De Coração
6 Rei da Inconveniência
Notas iniciais
Kai não conseguiu completar cinco horas de sono àquela noite. Não conseguia relaxar, ansiando pelo amanhecer.
Assim que saiu do Aloha Coffe com Manu e Luana no dia anterior, encaminharam-se para o apartamento da garota, prontos para passar a noite ali. Luana encarregou-se de ligar para os pais de Kai e explicar a eles a situação enquanto Manu preparava um colchão no chão para o garoto — ele ficaria com o sofá, mesmo que o móvel fosse um tanto quanto pequeno para seu corpo.
Mesmo sentindo-se extremamente confortável naquele amontoado de maciez, nada no mundo poderia acalmar sua mente. Seus neurônios trabalhavam à mil por hora, incapazes de ficarem quietos, como se dançassem ao som de um rádio instalado em seu córtex.
Remexia-se de um lado para o outro no colchão, ouvindo os roucos altos de Manu ao seu lado, assustando-se quando Luana gritava para ele calar a boca de seu quarto.
À medida que o relógio se movia aos estralos do seu lado, a ansiedade de Kai só tendia a aumentar, praticamente dominando-o. Dormiu pouco, talvez em alguns intervalos de meia hora, mas logo tendia a despertar e, numa destas vezes, despertou no instante em que Luana se levantou e chamou Manu às seis e quarenta da manhã.
Luana, grogue de sono, encaminhou-se até a cozinha, descalça e de camisola, coçando os olhos enquanto acendia as luzes do cômodo. Viu Kai e Manu remexerem-se, lutando para levantar, e abriu a geladeira em seguida.
O café da manhã nunca era ruim se Manu estava no meio. Como adorava cozinhar e fazia isso para pessoas que gostava, caprichou tanto quanto capricharia caso o Obama decidisse visitá-los — quem sabe, até mesmo mais.
Uma dúzia de waffers foram recheadas com creme de chocolate ao leite. Chantili, cerejas e amoras foram depositados em cima, decorando o prato, juntamente com caldo de morango. Kai pediu uma porção generosa, mas todo o alimento ingerido era mal aceito por seu estômago, já que seus músculos estavam tensos, revirando-se em pura excitação e ansiedade.
Luana passou reto pela mesa, empinando o nariz e ignorando ferrenhamente aquele café da manhã gorduroso e quase tóxico. Parou na frente da pia e começou a descascar uma laranja, virando-se propositalmente de costas para a mesa.
Manu sentou-se, virando a cabeça para encará-la.
– Você quer parar de ser idiota? Tá passando vontade à toa. — Reclamou, interna e nem tão disfarçadamente preocupado com a complexidade boba da garota. Juntou as sobrancelhas. — Luana, senta aqui.
Luana bateu o pé, cortando um gomo e enfiando-o na boca quase bruscamente.
– Não — proferiu enquanto mastigava. — Quantas calorias deve ter essa porcaria fatal?! — Apontou para o prato lindo, tentando sentir nojo, mas a única coisa que aconteceu foi seu estômago revirar e implorar por um pedaço. Ignorou seus anseios (habilidade que sempre teve) e enfiou mais um gomo da laranja na boca. — Viu? — Começou, fazendo uma cara meio patética. — Saudável.
Kai parou de comer para prestar atenção na conversa. Estava cheio e transbordando de energia; podia sentir ali a tensão entre eles, como se um fio invisível de agonia pairasse sobre os três.
Manu inspirou fundo, um lado do cabelo extremamente levantado e lambido. Odiava com todas as forças aquela complexidade toda. Será que ela não percebia que estava fazendo mal a ela mesma sacrificando-se daquele jeito?
– Saudável? Luana, você nunca vai ser magricela que nem aquelas garotas do litoral, sabia disso?! — Estourou, uma linha horizontal formando-se em sua testa. — Seu porte físico é naturalmente desse jeito, não tem como mudar a menos que você faça a porra de uma cirurgia!
Kai engasgou-se, tossindo e dando tapinhas em seu peito. Podia imaginar as sobrancelhas de Luana se arqueando, os olhos esbugalhados de choque e sua mão tremulando sob o peso da laranja. Ninguém falava daquilo. Era quase uma regra — Luana possuía poucos pontos fracos, mas os dois eram os únicos que sabiam quais eram, exatamente.
E atingir o mais instável deles era maldade. Com toda a certeza.
A cozinha permaneceu em um silêncio aterrador por alguns instantes, a única coisa audível sendo a respiração alterada da garota, que havia depositado a laranja sobre a pia. Olhou fixamente para a casca por dois segundos antes de sair às pressas em direção ao banheiro.
Manu encarou as costas da garota até ela desaparecer. Depois olhou para Kai, que permanecia quieto na cadeira. Suspirou, sem entender.
