De Corpo e Alma
34 Enquanto você não vem!
Notas iniciais
"....Se é tempestade,todo medo, se for arrependimento,por favor tira dai;
Você ainda não me tem inteiro,nem me conhece direito,mas já posso te ouvir;
E quando a barriga for crescendo você ainda vai ser linda;
Eu nem preciso te ver..."
9 Meses (Oração do bebê)
Quarto do hospital
Sarah
Acordo ouvindo o som agradável de duas vozes cantando o que me parece ser uma cantiga de ninar. Uma, reconheço claramente, é a de Connor. A outra...Viro a cabeça de lado e vejo quatro pessoas sentadas próximas a janela do quarto. Apesar de estar bem, Natalie insistiu para que eu ficasse em observação até a manhã do dia seguinte, avisando que me daria uma semana de repouso. Ela era agora,oficialmente, minha médica.
Observo o grupo conversar animado, sem perceber que acordei. Connor e Claire, a segunda voz que escutei, repetem a melodia mais uma vez, suavemente, em um tom baixo, certamente temendo me acordar, enquanto Will e Downey escutam com atenção, o segundo acompanhando os dois com a mão, como se fosse um maestro regendo o coral. Sorrio.
O primeiro a notar que acordei é justamente o "maestro" Downey.
—Boa tarde minha querida! -exclama, vindo até mim, segurando minha mão — Como está se sentindo?
—Muito bem. — afirmo, vendo Connor, Will e Claire aproximarem-se também- Acho que nem preciso ficar. Já posso ir pra casa.
—Mas de jeito nenhum! — escuto Will dizer — Primeiro, se tem juízo,não contrarie as ordens de sua médica. Nunca- diz, sorrindo- Não confie naquela carinha doce. Ela sabe ser durona quando quer e precisa. Acredite- avisa — Em segundo lugar, se passar mal mais uma vez,alguém aqui vai precisar ser internado e não será você!- indica Connor com a cabeça, provocando-o.
—Vou ser mesmo,não nego — admite, sentando na cama ao meu lado, beijando meu rosto — Não gosto nem de pensar na possibilidade de minhas duas garotas correrem qualquer risco,por menor que seja — afirma e o olho intrigada.
—Connor cismou que você espera uma menina,Sarah- Claire esclarece, rindo — Confesso que estou torcendo para que acerte- fala, batendo palmas -Uma linda garotinha que eu possa mimar, encher de vestidos,lacinhos, pulseiras...
—É da minha filha que está falando ou de alguma de suas bonecas?- provoca-a Connor, recebendo uma careta da irmã.
—Deixa de ser chato maninho! O bom de menina é justamente poder enfeitar! — diz — Já pensou, ela naqueles vestidinhos rodados,parecendo uma princesa?- divaga minha cunhada e não posso evitar o riso .
—E uma carruagem acompanhada de um príncipe encantado ..- brinca Downey, rindo — E não podemos esquecer da fada madrinha!
—Alguém me chamou?- a voz de Lilian ecoa do lado de fora da porta,ela mesma entrando em seguida, uma bandeja com comida nas mãos — Cheguei! — anuncia, dando dois pulinhos, fazendo todos rirem.
—Quanto ao príncipe, Owen é candidato tá.- anuncia Will e Connor lhe dirige um olhar severo — Se o pai deixar, lógico- fala, erguendo os polegares para ele, que balança a cabeça, revirando os olhos.
—Aqui Sarah. Nat me pediu para trazer algo pra você comer e...- Will a interrompe.
—E você entendeu que tinha que trazer tudo que tinha na cantina e no foodtruck não é?- provoca, pegando um bolinho da bandeja -O que?? Tem um monte aí! — defende-se ao receber seu olhar de repreensão.
Ela aproxima a bandeja e imediatamente minha boca se enche de água,mas não pelo conteúdo da mesma. Na verdade, o que estava lá dentro me faz sentir ânsia e a afasto.
—Se eu colocar em Outra bandeja, vai ficar mais atraente?- Connor diz,lembrando meu comentário de duas noites atrás me fazendo rir, os demais nos olhando sem enterder nada.
—É alguma piada interna?- Downey pergunta.
—Só se for dos dois.- afirma Will.
—Na verdade, não quero nada dai- volto a empurrar a bandeja para longe ,fazendo cara de nojo-Desculpe! — olho para Lilian,me sentindo culpada.
—Tudo bem. Me diga o que quer e trago- diz, sorrindo.
—Connor ...- chamo-o e antes que consiga dizer algo, Will se adianta.
—Opa, nesse caso é melhor nós sairmos -começa a empurrar Lilian para a porta, Downey e Claire rindo alto — Pera, tem que ver se sua médica já te liberou pra fazer essas coisas! — diz — Nat!! Nat!! — abre a porta e dessa vez até mesmo eu e Connor não resistimos, rindo junto com os demais.
—Idiota! — Connor o xinga, enxugando as lágrimas.
