De Corpo e Alma
45 Os Corações não são iguais
Notas iniciais
"Você diz que não precisa, viver sonhando tanto;
Que vivo a fazer demais, por você.....
Mas tem que ser assim, pra ser de coração;
Não diga não precisa, Ah,ah,ah...."
Não precisa
Paula Fernandes
Dois dias depois
Connor
Pouco depois de prestar depoimento, saio da delegacia acompanhado por Will e seu irmão. Durante nossa permanência no distrito, fui colocado a par das investigações sobre meu sequestro, que continuam apesar de todos(ou quase) estarem presos, ou na delegacia ou no hospital,sob vigilância, até se recuperarem e se juntarem aos outros na cadeia.
Ao que tudo indicava, não apenas eu mas Sarah e nossa filha também eram alvos,o que me fez agradecer imensamente a Deus por tê-las protegido. A motivação ainda uma incógnita.
Que havia outra além do dinheiro estava cada vez mais evidente visto que o mentor intelectual,ao contrario do que se pensava, permanecia solto,levando o sargento Voight a cogitar a hipótese de vingança.
Exatamente por isso estava agora "roubando" a folga de Will e contando com a ajuda de seu irmão para tentarmos encontrar a unica pessoa que poderia nos dar uma resposta: Ramon.
Lógico que Voight sequer podia sonhar o que pretendíamos sob pena de todos ( todos mesmo!) estarmos encrencados. Seriamente encrencados.
—Não acredito que me convenceu a fazer isso!- Will resmunga, observando as ruas pela janela — É loucura! Sem contar a tremenda confusão que vamos nos meter- continua — Por que raios não falou tudo na delegacia e deixou a inteligencia investigar? — questiona, voltando-se para mim.
—A inteligencia está investigando — digo, colocando a mão no ombro de Jay, que sorri.
—Muito me admira o senhor ter concordado com isto! — exclama, virando o rosto para encarar o irmão — Desse maluco ai,não posso dizer nada. Mas você Jay...- deixa a insinuação no ar.
—Rhodes ..-o interrompo.
—Connor . Me chame de Connor, Jay, por favor — peço.
—Connor — corrige-se — acredita na inocência do tal Ramon e confio no julgamento dele. Afinal, ele estava lá e já conhecia o cara de antes -diz, concentrado — Se seu amigo realmente entrou ilegalmente no país, ele deve estar por aqui — afirma — Só espero que ele tenha boas relações por aqui,ou vou ter problemas- diz — E o olhamos,intrigados — Policiais não são muito bem vindos aqui. Somos sempre confundidos com a Migra — fala, usando a gíria dos ilegais para o Departamento de Imigração.
—E só agora você avisa!!! — Will reclama, olhando preocupado.
—Relaxa maninho, qualquer coisa digo que você está procurando sua namorada grávida que fugiu- brinca, rindo e me fazendo rir alto da cara de espanto do irmão.
—Agora tenho certeza:fui trocado na maternidade!- provoca-o — Connor,Claire é minha irmã e este é seu irmão. Desculpa não ter falado antes.- me provoca,juntando-se a nós,rindo também, enquanto Jay estaciona — Ai, ai, quem diria que Nat ia ficar viúva tão perto do casamento!?- suspira, fechando a porta, escorando-se nela.
—Quantos dia para o Grande Dia?- pergunto,parando a seu lado.
—Oito — informa, um brilho surgindo no olhar — Os proclamas já correram, visto que quando a pedi já havia adiantado algumas coisas com padre Paul — diz, nos acompanhando.
—Espera ai, quer dizer que antes de ter certeza de que ela aceitaria, já tinha ido até a igreja?- Jay questiona-o e ele confirma com um aceno — Como podê fazer isto?
—Tive um bom professor! — exclama,me cutucando com o ombro — E tinha Certeza que aceitaria — não posso conter o riso.
—Depois o maluco sou eu — protesta Jay, atento a um grupo de jovens que nos observava mais atentamente, começando a nos seguir — Alerta doutores — avisa-nos, levando a mão a cintura.
—Jay, não !- exclamo, pondo minha mão sobre a sua — Só em ultimo caso — peço
_ Que seria???- questiona-me Will, tenso.
—Hola amigos! Hay un poco fuera de su casa,no es verdad? -diz um dos jovens, se aproximando de nós, os demais o seguindo, se espalhando ao nosso redor, nos cercando.
—Como agora, por exemplo?- volta a me questionar.
—Non queremos confusion. Estamos en busca de amigo...Ramon...vocês sabem?-pergunto, olhando em volta.
—Tenemos muchos Ramos aqui! — exclama o mais velho deles, fazendo os demais rirem.
