De Antoine A Manson
1 Capítulo 1
Ele esperou pelo fim da tarde para se aproximar da vila. Já tinha perdido a noção de quanto tempo tinha se passado desde o acidente e sua chegada à ilha. Tinha sido uma boa ideia aquela, ele achava, dar de presente à garota que gostava passagens para uma semana de férias em um país do outro lado do oceano. Ele não contava com sua surpresa, não esperava as lágrimas e nem que ela escolhesse outra pessoa para acompanhá-la.
-Ele vai ficar tão surpreso! – Ele pensou se ela imaginava o quão surpreso ele estava.
-Você não devia! — E ele concordou.
-Nunca vou poder te agradecer o bastante! – Ela poderia tê-lo chamado para acompanha-la na viagem, seria o suficiente. Esse era o plano.
Mas o plano nunca corria como concebido, sempre aparecia um obstáculo, uma vírgula ou uma pedra e dessa vez a pedra tinha nome e amigos em comum com ela, apareceu do nada, como se com o único intuito de tirar as coisas dos trilhos em que estavam. Não conseguia se lembrar do nome dele, mas sentia náuseas ao tentar lembrar, por isso evitava.
Lembrava-se de quando a conheceu em uma livraria, ela estava sentada no chão ao lado da estante de literatura internacional, tinha um exemplar de O Pequeno Príncipe no colo e uma pilha com outras obras de Antoine de Saint-Exupéry à sua frente, parecia tentar decidir qual deles levar, parecia indecisa. Ele tinha ido comprar algo pra ler, algo leve, com o qual não se identificasse. Jack London e os Beatniks em geral eram muito realistas e achava mesmo isso, diferente da maioria das pessoas que os viam como pessimistas e ficcionistas. Queria algo novo.
Ela tinha ido tentar se apaixonar de novo como aconteceu com O Pequeno Príncipe, mas não tinha referência alguma para seguir e se sentia perdida ao tentar decidir. Ele conhecia bem Antoine, era um de seus heróis. Foi atrás de algo para ler, passou pelos romances nacionais e estrangeiros, literatura e ficção, mas nada o interessou, faltava algo. Resolveu ir comer e pensar melhor, não havia nenhum funcionário da loja livre para pedir ajuda e não queria incomodar, era época de natal e as pessoas estavam comprando coisas para provar o quanto gostam umas das outras.
Foi em direção à porta, pensando em como essa época natalina era odiosa, passou pela estante de lançamentos e a viu. A garota ainda estava no mesmo lugar com O Pequeno Príncipe na mão e um olhar afoito, tentando encontrar algum vendedor a quem pedir ajuda.
-É melhor você ir direto ao caixa, tem gente demais na loja, os livreiros estão meio ocupados. – Disse ele, sem saber por que.
Ela olhou pra ele, tinha grandes olhos castanhos e expressivos, tinham um olhar curioso e cheio de urgência.
-Não… Eu não vou comprar esse, só preciso de ajuda. – Falava baixo e gaguejava um pouco, certamente pelo susto.
-Ajuda? – perguntou
-Sim, eu quero algum livro desse autor, que seja tão bom quanto O Pequeno Príncipe, mas não conheço as obras e não consigo me decidir.
Não era raro isso acontecer, pessoas liam livros e procuravam outras obras do autor, tentando encontrar uma sequência ou reencontrar uma personagem da qual gostaram.
-Sinceramente, não tem nenhum parecido, mas todos são muito bons.
Ele se aproximou e foi contando a história do autor, contou que ele era um aviador e das paixões que tinha, contou que ele via a felicidade real nas crianças e a natureza humana na guerra e vivia isso, contou como ele desapareceu durante uma missão de reconhecimento durante a Segunda Guerra Mundial e como cada uma dessas coisas se encaixava em alguma obra do autor. Depois do que pareceu uma tarde inteira de conversa, ela se decidiu por levar “O Aviador” e “Terra dos Homens”. Despediram-se, trocaram telefones e ela lhe recomendou “A menina que roubava livros”.
Isso fazia pouco mais de um ano agora. Tinham se encontrado diversas vezes, conversado muito, conhecido as cidades ao redor de onde moravam. Ele não a achava bonita. Não até conhecê-la um pouco mais. Toda citação que fazia a deixava mais bonita, sempre que dizia sua opinião sobre algo, ficava mais atraente. As coisas que pensava e a vida que levou faziam dela a mulher mais bonita que tinha conhecido. E os olhos grandes e castanhos o hipnotizavam, não conseguia parar de olhar pra eles se estreitando quando ela sorria e completando as palavras como se eles estivessem falando ao invés da sua boca.
O presente foi dado. Duas passagens, ida e volta com estadia em um hotel e um tour. Ela sempre dizia que gostaria de conhecer aquela cidade, ele nem tanto, preferia as pirâmides, castelos, ruínas ou qualquer outra coisa que não o fizesse cruzar milhões de toneladas de água. Não gostava dela, não era segura, ele quase se afogou quando era criança.
