltou a sorrir —, vou deixá-los cientes.
Geralt assentiu, e finalmente ambos se prepararam para sair do escritório.
— Amanhã irei olhar as suas terras — ele avisou enquanto dava a vez para Vellferdudic sair primeiro. — Talvez eu fique fora até o próximo dia.
— Eu agradeço, mestre bruxo — o seu olhar se iluminou com uma súbita empolgação, enquanto andavam um ao lado do outro no longo corredor. — Em sua ausência, daremos o melhor para o mestre Jaskier, tenha certeza, e meus homens lhe acolherão onde desejar.
— Obrigado.
Não houve mais conversas e o salão principal foi alcançado. O alaúde voltou a tomar a atenção total de Geralt, assim como fazia com todos os convidados. Eram um pouco mais do que o bruxo havia imaginado para o jantar, porém, ele não prestou atenção neles. O sorriso de Jaskier ainda era suave enquanto cantava suas baladas mais famosas, o ar era quente e aconchegante, e o vinho era saboroso.
Geralt se sentou ao lado de quem nem pensou em lançar um olhar, e se manteve atento no bardo, que após a refeição, deixara o instrumento de lado para recitar seus poemas. Alguns deles eram estupidamente românticos, mas combinavam perfeitamente com o seu criador. O pensamento em como Jaskier parecia mais elegante e belo enquanto movia os lábios com alegria o fez sorrir de forma discreta. Ele realmente amava aquilo; a atenção, bajulação, e mais do que tudo, a arte.
Geralt ficava feliz pelo amigo poder trabalhar com o que amava, porém, ali ele não ficou tão contente por muito tempo. Os convidados eram atrevidos, e o vinho os deixou mais soltos e folgados. Jaskier mal comeu. Ele pôde apenas beber com eles, enquanto exigiam atenção e mais baladas, mais poemas... Geralt não sabia o que o poeta achava daquilo, mas ele se irritou em como o amigo era tratado como algo bem diferente de um humano com necessidades. Eles só querem serem servidos por ele, e acham que dar elogios e um punhado de moedas é retribuir? O pensamento o fez juntar as sobrancelhas e deixar a taça de vinho de lado.
Alguns convidados o abordaram, cheios de perguntas e sufocante interesse. O olhar sério e receoso de Vellferdidic do outro lado do salão o fez recuar e desconversar, mas a vontade que tinha era de se afastar de uma vez e ir dormir. Jaskier ainda parecia animado, mesmo depois de passar a tarde tocando para os Vellferdudic e a noite para os seus convidados, mas ele não hesitou em acompanhar o bruxo, quando este se aproximou e avisou que enfim faria o que tanto queria.
O quarto foi alcançado quando os convidados já estavam de saída. O sentimento confortável que sentiu enquanto ouvia a voz de Jaskier no andar de baixo há muito já havia dispersado, e o incômodo de outrora estava ali, agarrando seu corpo com o toque aveludado.
Podia ouvir Jaskier se arrumando logo atrás de si e por um momento teve uma forte vontade de simplesmente observá-lo como antes, mas se deteve. O peito estava agitado com tantos sentimentos diferentes, e não sabia como agir. Em frente à janela, ele respirou fundo, e rapidamente se arrependeu por isso. Não era sua imaginação desta vez; pelos ombros, Geralt ouviu o som tão baixo que nenhum humano conseguiria notar nem mesmo se tivesse a orelha encostada em suas costas.
— Droga — ele murmurou mal-humorado. Os dedos rapidamente foram para os botões do casaquinho.
Ao lado, Jaskier parou com um dos joelhos sobre a cama.
— O que foi? — Perguntou preocupado, e devagar se sentou enquanto esperava o sério bruxo se virar para ele, porém, isso não aconteceu, e apenas o observou relaxar os ombros finalmente e soltar um pesado suspiro.
— Rasgou — Geralt contou enquanto retirava o casaquinho de veludo.
O poeta cobriu a boca com a palma da mão, porém, ainda assim, sua risada foi audível, e finalmente pegou a atenção dos olhos do bruxo. Ele balançou a cabeça de um lado para o outro enquanto jogava o casaco no chão e um fraco sorriso se abriu antes de se juntar ao humor de Jaskier com uma risada baixa.
Quando chegarmos em Novigrad, vou sentir falta dessa risada, pensou Geralt. O sorriso desapareceu aos poucos, e algo pesou em seu peito. Em silêncio substituiu o traje elegante demais para as roupas simples e claras para dormir, mesmo não tendo essa intenção. Jaskier estava deitado ao lado, mas a saudade antecipada o perturbava, assim como todos os outros sentimentos reservados apenas para o bardo. Ele não conseguia mais ter controle do que sentia, e por isso, escolheu o caminho mais simples e seguro para aquele momento. O grosso tapete bege foi puxado para perto da janela, e devagar se abaixou sobre ele, chamando a atenção do poeta.
— O que está fazendo? — Jaskier se apoiou no cotovelo para olhá-lo. — Não vai dormir?
O bruxo balançou a cabeça enquanto se sentava sobre as pernas.
— Vou meditar esta noite.
Ele tentou não olhar na direção da cama, mas a curiosidade o venceu quando ouviu o pesado suspiro.
