De Coração

13 Garotas Reptilianas


Notas iniciais
OOOI, lindíssimos! Como estão vocês? Curtindo o feriado de 7 de setembro? Boom, eu aproveitei bastante e trouxe rapidinho este capítulo pra vocês! Antes de mais nada, quero avisá-los que: a primeira parte deste capítulo é sobre o Leo. Pedi para que um amigo a lesse, e ele, todo sensível, acabou chorando. Então, aconselho pegarem lencinhos OAJOAOJAOJAJ E, não se preocupem, pode piorar, haha! /sádica No próximo capítulo teremos exclusivamente AntonyxLucas, já que eles merecem um momento só para eles, humpf u_u Espero que vocês gostem do capítulo! Boa leitura!

No final das contas, o que era confusão?

Talvez seja uma sucessão de mal entendidos, causando o desentendimento de alguma parte. Talvez seja uma cena de caos, desordem, de imprevistos.

Mas, para Leonard, confusão era se olhar no espelho. Sua imagem representava algo que não condizia com o que sentia por dentro, como se tudo, absolutamente tudo, estivesse errado.

Se sentia deslocado, perdido e, principalmente, confuso. Confusão definia a complexidade de sentimentos que enchiam seu âmago, não dando nenhum espaço à certezas, apenas confusão. Sua alma era uma mancha borrada, um espelho fragmentado, uma quase inexistência com um sentido singular de lhe atormentar, com uma missão sádica de fazê-lo se sentir como se fosse um erro.

Ao se olhar no espelho, vendo a si mesmo vestido com uma bermuda e camisa masculinas, sentia-se completamente desconfortável. Mas a salvação chegava ao abrir o guarda-roupa de sua irmã mais velha.

Pegou um batom rosa claro de sua caixinha de maquiagem, voltando para frente do espelho. Espalhou com suavidade a cor por seus próprios lábios, fazendo o maior garrancho por conta da total inexperiência. Logo em seguida, escolheu um dos vestidos floridos de sua irmã, vestindo-o com rapidez, mal podendo esperar para se olhar novamente.

Sorriu para si mesmo no espelho. Era tristemente engraçado. Será que nunca se sentiria, ao menos, “correto” em meio às pessoas superficialmente perfeitas que compunham o mundo?

Não pedia a ninguém para que fosse perfeito, sem erros — até porque não existia uma única pessoa no mundo que era isento de defeitos. Pedia apenas para se sentir… Bem. E não era esse um desejo compartilhado por todos? Sentir-se bem sendo quem é?

Leo alisou a barra do vestido, movendo o quadril, fazendo o tecido fino movimentar-se juntamente com o seu corpo. Era muito mais agradável vestir uma peça suave como aquela, no lugar de colocar uma peça pesada de jeans, prensando suas pernas. As preferia livres, sentindo a brisa gostosa de Honolulu.

Continuou se olhando no espelho, vez ou outra lançando um olhar cobiçador para a caixinha de maquiagem, querendo usar tudo o que estava dentro. Mas, se usasse muito, sua irmã bem que poderia descobrir e proibi-lo de vez de usar o que queria.

Sentou-se à cama de sua irmã, depositando com cuidado o batom dentro da caixinha, a fim de devolvê-la no lugar onde havia a encontrado. Foi quando, de súbito, a porta de sua casa se abriu num estrondo ensurdecedor.

– Leonard! — A voz de seu pai, obviamente ébrio, inundou toda a residência.

Leo estava imóvel. Sentia sua coluna dura, estática. Não se movia, um suor gélido escorrendo de sua nuca até suas costas, ensopando o vestido de sua irmã. Apenas seus olhos se moviam, assombrados, encarando a porta fechada do quarto de sua irmã.

– Leonard! — O segundo chamado o fez tremer da cabeça aos pés. Apertou a caixa de maquiagem contra o peito, rolando para debaixo da cama. Retirou o vestido com movimentos rápidos, limpando sua boca com a barra da peça, o corpo trêmulo de medo. Ouvia os passos desordenados de seu pai pela casa, buscando-o incessantemente. — LEONARD!

Pressionou os olhos com força, o peito subindo e descendo desordenadamente.

"Deus", rezou, os olhos lacrimejando, a boca trêmula, pressionando com força o vestido contra o peito. "Deus, me ajude. Não sou como eles, mereço um lugar ao seu lado, apenas me ajude, por favor". Saiu de fininho de baixo da cama, pegando a camiseta que vestia anteriormente e a colocando de forma rápida.

