De Kaer Morhen à Kaer Trolde
4 Flotsam

— Não! Nós não precisamos de música. Já temos o suficiente dessa conversa fiada de malditos bardos! — Os gritos ecoavam pelo centro da pequena cidade. Os transeuntes os olhavam de forma nada discreta, e cochichavam com ainda menos discrição. — E você, senhor bruxo — o homem apontou o dedo gordo sujo de gordura de porco para o lado. — Só receberá mordomias quando cumprir com o contrato. Não confiamos em seu tipo, muito menos no de seu amigo aqui, então, procurem outro lugar para dormir e farrear, pois minha pousada está de portas fechadas para os dois!
Marty Beaver, o dono da pousada de Flotsam, crispou os lábios e cuspiu no chão, ao lado das botas de Geralt, que permaneceu inalterado, com o ombro encostado na parede e os braços cruzados. A porta de entrada do local foi fechada com força, e o som do baque se misturou com as reclamações de Jaskier, que tinha expressões e respostas o suficiente para ambos.
O bruxo respirou fundo enquanto o via pisar fundo na grama mal cortada. Tentando juntar um pouco de paciência, levantou o rosto para encarar a placa da pousada que também funcionava como uma taberna. A imagem de um homem gordo montado em um barril enquanto segurava um caneco de cerveja quase o divertia, porém, era difícil tirar o péssimo humor que sentia, que vinha com uma imensa vontade de agarrar o pescoço do escandaloso Jaskier. Ele sabia que aquilo iria acontecer, porém, não tinham outra opção além de arriscar pedir um adiantamento para aquele contrato, que seria usado para alugarem ao menos um quarto e duas refeições. Mas nada deu certo, pois não havia garantia de sucesso, e ali não eram tão apegados a cultura, ou seja, não davam a mínima para um bardo famoso.
— Mas que absurdo! — Jaskier exclamou enquanto sacudia as mãos na direção da porta fechada. — Uma tremenda falta de respeito, se quer saber o que penso...
As sobrancelhas do bruxo se juntaram e os braços foram soltos quando voltou a olhá-lo. A pouca paciência se foi, e antes que o bardo pudesse tocar na maçaneta, como mostrava que pretendia, ele o segurou pelo colarinho e o puxou para trás.
— Não, não quero saber o que pensa — Geralt rugiu. — Ninguém quer saber o que se passa na sua maldita cabeça, Jaskier, então fique quieto pelo menos por um segundo!
Ele não podia mais ouvi-lo há algum tempo, mas aguentou até ali, crente de que a raiva passaria e eles dariam um jeito de descansar por algumas horas, ainda que não fosse sobre uma cama confortável ou de barriga cheia, como já esperava, porém, a falta de noção do bardo não tinha limites e ainda conseguia surpreendê-lo.
— Como ousa, Geralt? — Jaskier se debateu, até que escorregasse das mãos firmes do bruxo. Os olhos se tornaram sérios, mas no fundo, estava magoado e também se sentia culpado, por isso, a pergunta foi a única coisa que saiu por seus lábios quando encarou a íris amarela que o acusava em silêncio.
O bruxo não conseguiu um bônus com Danri Daihan, mas a última refeição em Vergen fora por conta do dono do Caldeirão, o que os deixou com uma pequena folga para a próxima parada, onde a comida era boa, na pequena taberna, mas a bebida era ainda melhor, assim como a música, as mulheres, os homens... Jaskier se agradou com tudo e todos, e se afundou na farra por toda a noite, sendo encontrado no dia seguinte, sujo pelo próprio vômito e sem uma única moeda no bolso. O bardo jurou que poderia ter sido roubado enquanto estava desacordado, mas quando o furioso Geralt checou no balcão da taberna, soube que todo o dinheiro havia sido gasto com bebidas e partidas de gwent. Se fosse apenas o dinheiro de Jaskier, ele o advertiria, com a preocupação de alguém que se importava com seu bem-estar, porém, aquele não era o caso. Os bolsos do bruxo também precisaram ser esvaziados quando soube que a conta deixada por Jaskier era maior do que ele sozinho poderia pagar, deixando-os de mãos vazias para finalmente chegar em Flotsam.
— Berrar o seu descontentamento não vai adiantar de nada — Geralt o lembrou enquanto empurrava suas costas para longe da pousada. — E se lembre de quem é a culpa por estarmos sem dinheiro.
O bardo murmurou que não precisava ser lembrado da vergonha passada dias atrás. Na verdade, ele gostaria de esquecer que havia se tornado tão patético por uma noite completa, mas estava sendo impossível. A intenção era se divertir, cantar, dançar, jogar e terminar sobre a cama de uma das garotas que se jogavam para cima dele desde que havia entrado naquela taberna, ou quem sabe na do rapaz que tinha o olhar sedutor e trabalhava atrás do balcão. Jaskier precisava daquela noite, da distração, ou não saberia mais como encarar o melhor amigo, que não fazia ideia de que seu verdadeiro desejo era estar completamente sóbrio e dividindo uma cama apenas com ele.
Acabei estragando tudo. Não estive na cama de ninguém, nem mesmo na minha, e ainda deixei que Geralt me visse daquela forma vergonhosa, imundo e sem controle dos próprios bolsos. Não era a primeira ocasião em que o bruxo precisava ajudá-lo, tanto financeiramente quanto para manter os pés firmes após a bebedeira, porém, era diferente desta vez. Ele não conseguia controlar, mas em qualquer forma malvista que se apresentasse para o bruxo, sentia o rosto esquentar e o arrependimento vinha sem demora. Aos poucos ele tomou conhecimento do motivo, que no fim não o surpreendeu.
O jeito ríspido de Geralt na posta da pousada o magoara. Ultimamente, qualquer pequena coisa o magoava; era irritante, mas, mais uma vez, não havia o que fazer. Jaskier não tinha controle dos próprios sentimentos, que mudavam de uma forma espantosa. A tristeza o chacoalhou enquanto era empurrado, mas logo a culpa retornou quando Geralt avisou que teriam que dormir sob o céu aberto novamente, e se tornou silencioso mais uma vez.
