De Coração
9 O Drama de Nicholas
Notas iniciais
Kale não era, nem de longe, uma pessoa discreta. Entrou como um furacão em seu modesto apartamento, subindo as escadas de maneira bruta, trombando com uma senhora do apartamento ao lado, pedindo desculpas e catando suas coisas do chão.
Enfiou a chave na fechadura e empurrou a porta com força, praticamente arrombando-a. Inspirou pesado quando pisou no apartamento, tendo um vislumbre do rosto impassível de Lucas, que encarava-o sobre os óculos e sobre o jornal que lia no sofá.
– Tava bom demais... — Resmungou, fechando o jornal e levantando-se.
– Ah nah, senta aí! — Disse Kale, empurrando o amigo de volta para o móvel. Lucas caiu sobre as almofadas, encarando Kale com monotonia.
– O que você quer?
– Lucas, eu tô, a cada dia que passa, mais ferrado. — Declarou, jogando-se no chão e apoiando sua cabeça no joelho saudável do amigo, olhando para o nada.
– O que aconteceu? — Lucas mostrou-se levemente preocupado. — Algo relacionado ao Kai?
– Tudo o que vem acontecendo até agora, desde que chegamos a Honolulu, está relacionado a ele. – Resmungou, coçando a cabeça e bagunçado os fios queimados. — Pela primeira vez, hoje, eu tive uma vontade incontrolável de... Beijá-lo... — Sussurrou a última parte como se fosse um pecado descabido.
Lucas arregalou os olhos, realmente chocado.
– V-você o beijou?! — Indagou, hesitante.
– Claro que não, Lucas, sou idiota, mas nem tanto. — Suspirou, sentando-se no sofá relaxadamente. — Ah, mas ele estava tão... Beijável. Ficou lendo Romeo e Julieta em libras-
– Braille — o míope corrigiu imediatamente, metódico.
– Saúde — Kale ignorou com pouco caso. — Ele é tão fofo, por pouquíssimo consegui resistir.
Lucas cruzou os braços, observando-o.
– O.k., então você admite que gosta dele?
Kale pareceu incerto.
– Talvez haja a remota possibilidade de eu... Hm, estar gostando dele um pouco.
– Por Deus, Kale, você é muito lento. — Resmungou, fazendo um rolo com o jornal e batendo na cabeça do surfista. — Ah, e, aliás, arranjei um emprego de contador temporário. — Avisou, abrindo o jornal e apontando para um anúncio. — Um salário razoável, cinco horas diárias, das sete ao meio-dia. — Explicou, parecendo satisfeito com a proposta.
Kale revirou os olhos, já completamente entediado só de ouvi-lo dizer "emprego". Apenas balançou a cabeça, concordando, achando ótimo ele começar a trabalhar — não porque aquilo era uma forma de sustento econômico, mas também porque seria ótimo vê-lo distraído, para se esquecer dos problemas.
– Fico feliz por você — disse, sincero. Então Kale abriu um sorriso malicioso. — Eeh, Lucas, agora dá pra você comprar lubrificante, porque você vai precisar– disse, obviamente referindo-se a Antony.
Lucas empalideceu, envergonhado por sua cara de pau. Fez novamente o rolo com o jornal, batendo na cabeça de Kale, que riu e se encolheu, tentando fugir — mas, quando queria, Lucas era mais forte que o surfista, por isso tratou de agarrá-lo pelo pulso, batendo com vontade em sua cara.
Kale riu, empurrando-o, sentindo a orelha arder pelos golpes que estava levando. Até mesmo Lucas poderia ser um pouco imaturo às vezes.
***
Luana havia virado um poço de preocupação. Mesmo no trabalho, onde deveria estar servindo as mesas, acabou por encostar-se à pia da cozinha, completamente perdida em pensamentos. Podia ouvir, ao longe, as vozes pedintes dos clientes, que estavam já irritados com a sua demora.
Mas ela não estava nem aí, para falar a verdade. Na realidade, ela não estava em lugar algum. Sua mente viajava longe, com preocupações que ela julgava serem maiores inundando sua mente — como o fato de sua seca absoluta e sua dieta dilacerante.
Vejamos, o Havaí é um estado puramente turístico. Milhares e milhares de turistas visitam o local mensalmente, geralmente gringos ricos, louros, magros, altos e sorridentes. Luana era nativa, relativamente pobre, morena, meio “fofinha” (como ela mesma insistia em dizer) para os lados, baixinha e sorridente.