– Sim, pai? — Respondeu, tentando miseravelmente parecer firme, mas seus lábios e dedos trêmulos denunciavam o quão nervoso ele estava.

Os passos desordenados eram uma das consequências da bebida alcoólica em excesso em seu sangue, congestionando seu cérebro com pensamentos e ações desconexas. Seus olhos permaneciam com um grená intenso, confusos e dando uma brecha de violência transparecer em sua íris.

– Aonde você estava?! — Bradou, olhando-o confusamente.

– N-no quarto da Esther... — Balbuciou, engolindo em seco.

– No quarto da...? — Começou a dizer, mas interrompeu-se ao observar melhor o queixo do garoto. — O QUE É ISSO?! — Seu grito pôde ser ouvido no apartamento abaixo. — ISSO É BATOM, LEONARD? — Agarrou o braço fino do garoto, puxando-o com hostilidade. — VOCÊ ESTÁ USANDO BATOM?! — Nesta altura do campeonato, Leo já tinha o rosto tomado em lágrimas.

– N-não tô, pai.. — Respondeu, a voz vacilante, fraca e tímida, expressando o quanto doíam aquelas palavras vindas do próprio pai. Sentia um medo intenso apossando-se de sua alma. Caso não fosse quem era, caso fosse uma pessoa completamente diferente, será que conseguiria o amor de seu pai? — Me desculpa… — Tentou pedir indulgência, sem ao menos saber o quê havia feito de tão errado. — Me desculpa, pai...

– Como você ousa fazer isso comigo, Leonard?! Como ousa ser um viado dentro da minha própria casa?! Eu não te criei para ser assim! Eu te criei para você ser homem, Leonard! HOMEM! — E, com um último grito, encerrou a discussão.

Leonard odiava quando as discussões terminavam — sempre era sinal que, no lugar de diálogos, os punhos seriam utilizados. O primeiro tapa foi audível para todos os vizinhos. Os segundos golpes, socos, foram silenciosamente dolorosos, sendo acompanhados por seu pranto contínuo e carregado de mágoa.

***

Várias vezes em sua vida, Kai foi indagado com a seguinte questão: “você sonha? Como?”.

O garoto sonhava com toques, cheiros e vozes. Diversas vezes sonhava com Luana e Manu, depois sonhava com o barulho gostoso das ondas quebrando no litoral, depois com o cheiro agradável de terra molhada. Mas, naquela semana, o dono de seus sonhos era único e absoluto: Kale. O surfista estava presente em todos eles. Geralmente eram compostos por diálogos sem sentidos, depois o som de sua risada retumbava dentro de sua cabeça.

“Sabe o que poderíamos fazer?” a voz do surfista lhe indagou no sonho, parecendo ansiosa. “Poderíamos construir um grande castelo de areia.”

“Eu seria o rei e você o bobo da corte?” disse ao Kale dos sonhos, seu tom cínico e sarcástico não passando despercebido nem em seus devaneios fantasiosos.

“Somente caso isso lhe agradar, Vossa Alteza.”

“Que eu saiba, ‘Vossa Alteza’ é utilizado para duques, não para reis.”

Uma risada nasalada encheu o ambiente, fazendo-o sentir uma leve arrepiada na nuca, como se o surfista estivesse bem próximo de si.

“Tudo bem então, minha Vossa Majestade Real. Que assim sejas feito, mas apenas se quiseres” o tom sarcástico de falso cavalheirismo o fez rir, sentindo-se ser tocado gentilmente no antebraço.

Kai acordou por conta de um cheiro insuportavelmente adocicado impregnado em seu quarto. Sentou-se em sua cama com a maior cara de bunda do universo, ainda morto de sono e com o rosto marcado. Fungou, sentindo o cheiro exageradamente melífluo ainda mais forte.

– Meu Deus, choveu chocolate no meu quarto e eu nem vi — reclamou com os seus botões e, ao sair da cama, percebeu que sentido aquela fala tinha tomado. Riu sozinho, sentindo-se idiota por ter dito aquilo. — Síndrome Kale me atingindo… — E riu de novo, andando descalço pelo quarto, à procura da origem do cheiro forte.

Vasculhou debaixo da cama, dentro do guarda-roupa, entre suas gavetas, sobre o criado-mudo e na estante. Nada. Todos os lugares pareciam exalar um cheiro forte e enjoativo. Então, ao se debruçar sobre sua cesta de roupa suja, achou.