— Você não está fazendo isso para vigiar algo que nem sabe o que é, não é? — As sobrancelhas de Jaskier estavam erguidas, e se juntaram quando não teve resposta. — Geralt, venha para a cama — ele bateu levemente no espaço ao lado. Vendo hesitação no olhar do bruxo, o chamou mais uma vez, porém, desta vez só conseguiu que o olhar sobre si fosse desviado. E outro pesado suspiro soou pelo quarto. — Está bem, faça como quiser.
A mudança no humor do poeta foi bastante clara, e fez o peito de Geralt pesar com culpa. Ele sequer havia pensado nas desconfianças de antes, e realmente, era uma boa ideia ficar atento na primeira noite, porém, tudo o que queria com aquela distancia era que seu coração voltasse a ficar tranquilo, o que não aconteceu com a reação que recebera. O silêncio o incomodou e nem mesmo conseguiu fechar os olhos. Os punhos se apertaram sobre as coxas, e a respiração calma que vinha da cama trazia um estranho calor para o seu corpo.
Os olhos se levantaram devagar, e as costas de Jaskier foram observadas. Mesmo sem poder ver o rosto, ele sabia que o poeta não estava dormindo. Jaskier não era tão barulhento durante a noite, mas sua respiração se tornava pesada com o tempo, e quando tinha algum sonho intenso demais, podia ouvi-lo murmurar levemente. Estava quieto demais, e isso significava que ele estava acordado e de mau-humor.
Geralt respirou fundo. Ele não precisou chegar em Novigrad para sentir falta da risada despreocupada. Bastou um segundo e uma decisão impensada. O peito doía e tirava sua concentração e não demorou para desistir da ideia inicial. Já era perturbador e bagunçado, tinha certeza de que não poderia ser pior se deitar ao lado de Jaskier. É um costume que já temos há tanto tempo, ele pensou com confiança, enquanto se levantava devagar. Algumas velas foram apagadas, e no caminho, o pensamento de que seu medo era ridículo o acompanhou. A iluminação perto da cama foi deixada intacta, e com cuidado ocupou o espaço que foi deixado para ele. Os lábios se curvaram levemente quando notou que, mesmo com o mau-humor, Jaskier ainda havia mantido aquele espaço.
O colchão não era tão largo, o que obrigava os dois corpos a se apoiarem um no outro, mas, apesar de não ser uma boa cama de casal, era o suficiente para acolher um bruxo musculoso deitado de costas e um bardo não tão forte, mas de estatura élfica, permanecer de lado. Geralt o sentiu ficar tenso quando os corpos se encostaram, e por um momento, o coração se agitou um pouco mais, para aos poucos tomar o ritmo caloroso que era costumeiro quando estavam um ao lado do outro daquela forma. Não era mais calmo, como Geralt suspeitava, mas com certeza era mais agradável. Ele se aconchegou sobre o travesseiro, e a mão do lado livre da cama subiu para apoiar a própria cabeça.
Aquele silêncio era raro, mas ele sabia que não duraria por muito tempo, e os lábios voltaram a se curvar quando o corpo ao lado do seu se agitou e Jaskier se virou. Os olhos claros eram sérios e a expressão parecia emburrada, mas o fraco sorriso do bruxo continuou, e se alargou suavemente quando a bochecha inflada se apoiou em seu ombro.
— Quer vir comigo amanhã? — Geralt perguntou em tom baixo. Por um momento, ele se apavorou com o descontrole de sua boca, mas logo ficou ansioso apenas pela resposta. A imagem dos Vellferdudic e seus amigos em volta do poeta, insistindo por mais e mais, ainda o incomodava, e tinha a sensação de que a cena se repetiria ainda mais quando não estivesse por perto. Era uma estranha sensação que misturava preocupação e ciúme.
Jaskier se moveu devagar, enfim relaxando o corpo enquanto balançava a cabeça.
— Se insiste tanto em ficar desconfiado, eu posso investigá-los enquanto você estiver fora — ele sugeriu. — Eles estão bastante abertos para mim.
Ele queria que Jaskier o acompanhasse para que não fosse forçado a dar atenção para todas aquelas pessoas por tanto tempo, a ponto de ser exaustivo como naquele dia, porém, a ideia apresentada não era ruim. Como ele mesmo havia dito algum tempo atrás, o poeta sabia se cuidar, ainda que o preocupasse, e o fez repensar na própria proposta.
— Não force demais — ele concordou desta forma —, aja normalmente.
— Ei, eu sei muito bem como fazer isso — Jaskier tocou o braço de Geralt que estava sobre a cama. — Melhor do que você, na verdade — ele apertou os músculos do bruxo levemente enquanto o tom risonho trazia a sensação confortável entre eles novamente, até a risada do poeta se tornar uma leve tosse. — Acho que estou adoecendo — Jaskier tocou a testa enquanto fechava os olhos. — Minha cabeça dói um pouco.
Geralt não se moveu, mas deixou que Jaskier se acomodasse ao seu lado mais uma vez. Ele queria tocar a testa do poeta, para ter certeza de que a temperatura estava normal, mas não teve coragem. A preocupação estava ali, mas era pequena, comparada a maneira que seu coração se agitou quando a bochecha voltou a se esmagar em seu ombro e o braço foi abraçado sem nenhuma hesitação.
— Nós podemos partir amanhã — o bruxo tentou soar despreocupado, mas a voz que antes era baixa, se tornou um pouco mais alta, inconscientemente tentando abafar o som do coração acelerador. — Podemos ir para uma pousada para que possa descansar.