—Não foi Bem Isso que quis dizer Wil — defendo-me, fazendo o mesmo que Connor — Queria...Quero — corrijo-me — Que Connor vá comprar algo pra mim- digo e ele me olha, aguardando — Sabe aquele lugar onde fomos juntos a primeira vez, depois do plantão? No dia que seu amigo deu entrada no hospital?
—Vocês estão juntos desde aquele dia?- Claire interroga.
—Não.
—Sim. — respondemos eu e Connor ao mesmo tempo ela nos olha confusa.
—Mais ou menos — admito — Depois explico. O fato é que eles tem um sanduiche natural excelente- acrescento ao ver o olhar reprovador que Downey me dá — Além das melhores batatas fritas de Chicago! — minha boca enche de água só de lembrar — Compra pra mim!! — peço,fazendo a melhor cara "gato de botas" que consigo e ele gargalha .
—Viu com quem aprendi Claire! — exclama e a irmã sorri, acenando positivamente — Tudo que desejar meu amor. — diz, me dando um selinho, levantando-se.
—E um milk shake de morango. Grande- peço — Com pedaços da fruta — acrescento, mordendo o lábio.
—Imagino que o sanduiche também seja tamanho grande! — diz e confirmo com um aceno. Ele balança a cabeça, sorrindo — Ok. Vem comigo, rei da malicia. Vou precisar de mãos extras pra trazer tudo e se fizer qualquer piada com isso, te mando pra enfermaria- ameaça.
—Eu?? Imagina! — Will responde, erguendo as sobrancelhas, piscando para nós antes de acompanha-lo.
Após sairem, Downey se despede dizendo que precisa descansar um pouco, deixando-me na companhia de Claire e Lilian, que recomeçam a divagar em torno do sexo do bebê.
—E o nome,Sarah. Já pensou em algum nome?- quer saber Lilian.
—Honestamente não- digo — Que música era aquela que você e Connor estavam cantando Claire?- lembro de perguntar.
—Na verdade é uma oração na qual colocaram uma melodia — revela- Mandei o video pro Connor. Acho que vai ser ótima pra ninar o bebê antes e depois que ela nascer..ou ele — corrigi-se, me fazendo rir — A culpa é de seu marido! Ele já falou tanto em ser uma menina que já começei a imaginar o rostinho dela!- fecha os olhos, juntando as mãos — Cabelos cacheados como os seus, negros como os dele, a pele alva, os olhos azuis acizentados como os de Connor..- idealiza
—Nossa, até eu vi agora! — Nat diz,parada a porta- Sabe, ele pode estar certo.- afirma, entrando — Geralmente meninas mexem antes que os meninos, e você disse que sentiu mexer não foi? — balanço a cabeça afirmativamente- Mais um ponto a favor! — sorri.
—Delivery!! — ouço a voz de Will anunciar- Não me culpe! Sua paciente que pediu- ergue os braços, defendendo-se ao ver o olhar de reprovação de Nat para as sacolas.
—Se servir de consolo, o sanduiche é natural Nat — Connor diz, me ajudando a abri as sacolas — Já as batatas...Bem, pelo menos pedi pra diminuirem a quantidade de óleo- diz, olhando-me, acompanhado pelos demais, com estranheza ao me ver abrir o copo com milk shake e mergulhar a batata lá dentro, comendo-a a seguir, mordendo o sanduiche pouco depois, tomando um gole generoso do shake- Tem certeza que quer misturar isso tudo??- questiona e balanço a cabeça afirmando.
—Certo. Agora eu estou enjoado! -ouço-o dizer.
No começo da noite, todos, excerto Connor, vão embora. Ele sai apenas para comer alguma coisa, voltando rápidamente, trazendo alguns doces e barras de cereais além de água mineral e suco para o caso de um dos dois sentir fome durante a noite, e um cobertor.
—Connor, poderia cantar aquela música pra mim?- peço quando ele deita-se ao meu lado- Nem que seja só um pouquinho!
Ele pensa por um momento e, depois de avisar que seriam apenas as quatro primeiras estrofes, começa a cantar. A letra fala do início da gestação.
Não sei se foi o cansaço que ainda sentia, ou o tom de sua voz, o fato é que adormeci pouco depois de escutar a segunda estrofe, acordando no meio da madrugada sentindo falta de seu corpo ao meu lado e com sede. Vejo-o deitado na poltrona, encolhido. Tenho vontade de chamá-lo de volta para a cama, mas sei que se o acordar agora irá pensar que estou passando mal e dificilmente dormiria novamente, mesmo que garantisse estar tudo bem.
Pego o cobertor que ele havia trazido, cubro-o com cuidado, fazendo uma leve carícia em seu rosto. Neste momento, sinto o bebê mexer novamente e sorrio. Pego a água, volto para a cama, deitando-me de lado para poder observá-lo mais um pouco.
Adormeço pouco depois e sonho com uma linda garotinha de cabelos cacheados e lindos olhos azuis!!!
"...Seca o choro e fica aqui comigo que até assim tristinha eu já sei
Que eu amo você!..."
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