O bardo respirou fundo e tomou a decisão de no mínimo achar um bom lugar para que pudessem fazer uma fogueira, onde obviamente não era na cidade. A floresta não demorou para ser alcançada, mas Jaskier, andando na frente, entrou um pouco mais entre as árvores. Aquele lugar não era conhecido por ser o mais seguro, por isso ele se empenhou ainda mais para procurar o local perfeito, onde Geralt ao menos pudesse meditar em paz. Eu espero que isso o acalme um pouquinho, ele pensou, ainda incomodado com a raiva do bruxo.
O silêncio entre eles ainda era estranho, nada parecido com a simples mania de Geralt se calar repentinamente, para se fechar em seus próprios pensamentos, e desta vez, quem usara da oportunidade para isso foi Jaskier, que tão preocupado com o que o bruxo iria pensar dele a partir dali, se esqueceu completamente do seu objetivo naquela floresta. A preocupação com o dinheiro e sua reputação rapidamente mudou, e foi tão tola quanto o medo que surgiu.
Será que ele pensa que dormi com aquelas mulheres? E com o rapaz?
Quando decidiu que daria uma chance para algum deles, ele não pensara sobre o que Geralt acharia de tudo aquilo. Por anos eles viajaram juntos, enfrentaram perigos e festejaram, dormiram com quem lhes agradasse por uma noite, para voltarem um para o outro no dia seguinte. Não havia o que pensar, não para Geralt, ele chegou a conclusão, e teve certeza de que a nova preocupação viria apenas de sua parte, como no episódio vergonhoso com Sabini Tertone. Ele se sentiu tolo e enciumado novamente, e o conjunto de sensações trouxe uma estranha tristeza, que foi estremecida e esquecida tão rápido quanto veio, assim que os sentidos voltaram para o local e a companhia, que subitamente o segurou pela cintura com uma das mãos.
— Com calma, Jaskier — Geralt sussurrou com urgência, fazendo-o notar que durante os pensamentos, os passos se tornaram mais rápidos e menos gentis.
— O quê? — Jaskier perguntou alarmado, o tom do bruxo não era comum, mas só conseguia prestar atenção na sensação quente no próprio rosto enquanto a mão que deslizava em sua cintura o trazia para mais perto, fazendo-o gaguejar a próxima pergunta. — Por quê?
Geralt tocou os lábios com o dedo indicador.
— Não estamos sozinhos — o aviso soou ainda mais baixo enquanto os olhos estavam agitados, atentos a todos os lados que podia alcançar.
A observação do bruxo não durou muito tempo. Logo após o aviso, as folhas nas árvores e as que estavam caídas sobre o chão se agitaram, deixando as presenças na floresta claras até mesmo para Jaskier, que enfim ficou alerta como Geralt. A ação foi rápida. Uma longa flecha zuniu em direção de ambos. O bruxo soltou a cintura do poeta, e tão rápido quanto a arma, segurou o cabo da espada de aço com uma das mãos, enquanto com a outra formava o sinal Quen, os cobrindo com um fino escudo que explodiu com o contato com a flecha, mas os protegeu com perfeição.
Assustado, Jaskier se aproximou ainda mais de Geralt, e as costas se tocaram enquanto ambos viam-se sendo cercados de belos e ameaçadores elfos. A espada de aço foi desembainhada e o bruxo soltou um suspiro impaciente.
— Geralt... — Jaskier o chamou amedrontado, mas não houve tempo para ser respondido. As flechas estavam apontadas na direção de ambos, e os elfos se aproximavam cada vez mais, até fecharem um círculo entre eles.
Sobre o grosso tronco de uma árvore, Geralt viu um deles apontar diretamente para ele. Os olhos pareciam ferozes e sem hesitações, enquanto de sua boca a língua antiga era proferida.
— Glaeddyv vort, dh'oine! — O elfo ordenou, e Geralt o obedeceu devagar, abaixando a espada enquanto os joelhos dobravam, como se fosse deixá-la sobre o chão, mas no fim não a soltou.
— Essea en vatt'ghern — ele o corrigiu na mesma língua, deixando claro que não era um dh’oine, um humano, mas sim um bruxo. — Essea Geralt aen Rívia. Aé...
Ele se interrompeu quando o olhar desviou para uma nova agitação entre os elfos que estavam com os pés no chão, e mais uma vez suspirou. Outro elfo surgiu entre eles. Os cabelos longos eram escuros, muito diferente dos fios loiros dos que ainda apontavam as flechas em sua direção; o rosto era frio como os olhos azuis, mas havia familiaridade neles.
— Esseath... — ele deu um passo para a frente. Podendo observá-lo melhor, o elfo sorriu de forma discreta, e os pés o levaram para mais perto de Geralt e Jaskier. — Caed'mil, Gwynbleidd — ele cumprimentou enquanto tocava o próprio peito e fazia uma rápida e curta reverencia para o Lobo Branco. Em seguida, o olhar foi para atrás de seus ombros e o gesto foi repetido para o bardo — Taedh.
Como se em um piscar estivesse livre de qualquer perigo, Jaskier saiu da sombra de Geralt, e seu sorriso foi um pouco mais claro do que o do elfo quando também tocou o próprio peito.
— Caed'mil.
— Caed'mil, Farvel — Geralt também os imitou, ainda arisco por conta das armas que não haviam sido guardadas, mas um pouco mais aliviado.
Ao menos aquele rosto era conhecido, e o bruxo não tinha conflitos com ele.
— Abaixem os arcos, eles não são inimigos — Farvel garantiu, mas não relaxou sua postura enquanto murmurava palavras que traziam incertezas a si mesmo sobre a própria afirmação.
Seguindo as ordens do líder, os elfos guardaram as armas e se afastaram apenas o suficiente para dar privacidade para a curta conversa em que os três se fecharam. Eles conheciam Farvel há algum tempo, e sua presença em Flotsam na companhia de no mínimo vinte outros elfos alertou o bruxo. Farvel era primo de Iorveth, e diferente do líder dos Scoia'tael, aquele elfo era um pouco mais agradável, ainda que fosse tão desconfiado e mortal quanto o outro.