Os músculos ficaram tensos por um momento, principalmente o braço que ainda era segurado. Jaskier soltou um leve suspiro enquanto fechava os olhos, e a pele do bruxo estremeceu levemente antes de se forçar a relaxar aos poucos. De novo pensou que não era novidade estarem tão próximos, mas os braços do poeta agarrando-o daquela forma só acontecera antes em estado de embriagues de ambos, e a sobriedade do momento trazia um sentimento diferente; era constrangedor e ao mesmo tempo satisfatório. Ele gostava daquela aproximação, ainda que se assustasse com a intensidade com que seu coração batia apenas com aquilo. Ele mal podia imaginar como reagiria se algum dia tivesse coragem o suficiente para se aproximar um pouco mais. Se eu me virar agora, poderia facilmente tocar os lábios dele, o pensamento o fez esquentar levemente.
— E o contrato?
Geralt ficou em silêncio por um momento. A pergunta o desprendeu dos pensamentos, e o calor subiu aos poucos, para se concentrar apenas em seu rosto pálido. O braço atrás da cabeça se moveu, assim como os dedos e as últimas velas foram apagadas, deixando-os cobertos apenas pela fraca luz da lua que entrava pela grande janela, mas, ainda assim, ele cobriu o rosto com o braço, com medo de que pudesse ser visto daquela forma.
— Em Novigrad o trabalho parece mais rentável — ele voltou a usar o tom baixo. Para Jaskier, ainda parecia inalterado por fora, mas isso não impediu o bardo de juntar as sobrancelhas e desconfiar de que algo estava errado. O contrato de Vellferdudic obviamente lhe renderia uma boa quantia de coroas, o próprio Geralt havia lhe contado, e duvidava da certeza sobre Novigrad trazer uma recompensa melhor do que aquela.
Apesar de arisco e um pouco esquivo, Jaskier soube reconhecer que havia preocupação vinda do bruxo, e junto disso relacionou suas desconfianças contra aquela mansão com a insistência para partirem dali.
— Não — ele balançou a cabeça levemente, mantendo os olhos fechados. O vinho da família Vellferdudic era suave e não havia bebido tanto quanto era o seu costume durante o jantar, mas as taças que vieram antes, durante o dia, pareciam finalmente fazer efeito, e junto da exaustão e desconforto na garganta, o bardo aos poucos se entregava ao sono. — Pode fazer o seu trabalho aqui — o tom de voz de Jaskier diminuiu de forma preguiçosa. — Eu posso me cuidar muito bem, e aqui há mais conforto do que em uma pousada.
Ele sabia muito bem que o bruxo presava sua segurança e por isso não recebeu o convite com surpresa. O próprio Jaskier achava que permanecer juntos era mais seguro, não importasse a situação, mas ali ele não conseguia ver o problema que nem o bruxo via, mas sentia de alguma forma. Era mesmo confortável e seu estado um pouco mais frágil o fez pensar pela primeira vez que sua presença atrapalharia Geralt, que também de forma inédita internamente tinha uma opinião oposta naquele assunto.
— Aqui eles vão te ocupar por mais um dia com poemas e baladas — ele insistiu. — Não poderá descansar.
Jaskier riu com pouca força.
— É o que mais amo fazer, Geralt — ele sorriu suavemente. — Para mim, é terapia, não um incômodo.
— Para mim, parece que querem escravizá-lo para terem entretenimento exclusivo.
O tom ríspido do bruxo o fez rir novamente, e sem muito pensar, acariciou o braço que segurava firmemente contra o peito.
— O único com exclusividade é você, fique tranquilo — ele continuou com o tom bem-humorado, notando o significado das próprias palavras apenas quando já havia terminado a frase. Era para ser uma brincadeira, mas no fim, Jaskier não quis que fosse. Ele viu ali uma oportunidade para mostrar que falava sério, porém, tão rápido quanto a ideia veio, ela foi interrompida por mais tosses incômodas que fizeram sua cabeça doer um pouco mais.
— Jaskier — Geralt enfim tirou o braço do rosto e tocou o ombro do poeta, que não demorou para controlar as tosses secas.
— Eu estou bem — ele garantiu enquanto voltava a acariciar o braço de Geralt —, só preciso dormir.
O bruxo se preocupou, mas não falou mais. Ele levou a mão até os cabelos de Jaskier e o acariciou devagar, até descer na testa. Os dedos sentiram a temperatura normal, e o relaxado suspiro do poeta diante da leve carícia o fez menos receoso. Geralt virou o rosto, tocando levemente o topo da cabeça de Jaskier com a bochecha. Ele inspirou o cheiro suave dos fios bem cuidados e voltou a acariciá-lo devagar, mesmo após ouvir a respiração ao lado da sua se tornar pesada. O bruxo aproveitou que o amigo finalmente havia adormecido e afundou os dedos um pouco mais nos cabelos castanhos. Ele quis abraçá-lo, uma imensa vontade de senti-lo completamente em seus braços o tomou, mas não o fez, e por toda a noite manteve a mesma pose, para que Jaskier não se afastasse sem querer.
Ele dormiu pouco, mas o suficiente para tirar parte do cansaço da viagem e o inesperado jantar. O sol ainda não havia nascido quando se separou de Jaskier devagar. As roupas foram colocadas com cuidado, para que não fizesse muito barulho, e planejou sair dali da mesma forma, porém, após um rápido olhar para cama, não resistiu em voltar para ela. Ele então se sentou ao lado de Jaskier, e por um momento apenas observou a expressão serena enquanto dormia profundamente. Geralt sorriu fraco quando o ouviu murmurar entre o sono, e tocou o rosto à frente, acariciando levemente a bochecha macia, até que Jaskier se aquietasse novamente.