– E o Oscar para o mais idiota do ano vai para… — Kai começou, abrindo um grande sorriso. Manu ia perguntar o que havia feito de errado, mas foi impedido pela fala de Kai: — depois dessa eu vou até escovar os dentes e sair. — E, antes que Manu pudesse, de novo, falar alguma coisa, Kai complementou: — vou sair com o Kale.
– Vocês andam saindo muito… — Manu opinou, não gostando da ideia de ter seu amigo saindo com o louco da cueca.
– E…? — Kai, bocudo, contrargumentou. — Até agora não vejo problema nenhum.
Manu ia discutir, mas aquele não era seu dia: Luana voltou do banheiro, o nariz indiscutivelmente em pé.
– Também não vejo problema nenhum. Kai pode sair com quem ele bem entender. — Disse, cruzando os braços ao lado do garoto. — Vá escovar os dentes, Kai, vou te esperar pra sairmos.
– Claro, mãe... — Kai gracejou, mas logo fez o que lhe era pedido, já que sentia a situação tensa ali. Mas, antes, claro, não pôde deixar de fazer um comentário recheado de humor negro: — no momento, desejando ser surdo também pra não ter que ouvir o que vocês têm a discutir. Imaginem só, pacote completo, mais cotas na faculdade, mamãe ficaria feliz.
– Vá logo, Kai! — Luana perdeu a paciência, tanto pelo humor (de pouquíssimo gosto) negro de Kai tanto por sua enrolação.
Aquela manhã não fora uma das melhores. Kai podia ouvir enquanto escovava seus dentes uma nova discussão entre os dois na cozinha, dessa vez um pouco mais séria do que a anterior, com direito a alguns palavrões.
Kai podia ser muitas coisas, exceto bobo. Sabia claramente que o motivo da maioria das brigas que Manu e Luana tinham era porque um se preocupava, meio particularmente, com o outro. Mas, já que ambos eram tão fofos e românticos quanto um coice de mula, não conseguiam demonstrar suas preocupações de maneira "correta".
Saiu com Luana momentos depois, já que Manu preferiu ficar na casa da garota um pouco mais, para evitar mais discussões com ela enquanto estavam na rua. Luana segurava forte na mão de Kai enquanto andavam, os passos apressados e firmes — ele podia sentir a aura tensa e estressada emanando dela, sinal que Luana estava tão nervosa que poderia cometer um homicídio.
Atravessaram duas ou três avenidas, andaram por cerca de quinze minutos banhados em um silêncio desconfortável até chegarem em frente ao Fort Ruger Park, local marcado onde se encontraria com Kale. O surfista ainda não havia chegado, por isso Luana e Kai sentaram-se num banco ao lado do sorveteiro.
– Você pode ir, se quiser… — Kai começou o diálogo, apertando sua bengala na mão.
– Não, vou esperá-lo contigo, ainda é meio cedo… — Disse, cruzando os braços. — Ai, Kai, me desculpa pela discussão que tive com o Manu hoje, de verdade. Não queria que ouvisse aquilo.
– Ele foi um idiota. — Confortou-a, rodando a bengala na mão.
– Oh, se foi! — Luana bateu nos joelhos, indignada, virando-se de lado para encarar o garoto. — Às vezes eu tenho vontade de socar a cara dele até deixá-lo irreconhecível! — Admitiu, erguendo o punho fechado em puro ódio. — Qual é a dele?! Por que tem que sempre me estressar? Ele sabe que minha dieta é importante, não sabe, Kai?!
Kai assentiu por comodismo. A verdade era que estava meio perdido em pensamentos — já eram sete e meia e Kale ainda não havia chegado. Será que ele havia desistido? Será que, no fim de tudo, sua mãe estava correta? Não evitou; sentiu-se extremamente cabisbaixo só de imaginar, já que o surfista era, sem dúvidas, uma pessoa que confiava muito.
Apenas um segundo se passou para que Kai mudasse de confiante para hesitante, quase pensando em voltar para o apartamento, planejando enfiar-se embaixo das cobertas enquanto ouvia Oasis.
– … Ah, mas, não, ele sempre faz esses comentários maldosos! Que ódio, Kai, juro que vou ignorá-lo completamente hoje, maldito sej- — parou de falar quando notou uma presença próximo a eles. Ergueu a cabeça, dando de cara com Kale. Na humilde opinião de Luana, ele estava tão delicioso aquela manhã que ela pensou seriamente se photoshop funcionava na vida real. Vestia uma camiseta salmão e bermuda bege, peças muito simples, mas incrivelmente cabíveis nele; os cabelos estavam desgrenhados, mantendo sob o braço uma prancha e uma sacolinha na mão esquerda. — A-ah, olá, Kale!
Quando Kai ouviu aquele nome, sentiu como se meia tonelada fosse retirada bruscamente de suas costas. Sorriu com júbilo, satisfeitíssimo em saber que Kale viera.