— Geralt, Julian... — Farvel manteve o fraco sorriso enquanto os encarava — o que os trazem à Temeria?
A natureza do bruxo quase o fez rebater com a mesma pergunta, porém, o cérebro o fez recuar para escolher o caminho mais simples. A situação já não era boa para ele e o poeta, e se envolver com os Esquilos era sinal de uma queda ainda maior.
— Um contrato, por um Wyvern — Geralt o respondeu com sinceridade e sem floreios, da forma que Farvel também preferia.
— Também por comida e uma boa cama, mas isso acabou ficando para trás — Jaskier revelou, fazendo o bruxo quase chutá-lo para que se calasse, porém, não era possível agir daquela forma com discrição, e a desconfiança dos elfos já era natural e não queria piorá-la. — Fomos expulsos da cidade porque não temos dinheiro para nada — o poeta riu sem graça, conseguindo um sorriso um pouco mais visível em Farvel. — Vocês podem nos abrigar por uma noite, caro Farvel?
O pedido causou diferentes reações em todos. Geralt prendeu a respiração, por pouco demonstrou o descontentamento, porém, o guardou antes que escapasse, e atentamente observou os outros elfos, que mesmo um pouco afastados, podiam ouvi-los perfeitamente. Farvel desviou o olhar para os companheiros; alguns pareciam indiferentes, outros, preocupados enquanto o resto se animou a ponto de voltarem a se aproximar.
Aquela era uma boa ideia para o bardo, a oportunidade de dar algum conforto para Geralt, mesmo que pouco, e se desculpar por tê-los colocado em tal situação vulnerável, e por sua cabeça sequer passava que o bruxo, apesar de simpatizar com Farvel muito mais do que com seu primo, ainda preferia manter distância.
— Nós temos apenas algumas fogueiras — o elfo explicou, quando voltou a olhá-los —, mas podem se juntar a nós.
O sorriso de Jaskier retornou, e um elfo de cabelos dourados se aproximou.
— Taedh caen shaent aen ninnau — ele sugeriu, animado como o pequeno grupo, e contagiou o poeta.
Era claro para Jaskier que aqueles elfos precisavam de um momento de calmaria, de distração, e estava mais do que disposto a tocar algumas baladas para eles naquela noite.
— Será um prazer — ele garantiu —, e uma fogueira é o suficiente.
Ele olhou para o lado, buscando uma confirmação de Geralt, mas não teve a atenção que esperava. O bruxo manteve o olhar no elfo, porém, tocou as costas do poeta de maneira discreta.
— Peço desculpas, Farvel, mas eu preciso me preparar para o Wyvern — ele foi polido e mais uma vez, direto. — Agradeço a hospitalidade, mas partiremos para a praia.
As sobrancelhas escuras de Farvel se levantaram.
— Prefere bandidos de estrada à Scoia'tael?
A escolha do local não foi por um acaso, e Farvel notara sem muito analisá-lo. Perto das águas, os Esquilos não pisavam, apenas comerciantes, que como tolos caíam em armadilhas de assaltantes que os esperavam nas redondezas. Não era um bom lugar para transitar, muito menos para passar a noite. A ofensa nos olhos do elfo era clara, e Jaskier pensou em se colocar entre eles, porém, o toque em suas costas ainda estava ali. Não precisou de troca de olhares ou palavras para entender que Geralt tinha um bom motivo para recusar se juntar aos Esquilos, então, o poeta escolheu se calar desta vez.
— De maneira alguma — o bruxo garantiu. — Mas eu conheço lugares onde não seremos incomodados por eles, e meus preparativos demandam privacidade. Espero que entenda.
Os olhos sérios do elfo não se moveram enquanto encarava a face de Geralt. Ele conhecia bem os costumes dos bruxos, que assim como seu povo, tinham segredos que não estavam dispostos a compartilhar. Ele entendia perfeitamente, mas ainda não conseguia acreditar totalmente naquela desculpa, e o que o fez relaxar os ombros e enfim piscar, foi a certeza de que era mais provável que Geralt estivesse tentando evitar confusões do que estar ali para emboscá-los.
— Como preferir, Gwynbleidd — Farvel fez um simples e rápido movimento com a cabeça.
— Va Faill — Geralt voltou a fazer a breve reverencia; um pouco desajeitado e nada elegante como eram os movimentos dos elfos, porém, respeitoso à sua maneira.
— Va Faill — o elfo também se despediu, e aceitou as desculpas que vieram do bardo, que tentava camuflar a decepção por não poder descansar imediatamente.
A despedida com os outros elfos foi silenciosa, com apenas olhares e um movimento com as cabeças, e Geralt o apressou. Jaskier ainda não tinha certeza se haviam feito a escolha certa em dispensar abrigo com os Esquilos, e apesar de confiar nas decisões do bruxo, se sentiu hesitante enquanto andavam um ao lado do outro. Mas o sentimento sumiu rapidamente, e foi substituído pelo o que surpreendeu e agitou seu coração. Os olhos se arregalaram brevemente quando sentiu a mão coberta pela luva de couro apertar a sua, e rapidamente olhou para o rosto sério de Geralt, que mantinha a atenção no caminho.
— Não olhe para trás — disse o bruxo em tom baixo, relevando que notara sua hesitação. — Se olhar, eles vão voltar a desconfiar de nós, e sabe o que acontece quando um bando de Scoia'tael desconfia de alguém.
Jaskier soltou a respiração, que até aquele momento, não notara que havia prendido. Ele assentiu rapidamente, e continuou a manter o mesmo ritmo dos passos de Geralt enquanto se lembrava em tom baixo e um pouco divertido demais dos momentos nada agradáveis que tiveram com os Esquilos no passado.
O bruxo não pôde deixar de sorrir de maneira fraca com as lembranças, e distraído com a voz do bardo e a atenção no caminho, só notara que ainda o segurava pela mão e que Jaskier também o apertava levemente, quando as botas estavam sujas pela areia escura da praia. Ele tentou soltá-lo de forma natural, assim como quando o segurou sem muito pensar, mas o embaraço de Jaskier, quando o movimento o fez notar como andaram até ali, fez o momento ser mais constrangedor do que já era.