Outra vez Geralt quis abraçá-lo, e o desejo de sentir os lábios levemente abertos o fez estremecer suavemente. Ele fechou os olhos e afastou a mão. Levou algum tempo para conseguir se levantar, e desta vez não se atreveu a olhar para trás. O peito parecia pesado, inquieto, e o bruxo não queria que isso intensificasse.
Ele deixou o quarto ao nascer do sol. Apesar do silêncio das pessoas que moravam na mansão, os empregados já estavam despertos e ocupados com seus próprios afazeres. Alguns deles o cumprimentaram desta vez, mas nada mudou quanto a distância que faziam questão de manter. A medo ainda podia ser visto em poucos deles, enquanto outros pareciam alheios a sua presença, mas o que incomodou o bruxo fora os olhares dos empregados de dentro da mansão. Não era apenas medo. Havia hesitação nos rostos cansados, como se quisessem se aproximar, mas não podiam.
Antes de sair pela porta, ele tentou se aproximar de um deles. Os olhos verdes do alto rapaz se arregalaram quando o viu andar em sua direção, mas ele não tentou fugir e pareceu ainda mais ansioso, porém, Geralt foi impedido pelo primeiro empregado que se aproximou dele sem ser forçado a isso. Este era mais baixo que ele e tinha olhos castanhos e corajosos. Não havia hesitação nele, e o fraco sorriso era agradável.
— Senhor, está de saída? — A voz era suave, e a expressão combinava com seu tom. Quando Geralt desviou o olhar dos olhos verdes para os castanhos e assentiu, ele endireitou a postura. — Eu sou Straus, nos conhecemos ontem à noite.
— Desculpe, mas não me lembro.
As sobrancelhas do bruxo se juntaram por um breve momento, e Straus riu em tom baixo.
— Eu imaginei — ele colocou as mãos para trás do corpo. O peito inflou com orgulho e Geralt reparou nas roupas finas, com certeza mais caras do que as dos outros empregados, mesmo que tão simples quanto. — O vinho aqui é realmente bom.
Geralt sorriu levemente, quase de maneira imperceptível. Straus tinha razão. Além do sabor, a bebida o embalara em um estado confortável, tanto que mal podia dizer que havia bebido na noite anterior. Mas ela subia como qualquer outra, e alguns momentos do jantar estavam ofuscados da mente do bruxo.
— Eu sou o responsável pelos empregados — Straus enfim se explicou. — Fui instruído pelo senhor Vellferdudic a deixá-lo livre pela propriedade. Mas se precisar do depoimento de alguém em especifico, é só dizer para mim e trarei a pessoa até você.
— Obrigado, mas hoje irei olhar o terreno, para ver se algo foi deixado para trás pela criatura.
Straus assentiu.
— Eu soube — ele moveu o braço, fazendo sinal para que Geralt continuasse a andar até a saída. — Irei acompanhá-lo até o estábulo, se não houver problema.
O bruxo não viu problemas em assentir ou seguir na frente. Ele não pretendia apenas olhar o terreno, e preferia ir até as pessoas para ter o primeiro contato com elas, porém, Straus não parecia ter intenção de atrapalhá-lo.
Eles andaram um ao lado do outro pela propriedade. Havia um confortável silêncio da manhã enquanto Geralt observava a bela vista do terreno, mas Straus não demorou para quebrá-lo.
— Espero que não se importe, mas tomei a liberdade de mandar alimentar e escovar a sua égua — ele manteve o olhar no estábulo um pouco longe de onde estavam. — Ela parecia estar há algum tempo na estrada.
— Obrigado — disse o bruxo, um pouco sem jeito. — Plotka precisava. Eu não tive tempo de cuidar dela.
— Plotka — Straus sorriu. — Eu gosto deste nome. Parece algo especial.
— Não tanto — desconversou o bruxo. Aquele era um assunto repetido e que ele evitava falar. Não havia mesmo um grande motivo para o nome, mas todos insistiam que deveria ter. A mania de chamar todas as montarias daquela mesma forma só aumentava a curiosidade alheia, e o tédio do sério bruxo de Rívia.
Eles andaram um pouco mais junto do silêncio. Desta vez Straus não fez som algum, mas a maneira com que seu olhar parecia inquieto entre o estábulo, que agora estava próximo, e o Lobo Branco chamou a atenção, e Geralt fora quem quebrou a quietude.
— Há algo errado, Straus?
Ele não usou um tom interessado. Por fora, o bruxo exalava nada além de neutralidade, e até mesmo um pouco de tédio, porém, havia curiosidade por trás dos olhos amarelos e frios. Aquele era o único empregado que parecia agradável, mas bastou alguns minutos um ao lado do outro para Straus agir não apenas como os outros, mas ainda mais inquieto. Há algo de errado neste lugar, eu posso sentir, o bruxo pensou com certeza desta vez.
— Oh, não, senhor — Straus balançou a cabeça coberta por fios longos e escuros com bastante energia. — Só estou um pouco distraído, não dormi muito bem esta noite.
Ele forçou um sorriso e desviou o olhar. Parecia envergonhado pela distração, mas o bruxo viu mais que isso em seu jeito inquieto.