Era uma maldita camiseta. Puxou-a, sentindo sua textura para saber qual era e em que dia a havia usado. Suspirou quando descobriu qual era: segundo sua mãe, era verde-lima. A utilizou no dia em que simplesmente despencou de sono sobre Kale Iwin.

O cheiro forte, doce como mel e que estava impregnado em todo o seu quarto, era de Kale.

Maldito. Sempre ele. Sempre. Além de se apossar de seus sonhos, também estava, implicitamente falando, apossando-se de seu vestuário. Talvez, para uma pessoa com o olfato equilibrado, aquele tipo de cheiro passaria despercebido.

Mas não para Kai. Inspirou meio raivoso, acariciando a peça de roupa em sua mão. Lentamente, a pressionou contra o rosto, podendo mergulhar naquele enjoativo aroma. Aquilo o remetia ao dia da lanchonete, lhe causando uma estranha sensação no estômago — era parecido com formigamento, só que muito mais intenso.

Acordou de seus devaneios quando seu celular vibrou em cima do criado-mudo, uma voz robótica feminina alertando-o acerca da chegada de mensagens. Mas, toda a vez que ela ia falar alguma coisa, mais uma mensagem chegava, interrompendo-a. Foram exatamente seis no total.

Kai andou até lá, apertando um botãozinho em seu telefone, a mágica da tecnologia fazendo seu trabalho ao ajudá-lo absurdamente — lenta e monotonamente, a mesma voz robótica começou a ler as mensagens ao garoto:

Kale” leu o responsável pelas mensagens. “Sabe o que eu estou com vontade de fazer? Tomar sorvete de flocos com batata frita, dois pontos parênteses” a vozinha leu um smile de forma literal, fazendo Kai rir.

Ou juntar outro doce com salgado, tipo requeijão com bolo de chocolate. Ou, quem sabe, mamão com lasanha.”

Kai fez uma careta de desgosto ao imaginar o gosto horrível que aquilo teria, mas logo sua careta se desmanchou, uma gargalhada estrondosa tomando seu lugar quando a voz robótica leu “pôra” no lugar de “porra”.

Eu tive a melhor ideia do universo!”

“Tá a fim de experimentar comigo? Xis dê.”

“Não me responsabilizo por vômitos causados por frescurinhas.”

Kai ainda tentava se recuperar do “pôra”, encostado à parede fria ao lado de sua cama, pegando seu celular com certa dificuldade, os olhos ainda úmidos pelo riso descontrolado.

– Você nem sabe o que aconteceu — ligou o comando de voz, achando milhões de vezes mais prático falar a digitar. — Eu tenho o melhor leitor do universo, Kale. Ele leu seu “porra” como “pôra”. Quase vomitei minhas cordas vocais de tanto rir. Mas, sério, só você mesmo para me fazer gargalhar às… — E esticou a mão para alcançar seu relógio especial sobre o criado-mudo. — Nove e meia da manhã.

Após ouvir o áudio, Kale, completamente maduro, começou a mandar uma série de “porra”, para que a moça com voz robótica os lesse. Foram, em média, vinte mensagens idênticas e, a cada uma delas, Kai rolava mais e mais na cama, chorando de rir, o estômago dolorido e a gargalhada já ficando muda, sem forças.

Os dois mantiveram uma conversa por meia hora, repleta de piadas infantis e risadas descontroladas. Mas, após o estômago de Kai roncar, implorando por café da manhã, o garoto decidiu se despedir com um ‘até logo’, deixando bastante explícito sua vontade de conversar com o surfista novamente.

Kai estava sozinho em casa, já que seus pais haviam ido trabalhar há tempos. Cortou um pão de forma e o comeu com ovos fritos que ele mesmo se encarregou de fazer. Exagerou no sal, como sempre gostava, e, para balancear no sódio, aumentou a quantidade de suco natural de uva no copo.

Sua primeira refeição do dia era bastante calma e silenciosa, assim como gostava. Podia ouvir todos os sons ao seu redor, inclusive do aspirador de pó da vizinha da esquerda, ou o secador de cabelo do vizinho da frente. Seu mundo nunca era silencioso ou obscuro, como muitos pensavam — bem, escuro seu mundo era, mas, solitário ou dolorido, jamais.