Eles tentaram entrar em um novo assunto ao mesmo tempo, atropelando as palavras um do outro, e o rosto do bardo se tornou avermelhado. Geralt teria rido em outra ocasião, mas naquela, ele só queria apagar o momento por completo, então simplesmente continuou com o seu próprio assunto.
A fogueira foi acesa em uma parte distante do lugar que chamavam de praia, mas tinha tão pouco do mar que Jaskier acabou chamando de lago. Enquanto ele fortalecia as chamas, o bruxo estava ao lado, no mar, e tinha água até os joelhos descobertos pela dobra forçosa da calça. Os olhos estavam atentos lá em baixo, impaciente e ansioso para acabar com aquilo antes que o sol se fosse.
— Eles com certeza tinham comida, Geralt. Por que teve que recusar? — Jaskier ainda falava dos elfos na floresta, escondendo a vergonha que sentia sempre que se lembrava deles, e imaginava se o haviam visto de mãos dadas com o bruxo. — Agora vamos ter que contar com a sorte, porque, meu amigo, sabemos que nenhum de nós nasceu para a pescaria.
— Você está certo quanto a isso — Geralt o respondeu, mas continuou atento à água —, mas, talvez a sorte esteja do nosso lado desta vez — as mãos desceram subitamente e mergulharam, agitadas, mas firmes. — Há! — Ele sorriu vitorioso enquanto levantava um peixe gordo que se debatia pela vida, e que Jaskier nem mesmo sabia o nome, mas já podia sentir o gosto.
Eles estavam famintos, e não precisou que apressassem um ao outro para o preparo do peixe. Não era a mesma quantidade de comida que costumavam ter, porém, até mesmo um girino serviria, segundo o bardo e sua tagarelice, que mais uma vez trouxe os elfos para a conversa.
— Eles pareciam agitados, não notou? — Geralt perguntou enquanto limpava as mãos sujas pela gordura do peixe. Encheu um copo com água e o esvaziou em um único gole. — Bem, eles sempre estão alerta e prontos para atacar, mas, estarem em Temeria novamente me fez pensar, e não querer saber as respostas. Não quero me meter nisso, seja lá o que for, não quero ter que escolher lados novamente.
Os Scoia'tael haviam partido daquelas terras há algum tempo, levados por Iorveth para um lugar que ninguém sabia onde ou por quanto tempo, e o bruxo estava aliviado por não saber. Ele entendia e respeitava os elfos e as outras criaturas que formavam os Esquilos, mas Geralt, diferente deles, aceitava que o mundo aos poucos pertencia cada vez mais aos homens, e tudo o que podiam fazer era se adaptar ao novo mundo, ainda que para ele, estivesse sendo cada vez mais difícil. Os contratos estão diminuindo outra vez. Não se vê mais tantos monstros no Norte como em anos atrás, e quando há, oferecem pouco ou simplesmente os usam para benefício próprio. O bruxo suspirou cansado com o próprio pensamento. Ele não iria agir como um Gato, aceitando qualquer contrato, não se importando com quem ou o que sua lâmina atravessasse; seus princípios o impediam a chegar a tanto.
— E voltamos para a neutralidade.
Jaskier também suspirou, mas por um motivo diferente, que fez o bruxo estreitar o olhar em sua direção. Ele deixou os espinhos do peixe de lado, limpou as mãos e a boca com uma elegante delicadeza, que logo se foi quando jogou o corpo para trás e se deitou na areia. A cabeça descansou na jaqueta lilás, com o amado alaúde ao lado, e as pernas cruzaram. Jaskier então notou o olhar sobre si, e sorriu.
— Eu não estou criticando desta vez, eu prometo, Geralt. Eu só temo que na próxima vez, não tenhamos nada para comer — Jaskier se freou com o novo olhar que recebera, alertando-o de que o culpado por aquela situação era inteiramente ele. — Está certo, eu sinto muito — os ombros se encolheram enquanto descruzava as pernas e as estendia na areia. — É tudo minha culpa. Eu só... não venho conseguindo organizar os meus pensamentos — Jaskier tocou o rosto e suspirou cansado. Ele não queria ser insincero com Geralt, mas toda a verdade não poderia ser dita naquele momento, e desconfiava de que a hora certa nunca viria. — A bebida pareceu uma boa maneira de relaxar, mas perdi a noção.
O bruxo ficou quieto por um momento, e Jaskier o observou se mover para pegar uma das bolsas penduradas no alforje de Plotka, andar em sua direção e jogá-la ao lado da jaqueta lilás.
— Contanto que entenda e não repita — ele enfim disse enquanto se abaixava. — Mas eu ainda vou querer o meu dinheiro de volta.
— Eu sei — Jaskier riu em tom baixo —, e irei pagar com juros!
Geralt também se deitou na areia. Os cabelos brancos se espalharam sobre a bolsa escura, e apesar da situação, sentiu um estranho conforto naquela posição ao lado do poeta.
— Eu sei — ele sorriu discreto, mas os lábios logo retornaram para a fina linha endurecida de sempre. Jaskier não parecia tão confortável como segundos antes, e o bruxo reagiu juntando as sobrancelhas enquanto virava o rosto para o lado. — O que houve?
O poeta soltou um pesado suspiro. Os dedos inquietos sobre a barriga foram entrelaçados, e o olhar em sua direção foi retribuído por apenas segundos antes de encarar as estrelas.
— Isso tudo; Flotsam, os elfos, pessoas me xingando... — ele riu sem humor. — Me traz algumas memórias.
Mais uma vez se sentia culpado por mentir, porém, não tinha coragem para dizer que subitamente seu corpo reagia com mais intensidade com a aproximação que sempre fora comum entre eles. Eu sempre consegui controlar, Jaskier lamentou em pensamento. Geralt e ele eram unidos e sem floreios há muitos anos; o poeta o considerava seu amigo mais próximo. Naquele tempo, o desejo também esteve ali, ao menos por sua parte, mas nunca havia sido levado a sério, pois o amor que tinha pelo bruxo era sincero, mas jamais o levara para aquele lado. Ele havia se balançado algumas vezes naquele longo tempo, porém, acabava sempre rindo de si mesmo, tendo certeza de que se Geralt fosse algo além de seu melhor amigo, ele certamente seria um irmão mais velho e rabugento.