— Você deve ter conhecido os rapazes que desapareceram — Geralt comentou quando entraram no estábulo. — Era próximo deles?
Straus foi diretamente para a égua que estava ao lado de Plotka. Ela se agitou ao vê-los, mas se acalmou rapidamente quando sentiu o toque delicado do empregado, que demorou um pouco para virar o rosto e encarar o bruxo novamente.
— Não, na realidade eu mal os vi — ele soltou um baixo suspiro. — A segurança não é minha função.
Então por que está tão inquieto? Geralt quis perguntar, mas guardou a questão em sua mente. Ele não podia ser indelicado. Quase havia sido agressivo e rude com Brastol no dia anterior por tão pouco. Era um descontrole novo e estranho para o bruxo, que desde que pisara naquela propriedade, sentia como se tivesse algo para proteger quando os donos daquele lugar e aquele empregado ao seu lado só lhe davam liberdade e conforto.
— E as éguas? — Ele resolveu perguntar então. Straus parecia conhecer bem os animais ali, e eles aceitavam seu carinho com bastante ansiedade.
Como antes, demorou um pouco para voltar a ter atenção. Straus tomou um tempo para terminar de alisar a crina da égua ao lado, e a maneira com que fechou os olhos por um breve momento e soltou um leve suspiro fez com que Geralt se tornasse mais alerta, mas não tanto quanto quando os olhos castanhos apontaram para a sua direção. Não havia mais a suavidade ou o agradável ar de tranquilidade que Straus mostrou no começo da manhã. Ele soltou a égua, e um passo para frente o fez suspirar outra vez. O nervosismo era claro, e os olhos ficaram inquietos enquanto checavam se havia mais alguém por perto. Vendo apenas as éguas e o bruxo, Straus deu mais um passo, e como a empregada do dia anterior, Geralt notou que suas mãos tremiam levemente.
— Senhor — ele sussurrou. — Se eu lhe disser que esta égua ao lado da sua pertenceu a Klaus Vellferdudic, o que diria sobre isso?
Geralt moveu as sobrancelhas com confusão.
— Eu pediria para me explicar quem diabos é Klaus, em primeiro lugar.
A resposta foi clara, sem o cuidado que Straus usava em seu tom, o que fez o empregado mais uma vez checar se estavam sozinhos. O bruxo, ainda mais confuso e desconfiado, esperou por uma explicação, mas ela não veio. Straus apenas o encarou com seriedade por um momento, para no outro, se mostrar ainda mais perdido que ele.
— Isto não está certo — a voz de Straus finalmente saiu, e a expressão se tornou hesitante, mas terminou em um leve nervosismo. — Senhor...
Ele se aproximou ainda mais, porém, as pessoas que ele tanto procurava com receio finalmente apareceram. Os cuidadores das éguas e mais alguns que Geralt não reconheceu se aproximaram, fazendo barulho com uma conversa que rendia altas risadas. Eles cumprimentaram Straus de forma alegre, e o bruxo com sorrisos trêmulos.
Geralt sequer olhou para eles, e tentou fazer com que Straus completasse sua frase, mas o responsável pelos empregados da mansão recuou rapidamente. Ele pediu desculpas em tom baixo e mesmo quando o bruxo o chamou novamente, Straus não se abriu. A cabeça balançou de um lado para o outro, e disse que não deveria atrapalhar o trabalho de Geralt com assuntos pessoais.
Straus voltou para a mansão, e o bruxo ainda demorou algum tempo para tirar Plotka do estábulo. O jeito do empregado era no mínimo estranho, era claro que tinha algo importante para dizer, mas quando o ouviu falar que era um assunto pessoal, não se esforçou para mantê-lo ali. Talvez tivesse problemas com Brastol ou o tal Klaus; Straus provavelmente precisava de alguma ajuda, mas ele não tinha intenção de se intrometer nos assuntos daquela família, principalmente quando nenhuma daquelas pessoas queria se abrir. Eu só preciso tomar conta de meus próprios assuntos, o bruxo tentou se convencer enquanto subia sobre Plotka. Se for algo urgente, ele provavelmente me dirá. Se não há perigo para a vida de Straus, não é um problema que eu possa resolver. Ele assentiu para si mesmo, enquanto andava pela propriedade dos Vellferdudic. Estava convencido pelos próprios pensamentos, porém, a preocupação pelo rapaz continuou ao seu lado por boa parte da manhã.
O almoço foi feito em uma pequena casa ao Sul do vasto terreno de Brastol. Ele conversou com alguns homens que cortavam lenha, um pouco antes de chegar ali. Os homens pareciam confusos em um primeiro momento, sequer sabiam o que era um bruxo e o que ele queria estando ali. Com a rápida explicação, eles assentiram e olharam uns para os outros, e sem muito interesse apontaram para o Sul, onde alguns dos empregados da mansão e dos estábulos moravam.
Brastol era bastante generoso com seus empregados, segundo o homem que lhe serviu uma tigela de carne assada acompanhada de cenouras cruas. As casas eram cedidas pelo empregador, e apenas a manutenção era cobrada. Apesar de uma raridade, Geralt não recebeu as informações com surpresa. Brastol não parecia do tipo egoísta, e não lhe custava tanto mantê-los em seu terreno. Pelo o contrário, era até mesmo benéfico ter os empregados por perto, a disposição a qualquer momento.