Kai não gostava de criar desculpas para ficar infeliz quando tudo estava ao seu alcance. Odiava dizer ‘não consigo’, ‘não posso’ ou ‘sou ruim nisso’. Odiava mais que tudo no mundo se sentir incapacitado — os outros já o rotulavam como “inútil” o suficiente, então seria o fim da picada ele mesmo desacreditar em si e adotar como verdade o que os outros pensavam.

Enquanto mordia seu pão, entortou o nariz ao sentir o perfume açucarado em algum canto da cozinha. "Era só o que me faltava" pensou desgostoso, puxando a gola de sua camiseta para cima, cheirando-a. Estava ali.

– Eu não mereço isso... — Grunhiu para si mesmo, achando, naquele instante, Kale a criatura mais inconveniente do planeta.

Inconveniente por simplesmente estar ali, presente, ao mesmo tempo em que simplesmente não estava. Sua forma física importava minimamente quando sua essência estava em todos os lugares. Era esse o necessário para um ser humano ser lembrado? Sua essência, e não sua forma física?

Inspirou, decidindo lavar a louça e deixar esses pensamentos filosóficos para mais tarde.

***

Luana nunca foi uma garota muito preguiçosa. Mas, naquela semana, estava sendo dificílimo para ela conseguir acordar. Sua cama parecia convidativa e confortável demais, a deliciosa brisa da manhã afagando gentilmente sua pele, como se estivesse instigando-a a permanecer deitada e confortável.

O despertador tocou, avisando a ela que já eram sete e meia. Gemeu, revirando-se nas cobertas, Pono cochilando bem ao seu lado, sua barriguinha subindo e descendo num ritmo lento. Esticou a mão e desligou o aparelho, afundando novamente a cara no travesseiro, implorando por mais cinco minutinhos.

Os cabelos cor de ébano estavam desordenados sobre seu rosto, embaraçados e, como sempre, volumosos — naquela semana, estava sendo complicadíssimo conciliar seu tempo de trabalho com suas necessidades pessoas, como alisar sua juba.

Rolou na cama novamente quando ouviu um barulho na cozinha. Permaneceu quieta, escutando com atenção o barulho, a testa franzida com singela estranheza. Não podia ser Pono, já que a cadelinha estava ressonando baixinho do seu lado.

Luana estava sonolenta demais para ligar alguns fatos e ou pensar logicamente. Por isso mesmo que demorou alguns instantes até ela conseguir relacionar alguns fatos:

a) tinha alguém em sua casa;

b) este alguém estava mexendo em sua cozinha;

c) este alguém podia muito bem ser um ladrão, assassino psicopata, estuprador ou estripador.

Levantou a cabeça de repente, como se levasse um balde de água fria. Engoliu em seco, completamente nervosa e hesitante. Luana não era um poço de habilidade em artes marciais e nem em flexibilidade, por isso mesmo que seu corpo se retesou por completo, completamente estupefato.

Tentou pensar com calma. Levantou-se devagarinho da cama, evitando acordar Pono, indo diretamente à sua gaveta. Sua única parcialmente arma letal era uma escova de cerdas gigantescas. Pegou-a com possessividade, como se a escova fosse sua bela salvação do mal que jazia na cozinha.

Só de camisola e descalça, abriu a porta o mais silenciosamente que pôde, caminhando nas pontas dos pés pelo piso frio do apartamento, podendo ouvir claramente um som de abre e fecha de gavetas na cozinha. “Provavelmente está escolhendo qual faca irá utilizar para tirar minhas tripas” pensou, horrorizada, olhando fixamente para o telefone móvel do outro lado da sala.

Quando deu um passo para ir em direção ao telefone, os barulhos na cozinha desapareceram. Luana engoliu em seco, ouvindo passos no cômodo, como se o assassino psicopata estivesse pronto para ir matá-la. Assim que um braço apareceu no batente, Luana gritou, horrorizada, atacando a escova colossal em seu assassino.

Correu desesperada em direção à porta, mas, assim que tocou a maçaneta, braços a envolveram pela cintura, erguendo-a do chão como se fosse uma boneca de pano. Manu acomodou seus antebraços sob os seios de Luana, mesmo que totalmente sem querer. Ficou parado com ela ainda em seus braços, muito confortável com o peso galo que ela tinha.

– Sabia que aquela porcaria de escova me atingiu bem na testa?! — Decidiu se pronunciar, dolorido e resmungão.