– Oi, Luana… — Começou, meio sem fôlego; havia perdido a hora e teve de sair correndo, quase não dando tempo de ajeitar Berê. Aproximou-se de Kai, cumprimentando-o com um beliscão na orelha. — Oi, Kai, desculpa pelo atraso.
Kai riu e se afastou, erguendo as sobrancelhas.
– Que irônico, não? — Optou por cutucá-lo. — Não era você o Sr. Pontual?
Kale revirou os olhos, pondo-se a frente de Kai, que ainda estava sentado.
– Não era você quem estava polindo esta prancha às pressas! — Tentou explicar-se, pegando Berê e a mostrando (pateticamente) para ele. Só depois de cinco vergonhosos segundos, que Kale notou que o pequeno ali não iria perceber nada. Pigarreou, constrangido sob a expressão de risada contida de Luana. — Bom, o dia está maravilhoso hoje, acho que estamos perdendo tempo aqui.
Luana sorriu, inocente. Ah, se ela soubesse que seu queridinho protegido iria entrar no mar sob a tutela de Kale, o doido que surfou só de cueca à noite, com toda a certeza iria cair dura no chão.
– Bom, eu acho que já vou indo — começou ela, levantando-se e dando uns tapinhas em sua saia para limpá-la. Inclinou-se, beijando a bochecha de Kai. — Até mais, Kale, cuida bem do Kai hoje — disse, afastando-se enquanto acenava.
Kale sorriu e acenou também, acompanhando-a com o olhar enquanto ela andava pela calçada. Assim que Luana sumiu de suas vistas, Kale olhou para Kai, que tinha uma expressão vazia no rosto. O surfista se inclinou para a frente, observando-o mais de perto.
– Ei, você dormiu direito hoje? — Perguntou, preocupado, notando suas olheiras. Kai fez que não com a cabeça, sincero. — Ah, Kai, por quê? — Seu lado materno despertou.
– Não consegui, eu tava muito ansioso… — Admitiu, subitamente levantando-se. — Toda a vez que eu pregava os olhos, uma onda de ansiedade me atingia e eu era obrigado a acordar. Preciso fazer isso agora antes que eu morra!
– Não, não, calma, ninguém irá morrer hoje! — Kale riu, surpreso pela ansiedade de Kai. Segurou-o pelos ombros com certa dificuldade, já que ainda mantinha consigo a prancha sob o braço. Um sorriso terno espalhou-se por seus lábios. — Escuta, você tem que se acalmar, o.k.? Óh, segura… — Disse, deslizando seus dedos pelo braço de Kai (provocando no garoto arrepios, já que Kale sempre era gelado) e abrindo sua mão, enlaçando a sacolinha que segurava ali. Kale passou seu braço pelos ombros do menor, apertando-o contra si enquanto começavam a andar.
– O que tem na sacola? — Kai indagou, curioso.
– O básico… Protetor solar, toalhinhas, um pouco de parafina… Coisas assim — explicou, suspirando. — Como eu ia dizendo, só relaxe. Não precisa ficar desse jeito, não é como se o mar fosse fugir de você… Tudo está ao seu favor hoje, Kai.
– E-eu sei, mas… — Kai começou, sentindo seu estômago revirar. — Fazer isso é… A coisa que eu mais queria fazer na minha vida. A ficha não caiu, entende?
– Não — Admitiu, apertando Kai mais para si. Foram o caminho todo até a praia discutindo sobre caimentos de fichas, rindo enquanto Kale contava histórias embaraçosas sobre sua infância e adolescência em Big Island. Quando chegaram a um passo da areia, Kale curvou-se, retirando os tênis de Kai e suas sandálias. — Nossa! — Kale exclamou de repente enquanto observava o mar. — Tem um buldogue em cima de uma prancha agora!
– Sério?! — Kai exclamou com verdadeira surpresa.
– Sim — Kale riu, observando o cachorrinho escorregar da prancha e ser amparado por seu dono. — Olha que curioso, até um buldogue subiu numa prancha e você não.
Levou um soco no braço enquanto ria, puxando Kai pela mão enquanto andavam sobre a areia fofinha da praia. Ainda era manhã, então os raios solares faziam o céu de Honolulu ficar rosa claro, misturado a laranja. Era lindo e Kale desejou que o mais novo pudesse ver aquela paisagem de tirar o fôlego. Estavam num dos locais mais belos do mundo e não ter a chance de vê-lo era quase como uma maldição, aos olhos de Kale. O mar beijava o horizonte, as ondas plácidas, formando apenas algumas ondulações baixas — era até um pouco calmo demais na percepção de Kale, que gostava de ondas beirando a morte.
Andaram até chegar numa parte mais isolada da praia, onde poucas pessoas iriam atrapalhá-los. Aquela região era recheada de rochas gigantescas, todas elas encrustadas à beira mar, ideal para servirem de apoio aos dois. Kale deixou Berê apoiada numa dessas rochas, colocando a sacolinha no chão e deixando Kai esperando por alguns segundinhos.