Apesar de sair da pequena casa com bastante informações sobre Brastol, ele não conseguiu muito sobre a tal criatura que atacara as éguas e os seguranças. O casal que morava ali era melhor informado do que os cortadores de lenha, mas apenas sabiam sobre o que Brastol já havia lhe contado, por isso, ele resolveu bater na porta do vizinho, o que criava galinhas e era bastante desagradável.
— Aqui não há nada acontecendo, seu bruxo de merda. Celine é quem viu o rastro de sangue das éguas, e ela mora no Oeste dessas terras — ele apontou a direção de forma relaxada, nem mesmo olhou para Geralt enquanto murmurava xingamentos, inconformado por ser interrogado, certo de que o bruxo era um charlatão.
Geralt não poderia ter se importado menos com o que ele dizia. Era um costume ouvir insultos, e saber que finalmente havia alguém que vira ao menos um rastro o fez fechar os ouvidos para o velho homem. Ele subiu em Plotka novamente, e desta vez não parou quando viu outras pessoas pelo caminho. O Oeste e Celine seriam o seu começo, ainda que a posição do sol indicasse que não faltava muitas horas para ele se pôr. Ele havia dito para Brastol que provavelmente voltaria apenas no dia seguinte, mas após deixar Jaskier adormecido daquela forma, o desejo de poder passar a noite ao seu lado novamente tentava ganhar um pouco mais de força. Ao mesmo tempo em que era animador ter uma pista, era decepcionante não poder retornar para o lado de Jaskier.
Plotka parou quando uma pequena casa, bastante parecida com a que havia sido acolhido durante o almoço, foi vista um pouco distante. Geralt ficou atento, mas não a ela. Aquela era a única residência mais próxima da estrada, ainda que houvesse uma distância considerável. Ele não podia enxergar tão bem dali, mas havia uma estranha agitação naquela estrada que capturou sua atenção. A égua voltou trotar, desviando da casa que deveria ser seu destino, e abruptamente parou, um pouco antes de chegar na estrada, o suficiente para o bruxo ver com clareza o que era aquela agitação de pequenos seres que se aglomeravam na região.
Geralt soltou um suspiro impaciente e agarrou as rédeas com mais força. Plotka também notou os nekkers na beira da estrada, e se apavorou no mesmo momento. Antes que fosse derrubado da sela, o bruxo formou o sinal Axii para acalmá-la. A crina foi acariciada devagar quando pisou na terra, e sob o efeito do feitiço, Plotka se manteve parada enquanto Geralt retirava a espada de prata da bainha e se afastava.
Não demorou para retornar. A armadura de couro estava suja, assim como a espada e a lateral do rosto. O sangue escuro fedia, assim como os corpos das criaturas na beira da estrada. Ele limpou o rosto como pôde e seguiu a pé enquanto guiava Plotka ao seu lado. A pequena casa logo foi alcançada. Diziam que ali morava Celine, e por isso Geralt não hesitou quando bateu na porta de madeira.
Ele não precisou esperar muito para ver a alta mulher do outro lado da porta. Os cabelos longos e encaracolados estavam presos em uma trança, e as grossas sobrancelhas pretas se juntaram acima dos olhos castanhos. Ela o observou de baixo acima e suavizou a expressão apenas quando o bruxo se apresentou, e o surpreendeu quando fez o mesmo. Acontecera que aquela mulher não se chamava Celine, mas Lilian, e ela morava naquela casa.
O bruxo estava prestes a perguntar qual das casas um pouco distantes era a de Celine, quando a própria surgiu ao lado de Lilian, que mantinha o olhar não muito amistoso, apesar de ter relaxado as sobrancelhas. Celine era menor que Lilian, os cabelos também eram mais curtos e claros, assim como os olhos e a pele. Ela o olhou sem surpresas, e seu sorriso existia, diferente do de Lilian, que comprimia tantos os lábios que o bruxo mal podia dizer que ela os tinha.
O convite para entrar foi feito por Celine e seu tom acanhado. A casa era simples, e ela também morava ali. Geralt olhou em volta por um breve momento; o interior era bem arrumado e limpo, com um suave cheiro de camomila que se misturava com canela. Havia uma mesa pequena na cozinha, e um pouco distante, apenas uma cama larga. Foi o suficiente para o bruxo perceber o óbvio: Celine e Lilian eram um casal.
— Se isso te enoja, pode cair fora da nossa casa — Lilian soou rude enquanto cruzava os braços e encarava o bruxo e sua falta de discrição enquanto observava a cama.
— Lilian! — Celine tocou o braço da mulher enquanto abaixava o tom de voz. — O senhor Vellferdudic disse para sermos gentis, não se esqueça.
Lilian a encarou com seriedade, mas nada disse. Os braços descruzaram, e ela se afastou ainda em silêncio.
Celine abaixou o olhar enquanto se desculpava com Geralt, que rapidamente balançou a cabeça.
— Não se importe com isso — disse ele. — Eu é quem devo desculpas. É um costume analisar qualquer lugar em que entro, não foi minha intenção ser rude — o bruxo virou o rosto para olhar as costas de Lilian, que mantinha a atenção na janela. — Eu não me enojo, muito menos me importo, mas algo que me diz que minha opinião não acrescenta em nada em suas vidas.
Ele ouviu Lilian soltar uma baixa risada debochada, enquanto Celine voltava a sorrir. Ela rapidamente foi esquentar água, avisando que seria melhor que limpasse a armadura de couro. Geralt tentou recusar, avisando que seria breve, porém, ela insistiu e ainda ganhou um olhar de canto de sua companheira.