O Grupo nos cerca, impedindo qualquer possibilidade de fuga.
—Acho que não foi uma boa ideia,afinal -digo, me arrependendo de tê-los trazido aqui.
—Ah,você acha? Agora? — bufa Will, olhando de um lado par o outro, alaramado.
—BASTA! — ouvimos uma voz grave gritar no momento em que Jay se preparava para nos defender — Deja-los passar!- ordena e o grupo abre passagem, nos deixando seguir — Aqui- chama um homem mais velho, saindo de dentro de uma casa — Entrem — convida-nos.
—Não sei se é uma boa ideia — pondera Will,seguindo a mim e a Jay, entrando na casa — Acho que prefiro arriscar as chances com os guris lá atrás.
—Guris que podem te dar la violencia! -exclama o homem, indicando um sofá para sentarmos -É o médico do vídeo,não é?-pergunta e aceno afirmativamente — Ramon falou sobre você. Da Colômbia-diz, nos observando por um minuto antes de avisar -Vou chamá-lo- sai, nos deixando sozinhos.
—O que é "la violencia"?- Will pergunta.
—Gravata colombiana — respondemos eu e Jay ao mesmo tempo.
—E daí? Gosto de gravatas. Você mesmo me deu uma — comenta, olhando-nos intrigado.
—Sabe o que é uma gravata colombiana?- pergunto.
—Não lembra,na verdade- Jay afirma,rindo — Já falei mas acho que esqueceu.
—E o que raios é isso afinal? — irrita-se.
—Basicamente?- questiono e ele acena impaciente — Expõem sua língua pela garganta.
—O QUE???- grita, erguendo-se, Jay o segurando pelo braço,fazendo-o sentar na hora em que Ramon aparece.
—Holla, doctor! Como estas? — pergunta.
Me levanto para receber seu cumprimento.
—Bien,amigo. Gracias!- agradeço, voltando a sentar — Desculpe ter vindo até aqui. Não quis causar problemas.
—Pra mim?-questiona e confirmo — Não.De jeito nenhum. Talvez vocês pudessem ter- olha para Wil e Jay,demorando-se no segundo — Não gostam muito de tiras aqui, pelo bairro -diz — Não em nossa casa. Aqui são bem vindos. — frisa, cumprimentando Jay com um aperto de mão, acenando para Will — Ainda mais com meu amigo doc aqui- completa — Mas o que o traz aqui?- pergunta.
—O que você sabe sobre os homens que me raptaram ,Ramon? Como se envolveu com eles?- questiono-o diretamente.
—Quando se chega ilegal, algumas dívidas ficam pendentes,doc- diz, triste — Uma forma de pagar é servindo de ajuda para os coiotes. Não é bom negar quando pedem — afirma — Quando vi que era usted...você...fiquei triste por não poder fazer nada..Pedón!!
—Non hay nada que perdonar -asseguro, segurando sua mão — Me ayudaste mucho,gracias- ele agradece com um aceno,sorrindo — Sabe quem era o líder?
—Não. Nunca o vi — garante — Sei que era alguém influente, da alta.
—Ouviu algum comentário se havia algum motivo,além do dinheiro, para o sequestro? O doc era o alvo principal?- Jay interroga.
—Venganza...Vingança — diz -Mas não contra doc- completa — Alguém ligado ao senhor.
Após mais meia hora, nos despedimos.
—Gracias,Ramon- seguro sua mão entre as minhas — Por tudo. Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me ligue — lhe entrego um pedaço de papel com meu número — Não hesite,por favor- balança a cabeça afirmativamente, sorrindo.
—Y su hija? Como se llama?
—Valentina — digo e seu sorriso aumenta.
—Corazones no son iguales!!- sustenta o sorriso, apertando minha mão.
—No!- sorrio de volta, despedindo-me a seguir, voltando para o carro com will e Jay.
—O que foi aquilo?- pergunta Will, voltando a olhar ao redor, sem medo desta vez.
—Muitas vezes, nos acampamentos, eramos julgados por nossa nacionalidade. Fulano era melhor do que sicrano porque não é americano, ou porque é brasileiro, e assim por diante — relembro, parando junto ao carro, observando, assim como Will e Jay, tudo ao redor — Um dos chefes disse, durante uma discussão, que não importava o país e sim o coração. Um bom coração não enxerga nacionalidade, cor, religião- paro, encarando meus dois amigos — Enxerga apenas seres humanos, tornando-se incapaz de atos bárbaros...Como abandonar a morte ou matar um recém nascido — suspiro — E que, feliz e infelizmente, os corações não são iguais.
"... Não diga não precisa, eu digo que é preciso;
Agente se amar, demais...
Mas tem que ser assim, pra ser de coração;
Não diga não precisa.."
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