– E sabia que você quase me matou do coração?! — Luana devolveu o xingamento, debatendo-se. Sentia cócegas completamente desconfortáveis apossando-se de seu corpo, começando no estômago e terminando na base de seus seios, que eram quase acariciados por Manu. — E, pelo amor, me larga!

Manu atendeu-a imediatamente, largando-a com certa hostilidade. Luana virou-se para encará-lo, meio afobada, os cabelos desordenados ajudando-a a permanecer quente.

– Por que diabos você invadiu minha casa? — Decidiu perguntar, colocando uma mecha negra atrás da orelha.

– Não diga isso como se eu fosse um criminoso — grunhiu, cruzando os braços. Nem o avental cor de rosa cheio de ursinhos de Luana conseguia deixá-lo menos másculo. — Eu cheguei aqui à uma da manhã, perguntei se podia ficar. Você só afirmou e voltou a dormir. — Resumiu a situação inteira, sua expressão sempre monótona.

– Eu tava bêbada de sono! — Justificou-se, incrédula. — É normal que eu aceite fazer chiquinhas e sair na rua desfilando nessa situação! — Exasperou-se, realmente nervosa por ter sido tão cruelmente assustada. — E, qual é, Manu, seu apartamento fica na orla da praia, com uma vista incrível para o Pacífico! — Ergueu os braços de forma exagerada, demonstrando como amava aquele oceano. — Do seu apartamento dá pra ver, a cada dez minutos, um cruzeiro passando no horizonte. E, porra, o por do sol! — Se animou, esfregando o couro cabeludo. — Você tem tudo isso, mas ainda prefere ficar aqui? — Apontou para o seu apartamento, como se o pobre coitado fosse a sujeirinha da unha se comparado ao apartamento de Manu.

O cozinheiro ficou encarando-a, inexpressivo, pensando o que tinha de tão especial um cômodo quente pela constante exposição ao sol e uma vista para um nada azul.

– Eu prefiro ficar aqui porque tem você. — Sua resposta direta e objetiva conseguiu fazer todas as armas de Luana virarem pistolinhas d’água. Ficou lá, com uma cara de trouxa, encarando-o sem saber o que fazer ou dizer. Era terrivelmente difícil não criar nenhum tipo de esperança quando Manu dizia algo como aquilo. — Você quer brigadeiro gourmet? — Mudou de assunto radicalmente, dando meia volta e indo para a cozinha.

Luana decidiu piscar depois de alguns instantes, aquele formigamento ainda em seu estômago. Mas, devido às circunstâncias, decidiu ignorá-lo.

– Você realmente quer acabar com a minha dieta, não quer? — Lamuriou-se, desgostosa, se arrastando para a cozinha e soltando um gemido ao dar de cara com aquela delícia calórica.

– Para com essa frescura de “dieta” e come logo — soou grosso e insensível, mergulhando uma colher na massa macia e deliciosamente consistente dentro da panela, levando o talher para perto da boca de Luana. — Experimenta — não soou como um pedido.

Luana torceu o nariz, virando a cabeça, não cedendo de forma alguma.

– Não quero. — E ergueu o nariz, parecendo uma dama pomposa.

– Para de ser criança, Lua! Que merda! — Rugiu, os olhos estreitos e faiscando. — Uma colherzinha de brigadeiro não irá matá-la! — Na realidade, estava tão acostumado a ser obedecido em primeira mão, que ouvir alguém negando-o era quase torturante, ainda mais Luana, uma pulguinha adorável de personalidade doce.

– Não me importo com o que você pensa, não quero. — O que era um brigadeiro gourmet perto de um vestido 40?

Aquela pose decidida despertava em Manu uma vontade dilacerante de puxá-la e obrigá-la a abrir a boca, enfiando a colher goela abaixo.

E foi exatamente o que fez.

Quero dizer, tirando a parte de obrigá-la a abrir a boca e enfiar a colher em sua goela. Manu simplesmente a pegou pela cintura, puxando-a com a mesma dificuldade de respirar, como se a coitadinha fosse uma boneca infantil de plástico. A puxou para cima, sentando-a sobre o balcão, ao lado da pia, continuando fielmente agarrado a ela, o bíceps enorme prensado contra sua cintura.

Luana permanecia incrédula, encarando-o como se repentinamente ele virasse o Brad Pitt e a pedisse em casamento.

– Por que você está tão obcecada em se tornar uma garota reptiliana? — Perguntou, completamente avulso, olhando-a bem nos fundos de seus olhos, tentando ler sua alma.