— Logo irá escurecer — ela dizia gentilmente, enquanto acendia a lenha no fogão. — Eu não sei como funciona o trabalho de bruxo, se acontece de dia ou de noite, mas ouvi que precisará de um lugar para dormir, então pode ficar aqui, se preferir.
Geralt rapidamente olhou para a janela novamente, e desta vez pôde ver o olhar sério em sua direção. Ele pensou que ouviria mais palavras ríspidas e seria chutado dali, porém, Lilian apenas soltou um pesado suspiro e se aproximou da mesa. Ela virou dois copos que estavam sobre a madeira, e virou o jarro ao lado.
— Na casa mais próxima há um casal de velhos. Tão porcos e indiscretos — ela contou enquanto terminava de servir a bebida. — Acredite em mim, você vai preferir ficar aqui. Sente-se.
Lilian fez um sinal para que o bruxo puxasse uma cadeira, e logo se sentou em frente a ele. Ela não mais falou, e desviou o olhar para as mãos que seguravam o copo quando o bruxo aceitou sua inesperada gentileza. Ele a observou se virar na cadeira, o evitando enquanto observava Celine preparar o jantar. Seu perfil era elegante e belo, mas bastante rude e orgulhoso quando o queixo se levantava para falar qualquer coisa que fosse. Quando se dirigia a Celine, o tom era diferente. Ainda havia a segurança que ela exalava, mas a doçura e carinho em seu tom também eram bastante claros, assim como em seu olhar, e ele se sentiu incomodado com isso.
O olhar desviou para o vinho que tinha em mãos e o bebeu um pouco rápido demais. Não era doce como o da mansão, era rustico e simples, mas era como Geralt estava acostumado a beber. Por um momento, ele se sentiu mais confortável ali, e por isso o incômodo cresceu um pouco mais. Celine não era barulhenta ou gostava de atenção e bajulações, mas olhando para as duas mulheres, ele não pôde deixar de pensar nele mesmo e em Jaskier. O peito se aqueceu com a visão daquele relacionamento, e o bruxo se xingou internamente. Ele não gostava de não ter controle de sua própria mente. Quanto aos sentimentos... Geralt nunca teve. Seu coração adorava Jaskier, o corpo o desejava, e a mente sempre o trazia para perto apenas como um bom amigo. Mas atualmente parecia que até mesmo cérebro havia se rendido, a ponto de se ver no lugar de Lilian e invejá-la.
Ele afastou os pensamentos quando voltou a ter total atenção do casal. A água quente e pedaços de pano foram oferecidos quando o copo já estava vazio, e Geralt aproveitou o momento em que se limpava para conversar com elas. Ele foi direto ao tratar do assunto do contrato. Como funcionárias dos Vellferdudic, elas estavam atualizadas sobre o assunto, e como os falatórios diziam, até mesmo tinham visto o que outros apenas ouviram falar.
Não era novo que evitassem olhá-lo diretamente nos olhos enquanto conversavam, mas o jeito parecido com todos os outros empregados o irritou um pouco. Lilian não parecia do tipo amedrontado, e Celine era educada demais para não olhar para uma pessoa que falava com ela, mas Geralt mais uma vez deixou passar. O contrato lhe interessava mais, e as ouviu narrar sobre o rastro de sangue que viram seguir para a floresta um pouco distante dali, que também fazia parte das propriedades dos Vellferdudic. Apesar dos jeitos estranhos, elas não hesitaram para falar, ás vezes Celine até mesmo parecia esquecer de respirar enquanto relatava os barulhos que ouvia entre as densas árvores. Assim como ela, Lilian parecia apressada, como se quisesse se livrar do assunto de uma vez; incomodada, nervosa, e quando rapidamente levantou o olhar para o bruxo, ele viu um sentimento que não conseguiu entender.
Geralt fez uma pausa no assunto. Ele havia conseguido uma direção na floresta, mas o que elas diziam não parecia ter tanta confiança quanto deveria. Não era medo, era outra coisa, e por um momento ele se lembrou da empregada do dia anterior, de Straus e a repentina mudança de comportamento. O bruxo então resolveu voltar a fazer algumas perguntas, mas um pouco diferentes desta vez, e descobriu que elas trabalhavam na mansão, não no terreno. Celine servia Lastitia, enquanto Lilian era a encarregada do pequeno jardim ao lado do quarto de Brastol e sua esposa. Tudo precisava estar impecável, mas não era tão cansativo, segundo elas, e estar tão próximas dos Vellferdudic era sinal de ter um pouco mais de conforto do que os que tinham trabalhos mais distantes.
— Os Vellferdudic são bons patrões? — Ele perguntou, tentando passar neutralidade. O jantar foi servido naquele momento, e aos poucos, as mulheres voltaram a olhá-lo ao menos quando era a vez de cada uma respondê-lo.
Como um ensaio, pensou o bruxo, chegando ao auge da desconfiança.
— Bem, eles pagam no dia certo e não nos tratam de forma ruim — contou Lilian, enquanto picava pequenos pedaços de pão fresco em sua tigela. — A senhora Vellferdudic é a mais gentil, ás vezes nos dá folgas e não nos questiona por morarmos juntas. A garota é muito quieta, nem mesmo Celine a escuta com frequência.
Celine assentiu devagar enquanto provava a própria comida.