— Para mim também — ele ouviu a voz séria do bruxo soar ainda próxima. Quis olhar para o lado, mas novamente não conseguiu. As lembranças de Geralt em Flotsam eram um pouco diferentes das de Jaskier, que se sentiu ainda mais agitado e incomodado com a situação.
É, não é tão súbito assim, ele pensou derrotado. Ele não esteve cego ou em negação por todos aqueles anos. O poeta se lembrava das magoas, dos momentos felizes e raivosos, e em Flotsam ele também recordava do tolo ciúme que foi muito bem guardado e amansado com uma distração qualquer. O sentimento simplesmente veio aos poucos, tão lento que quase o enganou com a ideia de que poderia ser parado ou controlado, mas enfim chegou em sua porta e estava mais forte do que nunca e decidido a entrar.
— É um pouco difícil lembrar — Jaskier confessou. Não havia apenas o envolvimento do bruxo com Triss naquela época. Muito havia acontecido em Flotsam.
— Difícil? — Geralt perguntou com divertimento, enfim conseguindo o olhar do poeta. — Você escreveu uma balada sobre isso, Jaskier.
— Eu quase morri enforcado! — Ele levantou a voz, indignado com a expressão que debochava de suas palavras. — E é como você mesmo sempre diz: nas baladas tudo é mais bonito, e nem sempre é real.
Lhe doía admitir que o bruxo estava certo em partes, principalmente se tratando daquela balada, mas não havia o que fazer quando não tinha outra maneira para se defender. Ele cantava aquelas palavras porque eram heroicas e nada assustadoras, completamente diferente de como se sentiu tendo uma corda roçando em seu pescoço.
— Nunca é real — Geralt insistiu, ainda divertido, porém, devagar sua expressão voltou a ser séria. — Mas está certo. O que houve naquela época, foi diferente da sua balada. Você quase foi enforcado por libertinagem, Jaskier, libertinagem.
As sobrancelhas do poeta se levantaram, a seriedade em ambos se manteve enquanto se encaravam, mas durou pouco, e as risadas que soltaram ecoaram pela parte isolada da praia, onde o acesso para a floresta estava a poucos passos.
— Bem, na verdade eu estava trabalhando — Jaskier explicou, quando as risadas se acalmaram. As visitas no bordel tinham um propósito contrário do que se esperava em um local como aquele, e no fim, pouca informação foi colhida antes de ser pego para a forca. O motivo era bastante hipócrita, já que libertinagem era algo esperado em uma cidade onde o bordel estava em bastante evidencia, mas o bardo não o questionou, sabendo que era apenas uma desculpa para calar um informante real.
— Eu sei — o bruxo o surpreendeu ao relevar, mas o sentimento rapidamente foi esquecido quando o olhar em sua direção mudou repentinamente. Geralt prendeu a respiração por um momento, e o olhar desviou para as estrelas. — Ainda bem que cheguei a tempo. Não gosto de pensar no que teria acontecido com você e Zoltan, se eu não estivesse por aqui.
— Nem eu — Jaskier pensou em imitá-lo e focar nas estrelas novamente, mas a cabeça se recusou a virar e o olhar continuou fixo no perfil do bruxo, enquanto a voz se tornava baixa. — Não gosto de pensar em não te ter por perto.
A frase foi dita com consciência e não era uma novidade, porém, a sinceridade de Jaskier desta vez os agitou de uma forma diferente. O rosto de Geralt voltou a se virar, e ambos se encararam de perto. O coração do poeta acelerou com euforia, mas se decepcionou por um momento, quando o bruxo desviou o olhar novamente.
— Você só precisa parar de se meter em perigos que não consegue escapar sozinho — ele disse em tom baixo e claramente acanhado, o que fez o sorriso esquecido do poeta se abrir suavemente.
— Eu não procuro o perigo de propósito — Jaskier garantiu, e sentiu o peito agitado novamente, quando a baixa risada de Geralt entrou por seus ouvidos.
— Não é o que parece.
As provocações retornaram, e mesmo com ambos os sorrisos de volta, Jaskier não conseguiu se livrar do sentimento que o incomodava, porém, desta vez o escondeu do bruxo, que tolamente se sentiu mais aliviado enquanto o observava adormecer ao seu lado.
Geralt teve descanso no meio da madrugada, quando Jaskier despertou e tomou seu lugar na vigia. O local era afastado, e como o bruxo havia dito para Farvel, não era frequentado por bandidos ou comerciantes, porém, ainda era muito próximo da floresta, e se alguma criatura surgisse, tudo o que o poeta precisaria fazer era o que já estava acostumado: gritaria o mais alto que seus fortes pulmões permitissem, e o bruxo se encarregaria do resto. Mas não foi preciso um escândalo de Jaskier, não durante a madrugada, e nem mesmo por uma criatura que saía da floresta; o bruxo também não fora encarregado de resolver o problema, mas foi a causa da alteração do bardo.
Enquanto o sol nascia, ambos já guardavam os objetos usados para o jantar e o descanso. Plotka foi carregada novamente, e quando todos estavam prontos, suas rédeas foram entregues para Jaskier.
— Me espere aqui ou na cidade — Geralt ofereceu uma escolha. — Não devo demorar mais do que a metade do dia para retornar.
Jaskier hesitou, mas aceitou as rédeas.
— Não sei se é uma boa ideia.
Ele não era bem-vindo na cidade enquanto o contrato não fosse cumprido, a estrada não era muito segura, e a praia... Jaskier duvidava de que conseguiria se defender, se algum imprevisto surgisse.
— Não há comerciantes nesta área — o bruxo garantiu —, então não haverá assaltantes. Eu vou estar na floresta, e chamando a atenção de qualquer criatura.