O que ela tinha em comum com as gringas era algo que qualquer um poderia ter. Mas ela não queria fazer parte do grupo dos “quaisquer um”, ela queria fazer parte do outro grupo, do grupo que ela julgava ser o bonito da sociedade. Era como se fosse algo extremamente maior que ela, uma necessidade pulsante de ser outra pessoa, um desejo profundo e incontrolável, quase incrustado na alma, de mudar.
O corpo onde sua alma jazia não era satisfatório o suficiente.
– Você tá atrapalhando — a voz rouca, grave e forte de Manu a acordou de seus devaneios como numa golfada de ar. Piscou, atônita, olhando para os lados e vendo aquele poste humano a encarando de esguelha, já vestido com o avental, uma frigideira na mão. — Você tá na frente do escorredor de louça. — Disse, seco, o orgulho escorrendo de seus poros.
Luana até pensou em se desculpar por atrapalhá-lo, mas lembrou-se que ele havia a ofendido profundamente há alguns dias e ambos estavam brigados até aquele momento. Soltou um grunhido desaforado, se desapoiando da pia e caminhando rapidamente até a porta, disposta a voltar ao trabalho. Porém, assim que tocou na maçaneta, levou um susto, já que Manu se projetou atrás de si como uma assombração, empurrando a porta para fechá-la e pressionando os ombros da garota com força, virando-a bruscamente.
Luana deu um gritinho assustado de quem não fazia ideia do que estava acontecendo, sentindo as costas baterem levemente contra a porta. Suas sobrancelhas tremeram, erguidas de espanto.
– O que voc- — tentou indagar, mas foi impedida por Manu, que pediu silêncio ao pressionar seu indicador contra os próprios lábios.
– Desculpa. — Pediu, extremamente sério. — E eu não sei me desculpar direito… Olha, eu sei que te ofendi e magoei, mas o que eu falei foi apenas uma forma errada de dizer que estou preocupado com você. Todo esse medo da comida, Lua, tá acabando contigo aos poucos, e você nem percebe. Quanto peso você vai ter que perder pra perceber que a única coisa que está perdendo é a sua saúde?
Luana ficou encarando-o com certo ceticismo, aceitando com uma perna atrás as desculpas do amigo, mas ainda emburrada em relação aos seus motivos.
– Meu objetivo é ficar magra, como isso não pode ser saudável?
– Magreza não é sinônimo de saúde, Lua. Há quanto tempo você não almoça? E quando digo almoço, quero dizer uma refeição com mais de duas mil calorias, não aperitivos ruins envolvendo uma folhinha de salada.
Luana suspirou, afastando gentilmente Manu de si. Olhou-o fundo, com certa insegurança, já que não importava quanto tempo se conheciam, ela simplesmente não se acostumaria com o quão bonito ele era.
– Escuta, obrigada por sua preocupação, mas eu estou bem. Sério, acredita em mim. — Disse com convicção, talvez mais para si mesma do que para ele. — Fico feliz que estejamos bem agora, de verdade, um amigo como você não encontramos todos os dias, mas, veja só, tenho um trabalho pra ir… — Começou, esguia, deslizando os dedos de encontro à maçaneta da porta, abrindo-a com um solavanco, escapando de Manu rapidamente.
O cozinheiro soltou um longo suspiro, revirando os olhos, coçando o cabelo como se já estivesse farto. Voltou ao fogão, ligando o fogo e botando uma frigideira sobre ele.
– “Um amigo como você”, Manu, claro… — Resmungou, realmente nervoso, jogando com quase raiva a massa da panqueca na frigideira, como se a coitada fosse a culpada de todos os seus problemas.
***
– Aonde nós vamos? — Nicholas Thomas fez esta pergunta pela décima vez naquele dia. Seu irmão mais velho, Antony Thomas, até mesmo comprou um delicioso sorvete de casquinha, limão com cobertura de chocolate, para tentar entretê-lo e impedi-lo de fazer esta mesma pergunta novamente.
Suspirou, apertando com mais força a mãozinha rechonchuda de seu irmãozinho, revirando os olhos.
– De novo, Nick? Não tem outras perguntas pra fazer? — Indagou, grosso como sempre.
– Você não me responde! — Defendeu-se, parando de andar bruscamente, teimoso. Antony virou-se para encará-lo, sem paciência.