– Ótimo, primeiro de tudo, tira sua roupa — Kale começou a dizer, casual, retirando sua própria camiseta rapidamente, dobrando-a em seguida.
– Quê?! — Kai exclamou, cético. — P-por quê?!
– Porque, quanto menos roupa você estiver vestindo enquanto estiver na água, mais leve você irá ficar e mais fácil será sua movimentação, gêniozinho — encerrou como se fosse o mestre no assunto, apertando a bochecha direita do garoto.
Kai afastou-se, meio envergonhado com a ideia.
– Kale, eu não vou ficar só de cueca na sua frente! — Defendeu-se, não gostando da ideia.
– Ah, é? Pois eu estou só de cueca na sua frente — Kale declarou com um sorriso colossal, abaixando a bermuda sem pudor nenhum, chutando-a em seguida em direção à sacolinha. — Vamos, para de graça, tudo o que você tem aí eu tenho também. — Começou a dizer, aproximando-se do garoto. — Talvez os tamanhos sejam diferentes, mas nada alarmante… — Gracejou, gargalhando ao receber outro soco no ombro.
Kai, depois de muita hesitação e xingamentos, finalmente retirou a camiseta. Kale na mesma hora agachou-se para pegar o protetor solar na sacola que trouxera, evitando encarar demais o corpo esguio e alvo de Kai. Na realidade, só mais branco que ele, apenas Lucas.
Ergueu-se, espalhando nos dedos um pouco de protetor enquanto andava em direção ao garoto, que abaixava a bermuda até os pés. O mais velho sentiu como se alguém o houvesse socado no estômago quando presenciou Kai apenas de cueca. O garoto era extremamente alvo nas coxas, quase pálido e, mais surpreendente ainda, sem a presença de pelos.
– Tem certeza que você já passou pela puberdade? — Decidiu enganar a sensação alarmante que se passou pela sua coluna com uma piadinha.
– Vai se ferrar! — Kai cruzou os braços, emburrado. Este era o seu maior problema. Não aparentava ter a idade que possuía, mesmo sem nunca ter visto qual era a aparência “ideal” correspondente aos dezoito anos. — Todos nós temos nossos tem-AH! — Levou um susto quando algo extremamente gélido espalhou-se no seu peito. — O que é isso?!
– Calma, calma! É só protetor solar! — Kale riu, espalhando o produto em seu peito alvo. — Cê não quer vivar Tostadinho de Kai quando voltar pra casa, quer?
Kai riu, mas não aprovou aquela atitude. Esticou a mão, um pedido implícito para que Kale despejasse o protetor ali.
– Pode deixar que eu mesmo passo, Kale… — Disse, não gostando da ideia de ter mais alguém medindo seus passos.
– Larga de ser chato — o surfista revirou os olhos, mas concebeu o pedido. Logo, ambos já estavam lambuzados de protetor solar, protegidos dos raios perigosos do Sol. Kale, então, puxou o outro pelo pulso, guiando-o em direção à orla marítima.
Kai arrepiou-se quando sentiu a água afagar-lhe seus dedos dos pés, alcançando facilmente os tornozelos. Riu das cócegas, agachando-se e molhando em seguida os braços. Kale pegou Berê, observando-a por alguns instantes.
– Não me decepciona hoje. — Pediu bem baixinho, como se ela fosse uma grande amiga. — Tem um cara aqui que precisa muito de você.
E seguiu, ficando lado a lado com Kai, que brincava quase infantilmente na água. Riu, pescando-o pelo antebraço, levantando-o. Kai acompanhou-o enquanto caminhavam um pouco à fundo. Sentia cada vez mais seu corpo em contato com a água, e logo seus cotovelos desapareciam à medida em que andavam. Pararam quando Kale julgou estarem num ponto bom o suficiente, colocando Berê sobre a água de forma gentil.
Pegou na mão do garoto, guiando-a sobre a prancha.
– Muito bem, esta é a sua prancha hoje… — Começou. Observou quando Kai deslizou os dedos sobre ela, sentindo-a municiosamente. — Muito bem, vou botá-lo sobre ela agora.
– Me botar? — Kai ficou confuso, mas logo entendeu quando sentiu as mãos fortes e ágeis de Kale irem sob seus braços, puxando-o para cima . — Não, Kale! Idiota, o que você pensa que está fazendo?! Me larga!
– Kai… — Kale começou, gargalhando internamente.
– Eu poderia muito bem fazer isso sozinho, se você me explicasse o que era pra fazer! — Sim, ele estava tendo um ataque (provavelmente o sono misturado à ansiedade eram responsáveis por aquela súbita mudança e histeria).
– Kai... — O surfista repetiu e, pra tentar fazê-lo se tocar, firmou ambas as mãos em sua cintura. — Você tem noção de onde está, agora?
– Eu... — Kai começou, mas congelou quando notou.