— Você já me disse algo parecido certa vez — o poeta lembrou —, e acabamos quase sendo assaltados pelas próprias pessoas que nos contrataram.
Geralt não deu tanta atenção para a reclamação. Ele se lembrava daquela ocasião e o quanto ouviu o bardo reclamar quando o susto já havia passado; o medo era compreendido, mas o bruxo duvidava de que ali teriam algum problema real.
— Você é um homem crescido, Jaskier, sabe se cuidar sozinho.
As sobrancelhas do bardo se juntaram quando ouviu a voz seca do bruxo. Aquela não era uma inverdade, porém, não era Geralt quem, por todas aquelas semanas, o protegia até mesmo de uma mosca? Ele não exigia tal tratamento, mas para Jaskier, parecia que o bruxo usava suas proteções e falta de preocupação, como naquele momento, apenas para fazer o que bem queria.
— Diz isso apenas quando é conveniente para você — ele murmurou enquanto se virava para a égua, e devagar acariciou a crina no pescoço.
— Se não quer ser salvo da próxima vez em que estiver para morrer, é só me dizer — Geralt rebateu suas palavras que não eram para terem sido escutadas.
— Eu nunca pedi para que me salvasse — a língua de Jaskier se descontrolou diante da raiva que subia a temperatura de seu corpo.
Ele já havia pedido para ser salvo diversas vezes, e como havia, porém, apesar de não mencionar diretamente, o evento especifico que estava em suas mentes naquele instante era claro, e de fato o bardo não implorara por ajuda daquela vez, o que enfurecia o bruxo, que também perdeu o controle da própria língua.
— E eu pedi?
A curta pergunta causou um pesado silêncio entre eles. Ambos se encararam por um momento, até Jaskier desistir das rédeas de Plotka e substitui-las pelo alaúde, que rapidamente foi colocado sobre as costas.
— Você é o bruxo mais egoísta e estúpido que conheço, Geralt, e olhe que em minha lista existe Lambert! — A voz do poeta soou trêmula, assim como estavam as mãos.
Jaskier não esperou que suas palavras fossem rebatidas desta vez. A mágoa era tão grande que se esqueceu que seus pertences eram mais do que o alaúde e que estavam com a égua, e sem conseguir encarar o bruxo, andou na direção que seus pés apontavam, direto para a floresta.
Sem opções, Geralt voltou a ter posse das rédeas de Plotka, e a apressou para que seguissem o bardo, que mantinha os pés firmes e decididos pelo chão que já não era mais de areia, mas sim de barro e folhas secas.
— Jaskier, espere — ele pediu pacientemente, ainda seguindo os passos do poeta, que apesar de não cessarem, não eram tão rápidos a ponto de perdê-lo de vista. Geralt normalmente o deixaria esfriar a cabeça, para então conversarem da forma correta, porém, ele não conseguiu se conter por conta do sentimento pesado em seu peito. Suas palavras não haviam sido certas, ele sabia, e a reação que recebera lhe dizia que havia muito mais do que uma simples chateação com seu jeito bruto.
— Você... só cale a sua boca! — Jaskier gritou enquanto olhava para trás, sem parar a caminhada, mesmo sem ter ideia de onde estava. As árvores eram altas, e mal podia ver o céu. — Droga, Geralt, eu venho tentando esquecer, e sabe o quão difícil é segurar a minha língua, mas não há como seguir como se nada tivesse acontecido. Você me magoou, e sabe muito bem disso, mas nada diz sobre qualquer coisa, o que te faz ainda pior!
Plotka foi deixada para trás quando Geralt soltou as rédeas. Sem paciência, ele acelerou o passo e chamou pelo poeta mais uma vez. Quando finalmente o alcançou, o parou segurando-o pelo braço, que rapidamente foi afastado de seu toque.
— Fique quieto! — A voz alta de Jaskier se espalhou pela floreta. — Você não tem ideia de como é estar em meu lugar — o indicador foi apontado para o peito de Geralt, mas não o tocou, e logo os baços se abaixaram. Os olhos claros do poeta se tornaram avermelhados por segurar as lágrimas acumuladas, e a voz antes raivosa soou trêmula. — Por meses eu vivi pensando que o havia perdido para sempre. Você morreu, droga, era o que o mundo dizia, e nem mesmo pude...
Jaskier se interrompeu e deu as costas para o bruxo, mas permaneceu parado, respirando fundo, tentando manter a postura de sempre.
Não precisou de mais palavras para Geralt entender que os sentimentos do poeta envolviam não apenas a pequena vila pouco distante de Kaer Morhen, mas também o passado muito mais distante do que aquele. Eles nunca haviam se aprofundado naquele assunto. Há pouco tempo, o bruxo não se lembrava o que havia acontecido e nem mesmo do próprio Jaskier. As memórias vieram devagar e com muito esforço, e com elas aquele estranho sentimento que se apegava ao bardo e o fazia temer ser aberto como costumava ser.
Geralt se aproximou novamente. Hesitante, ele tocou o ombro de Jaskier, que imediatamente se tornou tenso, mas logo relaxou os ombros e se virou para ele, trazendo uma incômoda sensação que parecia socar seu estômago. O rosto do poeta, coberto por lágrimas, era lamentável e tão atípico que fez com que a culpa já sentida com peso ficasse ainda mais difícil de suportar.
— Eu pensei que ia acontecer de novo, bem na minha frente — Jaskier limpou as lágrimas com pressa, e com os movimentos obrigou Geralt a afastar a mão de seu ombro. O olhar choroso então se tornou sério, mas ainda magoado. — Por que eu deveria esperar que pedisse minha ajuda? Eu jamais hesitaria ou esperaria qualquer coisa para te ajudar. Eu não quero agradecimentos ou bajulações, Geralt, só que pare de ser estúpido e pense em como as pessoas se sentem sobre você.