Ele ficou decepcionado quando ela disse que preferia levar outra pessoa, não conseguiu disfarçar e ela notou. Insistiu rm leva-lo, disse ter mudado de ideia, mas já não era a mesma coisa, as prioridades dela eram outras.
-Você pode vir também, se quiser. – disse ela, com os olhos marejados.
“Também”. Ele se sentia um peso sempre que isso acontecia, como se estivessem o convidando por estar ali, por ter descoberto, por não haver outro jeito. E essa era a viagem deles dois, como ele poderia ir “também”?
-Eu pago a sua passagem, vamos os três, vai ser ótimo, você precisa conhecê-lo.
Depois de muitas desculpas da parte dele tentando convencê-la de que não poderia ir, cedeu. Não conseguia ver aqueles olhos grandes tristes como estavam, resolveu ir. Foram os três. Era um voo com cerca de 20 horas. Ele se encontrou com ela e a “pedra”, estava incomodado, se sentia deslocado e contrariado, ela não parecia perceber o que acontecia ou não ligar, o amigo dela era só sorrisos. Evitou falar com ela, estava ocupada, evitou pensar o que estava fazendo ali, evitou pensar, só queria estar de volta à sua casa, não queria imaginar o que estava acontecendo entre eles e por que as coisas chegaram àquele ponto.
Durante a noite dormiu mal, uma criança chorava baixo em algum lugar do avião, ouvia-se sons de gente dormindo e se revirando nas cadeiras. Resolveu ir ao banheiro e, ao passar pelo corredor, a viu embrulhada em um cobertor usando o ombro dele como travesseiro. Sentiu enjoo. Voltou do banheiro, onde ficou mais tempo tentando fazer a náusea passar do que de fato fazer o que tinha ido fazer.
Resolveu voltar, mas sem olhar. Iria tentar dormir, iria tentar esquecer e pegar o primeiro avião de volta. Foi fechando os olhos, exausto, contrariado. A ideia de voltar o agradava, pensava em mentir, em dizer que ligaram do trabalho e ele precisava voltar com urgência, se os dois queriam ter uma lua-de-mel às suas custas, ele ao menos não estaria lá para ver. O pensamento de ir embora o acalmava, foi fechando os olhos, tudo ficando mais silencioso, podia ouvir o silencio, podia sentir o silêncio, fechou os olhos, relaxou os ombros e pensou em como seria bom voltar para casa e poder ficar sozinho de novo.
Ouviu uma explosão, mas ouviu depois de sentir, antes mesmo de acontecer, no meio do silêncio ele sabia que ia acontecer. Despertou, abriu os olhos e virou a cabeça para a direita a tempo de ver um clarão vindo do lado de fora seguido por um estrondo e o avião perdendo altitude. A fuselagem a algumas poltronas da dele agora estava aberta, tinha um buraco do tamanho de uma bola de basquete, o suficiente para despressurizar o interior da cabine. Podia ver um dos passageiros pendendo para o lado do buraco, certamente seria sugado.
Demorou alguns segundos até que os gritos começassem, como se cada passageiro, assim como ele, estivesse pensando que aquilo era um sonho. Preferia ouvir a explosão novamente. Existem poucas coisas tão perturbadoras quanto os gritos desesperados de dezenas de pessoas. As máscaras de oxigênio caíram do teto, a dele bateu em seu rosto, conseguiu segura-la e estava a vestindo quando lembrou, virou-se para a esquerda e estendeu a mão para a garota, ela estava acordada, pálida, a boca meio aberta e os olhos castanhos arregalados e vidrados no buraco e fumaça na fuselagem. Ficou um tempo com a mão estendida, mas as delas já estavam ocupadas com as do seu amigo.
Não estava com medo, não estava em paz. Só queria que aquela pedra que tomou seu lugar afundasse e, ao pensar isso, lembrou-se do oceano abaixo deles. Entrou em desespero. Podia ouvir um barulho agudo, mais parecido com um assovio, cada vez mais alto, a cabine começou a se encher de fumaça, algumas pessoas conseguiram vestir as máscaras e estavam com a cabeça entre as pernas. Olhou para trás e viu um casal jovem, o pai chorava sem parar e a mãe calmamente colocava a máscara na pequena filha do casal, que parecia ainda estar dormindo.
A máscara não vai ajudar ela, vamos todos morrer aqui – ele pensou. O assovio ficava cada vez mais alto, agora parecia uma sirene e o som ia ficando cada vez mais grave, lembrou-se do som de uma garrafa se enchendo de água. Água, sempre água. Seu coração batia cada vez mais forte, podia senti-lo nas pontas dos dedos, nos olhos, nos fios de cabelo. Desejou estar em casa e se curvou. Ouviu um estrondo e tudo ficou escuro.
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