As mãos tocaram o local onde estava sentado confortavelmente, ou seja, a prancha. Sentiu o coração parar de bater e saltar dentro do peito, indo diretamente para a sua garganta.
De repente, seu corpo ficou mais mole que macarrão, sua coluna perdeu a firmeza e vacilou pra frente. A prancha deslizou sobre a água, indo para a direção contrária, fazendo Kai quase cair.
Obviamente foi amparado por Kale, que puxou a prancha para perto de si instintivamente, colocando-se entre as pernas do garoto.
– Ooopa! – Brincou, rindo ao ver a expressão apavorada de Kai, firmando um aperto em sua cintura. Kai ainda estava em choque, cético de que aquilo estava acontecendo.
– E-eu... — Começou, sentindo o leve balanço da prancha causado pelas ondas rasas.
– Como se sente? — Kale indagou, curioso de verdade pra saber.
Como se sentia?! Kai sentia-se como se estivesse dentro de uma vórtice de sentimentos bons. Era uma sensação esquisita, como se o mais profundo júbilo lhe tivesse alcançado, e, como compensação, sugou-lhe todas as energias.
Era o seu sonho sendo realizado, ali, naquele instante.
Queria despejar tudo, mas a única coisa que conseguiu dizer, foi:
– Me sinto… Muito feliz.– Admitiu, a voz embargada em mais pura sinceridade, saindo rouca e alterada. Respirou fundo, ainda sentindo as pernas moles. — E-eu vou cair…
– Não vai, não… — Kale assegurou, apertando mais ainda a cintura fina do garoto, rindo da situação. — Você está se saindo muito bem…
Kai riu, a expressão irônica logo ressurgindo em seu rosto.
– Se eu não me sair bem em ficar sentado na prancha com você me segurando, posso desistir porque eu sou um caso perdido…
Kale revirou os olhos, preferindo mil vezes o Kai fofo e não irônico.
– Se é este o problema, podemos resolvê-lo. — Disse, soltando a cintura do garoto devargazinho, observando-o com cautela. Kai equilibrou-se, respirando meio alteradamente, os pés balançando dentro d’água. — Óh, não foi tão ruim, agora você está sentado na prancha sem que ninguém te segure. — Sorriu, quase orgulhoso. — Já é um passo.
– Ah, mas isso é fácil... — Vangloriou-se, espalmando as mãos úmidas ao lado de seus quadris. A infelicidade aconteceu quando seus dedos deslizaram pela prancha, fazendo-o se desequilibrar e, com um baque surdo, cair dentro d'água.
Kale gargalhou, já que estavam, relativamente falando, no raso, e de qualquer forma era engraçado vê-lo emergir com cara de perdido, abanando as mãos como se estivesse em pleno alto mar morrendo afogado.
– Kale?! — Chamou, meio desesperado, ainda batendo e espalhando água por todos os cantos. — Kale!
– Calminha, tô aqui... — Disse, ainda todo risos, aproximando-se de Kai e amparando-o pelas costas. Tomou um susto quando o garoto envolveu-lhe o pescoço com os braços. Ficou tenso por um momento, sem saber o que dizer nem agir perante àquele abraço de urso. — Bom, vamos tentar de novo… — Ofereceu, agarrando-o pelo tronco e botando-o como um cachorrinho sobre a prancha novamente.
Havia muitas coisas que impossibilitavam Kale a aplicar todas as instruções num primeiro dia. Kai não era bobo nem lerdo, pegava as coisas rápido, mas também não era um expert. Foram seis vezes antes de Kai tentar se manter em pé sobre a prancha; na sétima caiu de bunda na água (provocando muitas gargalhadas da parte do surfista), na nona perdeu o equilíbrio antes de levantar, na décima segunda conseguiu se esticar completamente, mas não conseguiu afrouxar o aperto maciço na mão de Kale, que servia de suporte (um suporte dolorido e reclamão que não estava sentindo mais os dedos, mas ainda assim um suporte).
Somente na vigésima quinta, quando os dedos do garoto já estavam completamente enrugados e os lábios ameaçando ficar brancos, que Kale soltou sua mão com cuidado, o queixo já despencando ao ver Kai ali, totalmente equilibrado sobre a prancha, a mesma cara de tapado de “eu-não-acredito-que-isso-tá-acontecendo-meu-deus-do-céu”.
– Puta que pariu, Kai, você conseguiu! — Não evitou, gritou alto e ergueu os braços num gesto de vitória, totalmente orgulhoso.
Kai soltou uma risada nervosa, os lábios tremulando, a voz meio embargada, os dedos ficando sem tato. Sorriu largamente, desta vez um sorriso de mais puro júbilo, todos os dentes branquinhos aparecendo numa curva perfeita — uma curva de quem estava tão feliz que poderia morrer naquele instante. Kale sentiu-se bobo perante aquele sorriso, não sabia o porquê.