— E quanto a Brastol? — O bruxo perguntou com um pouco mais de interesse. Naquele ponto, já havia abandonado a ideia de focar apenas no contrato. Havia coisas que aquela família claramente escondia, e os empregados sabiam. Pelo contrato ou não, ele precisava saber, pois naquele momento Jaskier estava sozinho entre eles, e sua preocupação chegara no limite.
— Ele não é muito de conversar — Celine finalmente levantou o olhar. — Já foi, um dia, mas depois do que houve...
— O que houve?
O bruxo estava com pressa, e não escondeu ao insistir. O olhar sério de Lilian tentou intimidá-lo, mas não conseguiu. Nenhum dos dois teve sucesso em abaixar os narizes orgulhosos um do outro. Mas no fim, Lilian não manteve a boca fechada.
— Ele perdeu o irmão, Klaus, para a morte — ela contou. — O luto parece continuar vivo, mesmo depois de tanto tempo.
Klaus, o bruxo repetiu o nome em sua mente. Era o Vellferdudic que Starus mencionara mais cedo. Ele era irmão de Brastol, mas não fora mencionado em momento algum. No jantar só se falava das éguas e de Jaskier, nada mais. Não havia quadros de Klaus na mansão; Brastol contou sobre cada membro da família nas paredes, e nenhum deles tinha aquele nome. Mas Straus tinha seu nome na ponta da língua, assim como as duas mulheres que o encaravam com uma estranha expectativa que se misturava ao pavor em seus olhos.
— Vocês sabiam sobre os nekkers na região? — Ele se tornou mais sério ao perguntar. A tigela com a comida já estava fria, mas Geralt nem mesmo notou. A fome não mais existia, apenas uma sensação que fazia seu estômago revirar.
— Não é incomum, isso já faz alguns anos — Lilian deu de ombros. — Todos evitam aquela área por causa deles.
— Já viram outro tipo de criatura pelas redondezas? Do tipo maior e durante a noite?
As perguntas não paravam, e deixavam as mulheres cada vez mais desconfortáveis. Isso era bom para o bruxo. Ele queria respostas rápidas e já não aguentava mais aquela situação. Todo o suspense o cansou e enraiveceu, e por isso mal notou que o casal se sentia da mesma forma.
— Não. Aqui é muito calmo durante a noite — Celine deixou escapar durante o nervosismo. Os olhos azuis se arregalaram por um breve momento, e a voz se tornou gaguejada. — Quero dizer, isso até tudo o que vem acontecendo. É terrível... aqueles barulhos, o sangue. Pobres daqueles rapazes.
— Sim, terrível — Geralt concordou com ironia. Ele se levantou subitamente, finalmente tendo a atenção de ambas ao mesmo tempo, mas foi sua vez se não olhá-las.
Ele foi para fora, mexeu no alforje de Plotka, e retornou rapidamente. Uma pequena bolsa cheia de coroas redanianas até o nó foi jogada sobre a mesa sem cuidado algum.
— O que é isso? — Perguntou Lilian. Ela sabia bem o que era, e seu olhar não parecia indignado ou ofendido. Seu objetivo era apenas saber a intenção do bruxo.
— É calmo ou não? — Ele perguntou em um tom um pouco grave demais, assustando Celine e intensificando o olhar sério de sua companheira.
Naquele ponto, Geralt já não contava com contrato algum. Ali havia metade do adiantamento que Brastol tinha lhe entregado, e não tinha intenção de devolver o resto. Não havia mais dúvidas, ele havia sido enganado, foi feito de tolo, e sua única missão naquelas terras passara a ser saber o motivo de todo aquele teatro que Brastol interpretava muito melhor que seus empregados.
— Senhor, eu não posso — Celine tirou os braços de cima da mesa com pavor, que aumentou quando ao seu lado, sua companheira pensou por um breve momento antes de encarar o bruxo com seriedade e agarrar a pequena bolsa — Lilian!
— Eu não farei parte de nada disso — ela se levantou enquanto olhava nos olhos de Celine. — Vamos embora hoje mesmo — o bruxo foi o próximo a ter atenção. — E o senhor... é melhor ir até a mansão. Nada acontece com os cavalos, nenhum foi substituído.
— Lilian!
Celina também se levantou. O chamado foi trêmulo e em sua voz não havia a repreensão que pretendia ter. Ambas ficaram em silêncio por um breve momento, até Lilian tocar o rosto pálido que se tornou arrependido. Elas assentiram uma para a outra, e Celine não conseguiu encarar o bruxo novamente. Ela apenas se desculpou e se apressou para recolher os seus pertences.
Elas não eram pessoas com más intenções, Geralt pôde sentir no momento em que as viu paradas na porta. Mesmo com toda a arrogância de Lilian, ele se sentiu confortável ao lado dela. Quando ambos se olharam novamente, o bruxo soube que aquela enrolação toda havia sido planejada por outra pessoa.
— Eles o deixaram entrar por causa do bardo, e não foi por boas intenções — Lilian revelou o que o bruxo mais temia. — Pergunte por Klaus e entenderá.
Klaus novamente. Geralt se sentiu irritado e quis questioná-la, mas a urgência nas palavras de Lilian e no jeito de Celine trouxe um novo desespero que o fez estremecer com intensidade, dar as costas, e nem mesmo lembrar de agradecê-las.
Ele correu de volta para Plotka, e mais do que uma explicação, Geralt desejou primeiramente a segurança de Jaskier.
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