A mão de Geralt levantou novamente; as pontas dos dedos tocaram a face aquecida de Jaskier, que desta vez, não se afastou. Ele ainda tinha muito para falar, e o bruxo estava disposto a ouvir, porém, também tinha a consciência de que sua voz também precisava ser escutada. Por todo aquele tempo, realmente não havia pensado naquele lado de sua história. A falta de memória o impediu de sequer cogitar a ideia do sofrimento das pessoas que lhe queriam bem, mas sabia que não era uma boa desculpa para o seu descuido. Ele se lembrava de tudo naquele momento, e ainda assim, precisou ver o seu melhor amigo daquela forma para pensar nos sentimentos que não fossem apenas os seus, que ainda tentavam se esconder, amedrontados com o coração que batia como o de um humano comum enquanto acariciava a pele molhada de Jaskier.
Os lábios se separaram; ele não sabia exatamente o que dizer para começar suas desculpas, mas estava pronto para o que fosse, porém, as palavras não saíram, e sua mente mudou de foco tão rápido quanto afastou a mão. Sobre o peito, o que o estremecia desta vez era o medalhão com o formato da cabeça de um lobo. Os olhos brilharam enquanto se debatia na armadura, fazendo um barulho metálico que o avisava de que o diálogo teria de ficar para mais tarde. Os ouvidos se tornaram atentos, assim como os olhos amarelos; o medalhão tremeu com mais intensidade, e o cheiro forte de saliva e sujeira o fez trazer o desavisado Jaskier para mais perto. O abraço surpreendeu o bardo, mas o susto foi maior quando foi apertado com força e finalmente sentiu o objeto tremer junto do ar à sua volta.
Foi uma reação rápida do bruxo, para se igualar ao ataque pelas costas, que só foi notado por Jaskier quando o sinal Aard foi liberado da palma da mão de Geralt, jogando a criatura para longe de ambos. O abraço rapidamente foi desfeito, e o bardo só teve tempo de ouvir o bruxo mandá-lo se esconder em um tronco oco que estava por perto. E quando rapidamente o obedeceu, pôde ouvir apenas o desastroso barulho de um bruxo enfrentando um Serpe, ou como havia dito aos elfos: um Wyvern.
Do outro lado, o bruxo mantinha o olhar na criatura que se recuperava do ataque e já cravava as garras no barro em sua direção. A espada já estava desembainhada, mas não foi usada quando o Wyvern tentou abocanhá-lo. Geralt se abaixou rapidamente e se afastou com uma cambalhota. Com um dos joelhos sobre o chão, trouxe a espada de prata para perto de si. O pequeno frasco em sua cintura foi para a boca, e a rolha foi tirada e cuspida para o lado. O óleo de basilisco foi derramado sobre a lâmina de forma desajeitada e despreparada, mas serviu para tirar um urro de dor da criatura, quando ela avançou novamente e foi ferida no queixo.
Com mais uma cambalhota, Geralt se afastou novamente, mas não teve espaço por muito tempo. O Wyvern mostrou a bocarra mais uma vez, pronto para arrancar seu braço, mas Geralt não se intimidou como a criatura queria. O real perigo não estava nos dentes afiados, que serviam apenas como uma distração por serem mais amedrontadores do que a longa calda de lagarto. O ferrão ficou à mostra quando a calda balançou em direção da barriga do bruxo, que rapidamente rodopiou para o lado oposto e levantou a espada. A lâmina atravessou a calda, separando-a do corpo do Wyvern, que mais uma vez deixou a voz dolorida soar pela floresta.
Diante da distração da criatura, Geralt não demorou para continuar seus movimentos; a espada balançou acima de sua cabeça e desceu com velocidade e precisão, acertando o peito escamoso do Wyvern, que ainda soltou um último suspiro doloroso enquanto tentava levantar as garras e perfurar o bruxo.
A espada foi forçada até atravessá-lo, e o silêncio, com exceção da respiração pesada de Geralt, tomou os arredores. Por um momento ele encarou o Wyvern, tendo certeza de que a ferida que via em uma de suas asas não havia sido feita por sua espada, e se sentiu satisfeito pela explicação do ataque ter vindo por terra e não pelo ar. Ele verificou se a criatura estava realmente morta, e tendo certeza, não se preocupou em tirar a espada imediatamente. Os pés correram até o tronco oco, sabendo que Jaskier estava seguro, mas ainda assim, aflito sem motivo algum, foi até ele.
O nome foi dito em tom baixo, mas não houve resposta naquele momento, nem mesmo na segunda chamada. O tronco foi rodeado, até chegar em sua abertura, onde acolhia nada além de folhas velhas e musgo apodrecido. Geralt rapidamente elevou o tom de voz e se afastou da árvore. Havia vestígios de que o poeta havia se escondido ali, e os rastros nas folhas esmagadas no barro o fizeram se mover com o olhar fixo no chão.
A espada de prata e o corpo do Wyvern foram abandonados. Plotka havia se assustado com o ataque e fugiu. O bruxo andou apressado, completamente sozinho e sujo pela floresta. Ele poderia ter chamado pela égua, pois seria mais rápido com ela, porém, em sua mente e lábios apenas Jaskier existia. Não havia teorias ou certezas; ele apenas sabia que o poeta não estava ao seu lado, e dada a situação, isso soava errado e amedrontador demais.
O rastro foi perdido. Não demorou para que cogitasse voltar para a praia, incerto de que encontraria algum vestígio por lá, mas como não havia outra opção, os pés seguiram o caminho de volta. O coração batia no ritmo que seria normal para um humano, mas que para ele, era como se lhe estivessem rasgando o peito, e acelerou ainda mais quando ainda na floresta, as costas do surpreendentemente atento bardo foram vistas.
— Jaskier! — Ele o chamou, sem se importar em esconder o desespero em seu tom. Os passos foram ainda mais apressados enquanto o via parar de olhar para os lados com rapidez, para então se virar e dar total atenção para o seu rosto apavorado.
Houve hesitação por parte do poeta, mas Geralt não se atentou a isso e apenas continuou a se aproximar, até que suas mãos trêmulas e sujas tocassem os ombros de Jaskier.
— Você está bem? — O bardo perguntou. Ele não tinha dúvidas de que o Wyvern não venceria, por isso não sentiu preocupação em deixá-lo para trás. Apenas o sentimento de tristeza e o arrependimento que crescia o acompanhou até aquela parte da floresta, e atingiu o limite ao vê-lo daquela forma enquanto chamava por seu nome mais uma vez, mas em tom baixo e amedrontado. — Geralt...