Só voltou à realidade quando o garoto jogou-se em cima dele, agarrando-o num abraço que não acabou quando pisaram na areia. De fato, sentia-se muito bobo, como se fosse um pedaço de berinjela mofado lançado ao mar. Sim, Kale, naquele momento, era uma berinjela mofada, sem reação perante o abraço que estava recebendo.
– Caramba, que frio! — Kai se abraçou, afastando-se do surfista, dando uns saltinhos na areia para tentar aquecer-se. Os dentes batiam e os dedos enrugados denunciavam o quanto tempo estavam na água. Mesmo que o Sol a pino cozinhasse os miolos, o estado em que se encontravam dificultava qualquer tentativa de rápido aquecimento.
Kale acordou de seus devaneios envolvendo berinjelas quando viu aquela criatura saltitante à sua frente. Logo se encarregou de jogar em sua cara uma das toalhas que trouxera, enxugando a si mesmo depois. Acabaram de se vestir e Kai já enrolou o braço no de Kale, que guiou-o com o maior prazer em direção ao Aloha Coffe.
– Vamos tomar um chocolate pra aquecer a alma, que tal? — Ofereceu, apertando Berê sob o braço.
– Por mim, tudo bem... — Kai concordou, sorrindo descarado depois. — Isto é, se você pagar pra mim, porque eu não trouxe dinheiro algum.
Kale revirou os olhos, mas sorriu de canto, sentindo os dedos do menor apertarem com força seu antebraço.
– Acho que eu tenho apenas o suficiente para uma só bebida, mas não tem problema, ouvi dizer que eles dão pirulitos de brinde — gracejou, dando de ombros enquanto atravessavam uma avenida.
Kai revirou os olhos.
– Besta.
***
Às vezes Kale se impressionava com o quão era idiota. Novamente, quando foram entrar no estabelecimento, puxou as portas duplas de vidro, fazendo Kai gargalhar ao seu lado quando contou a ele o que acontecera.
– No dia em que você aprender a como abrir uma porta, Kale, eu vou enxergar, com toda a certeza — disse, venenoso, entrando no estabelecimento com um grande sorriso.
Encaminhou-se para o banco azul sem dificuldades, já que sabia o caminho de cor, e sentou-se ao lado da janela. Sentiu quando Kale jogou-se do seu lado, brusco.
– O.k., vamos ver quanto eu tenho e se não está encharcado… — Começou, enfiando a mão no bolso da bermuda e logo de cara tirando uma nota de dois dólares amassada e meio molhada nas pontas. — Óh, será que dá pra comprar uma balinha? — Disse, risonho, mostrando a Kai a nota toda ferrada.
Só notou que ele não iria perceber segundos mais tarde. Olhou em volta, envergonhado, receoso que alguém tivera visto aquele gesto tolo.
Quando achou mais uma nota de cinco dólares, Kale comprou um chocolate quente (borbulhando…) com muito caramelo para Kai, que se encolhia no banco, meio imerso em pensamentos e no frio que estava sentindo.
Botou a xícara maior que sua mão na frente do garoto, que agradeceu com um grande sorriso, não perdendo tempo ao bebê-la.
– Tá gostoso? — Perguntou, sentando-se sobre uma perna enquanto avaliava o pequeno com atenção, próximo a ele.
– Muito. Eu adoro os chocolates daqui. — Confessou, bebendo mais um pouco. — Você quer? — Ofereceu, esticando um pouco a xícara em direção em que julgava estar o surfista.
– Ah, não, obrigado — Kale recusou, educado. Vagou o olhar pelo estabelecimento, erguendo as sobrancelhas em pura surpresa quando seus olhos bateram em Lucas. — O que o Lucas tá fazendo aqui? — Indagou, mais para si mesmo do que para Kai.
– Sou cego, não vidente — o garoto respondeu, quase mal-educado, voltando a bebericar o chocolate fulminante. De fato, aquilo aquecia a alma.
Kale fez uma careta, apertando a bochecha direita do garoto antes de levantar.
– Eu já volto, tudo bem? O Lucas tá ali no fundo, mas tô de olho em você. Só preciso saber o que ele veio fazer aqui. — Justificou-se, vendo o outro assentir. Encaminhou-se, então, para a mesa doze.
Lucas, como sempre, parecia um nerd. Os óculos quadrados estavam sobre a ponta de seu nariz, o cenho estava franzido, os dedos desesperados ao apoderarem-se da calculadora. Sua mesa estava cheia de papéis desorganizados e canetas soltas. Escrevia em azul num desses papéis, ora ou outra fazendo uma careta de surpresa.
Levou um susto quando Kale aparatou ali, sentando-se a sua frente com um grande sorriso e com o cabelo todo encharcado.
– Você fazendo contas? Que surpresa…
– Ao menos um de nós precisa se preocupar com os gastos da casa, Kale — respondeu, o mau humor apoderando-se dele. Mas, quando viu Kai tomando chocolate umas mesas a frente, voltou a olhar para Kale. — E aí, deu tudo certo?