– Claro que já te respondi! Vamos à casa da tia Nancy, ela irá cuidar de você enquanto eu estiver fora, o.k.? Às seis horas eu irei te buscar, voltaremos pra casa, tomaremos banho e assistiremos CSI, pronto, fim do dia. Essa é uma resposta boa o suficiente pra você?
– Por que temos que ficar na casa da tia Nancy? Ela nem é minha tia de verdade, é só uma velha coroca que cuida de criancinhas, o que é muito assustador! — Exclamou, parecendo de fato temeroso, apertando os dedos de Tony. — Por favor, Tony, me leve com você!
– Nick, escuta… — Começou, ajoelhando-se, encarando-o profundamente. — Eu irei surfar, o.k.? Não posso deixá-lo me esperando na areia, sentado no meio do nada. E a tia Nancy é uma senhora boa, eu ouvi a opinião das nossas vizinhas. — Contrapôs, sorrindo com a ideia mirabolante de seu irmão.
Mas Nick parecia determinado a, definitivamente, não ficar com tia Nancy naquele dia.
– Então… — Pensou rápido. — Por que não posso ficar com o Lucas?
– Com o Lucas?! — Tony quase caiu pra trás com aquela pergunta. — O quê? Não, Nick, você não pode ficar com o Lucas — na realidade, achou extremamente cômico. Sorriu, balançando levemente a cabeça.
– Por que não? Ele é o meu amigo!
– Nick, pelo amor, nós só o vimos duas vezes na vida. Não podemos simplesmente ir pedindo favores a ele como se nos conhecêssemos há tempos, entende?
– Por favor, Tony, eu não quero ficar com a tia Nancy… — Choramingou, o sorvete já derretendo e escorrendo para seus dedos.
– Ah, olha só a melequeira que você está fazendo… — Tony alarmou-se, pegando o pequeno no colo com facilidade, acomodando-o num único braço, o outro segurando sua prancha. Começou a andar rápido pela calçada maltratada pelo sol, o tráfego de turistas com câmeras já começando a irritá-lo. — O.k., Nick, eu sei que você realmente não irá concordar em fazer isso, então vamos fazer um acordo de irmãos, tudo bem? — Propôs.
– Um acordo? — Nicholas lambeu o doce, olhando-o com atenção.
– Sim. Vamos lá, você fica hoje com a tia Nancy, e… Bem, que tal uns doces durante a semana?
A ideia de ficar com Lucas ainda estava na cabeça de Nicholas, mas pareceu que, daquela vez, os doces ganharam.
– Tudo bem, então. — Pareceu extremamente satisfeito, mordendo a casquinha. — Mas, Tony, você me promete que veremos o Lucas na competição?
– Ele disse que iria, não disse? Talvez vocês até possam ficar juntos durante a competição — o que Antony queria dizer, era que, talvez, numa remota possibilidade, Lucas poderia cuidar de Nick, coisa que achava, bem no fundo, difícil. Ninguém suportava Nicholas e sua infinita falação.
Viraram à direita numa travessa da avenida Kahala, assim como o indicado no endereço, e Antony começou a prestar atenção nos prédios altos, sujos e velhos. Aquelas construções eram mais modestas, sem pinturas recentes, ruas bem calçadas e nem pedestres ajustados ou com aparência gringa — na realidade, aquele bairro inteiro era mais modesto, recheado de nativos. Não havia portões e muito menos porteiros, apenas cercadinhas modestas e jardinzinhos bem-cuidados.
Parou em frente ao número “56”, em itálico, empurrando com o joelho a cercadinha e andando pelo caminho de pedra polida. Deixou Nicholas no chão, tocando a campainha do apartamento sete.
Tia Nancy apareceu minutos mais tarde, parecendo uma senhora extremamente simpática e doce. Sorriu amigavelmente para Antony e Nick, acariciando o topo da cabeça do pequeno.
– É um prazer conhecê-lo, Nick. — Cumprimentou-o, linhas de expressões salientadas quando sorria. — Tenho certeza que nos divertiremos nesta tarde.
– Bom… — Tony agachou-se, olhando bem para seu irmão, que estava sujo de sorvete. Sorriu, inclinando-se e beijando-o carinhosamente na bochecha. — Às seis em ponto eu estarei aqui pra te buscar, então, por favor, se comporte, o.k.?
– Me traz chocolate na volta? — Aqueles olhos pidões eram capazes de conseguir absolutamente tudo.