Luana franziu o cenho, um ponto de interrogação brotando sobre sua cabeça. Apertou as mangas da camiseta de Manu, sentindo que a qualquer momento aquela bancada iria desabar por conta de seu peso.

– Você sabe, esquelética, pálida e estranha – explicou ao ver sua cara.

– Eu não quero me tornar uma garota reptiliana, Manu, de onde você tira essas coisas?

– Claro que quer, porra. — Colocou a colher de volta na panela, prensando-se mais contra o corpo miúdo de Luana. — Me diz sinceramente: algum babaca disse alguma coisa pra você?

– O quê? — Riu frouxamente, as cócegas na base do estômago voltando ao vê-lo tão próximo de si. — Claro que não!

– Então foi algum ignorante na televisão? Porque, se for, pode me falar que eu faço questão de ir ao continente, direto na emissora para espancá-lo por abduzir a sanidade da minha melhor amiga! — Só faltou gritar para conseguir enfiar de vez dentro de sua cabeça, mesmo que o termo ‘melhor amiga’ soasse irritante aos seus tímpanos.

Luana até se afastou ligeiramente, assustada com a entonação que Manu usava, como se estivesse intimidando-a de alguma forma. Permaneceu estática, os olhos levemente saltados, completamente surpresa.

– Então, sério… — Ele continuou, suspirando, como se não aguentasse mais aquilo. — Por favor, só… Recupere sua sanidade de uma vez. Volte a acreditar que você é cem vezes mais bonita que todas essas lagartixas pálidas juntas, e que você não precisa, definitivamente, de uma dieta.

Luana, no lugar de ter qualquer tipo de reação coerente, começou a gargalhar. Tampou a boca, jogando o corpo para trás, sua risada escandalosa inundando o apartamento e talvez o prédio inteiro. Suas costas estavam totalmente apoiadas nos azulejos gélidos, tremulando perante as risadas abafadas por sua mão. Se tinha uma pessoa que não estava entendendo absolutamente nada, era Manu.

Ficou encarando-a enquanto ela se esbaldava de tanto rir, os olhos lacrimejando, sem forças.

– Você está mesmo rindo de mim? — Perguntou, incrédulo e com o seu orgulho chorando, ferido, num canto da cozinha.

– N-não, é que… — Tentou inutilmente, a barriga dolorida. — É-é que você disse de uma forma… M-muito… Engraçada…

– Então você está rindo de mim — confirmou como se a acusasse de matar o presidente. Manu mergulhou seu dedo indicador e médio dentro da massa do brigadeiro, não perdendo seu tempo ao sujar a cara de Luana com a maior cara de satisfação do universo, rindo quando ela começou a gritar, passando de ‘morrendo de rir’ para ‘quero te matar’. — O brigadeiro tá gostoso? — Gracejou, desviando dos punhos da garota, que tentavam acertá-lo com certo ódio.

Era muito engraçado de se ver, como se Luana fosse uma garotinha da primeira série tentando acertar um cara do terceiro ano do ensino médio. Os dois continuaram naquela briguinha tosca por mais algum tempo, acabando sujos e lambuzados de chocolate. Em algum momento, Luana conseguiu acertá-lo na virilha com um chute, fazendo Manu gritar de dor e se curvar. E, aproveitando a brecha, a garota espalmou seu rosto, todos os dedos melecados de brigadeiro, sujando-o inteiro.

– Realmente, tá muito bom — ela riu, os olhos bem pressionados, divertindo-se às custas do sofrimento de Manu, que apenas deu um sorriso enorme, dado por vencido.

– Você bem que podia ter evitado essa parte. — Grunhiu ele, a cabeça escondida no antebraço, completamente curvado sobre a pia, acariciando sua região mais afetada.

Eles poderiam ter evitado muita coisa.

Notas finais
Eu amo tanto LuanaxManu que dói, gente. Sério, dói. HAHAHAHAH Eles são completamente perfeitos juntos, pena que não conseguem ficar juntos... E, não, não é apenas por conta da friendzone, tem mais merda pela frente MUAHAHAHA /risada maligna Espero que vocês já tenham começado a gostar do Manu, ele é mesmo muitos bruscos, mas, por dentro, é uma pessoa maravilhosa, só esperem HAHJAKSJAS Também desejo que o Leo não tenha causado tanta dor em vocês :( IJAIJAJAJOAJO Até o próximo capítulo!