O surfista ergueu as sobrancelhas, pego de surpresa pela pergunta repentina. Virou a cabeça para olhar Kai, que parecia imerso em pensamentos num rosto inexpressível.
– Deu, Lucas. Muito certo — explicou, orgulhoso, não evitando e sorrindo. — Ele ficou lá, de pé, bonitinho em cima da prancha. Mal se aguentou também, deve estar até agora cansadinho, por isso paguei um chocolate quente pra ele… — Disse, apoiando o cotovelo em cima das costas do banco e o queixo no punho fechado, observando Kai. — Depois de vinte e cinco tentativas, até eu estou meio podre. — Encerrou, virando a cabeça para olhar Lucas.
O queixo do míope estava meio caído.
Mas pelos motivos errados.
– Você pagou um chocolate quente pra ele? — Indagou, apontando com a caneta na direção do Kai. Lucas sabia perfeitamente como Kale era, e, se ele sacrificou os trocados que tinha para comprar uma bebida quente ao garoto, aquilo só podia significar uma coisa.
– P-paguei, ué, ele tava todo gelado… — O surfista olhou para os lados, não sabendo aonde Lucas queria chegar.
– Você ficou, com toda a certeza, mais de duas horas dentro d’água com ele, né, Kale? — Quando o surfista assentiu, Lucas respirou fundo. — Você tá gostando dele. — Falou, não como pergunta, mas como uma afirmativa que não permitia objeções.
– Claro que eu tô! Ele é um irmãozinho pra mim — disse, meio tenso.
– Não desse jeito, seu idiota! — Lucas levantou-se um pouco, esticando-se sobre a mesa e pressionando a caneta contra sua bochecha. — Você está gostando dele.
Kale finalmente entendeu o sentido de ‘gostar’ na frase.
– C-claro que não! — Negou com todas as forças, virando a cabeça para trás, para ter a certeza de que Kai não podia os ouvir.
– Você gaguejou, seu pedófilo, é claro que você está! Só falta colar na sua testa um papel escrito “eu tô gostando do Kai”. — Grunhiu, balançando a cabeça negativamente. — Você já viu o Manu, Kale? Se ele descobre que você, o maluco surfista pelado tá começando a ver o Kai, seu protegido, com segundas intenções, ele te mata! — Exclamou, cutucando o surfista dolorosamente com a caneta.
– Sai, Lucas! — Kale deu um tapa na caneta, dolorido na clavícula. — Você tá falando muita merda, seu neurótico! Eu não tô gostando dele, e, caso gostasse, ele já é de maior, se você quer saber. Tá certo que ele tem uma carinha de treze anos e o corpo é bem esguio e delgado pra idade, quase sem pelos, mas ele é de maior! — Enfatizou, sentindo-se meio ofendido pelas acusações do outro. — E, pelo amor de Deus, né, Lucas, o Kai é hétero.
Lucas parou de apertar a caneta para encará-lo. Fez uma expressão cômica, como se o universo lhe dissesse a resposta de como desvendá-lo, extremamente incrédulo.
– Ah, o.k., eu vou ignorar isso. — Disse, desistindo de tentar discutir com Kale, voltando às suas contas.
Uma coisa dentro do surfista fez ziguezague. Se arrumou no banco, apoiando ambos os cotovelos na mesa, inclinando-se um pouco, como se fosse contar uma confidência a Lucas.
– Lucas… V-você não acha que o Kai seja… Hétero? — Indagou, o ziguezague ficando mais rápido, como se ansiasse por uma resposta em especial.
– Por que pergunta? Você nem gosta dele, mesmo. — Lucas, A Víbora.
Kale teve vontade de socá-lo. Revirou os olhos, impaciente.
– Larga de ser trouxa, Lucas! — Grunhiu, exasperado. — Fala logo!
– Não, não acho! — Grunhiu também, mais exasperado ainda. — Agora, dá licença que eu quero fazer as contas do mês?! — Pediu, abanando a mão como se Kale fosse um cachorro vira-latas ensopado.
– Mas, por que você acha isso? — Insistiu, virando a cabeça para encarar Kai, que conversava aos risos com Luana. — Pra mim ele parece… Sei lá, hétero.
– Então pergunte diretamente a ele, se você quer saber. — Estressou-se, começando a juntar todos os papéis e canetas, pronto para sair dali. — Eu estava muito bem aqui antes de você chegar, Kale, seu destruidor da paz alheia. — Encerrou, levantando-se devagar, enfiando a calculadora no bolso da bermuda e começando a andar, puxando a perna.
– Quando chegar em casa eu vou encher tanto o seu saco que você vai ter que falar! — Kale gritou para o míope quando ele já estava puxando as portas duplas do estabelecimento. Lucas apenas revirou os olhos e mostrou o dedo do meio a ele, impaciente, saindo dali o mais rápido que pôde.