– Sem problemas — Antony deu de ombros, levantando-se e suspirando, dando um aceno cúmplice à tia Nancy. — Te amo, Nick, até mais tarde.
Nicholas se despediu com um aceno, vendo a figura de seu irmão mais velho diminuindo à medida que andava. Caminhava direto para a praia, como se lá fosse seu posto de recarga energética. Olhou para cima, encarando o rosto rechonchudo e simpático de tia Nancy. Apenas sorriu quando a senhora lhe puxou gentilmente pela mão, disposto a comportar-se, tal como seu irmão mais velho queria.
***
Se tinha uma coisa que Kai odiava mais que audiobooks ruins, era ficar sozinho. Àquela tarde, logo após ser simplesmente deixado no apartamento de Luana com Pono por Kale, o garoto sentiu-se tentado a simplesmente sair, espairecendo na praia.
Mas como ainda era ajuizado, decidiu por ficar em casa, ligando a televisão. Aumentou o volume numa faixa que era completamente compreensível e que não incomodaria ninguém. Ao que podia escutar, era um canal relacionado a esportes.
– Será que o Slater vai aparecer? — Perguntou para Pono, que encontrava-se encolhida ao seu lado, como se fosse um bicho-de-pelúcia muito acidentado. — Pff, é óbvio que ele irá aparecer, ele é o maior surfista profissional do mundo. E, francamente, Pono, estamos no Havaí, esperava mais de você.
E, como se a televisão pudesse ouvi-lo, não tardou a mostrar uma matéria envolvendo surf e, consequentemente, Kelly Slater.
– Óh, te falei — Kai cutucou Pono com o cotovelo, rindo ao ouvir o nome do surfista. — Esse cara deve ganhar muito dinheiro. — Ficou quieto por uns instantes, podendo ouvir a exaltação do repórter ao, provavelmente, ver uma manobra sensacional executada por Slater. — Deve ser legal ganhar muito dinheiro fazendo a coisa que ama, não, Pono?
Kai ficou mais uma vez quieto, como se esperasse uma resposta da cadelinha. Mas Pono parecia muito concentrada em seu sono para dar ouvidos a ele. O garoto apenas riu, procurando-a para acariciá-la.
Foi quando a campainha tocou. Kai espremeu as sobrancelhas, sentindo Pono erguer a cabeça e as orelhas tortas, também surpresa. Levantou devagar do sofá, indo para a porta. Perguntou quem era quando tocou na maçaneta.
– Kai? — Sobressaltou-se quando ouviu a voz de seu pai. — Filho? Por favor, abra, precisamos conversar.
– Conversar o quê? — Resmungou, realmente não querendo abrir a porta para o seu pai.
– Vamos, filho, eu vim sozinho. Luana me disse onde eu poderia encontrá-lo quando fui à lanchonete agora há pouco. Por favor, quero te ver.
– Mas eu não.
– Você não me veria de qualquer forma — às vezes, quando a mãe de Kai não estava por perto, Isaac arriscava-se a entrar na onda do humor negro do filho. Gostava da forma relaxada como Kai levava a deficiência.
Kai riu, nada ofendido. Pensou por três segundos, lembrando-se que não fora seu pai que havia o ofendido, e sim sua mãe. Na realidade, Isaac sempre foi um ótimo pai, e, acima de tudo, amigo. Abriu a porta num solavanco, como se não quisesse nada. Sentiu o olhar de Isaac sobre si, logo sorrindo quando foi abraçado paternal e fortemente.
– Senti falta de você. — Isaac admitiu, suspirando ao ter, finalmente, o filho nos braços. — Sua mãe está enlouquecendo, e está enlouquecendo a mim também, Kai. Ela ainda acha que você é um garotinho de três anos, ingênuo e desprotegido do mundo. Ela pensa que você está passando fome sem nós — riu, desgrudando-se dele, observando seu rosto impassível por uns instantes.
– Ela só pensa assim porque sou cego. Se eu fosse um garoto de dezoito anos sem deficiência, provavelmente ela já estaria me dando permissão pra ir pro continente contratar umas prostitutas canadenses. — Falou com certo azedume, dando as costas ao seu pai, sentando-se no sofá.
Pono sobressaltou-se da almofada ao ouvir a gargalhada estridente de Isaac. O homem fechou a porta e ficou parado em frente a Kai, rindo, surpreso.