Jaskier tocou uma das mãos estremecidas em seu ombro e encarou os olhos amarelos. Ele queria evitar aquele momento, por isso se arrastou pelas folhas e musgos para fugir como o covarde que era. O poeta se decepcionava consigo mesmo, mas não havia jeito, ele não conseguia mais levar aquela situação adiante, e suas palavras alteradas para Geralt, apesar de sinceras, em sua visão não deveriam ter sido ditas. Ele se envergonhava, mas também ainda carregava o sentimento magoado, e isso o levou a apavorada Plotka que cessara a sua fuga. Seus pertences foram lembrados e carregados em suas próprias costas desta vez, e a decisão de partir em silêncio foi tomada com mais certeza, mas não menos tristeza.
— Aonde estava indo? — O bruxo notou a bagagem que deveria estar na égua. As sobrancelhas se moveram levemente, mas para Jaskier foi clara a alteração em suas feições quase congeladas.
— Eu acho que está na hora de nos cuidarmos sozinhos.
O olhar enfim desviou, e as mãos em seus ombros foram afastadas contra a vontade de seu dono. Ele não pôde ver a dor nos olhos do bruxo ao dar as costas, porém, o próprio peito pesou quando seu braço foi segurado e o que deveria ver, foi sentido no tom que entrou em seus ouvidos.
— Eu sinto muito — Geralt se apressou em suas palavras. — Você foi corajoso, mas descuidado demais. Estou agradecido por ter tentado me salvar, mas nervoso porque se arriscou sem necessidade — ele pausou e soltou um suspiro pesado, um pouco antes do poeta ceder à natural curiosidade e se virar para encará-lo novamente. — Estou dividido, Jaskier, porque não sei se devo elogiá-lo ou repreendê-lo, então... concluí que seria melhor permanecer quieto — o bruxo deu um passo para a frente, se sentindo ansioso, com as mãos inquietas novamente, mas as manteve abaixadas e com o olhar fixo no indecifrável do bardo. — Como você se sentiu quando recebeu a notícia da minha morte, eu não posso imaginar como foi, mas... se foi como me senti em te ver desacordado em meus braços, não consigo encontrar palavras para dizer o quanto sinto muito.
Ele precisou de um momento novamente. Não era fácil abrir o coração daquela forma, principalmente para Jaskier, que não era a pessoa mais discreta que conhecia, porém, Geralt tinha certeza de que aquelas palavras eram necessárias, ou o bardo o deixaria de verdade desta vez. Não era a primeira briga ou promessas de que se afastariam, mas o sentimento intenso de medo da perda era novo e bastante incômodo, e o bruxo contava os segundos para se livrar daquela sensação.
Para Jaskier, ouvir Geralt pedir desculpas para ele já era uma grande surpresa, e o que ouvira a seguir nem mesmo passava por suas fantasias. Ele precisou de um momento para acreditar que não havia escutado errado, e a quando sua reação finalmente veio, o corpo se moveu com rapidez e afobação, assim como o coração. A pouca distância foi encurtada ainda mais e querendo esconder os olhos emocionados demais, tocou o ombro do bruxo com sua testa. Ele buscou se acalmar naquela posição, e nem mesmo se importou com a sujeira na armadura de couro ou na que escurecia sua própria roupa, porém, Geralt não permitiu que seu coração voltasse a bater normalmente, ou que algumas lágrimas fossem seguradas quando retirou uma das luvas e tocou seus cabelos.
— Eu também pensei que tinha te perdido — ele confessou em tom baixo, soltando a última onda de coragem que havia reunido para aquele momento. — Não faça aquilo de novo.
Ele quase concordou, mas se deteve rapidamente. O silêncio continuou enquanto seus cabelos eram acariciados, e internamente Jaskier se desculpou com o bruxo. Ele não podia prometer aquilo, mesmo que significasse magoá-lo. Eu não posso te ver em perigo e não fazer nada.
Quando a carícia em seus cabelos subitamente cessou, sentiu uma agitação nas costas. As sobrancelhas de Jaskier se levantaram e devagar se afastou, no momento em que seus pertences foram tirados de si sem um pedido prévio.
— O que está fazendo? — O poeta perguntou enquanto se apressava para limpar o rosto levemente molhado.
— Você não vai a lugar algum deste jeito — o bruxo se mostrou sério —, pois ainda me deve dinheiro.
Ele colocou as coisas sobre as próprias costas, enquanto ouvia a gostosa gargalhada de Jaskier se espalhar entre as árvores, trazendo um calor confortável para o peito de Geralt com o simples som.
— Certo, certo — ele ainda ria quando disse, e rapidamente agarrou o alaúde, deixando claro que não era preciso tirá-lo de si. Houve um rápido sentimento de derrota no poeta, quando viu os lábios de Geralt se curvarem levemente, mas logo uma estranha satisfação o tomou. — Para onde vamos depois de pegar a recompensa?
— Direto para Redania — o bruxo respondeu simplesmente enquanto se afastava.
Foi preciso dois assovios e um pequeno tempo de espera para que ouvissem os cascos de Plotka pela floresta. O bruxo sorriu fraco quando enfim pôde tocá-la e teve certeza de que estava intacta. Ele a carregou com os pertences de Jaskier novamente, limpou as mãos e subiu no alforje. Acomodado sobre a égua, Geralt estendeu a mão para o poeta, que se surpreendeu com o gesto, mas não hesitou para aceitar o convite e também subiu, já tagarelando sobre o Wyvern e fazendo incontáveis perguntas que faziam o bruxo revirar os olhos.
O alaúde soou pela floresta quando Geralt voltou por sua espada e a cabeça da criatura, e a excitação nos olhos de Jaskier foi clara quando soube que ambos ainda precisavam procurar pelo ninho do Wyvern. Sua aventura ao lado de Geralt ainda não havia acabado, e esperava poder durar um pouco mais do que o esperado.
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