O surfista então dirigiu-se para a mesa onde Kai e Luana estavam, sentando-se em frente ao garoto, sorrindo simpaticamente para Luana, que retribuiu com pressa, levantando-se segundos depois, pescando a asa da xícara de Kai.
– Eu vou indo antes que o chefe arranque meus cabelos! — Avisou com ansiedade, olhando para o surfista. — Então, Kale, por favor, você pode levar Kai até o meu apartamento? — Pediu, mas já sabia a resposta, que veio rápida:
– É claro! Só me passa o endereço que eu colo lá em dois palitos! — Garantiu, sorrindo. Luana retirou o bloco de notas e a caneta que mantinha no bolso de sua saia e anotou rapidamente seu endereço, entregando-o a Kale.
Agradeceu e foi contra sua vontade para a cozinha de forma rápida. Kai levantou-se quando sentiu o aperto forte do surfista em seu antebraço, puxando-o para irem embora. Já havia se aquecido, os dedos não estavam mais enrugados e todos os malefícios da água haviam ido embora.
Agora, só restavam as lembranças que enchiam seu ser de felicidade. Caminhava ao lado do surfista tagarelando, contando como havia se sentido o tempo todo, como era fantástica a sensação de ter completado o seu sonho. Chegaram numa avenida principal quando Kai tocou num tópico de interesse mútuo:
– Então, Kale, quanto a você, como está se sentindo em relação à competição? Cê sabe, ela vai acontecer daqui a três semanas… — Lembrou-o.
Kale ainda estava imerso em pensamentos. Batia num mesmo prego, pensando sobre o que Lucas havia lhe dito. Mas acordou ao ouvi-lo referindo-se à competição.
– Ah, bom… — Começou, coçando a nuca. — Não vou mentir e dizer que não estou ansioso, pois eu tô, mas não muito, sabe? Sei lá, o que rolar, rolou, e é isso aí. Não tô nada preocupado com isso… Aliás, cê vai estar lá para torcer por mim, não vai? — Brincou, atravessando a avenida junto com muitas outras pessoas.
– Não sei, se eu não tiver nada para fazer, eu dou uma passadinha lá… — Kai brincou também, um sorriso enorme brotando em seus lábios.
Kale entreabriu a boca, cético.
– Aaaah, é assim, então? — Indagou, lúdico, empurrando-o levemente com o ombro. Andaram à base de ombradas e risos por toda a avenida, com Kale tomando um cuidado extra para não empurrá-lo forte o suficiente para fazê-lo cair (mas Kai, aparentemente, não estava ligando para isso). Assim que chegaram no portão endereçado, Kale logo pediu as chaves.
– Eu ainda tô pensando no buldogue surfista… — Admitiu enquanto abria o portão, sorrindo ao ver a expressão de Kai. — Você é como um cachorrinho, Kai… Só que, no lugar de ser um buldogue, você é um… — Pensou por dois instantes. — Pug.– Decidiu, assentindo, quase orgulhoso da comparação. Ao ver a cara de incógnita do garoto, começou a explicar: — cê sabe, pequeno, olhos amendoados, nariz achatadinho — cutucou seu nariz, fazendo Kai rir. — Só falta ter umas gordurinhas aqui… — E, sendo chato, cutucou-o na barriga. Kai não sentia cócegas no abdome, por isso não se afastou. — E, claro, cê é fofo.
O.k., talvez esta última parte tenha sido desnecessária, até mesmo para Kale, o Rei da Inconveniência. Teve vontade de cavar um Buraco de Minhoca e voltar no tempo, impedindo a si mesmo de dizer aquilo em voz alta. Engoliu em seco e quase bateu com a cabeça nas grades do portão.
– Ah, bom, eu acho que… Hm, já terminamos por aqui — e, um pouco bruto e constrangido, arrastou Kai para dentro do portão. O garoto nem teve tempo de protestar quando sentiu a mão do surfista adentrar em seu bolso, acomodando a chave ali. — Tenha uma ótima tarde, Kai, qualquer coisa você me liga, tudo bem?
– Hã… Sim… — Kai estava tão perdido quanto se estivesse num tiroteio. — Você também… — Desejou, avulso. — Ah… Kale? — Chamou-o. O surfista, que já estava a três passos longe do portão, cutucando um risco profundo na base de sua prancha, virou-se bruscamente. — Obrigado.
Pelo silêncio que permaneceu, Kai deduziu que ele já havia ido antes que pudesse ter a chance de dizer mais alguma coisa. Suspirou, pegando sua bengala e acionando-a, afastando-se do portão e entrando no prédio com facilidade.
Kale virou-se para andar, sentindo que seu pulmão havia dado um looping e parado na base do estômago, abaixo das costelas, o coração no lugar da apêndice. Tudo dentro de si havia se remexido profundamente, e ele foi para casa, sentindo-se, para variar, um idiota.
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