– Eu gostaria muito de contrariá-lo, mas infelizmente você está certo. Um pouco fantasioso, mas certo. Escute, filho… — Abaixou-se, apoiando-se nos joelhos de Kai. — Elizabeth sempre foi superprotetora, desde a época da faculdade, sério. Era um saco, eu nem podia molhar a língua com álcool que ela já me soltava os cachorros, isso na sua idade.
Kai fez uma careta ao imaginar a morte horrível de se fazer faculdade aos dezoito.
– Na cabeça dela, você sempre será o eterno bebê. O bebê que é cego e que é vítima do mundo, entende? Obviamente não é assim, nós dois sabemos, porque todos enfrentam obstáculos nesta vida, contenham eles deficiência ou não. Mas, filho, ela está mudando, eu juro. Está tentando fortemente te dar a liberdade que você almeja, Kai.
– Com certeza, pai, lembro perfeitamente da última vez que falei com ela, se eu não me engano, ela disse que minha deficiência era um estorvo para qualquer coisa que eu tentasse fazer, não é mesmo? — O tom de voz irônico era típico. — E, ah, ela também me disse que nenhum instrutor teria paciência comigo, é verdade.
Isaac suspirou, abaixando a cabeça como se soubesse o quão chato e doloroso aquilo era.
– Eu te prometo que ela está mudando, Kai. E, como prova… — Isaac abriu a sacolinha que trazia consigo, puxando uma caixa pequena de dentro. Botou no colo do filho, olhando-o com ansiedade. — Ela fez questão de comprar pra você.
Kai, bicho curioso, logo abaixou a mão e acariciou a caixa. Procurou municiosamente por algum vestígio de braille, surpreendendo-se quando achou um “i”.
– Espera… — Começou, o queixo pendendo, caído de choque — isso é um… Iphone com Voice Over?
– Yep, o mais moderno da categoria. Não consegui entender tudo o que o atendente disse, mas tenho certeza que há um comando de voz que escova os seus dentes — gracejou, feliz ao ver a expressão de Kai. — Sério, filho, sua mãe não poupou custos. Ela queria que você tivesse mais liberdade para fazer o que quisesse.
Kai suspirou, ainda sem palavras. Era difícil ter um smartphone que não possuía Voice Over, ou seja, um comando divino que simplesmente “lia” as mensagens com uma voz perfeitamente esclarecedora. O programa já era do celular e funcionava precisamente, diferente de outros celulares em que ele havia de baixar diversos aplicativos inúteis e com vozes robóticas demais. Muitas vezes não entendia bulhufas, tendo, quando podia, pedir para a pessoa lhe mandar uma mensagem de voz.
Era como se as portas do Paraíso moderno estivessem se abrindo a ele.
Sempre pediu para que seus pais comprassem um, mas geralmente era caro demais.
– Muito obrigado — foi o que conseguiu dizer, apertando a caixa contra o peito como se fosse um filho. — Mas por que você veio no lugar dela?
– Você a deixaria entrar? — A pergunta foi simples e objetiva.
Kai não precisou responder; apenas aquele sorriso de lado foi significativo o suficiente.
– Kai, só aceitarei seu agradecimento se você voltar para casa. — Seu pai tentou persuadi-lo. — Vamos, vai, estamos morrendo de saudade. Juro que pediremos pizza esta noite. Calabresa, assim como você gosta. — Deu um leve empurrãozinho nele com o ombro, insistente.
O garoto sorriu, tentado.
– Tudo bem. Mas vou ficar hoje, amanhã você passa cedo para me buscar — pediu, folgado.
Era engraçado como Kai cedia, agora. Claro, depois de ter seu desejo realizado com Kale, o mundo parecia mais feliz — não colorido, porque ele não iria perceber, de qualquer forma. Só temia não conseguir esconder este fato perto de seus pais, já que era péssimo para guardar segredos e omitir acontecimentos.
– Claro, tudo bem — seu pai cedeu de bom grado, extremamente feliz por ter sua cria de volta. — Então, hm, nos vemos amanhã, tudo bem?
– Tudo sim.
– Até. — Riu, bagunçando os cabelos de Kai.
O garoto permaneceu sorrindo até ouvir a porta fechando-se. Após isso, suspirou profundamente, encostando-se no sofá. Sentiu Pono sobre sua coxa esquerda, muito interessada na caixa que carregava em mãos, cheirando-a incessantemente. Talvez ela pudesse farejar a felicidade que aquilo trazia ao garoto, adicionado à ansiedade que ele exalava, ao perceber que a competição já estava praticamente aí.
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